CAPITULO 4
Adolescente, eu ensinava italiano de forma particular e tinha um ou dois alunos em cujas casas eu ia para dar aula.
Aliás, saber falar italiano também serviu para trabalhar como guia turístico para a ONA Turismo.
Um libanês era seu dono -
Oaked Nasri Abuoaked,
cujas iniciais davam o nome da empresa.
Na verdade foi meu primeiro trabalho remunerado em uma empresa. A experiência foi muito interessante,
principalmente porque para contar sobre o Recife precisava conhecê-lo melhor e ninguém conhecia melhor a cidade do que o Oaked. Depois de assistir dois ou três '''sightseeing" com o Oaked, passei a fazer o mesmo com turistas italianos que, na época, vinham conhecer Recife pelo seu porto, em transatlânticos enormes. Saia com eles em um ônibus, no Grande Hotel, e ia até Carpina onde mostrava até usinas produtoras de açúcar. Na época o Recife tinha pouca ou nenhuma estrutura turística e a ONA Turismo fazia verdadeiros milagres para entreter e divertir seus clientes.
Participar de programas de televisão cantando e também dos teatros e telenovelas era algo que ajudava bastante no meu orçamento.
Não era algo que era muito apreciado, no entanto, pela minha namorada da época, uma prima do Luiz Augusto.
Sempre havia alguma moça, que ao encontrar-me na rua, decidia pedir um autógrafo ou mesmo uma foto.
Uma empresa de fotografias havia realizado um trabalho preparando
500
fotos 6 x 9 para que eu distribuísse entre as fãs.
Nada disto era apreciado naturalmente, pela namorada.
Um determinado dia ela resolveu dar um xeque-mate: ou continuar na televisão ou continuar namorando com ela.
A minha escolha foi abandonar a “vida artística” e permanecer como namorado.
Para compensar a ausência do salário correspondente aos trabalhos que eu fazia na televisão, ela solicitou ao seu irmão para que me apresentasse na escola em que ele ensinava inglês, para que eu pudesse ensinar também em italiano.
A escola era uma novidade no Recife.
Era o instituto de idiomas YAZIGI, que além de inglês também tinha turmas de alemão, francês e de italiano.
Com isto passei a ser exclusivamente um professor de idioma.
Isto não impediu no entanto, que o namoro acabasse, deixando-me em uma fossa tremenda.
Era difícil enfrentar a rejeição com 18 anos.
O trabalho naquele instituto, passou a significar muito para mim e rapidamente o diretor presidente da escola, o Alcides Cândido dos Santos, resolveu me convidar para ser
relações públicas
da escola e também diretor interino de uma de suas filiais situada na rua da SOLEDADE.
O diretor pedagógico era um português super educado e culto, que falava várias línguas - o Alcindo Magalhães que hoje mora aqui em Brasília com sua família, e já nos vimos algumas vezes.
Naquela escola ensinava também uma moça que eu já conhecera de outra filial com quem eu simpatizava bastante.
Ela criara uma
aula especial
aos sábados para apresentar aos alunos as letras de músicas de sucesso e eu a auxiliava com o gravador e as fitas.
Todos os sábados à tarde meu trabalho era acompanhar aquelas aulas, e apesar de não ter qualquer obrigação de ir lá, eu o fazia com enorme satisfação.
Meu interesse por ela continuava crescendo embora ela não se desse conta.
Como ela tinha alguns anos mais do que eu, já estava cursando a faculdade de letras e eu ainda era iniciante da faculdade de arquitetura.
Eu tentava colaborar em tudo que podia para fazer-me necessário, naquele curso especial dos sábados à tarde.
Era sucesso nos cinemas naquele momento o filme Dr. Zhivago e ela queria apresentar a música
Tema de Lara
para seus alunos.
Fui com ela até a cabine da loja de discos ROZEMBLIT para ouvir a letra da música, para usar no curso do sábado.
Depois de tirar a letra, com muita dificuldade, alguns dias depois passei naquela loja e comprei aquele disco compacto com a música Tema de Lara e o presenteei para a LIZZIE.
Depois de algum tempo, ela resolveu abandonar o ensino de inglês para dedicar-se exclusivamente à faculdade de letras.
Eu continuei ensinando naquela escola até que um dia ela novamente apareceu para me convidar para ensinar italiano substituindo uma professora na faculdade.
Naquele tempo eu participava do coral universitário e por meio dele passei a trabalhar na Televisão Universitária - Canal 11 que inaugurou suas funções em novembro de 1969.
Meu trabalho na televisão era o de apresentar as aulas de português do curso supletivo, na qualidade de apresentador eventual.
No dia que comprei uma raquete de tênis, para começar a fazer aquele esporte, o Diretor-Geral do Canal 11, Dr. Manoel Caetano de Queiroz, mandou me chamar e ofereceu um emprego regular na TV, ganhando mensalmente 300 cruzeiros, de forma fixa.
Era melhor do que ganhar cachés eventuais.
Foi aí que juntei dinheiro e comprei por mil e quinhentos cruzeiros, meu primeiro carro.
Era importado! da marca
Citroen
.
Na verdade não era velho. Era usado! Hoje diríamos - antigo! Pouco mais novo do que eu - era de 1950.
Com aquelas aulas na televisão e o trabalho na escola de línguas e agora o convite para substituir o professor no curso de letras da FAFIRE e com a continuação do curso na Faculdade de Arquitetura, eu estava bastante ocupado.
Voltar a encontrar a LIZZIE reacendeu meu interesse por ela.
Eu a convidava para várias atividades, como por exemplo bailes na faculdade de arquitetura.
Algumas vezes ela ia e outras não.
Até que um dia a convidei para ir ao cinema assistir a um filme no cine MODERNO, a fita chamada PRESTÍGIO.
Durante a exibição, naquele escurinho, nossas mãos se encontraram para nunca mais se largarem.
Em novembro de 1970, a Organização dos Estados Americanos realizou uma primeira reunião na Televisão Universitária Canal 11, em Recife.
Como eu era o único empregado da televisão que sabia alguma coisa de inglês, o diretor da televisão universitária, Sebastião de Holanda Cavalcante, cunhado do reitor da universidade, resolveu me escalar para ser o tradutor oficial da reunião.
