Bond dos bons

Com efeitos de primeira e muita ação,
o último 007 é diversão garantida

Angela Pimenta

Se trafegasse pela vida real, James Bond teria 75 anos e, com certeza, além de trazer no peito uma condecoração da rainha da Inglaterra, estaria engordando a aposentadoria com os dividendos de um livro de memórias. Acontece que, nas telas, com todo o seu cinismo e glamour, Bond acaba de completar a maioridade, sempre pronto para servir a Sua Majestade e com apetite redobrado de lucros. Encarnado pelo ator irlandês Pierce Brosnan, este 007 O Amanhã Nunca Morre (007 Tomorrow Never Dies, Estados Unidos/ Inglaterra, 1997), em cartaz em circuito nacional, é o 19º filme da mais longa série baseada em um único personagem em toda a história do cinema. É também o mais lucrativo 007: em um mês de exibição na Europa e nos Estados Unidos o filme, que custou 110 milhões de dólares, já faturou mais de 300 milhões. Este Bond vale o ingresso, revivendo os tempos áureos da série nos anos 60 e 70, quando o espião que adora mulheres e dry-martinis foi protagonizado por Sean Connery e Roger Moore. Mesmo sem contar com o talento sanguíneo de Connery ou o charme fleumático de Moore, o ator irlandês Pierce Brosnan dá conta do recado, com bom humor e disposição. Com suas escaramuças militares, efeitos especiais de arrasar quarteirão e uma boa dose de inverossimilhança, indispensável num legítimo 007, O Amanhã Nunca Morre é diversão na certa.

Nestes tempos de pouca ideologia e muita globalização, Bond não enfrenta nenhum aiatolá ou capo da máfia russa. O vilão agora é Elliot Carver, um magnata psicótico do mundo das comunicações vivido com brilho por Jonathan Pryce. Pryce, que há dois anos protagonizou um decrépito Juan Perón, tendo Madonna como Evita, agora ganhou um vilão dos bons. Dono de um império de jornais e redes de TV e satélites capitaneados pelo diário Tomorrow, com tiragem de 100 milhões de exemplares, Elliot Carver funde a angústia grandiloqüente de um Cidadão Kane com a geopolítica de um Saddam Hussein. De acordo com o manual de redação de Carver, quando os fatos são muito chochos para ser publicados, chegou a hora de dar um empurrãozinho na História. Por que não provocar, por exemplo, uma guerra entre a Inglaterra, a pátria de Bond, e a China, a potência do terceiro milênio? É aí que a história começa a esquentar. Pois eis que Bond, refestelado nos braços de uma loura curvilínea, é chamado para defender a paz mundial. Como se sabe, ele, com eternos 45 anos, é um exímio atirador, tem licença para matar, adora equipamentos tecnológicos esdrúxulos, não usa disfarces e, geralmente, mata as espiãs inimigas com quem se deita da Guerra Fria à perestroika.

Massa cinzenta Bem, como os tempos são outros, desta vez resolveu-se promover o sexo feminino. Bond bate de frente com uma heroína que, além de um corpinho irresistível, tem massa cinzenta. Ela é Wai Lin, uma espiã chinesa. Há também uma velha namorada de Bond, vivida por Teri Hatcher, a Lois Lane da série de TV As Aventuras de Superman. Mas Lois Lane é secundária para Bond, enquanto Wai Lin está à altura do herói. Tanto em bravura quanto em condicionamento físico, a moça, vivida pela ex-miss Malásia Michelle Yeoh, não deve nada a 007. Aliás, durante as filmagens, que se revezaram da Tailândia à Flórida, dos Pirineus a Londres, Michelle, ao contrário de Brosnan, dispensou o auxílio dos dublês. Dela, Bond ouve o insulto: "Você não passa de um agente corrupto e decadente de uma velha potência ocidental".

Juntos, Brosnan e Michelle protagonizam seqüências de arrepiar, como a perseguição que sofrem em cima de uma moto sobre telhados e cubículos de uma favela vietnamita. Na verdade, as filmagens foram feitas na Tailândia, já que o Vietnã vetou seu território como cenário do filme. Nas seqüências submarinas, que contaram com a assessoria da própria Marinha britânica, a produção do filme afundou um míssil de verdade no maior tanque de água salgada do planeta, no México, o mesmo utilizado para Titanic.

Criado nos anos 50 pelo romancista inglês Ian Fleming, um ex-jornalista e diplomata a quem dedicou catorze romances e seis contos, James Bond é um sucesso também na literatura. Suas aventuras venderam mais de 40 milhões de exemplares. O êxito do personagem, inspirado no soldado e ex-diplomata britânico Fitzroy Maclean, não impediu que ao longo do tempo Bond fosse execrado por várias tribos, de feministas, que o acusavam de sádico machista, a escritores como John Le Carré, que, em função do adesismo imperialista de 007, o chamou de "prostituto". No cinema, Bond já teve cinco caras diferentes. Ao ser convidado para levar sua história às telas, Fleming, antes de se decidir por Sean Connery, imaginava o americano James Stewart para viver o espião.

Teve de engolir Connery, sem saber se ia dar certo. Além de Connery, seu primeiro intérprete, e de Roger Moore, o terceiro Bond, que protagonizaram sete filmes cada um, o personagem também pertenceu em 1969 ao australiano George Lazenby. A fita, 007 a Serviço de Sua Majestade, foi um fiasco de público e crítica. Nos anos 80, depois que Moore resolveu pendurar as chuteiras, o papel foi vivido burocraticamente pelo inglês Timothy Dalton. Há três anos, Brosnan estreou na série em 007 contra Goldeneye, enfrentando a máfia russa. Mesmo sem o carisma dos velhos tempos, o filme faturou 350 milhões de dólares.

Gás lacrimogêneo Como todo 007 que se preze, O Amanhã Nunca Morre exibe uma série de brinquedinhos tecnológicos. Agora Bond, que já teve um carro-submarino e um sapato que virava pistola, está armado com uma super-BMW e um telefone celular. O carrão pode ser dirigido por controle remoto e é blindado, dá choques elétricos e dispara gás lacrimogêneo nos intrusos. Já o celular, além de falar, arromba portas blindadas e cofres de segurança máxima. Amparado por seus acessórios e um enredo ágil, esse Bond de Brosnan parece ter fôlego para a virada do milênio. Seja lá qual for o inimigo de Sua Majestade.

http://www2.uol.com.br/veja/210198/p_092.html

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