Sapore d'Italia

Com bons atores e roteiro nem tanto,
o filme culinário A Grande Noite surpreende

Marcelo Camacho

A Grande Noite: cenas de dar água na boca e comparações imerecidas com A Festa de Babette
Foto: Divulgação  

A Grande Noite(Big Night, EUA, 1996), que estréia nesta semana em São Paulo, é um filme proibido para quem está fazendo dieta. Rodado num esquema independente -- ou seja, sem ter por trás nenhum grande estúdio capaz de bancar uma superprodução --, ele se apóia num orçamento barato ee aposta num filão que tem alcançado ótimos resultados nos últimos anos: o do filme culinário. A experiência deu certo em A Festa de Babette, Oscar de melhor filme estrangeiro de 1988, e em Comer, Beber, Viver, de Ang Lee. Em A Grande Noite o resultado não chega a ser uma obra-prima, mas há na fita alguns acepipes de dar água na boca de qualquer espectador.

A história se passa na Nova Jersey dos anos 50 e focaliza dois irmãos italianos que sonham em fazer a América tendo em mãos um incrível talento para forno e fogão. Só que as coisas não dão certo. Os clientes de seu modesto restaurante não estão interessados em comer risotos, apenas espaguete com almôndegas. Não querem uma obra de arte no prato, mas alguma coisa que lhes mate a fome. Até que surge a idéia de promover uma grande noite em homenagem a Louis Prima, um músico de sucesso da época. Depois dela, imaginam seus donos, o restaurante ganhará fama e dinheiro. Esse fiapo de roteiro é a espinha dorsal que serve de desculpa para os dois protagonistas se esmerarem em pratos de encher os olhos e fazer seus comensais se revezarem em sonoros "uhs, ahs, ohs".


Foto: Divulgação
Isabella Rossellini: chamariz

Omelete -- Nos Estados Unidos, A Grande Noite foi um sucesso de crítica. A revista Time chegou a dizer que o filme fazia A Festa de Babette se parecer com Pizza Hut. Um exagero, já que não dispõe de metade da magia e encantamento do filme do dinamarquês Gabriel Axel. Mas tal deslumbramento tem uma explicação. É que A Grande Noite conta com um bom time de atores que são sucesso tanto na TV quanto no teatro americanos. São nomes ainda desconhecidos no Brasil, como Stanley Tucci (o protagonista Secondo, também co-roteirista e co-diretor do filme), Tony Shalhoub (o cozinheiro Primo) e Allison Janney (a doce florista Ann), todos com vasto currículo nos palcos nova-iorquinos e participação em séries de TV. Eles realmente trabalham muito bem e seu desempenho dramático é o responsável pela boa surpresa que é este filme. Mas, aqui, não servirão de chamariz de bilheteria. No Brasil, só mesmo a linda Isabella Rossellini poderá despertar algum interesse prévio nas platéias.

O que falta para fazer de A Grande Noite um grande filme é, curiosamente, a falta de tempero. Algumas doses a mais de humor, drama e afeto fariam bem. Sem um grande roteiro nas mãos, resta aos diretores (além de Tucci, há ainda Campbell Scott, que também participa do filme como ator) caprichar no visual. As cenas que se passam na cozinha do restaurante Paradise são de dar fome. Para a tal grande noite do título, Primo prepara, entre tantos outros pratos, um que se chama tímpano. É uma especialidade calabresa, que consiste em rechear uma massa fina (com casca dura, porém) com diversos ingredientes, como almôndegas, queijo, tomates e até mesmo penne.

Para dar uma consultoria informal na preparação dos pratos do filme, o diretor Stanley Tucci, de origem italiana, convidou sua própria mãe. Tucci e Tony Shalhoub também foram trabalhar num restaurante de verdade para compor os cozinheiros da trama. Seus desempenhos são bastante convincentes. Tucci, na cena final do filme, chega a fazer uma omelete em tempo real, sem que haja cortes de câmara. É o prato menos complicado preparado no filme. É também a melhor cena. Com uma refeição simples, feita com três ovos, sal e óleo, os dois irmãos resolvem uma questão grave entre eles. Para isso, só precisam de um prato de comida. No melhor estilo italiano.

http://www2.uol.com.br/veja/130897/p_120.html

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