Como eu não era tradutor da televisão resolvi que simplesmente não ia aparecer, já que minha função na televisão universitária era a de apresentador e produtor de programas de televisão.
Um dos oferecimentos que a Organização dos Estados Americanos fazia para a TV universitária era a de que esta pudesse enviar uma pessoa para um curso de televisão, na Universidade do Estado da Flórida, na sua capital, TALLAHASSEE.
Como eu era o único empregado de sabia falar alguma coisa de inglês, a única pessoa que a televisão poderia indicar seria eu.
No entanto o fato de eu não ter comparecido como tradutor da reunião fez com que o diretor Sebastião de Holanda ficasse com muita raiva.
Mandou me chamar ao seu escritório pela primeira vez, e estava realmente possesso.
Ele tinha um tique nervoso, quando estava com raiva forçava o ar pelo nariz o que fazia com que os cabelos do seu bigode ficassem mexendo fortemente.
Disse-me que achava um absurdo eu não ter comparecido à reunião como tradutor, e que isso poderia me prejudicar seriamente, já que o meu nome estava sendo considerado para ser indicado como bolsista para um curso nos EUA .
Naquele tempo, um curso nos EUA era algo realmente muito desejado por qualquer pessoa.
Eu lhe fiz ver que não poderia ter comparecido à reunião para ser tradutor porque ninguém havia me consultado quanto aos meus horários, e eu estava cursando a faculdade de arquitetura e encontrava-me já no quarto ano e que naquele mês estava chegando o período final de prova anual.
Ele sabia que era uma desculpa, mas resolveu aceitá-la porque precisava poder indicar alguém para o curso nos EUA.
A possibilidade de passar um ano nos EUA estudando numa universidade, era algo que não fazia parte dos meus planos.
Tinha acabado de ficar noivo e um afastamento desta ordem era algo complicado de administrar.
Foi minha mãe que sugeriu que eu casasse antes de viajar.
A partir daquele momento várias ações precisavam ser tomadas e, muitas coisas dependiam da burocracia tanto dos órgãos do Brasil como da Organização dos Estados Americanos.
O curso estava previsto para iniciar em março, no final do mês.
Nós resolvemos marcar a data do casamento para meados daquele mês de forma que estaríamos prontos para viajar, na data prevista.
Chegou o carnaval, chegou março e nada de haver uma comunicação oficial quanto à aceitação do meu nome para a bolsa de estudo nos EUA.
Desmarcamos o casamento.
A data ficava em suspenso, até alguma nova comunicação.
Em maio, o novo diretor da televisão universitária encontrava-se em Washington participando de uma reunião anual na OEA e de lá telefonou para Recife avisando que meu nome tinha sido finalmente aceito e que o curso deveria começar no início de julho.
Com isso marcamos novamente o casamento para o início do mês de junho. E assim no dia 10 nos
casamos
na igreja de
São Pedro dos Clérigos
em Recife.
Era uma quinta-feira, dia de Corpus Christi, naquela época dia feriado.
A sexta-feira, dia seguinte ao casamento, foi talvez um dos piores dias de nossas vidas.
Estávamos casados, sem ter onde morar, sem eu ter terminado a faculdade, com um emprego cujo salário era muito pequeno, com as perspectivas de viajar havíamos solicitado a todos os amigos que não nos dessem presentes de casamento e que só o fizessem por ocasião da volta da viagem.
Não sabíamos realmente o que fazer no dia seguinte ao casamento.
Passamos a noite de núpcias no Hotel Boa Viagem e logo pela manhã voltamos para a televisão Universitária para receber um cheque de
umas aulas
que eu havia dado para um
curso de produção de televisão.
Fomos então ao Banco do Brasil descontar o cheque e decidir o que fazer.
Decidimos então viajar até
Natal,
no estado do Rio Grande do Norte, para passar alguns dias no Hotel Reis Magos.
Meu carro era um fusca 69 que não estava com pneus muito bons e decidimos buscar o carro do meu sogro, um DODGE DART verde muito mais confortável para viajar.
Logo depois do almoço pegamos a estrada e chegamos a Natal em torno das 18 horas.
Ficamos
lá até
a segunda-feira, quando decidimos voltar para Recife.
Eu estava de férias tanto da universidade como da televisão e sem nada para fazer, apenas esperando que a OEA nos enviasse a passagem de ida para os EUA.
Esta informação só chegou no dia 23 de junho ou seja,13 dias depois do casamento.
Dia 24 era feriado em Recife - dia de São João – e, portanto, impossível de se fazer qualquer coisa, seja na companhia de aviação ou no consulado dos EUA, para pegar o visto.
No dia 25 pela manhã fomos à agência da Pan American para receber minha passagem e meu sogro comprar a passagem de ida para Lizzie.
Com as passagens aéreas pudemos ir até o Consulado dos EUA, e obter o visto de entrada.
O meu visto era de estudante, e o de Lizzie era visto de turista.
Naquele tempo, o consulado concedia visto de turista mesmo se as pessoas só tivessem passagem de ida para os Estados Unidos .
Marcamos a viagem para o sábado seguinte, dia 26 de junho e a viagem previa uma escala no Rio de Janeiro com hospedagem paga pela Pan American no hotel Glória.
Apesar de muito esperada, a viagem chegou até de surpresa e isso permitiu uma despedida no aeroporto de uma forma mais tranqüila.
Todos os familiares foram ao aeroporto para a despedida e a saudade já começava a surgir.
Chegando ao Rio de Janeiro, fomos levados ao hotel Glória e tivemos naturalmente a noite livre.
Aproveitamos a oportunidade para ir conhecer o avô de Lizzie e jantamos com ele e a esposa.
No dia seguinte, bem cedo, fomos ao aeroporto do Galeão tomar o avião, que saindo do Rio ia para São Paulo com escala em Viracopos, aeroporto de Campinas.
Chegando lá estavam meus tios Adelina e Jorge e meus avós que moravam com eles,
Antonio e Maria.
Naquele tempo, nas escalas, você podia descer do avião e estar no aeroporto perambulando pelo tempo da parada.
O agravante era que ao voltar ao avião, toda sua bagagem de mão era revistada pela polícia federal.
