Nunca fomos tão jovens

Volta às telas A Primeira Noite de um Homem,
filme que quebrou tabus em Hollywood

Rubens Ewald Filho

Dustin Hoffman, em início
de carreira: no papel de um
jovem que vive um romance
com uma mulher mais velha
Foto: Divulgação  

Drogas, rock'n'roll, política e sexo, muito sexo. Hollywood não conseguiu permanecer imune aos combustíveis que alimentavam a efervescência da juventude dos anos 60. Entre os filmes que marcaram essa época, ao retratar sem meios-tons a angústia de uma geração, está A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, Estados Unidos, 1967), de volta às telas nesta semana em cópia restaurada. Essa foi a primeira fita a mostrar as vicissitudes de um jovem segundo seu próprio ponto de vista, e não de acordo com o dos mais velhos. Embora desde os anos 50 cineastas como Otto Preminger já tivessem começado a quebrar tabus, falando de virgindade (Ingênua até Certo Ponto, 1953), uso de drogas (O Homem do Braço de Ouro, 1955) e homossexualidade (Tempestade sobre Washington, 1962), a Hollywood do fim dos anos 60 era ainda dominada pelo velho Código de Autocensura, que proibia praticamente tudo que pudesse ser polêmico. Em geral, os filmes produzidos nos Estados Unidos continuavam a ser tão "família" quanto o campeão de bilheteria absoluto da época, A Noviça Rebelde. A Primeira Noite de um Homem fez parte da onda avassaladora que derrubou de vez esse código e aboliu o fantasma da censura governamental nos Estados Unidos. Ao menos nas salas de cinema, os jovens tomaram o poder, e não só nos Estados Unidos (veja quadro).

Enorme sucesso de público, indicado para oito Oscar (Mike Nichols levou o de melhor diretor), foi o filme cult de uma geração que acreditava ser a última e que, por isso mesmo, teria de ser a melhor. O tempo mostrou que não era bem assim. Curiosamente, a fita nunca teve uma continuação, como é praxe em grandes sucessos. Talvez porque a parte 2 teria inevitavelmente um tom melancólico, com o herói transformado num executivo frustrado, conservador e malcasado, como aconteceu com a maior parte dos integrantes da geração que personificou. O filme mostra um recém-formado, Ben (Dustin Hoffman), seduzido por uma mulher mais velha, Mrs. Robinson (a magnífica Anne Bancroft), e depois pela filha dela, Elaine (Katharine Ross, que nunca fez a carreira que sua atuação ali prenunciava). Ironia: a diferença de idade entre os atores principais era bem menor na vida real do que nas telas — apenas seis anos, 30 de Dustin contra 36 de Anne. No intervalo de suas contestações tão cheias de certezas, os combativos jovens da época se identificaram com um personagem apático. Ben vive num vácuo, observando um mundo que não entende. Mais que mera comédia de costumes, o filme é uma sátira aos hábitos e valores da classe média americana: o sexo automatizado, o bem-estar econômico como valor absoluto, e por aí vai. Diante de um mundo apenas na aparência bem-acabado, Ben só sabe o que não deseja tornar-se.

Pigarro e bocejo — A fita resistiu bem ao tempo, graças à direção inventiva de Nichols, então em seu segundo filme e muito distante da mediocridade atual de Segredos do Poder. Ele "rouba" descaradamente outros cineastas ("homenageia" Fellini, Varda, Antonioni), aproveita brilhantemente as canções de Simon e Garfunkel (na época, era fato raro usar músicas do gênero folk-rock numa trilha) e se atreve a escalar um ator de origem judia para um papel tipicamente americano. Veterano ator da Broadway, que havia atuado em dois filmes sem importância, Dustin já revelaria nas filmagens a exigência e a impertinência — além, é claro, do talento — que o tornariam um dos nomes mais famosos de sua geração, vencedor de dois Oscar (Kramer versus Kramer, 1979, e Rain Man, 1988). Por A Primeira Noite de um Homem, ele recebeu sua primeira indicação. Com pequenos detalhes saborosos — um pigarro antes de beijar, um bocejo quando pede a moça em casamento —, já prenuncia o futuro grande ator. Não é páreo, no entanto, para a predatória Mrs. Robinson de Anne Bancroft, que faz um papel originalmente planejado para Doris Day. A seqüência da sedução, a canção com seu nome, a cena em que solta a fumaça do cigarro depois do beijo são momentos antológicos do cinema. Não é à toa que o filme cai na segunda parte, quando ela aparece menos. Com um final que não chega a ser realmente feliz, A Primeira Noite de um Homem resume à perfeição o que diz a letra daquela música de Belchior: que por mais que vivamos e façamos continuamos a ser como nossos pais.

Os anos que mostraram tudo

Na década de 60, mudaram os padrões do cinema americano e europeu

Sem Destino (1969), com Peter Fonda e Dennis Hopper: além de radiografar a geração "pé na estrada", exibe, pela primeira vez, uma cena de consumo de drogas

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Foto: Viceo Arte/MGM  

A Bela da Tarde (1967), com Catherine Deneuve: escândalo ao mostrar uma dona de casa prostituta

Todas as Mulheres do
Mundo
, com Leila Diniz
(1966): versão brasileira
da revolução sexual
  Foto: Carlos Penafiel

http://www2.uol.com.br/veja/170698/p_150.html

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