No filme Amistad, o diretor Steven Spielberg
faz um drama maniqueísta
Depois de expor toda a brutalidade nazista contra os judeus em A Lista de
Schindler, o diretor americano Steven Spielberg resolveu colocar seu dedo em
outra ferida racial: a discriminação da maioria branca contra a minoria negra
nos Estados Unidos. Em Amistad, que estréia nesta semana
em circuito nacional, ele recorre a um fato histórico ocorrido no século
passado ![]()
uma rebelião em um navio negreiro espanhol que transportava escravos da África
para Cuba ![]()
para surfar na onda do politicamente correto. À deriva depois do motim, o barco
acaba na costa dos Estados Unidos. Lá, os negros são aprisionados e a Justiça
vai decidir se devem ser libertados ou devolvidos como escravos à coroa
espanhola.
Amistad custou 40 milhões de dólares, orçamento médio para um
filme americano feito por diretor famoso e com produção esmerada. Sua
bilheteria empacou nos 35 milhões, cifra baixa para um Steven Spielberg,
acostumado a passar dos 100 milhões de dólares. Essa rejeição relativa do público
talvez possa ser explicada pelo maniqueísmo da fita. Em Amistad, negros
e abolicionistas são bonzinhos, enquanto o restante dos brancos é pura
vilania. Entre os brancos-malvados pontifica o então presidente americano
Martin van Buren (Nigel Hawthorne), um sulista demagogo que tem olhos apenas
para as eleições. O papel de político heróico cabe ao ex-presidente
americano John Quincy Adams (Anthony Hopkins), um frio abolicionista na vida
real que vira, na tela, um ativista inflamado na defesa dos direitos humanos.
Ele é o coadjuvante da história. O principal personagem é o negro Cinque, o líder
da rebelião dos escravos, interpretado pelo ex-modelo Djimon Hounsou, um herói
de ébano ferido pela crueldade branca. Nascido no Benin, país da costa oeste
africana, Hounsou ![]()
que hoje desfila para a alta-costura francesa, mas que no passado foi mendigo em
Paris ![]()
teve de aprender um dialeto africano para fazer o papel. Nem o elenco afinado,
que além de Hopkins e Hounsou conta também com o ótimo Morgan Freeman, foi
suficiente para fazer de Amistad um drama empolgante. Ao contrário do
que acontece em A Lista de Schindler, em que a força do filme reside na
eloqüência das imagens, em Amistad a história logo descamba para um
surrado dramalhão de tribunal, com argumentações cheias de retórica vazia.
Pode ser uma tortura para alguns espectadores, sejam eles negros ou brancos.
Tropeços ![]()
Quando transporta um fato real para a tela do cinema, o diretor, ao contrário
do historiador, tem o direito de tomar suas liberdades factuais. Acontece que,
desta vez, Spielberg exagerou na dose, cometendo belos tropeços, conforme notou
o ensaísta Simon Schama em artigo para a revista The New Yorker. O mais
sério deles foi ter adulterado o discurso do presidente Quincy Adams na Suprema
Corte americana para defender a liberdade dos negros. No filme, um já decrépito
Quincy apela ao senso moral dos juízes em nome do direito dos negros à
liberdade. Na vida real, Quincy nunca questionou a ilegitimidade da escravatura,
e sim a ilegalidade do tráfico, o que, por volta de 1840, era crime nos Estados
Unidos. Spielberg se permitiu outra licença impensável no século XIX, ao
fazer com que o escravo Cinque e o presidente Adams virassem amigos. Na verdade,
eles nem mesmo chegaram a se conhecer pessoalmente. Em Amistad, o diretor
fez um filme de tribunal e talvez, por causa dele, acabe tendo de ir a um.
Enfrenta uma acusação de plágio, movida pela escritora Barbara Chase-Riboud,
que o acusa de ter copiado, na fita, seu romance histórico Echo of Lions.
A briga deve ser decidida na Justiça ainda neste ano.
Angela Pimenta
http://www2.uol.com.br/veja/180298/p_093.html