Nos despedimos e aproximadamente às 10 horas da manhã partimos em direção a Miami.
Por volta das 4 da tarde, o avião aterrissou na última escala antes do destino final, em Caracas, na Venezuela.
O aeroporto de Caracas era muito moderno para os nossos padrões pernambucanos.
A decoração era toda em cor laranja, e nós brincamos achando que tinha sido feita pelo arquiteto Borsói, meu professor na universidade.
Era a mania da Janete, sua esposa, fazer as decorações em cor laranja bem forte.
Saindo de Caracas, nossa última escala, chegamos ao aeroporto de Miami por volta das 19 horas.
O vôo para Tallahassee devia sair em seguida e na alfândega de Miami havia um empregado da companhia de aviação procurando por nós para acelerar o processo, de forma que embarcássemos no último vôo que estava previsto.
Não foi fácil entender o meu nome pronunciado por aquele funcionário da empresa de aviação.
Finalmente entendemos o que ele queria e o acompanhamos para passar pela alfandega e chegar até o avião que nos levaria ao nosso destino final.
Tomamos finalmente o último avião da empresa SOUTHERN AIRLINES. Aquele avião foi o primeiro contato que a gente teve com os Estados Unidos e o serviço a bordo era realmente uma diferença muito grande com os serviços prestados nos aviões brasileiros.
Nada de lanche ou qualquer comida a bordo, a aeromoça passava com uma bandeja distribuindo apenas um cafezinho em copinhos plásticos.
Nas viagens brasileiras naquele tempo, além de refeições quentes, distribuiam bebidas, licores e até maços com 4 cigarros - Minister. Era chíque fumar!
Chegamos finalmente ao destino em torno das nove e meia da noite, esperando que alguém estivesse no aeroporto, nos acolhendo da mesma forma como nós fazíamos em Recife quando alguém da Organização dos Estados Americanos, mesmo estudante, viesse para participar de algum evento na televisão universitária.
Em vez disso, não encontramos absolutamente ninguém, a televisão havia enviado um telegrama para a OEA (em Washington - santa ingenuidade!) avisando a hora da minha chegada .
Mesmo assim, ninguém estava nos esperando.
O aeroporto da capital da Flórida está localizado no meio de uma floresta de pinheiros afastado da cidade e dava a idéia de encontrar-se no meio do nada.
O que fazer? Para onde ir? De que forma? Os passageiros do avião foram tomando seus carros ou uma caminhonete chamada de Limousine, que nós não sabíamos como funcionava.
À medida que o tempo passava, nos dávamos conta de que aquele avião fora o último a chegar, naquele dia, naquele aeroporto.
Isto significava que o trabalho dos empregados do aeroporto estava se encerrando.
Decidi perguntar alguma informação à recepcionista da empresa de aluguel de automóveis e consegui descobrir que não havia táxis esperando na porta do aeroporto, nem ônibus para nos levar até o centro da cidade.
A estas alturas, Lizzie encontrava-se sentada em cima das malas aguardando a minha decisão.
Mas que decisão poderia eu tomar? Os empregados do aeroporto estavam começando a apagar as luzes dos salões e cada vez mais, nós não sabíamos o que fazer, nem mesmo para onde ir.
Finalmente o empregado da companhia de aviação, que se encontrava atrás do balcão, perguntou se poderia nos ajudar nos levando até o hotel.
Mas qual hotel? A recepcionista da empresa de aluguel de automóveis nos indicou o motel
Quality Inn
, e para nós qualquer indicação era melhor do que nenhuma.
O empregado então nos disse que esperássemos que ele iria fechar as contas e buscar o seu carro.
Assim fez, e em breve apareceu com um carro amarelo, modelo Camaro. Guardamos as malas e entramos no carro.
Pela primeira vez na nossa vida entramos em um carro com ar condicionado.
Absolutamente necessário no mês de junho naquela cidade.
O clima do lado de fora do ar condicionado do aeroporto era quente e úmido. Mesmo às dez horas da noite.
Melhor teria sido, não ter ar-condicionado naquele automóvel, já que o nosso benfeitor havia ficado o dia todo suando bastante e o cheiro de suor que vinha da suas axilas ficava cada vez mais forte quando nas curvas o jato de ar condicionado espalhava aquele odor.
Aquela alma caridosa nos levou até o centro da cidade, passando pelo meio da cidade e em vez de deixar-nos no motel em frente ao campus, voltou um pouco mais pela estrada até nos deixar no motel Quality Inn mais afastado do centro.
O motel à beira da estrada tinha os
quartos
virados todos para o estacionamento e todos no andar térreo.
O recepcionista do hotel preencheu a nossa ficha e nos deu a chave do quarto.
Nenhum ajudante para carregar as malas e nos tocou retirar as malas do carro e levá-las até o quarto.
Agradecemos muito o favor do empregado do aeroporto, nos despedimos e fomos para o quarto.
Pela primeira vez vimos uma televisão a cores, e , apesar de não entender muita coisa, eu fiquei entusiasmado com ela.
Tomar banho foi o primeiro choque com as novidades nos EUA.
Não havia chuveiro propriamente dito, mas na banheira encontrava-se o chuveiro.
Acioná-lo era um procedimento bastante diferente.
Não havia registros próprios para o chuveiro, os registros eram os mesmos utilizados para a banheira.
Como fazer para que o chuveiro funcionasse? Depois de muito procurar encontrei um botão na saída da água da banheira com um texto explicativo - LIFT FOR SHOWER, dizia.
SHOWER eu sabia que era chuveiro, mas o que era LIFT? Eu sabia que era o nome utilizado na Inglaterra para elevador, mas o que fazia o elevador na banheira para alguma coisa do chuveiro? A estas alturas Lizzie estava totalmente bloqueada em termos de língua inglesa e foi de muito pouca ajuda naquele momento.
Com a minha curiosidade, puxei aquele botão e não aconteceu nada.
Só aconteceu quando a água já estava correndo para a banheira e eu decidi puxar de novo aquele botão.
Levei o maior jato d'água na cara mas aprendi que para conseguir tomar banho de chuveiro, dentro de uma banheira, você precisa puxar aquele botão com a água já correndo.
Não pude ficar vendo televisão por muito tempo, apesar da novidade das cores, muito pouco aquilo tinha entusiasmado Lizzie.
