Anna Karenina mostra como
é difícil filmar um
bom romance russo no estilo de Hollywood
João Gabriel de Lima
Romance russo e cinema americano são dois universos inconciliáveis. Nas narrativas de Tolstoi e Dostoievski os personagens são apresentados lentamente, seus tipos físicos, esmiuçados em longas descrições, e depois se investigam, pouco a pouco, seus sonhos e angústias. É nessa dilatação do tempo que residem a força e a originalidade da literatura russa. O cinema atual é o império da ação e da velocidade. Ficam bem, na tela, os livros de John Grisham e Michael Crichton, em que não se gastam páginas com descrições ou investigações psicológicas. Anna Karenina (Leo Tolstoy's Anna Karenina, Estados Unidos, 1997), baseado na obra-prima de Leon Tolstoi, que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional, é mais um exemplo dessa incompatibilidade. Trata-se de uma superprodução, toda filmada in loco, nas cidades de Moscou e São Petersburgo, com fotografia exuberante e uma trilha sonora regida pelo grande maestro Georg Solti. Com tudo isso, o filme é um fiasco. O tempo do livro não cabe no tempo de Hollywood.
A personagem central da obra de Tolstoi é
uma mulher russa do século passado, que é bem casada com um magistrado, tem um
filho adorável e se apaixona por um jovem militar, o conde Vronski. Esse
sentimento causa repulsa nela própria, e Anna passa 150 páginas atormentada,
pensando se deve levar ou não sua obsessão adiante. Quando finalmente se
entrega a Vronski, ambos sentem mais horror do que saciedade. Num trecho
magistral, Tolstoi surpreende o militar diante da amada após o sexo, e o
compara a um assassino diante do corpo da vítima
Vronski se sentia culpado por ter propiciado à mulher a desonra e a desgraça.
No filme, essas 150 páginas são reduzidas a menos de dez minutos. Anna
(interpretada pela belíssima atriz francesa Sophie Marceau, sempre com os seios
querendo saltar do decote) dança com Vronski (o canastrão inglês Sean Bean,
escolhido porque sabia montar a cavalo) numa festa. Segundos mais tarde, já estão
na cama, ardentes e descontraídos, sem culpa nem medo.
A vida mudou - Adaptar
romance russo nunca foi fácil
mas os problemas parecem aumentar com o passar do tempo. Até o grande David
Lean, de Lawrence da Arábia, derrapou em seu Doutor Jivago, de
1965. O livro de Boris Pasternak mostra a desilusão de um médico com o regime
comunista. No filme, realça-se o drama amoroso do personagem, que, como bem
observou a crítica americana Pauline Kael, parece não ter nenhuma relação
com a magistral reconstituição da Revolução Russa que lhe serve de pano de
fundo. Lean fez um filme romântico na época em que isso era moda. Já o
diretor Bernard Rose, de Anna Karenina, é da era em que a ação é o
essencial e os personagens, um detalhe. No original, a trama era um recurso para
o autor falar da angústia, da dúvida, da incerteza. Na versão de Hollywood, não
existe angústia nem dúvida, mas uma seqüência frenética de ações. É uma
desgraça atrás de outra, tendo como pano de fundo os temas mais melosos de
Tchaikovsky
Sinfonia Patética para os momentos felizes, Lago dos Cisnes para
os tristes. Anna Karenina é uma obra que completou 120 anos, e a vida mudou
demais nessa época. Mas basta ler Tosltoi para lembrar como ele continua não
apenas atual mas grandioso e insubstituível, como suas frases são precisas,
como é impossível não sentir emoção diante de seu esforço para entender
uma realidade estranha, que surpreende e machuca. Pena que o cinema tenha
dificuldades cada vez maiores de entrar nesse mundo.
http://www2.uol.com.br/veja/030997/p_124.html