Na maçaneta interna da porta estava um cartão com um texto consultando o tipo de café que se queria tomar no dia seguinte.
Fiz as marcas nos quadradinhos próprios e coloquei a ficha pendurada na maçaneta, do lado de fora da porta, indicando a hora em que eu queria tomar o café.
Café no Quarto, que maravilha! No dia seguinte para nossa surpresa, o café que chegou era apenas um café preto num copo de isopor, depositado no chão, ao pé da porta.
Nenhum acompanhamento, e nós que não havíamos nem jantado, àquelas alturas estávamos morrendo de fome .
Decidimos nos vestir e ir até à universidade.
De que forma? O normal seria pegarmos um táxi ou um ônibus, mas naquela cidade no final do mês de junho, no período de férias de verão, não circulavam ônibus e nós não sabíamos que para pegar um táxi este tinha que ser chamado pelo telefone.
Vestimo-nos muito elegantes para aquele primeiro dia.
Lizzie vestia um conjunto azul-marinho de Tropical inglês e eu de terno e gravata, roupas absolutamente não apropriadas tanto naquele período do ano, como para estudantes da universidade.
Saímos andando pela estrada em direção ao centro da cidade onde se encontrava o campus.
Esperávamos encontrar um táxi ou um ônibus pelo caminho, mas nem um nem outro foi avistado .
A fome apertou quando vimos um restaurante ao lado da estrada.
Decidimos parar para comer.
Entramos e o alívio chegou com o ar-condicionado do restaurante.
Escolher o café foi um sacrifício, porque inventei de pedir dois ovos e a garçonete começou a fazer mil e uma perguntas sobre como eu queria os ovos.
Eu não tinha idéia da quantidade de maneiras em que você pode fazer os ovos e a garçonete tinha uma série de perguntas para saber o que colocar em cima da salada, que molho, que azeite, que condimentos, enfim ela perguntava e eu não tinha idéia do que poderia responder.
Finalmente conseguimos indicar pelas fotos o que queríamos comer e conseguimos terminar aquela refeição.
Saímos e novamente fomos a pé pela estrada, notando que não havia ninguém andando a pé junto conosco.
Aliás não havia nem mesmo por onde andar, já que a estrada não tinha uma calçada onde caminhar.
Devagar, sob o sol de quase 11 horas da manhã, no início de verão daquela cidade, chegamos até o campus.
Não havia uma árvore na estrada, da qual pudéssemos aproveitar um pouco de sombra. Chegando perto do restaurante do campus, resolvemos perguntar a uma moça, onde ficava o escritório principal da universidade.
Relutamos muito até perguntar a alguém. A moça que nos atendeu e que parecia ser uma estudante, estava trajada bem diferente de nós.
Vestia um short esfarrapado, um top cobrindo os seios sem sutiã e estava descalça.
Conseguimos entender a sua orientação e a seguimos até um certo ponto, quando ela nos indicou o edifício principal da universidade.
Seguimos suas orientações, e fomos andando a pé até o edifício principal da universidade.
Era um edifício com aspecto antigo, quase um
castelo
, uma escadaria diante dos portões muito altos com um aspecto de Castelo gótico.
Entramos lentamente no hall principal, que tinha um pé-direito duplo, um aspecto lúgubre, escuro, e muito tradicional.
Procuramos alguém que estivesse trabalhando e encontramos algumas secretárias atrás de um balcão de madeira. Perguntei algo sobre o curso da OEA que iria começar naquele dia.
Ela simplesmente não tinha idéia do que eu estava falando.
Fez vários telefonemas e finalmente chegou um rapaz alto, magro, cabeludo que era um assistente da universidade e que iria nos ajudar e falar-nos de um dormitório da universidade.
Levou-nos até o seu carro, que era uma enorme caminhonete suja, velha, cheia de cacarecos e com ele fomos até o motel onde estávamos hospedados, pegamos nossas coisas rapidamente, voltamos ao carro e ele nos levou até o dormitório
OSCEOLA HALL
.
Ficamos em um quarto compartilhando o banheiro com o quarto vizinho.
O banheiro ficava entre dois quartos.
Em cada quarto havia uma porta que dava para este banheiro intermediário e dentro do quarto além das duas camas individuais e um armário também individual, estava instalada uma pia para escovar os dentes, lavar o rosto, independentemente do banheiro.
No banheiro havia apenas a bacia sanitária de um lado e na parede oposta o boxe com chuveiro.
Ao fazer o contrato no escritório do dormitório, tive que fazer um depósito adiantado de uma semana de hospedagem para cada um de nós e mais o pagamento de uma taxa de segurança.
No caso do indivíduo não pagar o aluguel, aquela taxa já cobria quase uma semana de hospedagem.
Até aí estávamos relativamente instalados, se bem que já havíamos gasto quase todo o valor em dólares que eu havia levado para os EUA.
Entre o pagamento do excesso de bagagem no Rio de Janeiro, a hospedagem no motel, o café da manhã naquele restaurante, e agora os pagamentos da hospedagem no dormitório, muito pouco havia sobrado dos US$400 que havíamos levado para os EUA.
Através de telefonemas feitos para Washington - sede da OEA, consegui falar com a assistente do diretor do projeto de tecnologia educacional, a doutora Pillar Santa Maria de Reyes.
Ela atendeu o telefone com frieza principalmente porque não me esperavam chegar tão cedo.
O curso havia sido adiado para o mês de setembro, início das aulas regulares na Universidade da Flórida, e consequentemente não sabiam o que fazer comigo, que tinha chegado lá no final do mês de junho.
Disse-me que aguardasse e que iria se comunicar com a direção da universidade para resolver o problema.
Em seguida chegou um brasileiro que também era estudante assistente na universidade para nos dar algumas orientações e nos auxiliar em termos de nos mudarmos para um apartamento, já que permanecer no dormitório, além de caríssimo, era impraticável para nós.
Permanecemos no OSCEOLA HALL quase uma semana.
O café da manhã, o almoço e a janta também estavam incluídos no preço da hospedagem.
Foi neste período que tomamos contato com a comida americana, bastante diferente de tudo com que estávamos acostumados até então.
Havia um refeitório disponível para os alunos tomarem as refeições, nada de garçons ou garçonetes atendendo nas mesas mas apenas um balcão com bandejas de alumínio.
Você recolhia o que queria e percorria todas as ofertas de alimentos, escolhendo o que preferisse.
Tudo muito limpo, muito brilhante, muito perfeito, muito técnico.
O leite muito gostoso, pela primeira vez vimos que realmente sujava os copos depois de bebido.
Não havia pão francês e esta foi a primeira falta que sentimos.
A principal falta no entanto era a de um café.
O que era oferecido como tal, não passava de uma água escura, amarronzada, e que, além do cheiro, não guardava nenhuma semelhança com o café a que estávamos acostumados a beber no Brasil.
O brasileiro que veio nos atender nos fez a gentileza de mostrar alguns apartamentos para alugar e o que estava mais em conta e mais próximo da universidade foi o que alugamos na avenida College, que se encontrava na mesma rua da entrada da universidade.
O apartamento era mobiliado e muito pequeno.
Uma sala, um quarto, um banheiro e uma cozinha.
Na sala se encontrava um sofá de três lugares e uma poltrona, uma mesinha de escritório com uma cadeira, uma mesa extensível para 4 lugares com mais duas cadeiras, ou seja no apartamento havia apenas três cadeiras.
No quarto, duas camas e uma cômoda.
A cozinha era um corredor, onde, do lado direito estava a pia da cozinha num tampo de fórmica e na parede oposta a geladeira e o fogão de quatro bocas elétrico, além dos armários que cobriam a parede da direita e da esquerda para os gêneros alimentícios.
No hall de entrada, havia um armário para guardar mala, casacos , etc.
No quarto, havia um guarda-roupa sem qualquer gaveta, apenas um lugar para pendurar os cabides.
No banheiro, igualmente mínimo, um lavatório, uma bacia, e uma banheira com chuveiro.
Pelo preço, US$85 mensais, era o melhor que poderíamos arranjar naquele momento.
Aqueles dias hospedados no dormitório, foram alguns dos dias mais preocupantes da nossa vida.
Lizzie já estava pretendendo oferecer suas jóias para vender, a fim de levantar algum dinheiro para a sobrevivência, já que não acreditava que a OEA fosse resolver o nosso problema com a devida presteza.
Na segunda ou terça-feira seguinte chegou mais um participante do curso, um colombiano, JAYME LOZANO, e em seguida chegou mais uma equatoriana, ELZA SALAZAR.
Esta era uma indicação de que eu não estava errado em haver chegado naquela data e com isso o nosso coração começou a ficar um pouco mais tranqüilo. Já não era um problema apenas meu, mas de todos os participantes do curso, que já estavam começando a chegar.
Fizemos uma boa amizade com o Jayme, que terminou alugando um apartamento no mesmo edifício. Exatamente no andar superior.
Mais adiante isto se tornou muito útil, já que quando nos queríamos reunir, poderíamos solicitar que ele trouxesse as suas três cadeiras do apartamento.
Antes que os demais participantes chegassem à cidade, fomos levados para conversar com um professor que era responsável pelo projeto com a OEA, e como ele não nos esperava tão cedo, chegou até a me oferecer para participar de um curso que estava sendo ministrado para alguns brasileiros do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais- INPE, relacionado com o projeto de lançamento de um satélite brasileiro que supostamente deveria transmitir programação educativa.
Era o projeto SACI.
Fomos levados também a um outro professor da universidade que nos explicou sobre a Casa Internacional do Natal. Isto muito nos surpreendeu porque ainda estávamos no início do mês de julho.
Eu sabia que os americanos eram viciados em planejamento, mas a este ponto, era realmente uma surpresa.
Após alguns dias nesta ansiedade, nos mudamos finalmente para o apartamento alugado, cancelando o nosso contrato com o dormitório, que nos ressarciu apenas os dias não utilizados mas ficou com o valor correspondente ao depósito de segurança.
Só conseguimos reaver este dinheiro muito mais adiante no tempo, quando um professor da universidade interveio juntou ao dormitório e solicitou que nos devolvessem aquele valor.
O estudante brasileiro que estava nos ajudando na instalação, encerrou suas atividades de apoio quando nos levou com as bagagens do dormitório para o apartamento.
Apesar do apartamento estar mobiliado, não havia qualquer utensílio doméstico, como roupas de cama ou de mesa e assim tivemos de utilizar o que nos restava de dinheiro para comprar o mínimo indispensável para viabilizar nossa vida naquele apartamento.
Fomos até um supermercado que se encontrava perto do dormitório e ali compramos um conjunto de pratos Melamine, de plástico verde, dois garfos, uma colher, uma faca grande, uma panela, uma frigideira, dois travesseiros, dois conjuntos de lençóis e algumas poucas coisas para comer.
Lembro que compramos uma geléia cujo copo nos seria de muita utilidade posteriormente.
Não havíamos conseguido enviar um telegrama para casa avisando da nossa chegada.
Quem remetia telegramas era a WESTERN UNION - que encontrava-se em greve, e os correios não faziam este serviço.
Através dele mandamos apenas um cartão postal para casa.
É claro que não pudemos comprar um carro nem telefone e com isso ficamos bastante isolados naquele apartamento cujos vizinhos colombianos eram nossos únicos amigos.
Alguns dias depois chegou à universidade o diretor do projeto de tecnologia educacional da OEA, John Clayton, quando já havam chegado todos os participantes do curso e nos explicou o que havia acontecido.
A OEA previu a realização de um curso específico para os representantes latino-americanos mas não conseguiu o recurso de orçamento necessário para este evento.
Assim, resolveu inscrever os participantes como alunos regulares da universidade e por isto só previam começar no trimestre de outono, apenas em setembro.
Assegurou-nos que o dinheiro correspondente à bolsa estaria sendo enviado em breve.
Quem chamou primeiro a OEA havia sido eu e vale a pena contar como foi.
Vale lembrar que em 1971 o sistema telefônico brasileiro era muito deficitário e que pouco ou quase nada se sabia dos procedimentos utilizados nos EUA a este respeito.
Havia o sistema de chamada a cobrar, coisa que no meu entendimento, não combinava eu ligar a cobrar para pedir que me enviassem o valor da bolsa. Assim decidi que ia pagar pela chamada; não queria no entanto gastar inutilmente e por isso decidi fazer uma chamada “pessoa a pessoa”.
Como não tinha telefone e não havia tampouco postos telefônicos na cidade, a chamada teria que ser feita de um telefone público.
Chamei a telefonista e pedi a chamada pessoa a pessoa, ela me explicou que para uma chamada para Washington eu precisava colocar no telefone um depósito de US$8 em moedas de 25¢.
Fiquei imaginando como seria complicado para que eles me devolvessem o valor pago a mais, caso a chamada não fosse completada ou se sua duração fosse menor do que o previsto.
Não deu outra.
A pessoa com quem eu queria falar não se encontrava e eu já via meus US$8 perdidos naquele telefone público.
Assim que a chamada foi encerrada, a telefonista me disse que eu aguardasse e logo em seguida o dinheiro veio pingando de volta.
Esta foi uma das minhas maiores surpresas com o sistema telefônico dos EUA.
Naquela época, chamar de Recife ao Rio de Janeiro além de precisar de telefonista, demorava mais do que 4 horas!
Com a promessa de resolverem o problema da bolsa, ficamos um pouco mais tranqüilos.
Só que a tranqüilidade desaparecia à medida que o tempo ia passando.
Estar em um apartamento minúsculo, quase sem nenhum utensílio doméstico, recém-casados sem prática nenhuma de uma vida doméstica, sem telefone, sem carro, sem conhecer a cidade, sem conhecer a língua direito e sem conhecer os costumes, sem rádio, sem televisão, sem panelas, sem pratos, sem copos, sem conhecidos, sem amigos, sem parentes, sem ter o que fazer, era uma situação bastante complicada de administrar.
O pior era ficar sem dinheiro, já que dos US$400 que havíamos levado havia sobrado muito pouco ou quase nada.
Já estávamos na situação de decidir o que comer no dia seguinte:- a pasta de dentes ou a sandália havaiana.
Era esta a situação em que nos encontrávamos quando a coordenadora do grupo avisou que os cheques da OEA haviam finalmente chegado.
Era dia de Nossa Senhora do Carmo, 16 de julho, que até hoje não esquecemos.
Uma das primeiras coisas que fizemos, depois de conseguir o dinheiro da bolsa de estudos foi alugar um televisor colorido ao custo de US$7 por semana.
Comprar o televisor estava fora de questão.
O aluguel era a forma mais razoável de conseguir um televisor de ótima qualidade sem investir demais.
O televisor colorido no entanto precisava ser conectado a um sistema de cabo para receber a imagem. Para isto precisávamos contratar com a companhia de cabo de televisão, coisa que não sabíamos. Aliás nunca havíamos ouvido falar em televisão via cabo.
A televisão no Brasil naquela época,1971, ainda era preto-e-branco e de transmissão aberta.
A sorte no entanto estava do nosso lado e descobri que o apartamento conseguia receber o sinal mesmo sem estar físicamente conectado ao sistema.
Não sei se era um problema da empresa ou se era uma capacidade especial daquele televisor, só sei que o meu televisor conseguia receber a programação que era transmitida via cabo de forma gratuita.
Ficamos com a TV um mês inteiro até quando decidimos devolvê-la porque o custo estava muito elevado.
Qual não foi a minha surpresa quando um determinado dia, ao acordar, encontrei as antenas do televisor caídas atrás dele.
Por algum motivo, o plástico do gabinete havia derretido no local da conexão das antenas e estas foram para o chão.
Esta foi uma surpresa nada agradável.
Como fazer para devolver agora o televisor com aquele problema? Seguramente a companhia iria nos cobrar pelo conserto, coisa que estava absolutamente fora dos nossos planos de despesas.
Decidi então tentar consertar o problema eu mesmo.
A solução foi bastante engenhosa.
Temos que lembrar que em casa não tínhamos ferramentas e muito menos elementos para consertar aquele defeito.
Comprei então um maço de baralho que vinha em uma caixinha de plástico, com a tampa transparente.
Com o meu canivete, fiz dois furos para que se encaixassem as hastes das antenas, e com uma cola especial do tipo Super Bond, colei aquela peça pela parte interna do gabinete do televisor.
Aquela operação seguraria as antenas firmemente.
Coloquei as antenas de volta e o gabinete no seu lugar.
Testei, e as antenas saíram e entraram sem problema no gabinete do televisor.
Estávamos prontos agora para devolver o televisor à empresa.
O técnico veio buscar o televisor, e antes que ele saísse, fiz questão de demonstrar que tudo estava funcionando normalmente.
Durante os dias em que estava consertando o equipamento, passamos por muitas preocupações, tive até que usar a lixa de unhas metálica que Lizzie trazia, para lixar as rebarbas.
Para não ficar sem televisão, resolvemos comprar uma televisão usada, preto-e-branco por US$50, numa loja do GOODWILL, que recebia donativos de roupas e utensílios domésticos e colocava os equipamentos para serem consertados por deficientes e posteriormente os colocava à venda na loja, a preços bastante baixos.
Essa televisão no entanto, não tinha a mesma capacidade da primeira em receber as imagens via cabo e ficamos limitados a ver apenas os canais locais.
Descobrir aquela loja de equipamentos e utensílios usados foi como descobrir um tesouro já que ficamos fregueses e várias vezes fomos até lá para comprar coisas em ótimo estado, a preços realmente compensadores.
Um dos problemas sérios que tínhamos era com a língua inglesa que era falada pelos sulistas e, principalmente quando se tratava de negros.
Se entender inglês já era difícil, mais complicado ainda era entender o que nos diziam.
Principalmente quando nos faziam alguma pergunta.
Aguardavam a nossa resposta com um olhar interrogativo, e a nossa aflição era enorme.
Percebíamos que estavam esperando uma resposta, cuja pergunta nós não havíamos entendido.
O exemplo mais lembrado daquela época, foi quando fomos comprar algo num mercadinho.
A compra era muito pequena.
Talvez dois ou três itens apenas.
A moça do caixa nos perguntou algo que eu automaticamente respondi que não.
Quando saímos Lizzie me perguntou o que era que ela havia falado.
"Wanna ´Begh ?"
Aquela expressão queria dizer- quer um saco? Na verdade, no inglês que havíamos aprendido ela deveria ter dito- do you want a bag?
E não aquela expressão ininteligível mencionada rapidamente e que me obrigou a dar uma resposta negativa.
Aliás responder "NÃO" estava sendo quase que uma constante.
Lembro que um dia vinha voltando para o apartamento e no corredor cruzei com o gerente que me perguntou algo e recebeu como resposta, igualmente um "Nada".
Depois de passar por ele fiquei pensando no que ele teria perguntado e minha resposta não deveria ter sido um "Nada".
Ele perguntou, utilizando uma expressão corriqueira, muito comum “How´yu doin”? E minha resposta deveria ter sido ok ou fine.
Eu havia entendido "What are you doing?" Ou seja, "O que você está fazendo ?", quando ele tinha perguntado- "Como você está indo?" Consequentemente minha resposta nunca deveria ter sido negativa.
Até hoje fico pensando no que aquele gerente ficou imaginando a respeito da minha resposta.
A universidade nos inscreveu em um curso para aprender procedimentos de planejamento do ensino.
Este era um curso que haviam elaborado para a instrução individual através de computador.
Não havia professor e o andamento no curso dependia da velocidade de cada um, na sua dedicação ao programa.
Toda a instrução era apresentada pelo computador através de um procedimento de instrução programada onde após cada quadro se apresentavam 4 ou 5 opções de resposta e, dependendo da resposta, o indivíduo era levado a um outro quadro. Este era o meu primeiro contato com o computador e também com uma matéria que eu não tinha qualquer base anterior além de conhecer muito pouco da linguagem que era utilizada naquelas instruções.
Do grupo, participava outro brasileiro do Rio de Janeiro, vindo da fundação Gilson Amado, que veio a ser posteriormente a TV Educativa Canal 2 – Flávio Sá Carvalho.
O Flávio era um carioca típico, adorava tirar brincadeiras e resolveu ensinar algumas palavras em português para as nossas colegas bolsistas.
Entre elas estava uma chilena, uma gordinha alegre e totalmente avoada que nos encontrou andando no campus da universidade, uma noite em que estávamos passeando.
Veio rapidamente ao nosso encontro, deixando para trás os outros colegas bolsistas, inclusive o Flávio.
Falando alto veio perguntando:
- "SILVIO, que es – BUNDA?"
A nós nos surpreendeu muito, mas deduzimos que havia sido o Flávio a ensinar esta nova palavra.
Naquela época, vale lembrar, uma palavra como esta não estava geralmente no vocabulário corriqueiro e muito menos era pronunciada em voz alta, no meio da rua .
Bastante constrangido, tive que explicar ali mesmo a tradução da palavra.
Além dele só conhecíamos naquela cidade aquele brasileiro que nos apoiou no processo de instalação do apartamento.
No início do semestre, chegou outro brasileiro que me foi apresentado no escritório da universidade.
Era o nosso amigo até hoje João Batista, que com sua esposa Marisa, veio nos visitar uma noite.
Fizemos muito boa amizade com ele e nos ajudou muito durante todo o período em que lá estivemos.
Íamos à missa juntos e até fazer compras no supermercado.
A Igreja católica de Tallahassee foi uma das grandes diferenças que experimentamos.
A começar pela arquitetura.
Estavamos acostumados às igrejas do Recife, quase todas da época colonial, onde o estilo barroco era uma constante.
A
igreja de St. Thomas Moore
já começava diferente pelo santo.
Chamou a atenção o pároco estar na porta para receber pessoalmente os fiéis antes da missa, chamou a atenção o ambiente com ar-condicionado, os bancos com dois genuflexórios - um acolchoado para o momento de estar ajoelhado e outro simples para usar como apoio dos pés.
Chamou atenção a presença de um livrinho com as orações, epístolas, evangelhos e cantos, variável mensalmente.
Em Recife, naquela época, a igreja não distribuia nem mesmo o folheto semanal O POVO DE DEUS, o que faz hoje em dia.
Ir ao supermercado sem automóvel era um grande sacrifício e bastante oneroso porque tínhamos que pegar um táxi, para trazer as compras para casa.
E junto com João Batista, a esposa Marisa e os amigos colombianos, Jayme e Elza Lozano, que moravam no apartamento superior, nos reuníamos quase todos os sábados e domingos.
Ficou sendo tradicional a lasanha do almoço e a pizza do jantar.
Fazíamos um rodízio. Todo fim de semana nos reuníamos para o almoço ou na nossa casa, ou na do Jayme, ou na do João Batista.
Até hoje nos correspondemos com o Jayme e Elza que moram em Bogotá e compartilhamos da amizade com o João e a Marisa.
Nas férias do mês de agosto resolvemos fazer uma viagem turística junto com a Elza e o Jayme.
Havia sido inaugurado recentemente o parque turístico de Disney, em Orlando, na Flórida central e nós queríamos também conhecer Miami.
Com o pouco dinheiro que tínhamos, era necessária a divisão das despesas com mais alguém.
Decidi também fazer um empréstimo bancário de US$100 a serem pagos em seis meses.
Alugamos um carro
Maverick amarelo
, automático e com ar condicionado, por uma semana.
Era a primeira vez que eu me deparava com um carro de transmissão automática.
A viagem foi um sucesso e até hoje temos ótimas lembranças.
No final do ano, chegando o Natal e Ano Novo, resolvemos utilizar os procedimentos da Casa Internacional do Natal da qual já nos havia falado nos primeiros dias da nossa chegada, aquele professor da universidade.
O procedimento consistia em nos responsabilizarmos apenas com o transporte, já que ficaríamos hospedados na casa de pessoas voluntárias, que se dispunham a receber estudantes estrangeiros para passarem as festas de Natal e Ano Novo.
Nosso desejo era de conhecer a capital dos EUA – WASHINGTON e sua principal cidade - Nova York.
Escolhemos uma cidade perto da capital, no estado de Virgínia – FALLS CHURCH, para ficarmos na casa de George e Martha Mason.
Enviamos uma carta acertando o dia e a hora em que estaríamos chegando de ônibus.
Escrevemos como éramos e estabelecemos um procedimento para que nos reconhecessem.,br>
E esta foi a parte mais hilária da viagem.
Eu estaria com um chapéu marrom e um casaco igualmente marrom.
Para que me reconhecessem facilmente, eu estaria abanando o chapéu como se estivesse com calor.
Seria fácil identificar alguém que, no frio de dezembro, estivesse se abanando.
Teria sido mais fácil enviar uma foto, mas por algum motivo decidimos não fazê-lo.
Tomamos um ônibus em TALLAHASSEE, com uma escala em JACKSONVILLE.
Este trecho da viagem, apesar de curto, foi muito complicado porque o ônibus parava a todo momento, não era uma linha direta.
Com a troca de ônibus em Jacksonville, decidimos tomar outro ônibus, que faria o trajeto de uma forma mais direta, sem tantas paradas, mas o ônibus chegaria naturalmente mais cedo do que o combinado na capital dos EUA.
Ao chegarmos lá, pouco antes das 7 da manhã, ficamos sabendo que as nossas malas viriam apenas com o outro ônibus, aquele que nós supostamente deveríamos ter utilizado.
Isto significava que só estaríamos liberados da estação, depois da chegada do outro ônibus, prevista para o meio-dia.
Havendo chegado pouco antes das 8 horas da manhã, havia muito pouco o que fazer, aguardando a chegada do outro ônibus e naturalmente, os nossos anfitriões.
Tínhamos portanto que aguardar aquelas 4 horas porque estes só estavam sendo esperados a partir da hora regular prevista pelo ônibus do meio-dia.
O ônibus finalmente chegou e com ele as nossas malas.
As recolhemos e passamos a verificar se havia alguém na estação procurando por nós.
Tal como havíamos previsto, lá estava eu indo de porta em porta, abanando o chapéu em frente ao rosto.
As pessoas me olhavam com bastante curiosidade.
Estava fazendo frio de 5° naquele dia, apesar do brilho do sol.
Em sã consciência, não se justificava aquela minha atitude e apesar disso eu continuava abanando o chapéu principalmente quando alguém olhava para mim.
Quanto mais alguém olhava, mais eu me abanava.
Já havia passado um bom tempo da chegada do nosso ônibus e nada dos nossos anfitriões virem nos buscar.
Já eram quase 2 horas da tarde quando resolvemos finalmente ligar para nossos anfitriões.
A carta que havíamos enviado nunca chegara e consequentemente lá havia eu estado me abanando furiosamente num frio de 5°, inutilmente.
Finalmente o George chegou e nos levou para sua casa.
Aquele era o primeiro Natal que passávamos longe da família e fomos muito bem acolhidos pelo George, Martha e seus filhos.
Na noite de Natal fomos todos para a igreja e foi muito difícil segurar as lágrimas naquela noite.
Para o Ano Novo havíamos previsto ir até New York onde ficaríamos hospedados na casa das freiras da congregação onde Lizzie havia estudado em Recife, no colégio Vera Cruz.
A casa ficava em Nova Jersey e as freiras foram nos buscar em Nova York, onde chegamos em viagem de trem, muito mais confortável do que o ônibus que utilizamos vindos da Flórida.
Para voltar à Flórida decidimos fazer a viagem de trem e esta viagem precisa ser comentada por causa de dois fatos que ocorreram.
O primeiro aconteceu com um casal de idosos que vinha ao nosso lado e a senhora mantinha a muito custo algumas laranjas dentro de uma sacola de papel que por estar rasgada não podia manter as frutas.
Eu decidi ceder uma sacola de plástico que eu tinha na mala e a senhora, além de agradecer muito aceitando nossa oferta, propôs-se a pagar pela sacola.
Este foi um fato que muito nos surpreendeu, pois na nossa concepção não caberia este tipo de proposta.
A outra lembrança importante que temos, refere-se a uma conversa que tivemos no vagão restaurante.
O trem naturalmente encontrava-se em movimento e nós fomos almoçar no restaurante.
Estávamos muito entretidos discutindo entre nós o que escolher para comer.
O vizinho da mesa, notando que éramos estrangeiros nos recomendou escolher rapidamente o que comer.
E explicou as razões.
Naquele momento estávamos chegando ao fim de um estado que cobrava apenas 4% de imposto sobre as refeições vendidas e em breve estaríamos entrando em outro estado que cobrava 12% de imposto sobre as vendas.
Com isto a nossa refeição iria sair muito mais cara.
Foi uma grande surpresa, mas revelava as diferenças culturais a que não estávamos acostumados.
Durante o período em que estivemos naquele curso houve a oportunidade dos participantes irem para a Argentina fazer uma avaliação das instalações do projeto de tecnologia para a OEA.
Em maio de 1972, fui para Buenos Aires junto com outros participantes do grupo.
Àquelas alturas eu já estava muito acostumado a verificar a temperatura e as condições do tempo em um canal de televisão que só exibia os relógios do tempo, com uma musiquinha.
No hotel em Buenos Aires antes de sair, resolvi fazer o mesmo, e como não havia nenhum canal de televisão que informasse a temperatura, resolvi chamar a portaria do hotel para perguntar.
O empregado não entendeu e quase morre de rir com a minha pergunta.
Disse que bastava ir lá fora para saber se estava frio ou quente e que não tinha a mínima idéia de qual era a temperatura naquele momento.
Este foi um dos momentos de me mostraram que eu estava muito mal acostumado com a tecnologia dos Estados Unidos.
Ao voltar para Recife e ao meu trabalho na televisão universitária, fui promovido para o cargo de assessor de pesquisa e planejamento fazendo parte da diretoria da televisão, com a responsabilidade de coordenar as atividades do
projeto de tecnologia educacional da OEA.
No ano seguinte, voltei à Faculdade de Arquitetura para terminar o meu curso cuja matrícula havia trancado antes de viajar.
Já estávamos casados há quase dois anos e as cobranças familiares e dos amigos já começavam.
- E crianças? vão querer? Era a pergunta que entremeava sempre as conversas.
Enquanto estivéramos na Florida, a Lizzie ficara tomando pílula anticoncepcional.
Ao voltar para Recife e ao passar um certo tempo começamos a fazer exames, tanto ela, quanto eu.
O médico resolveu que teria que fazer uma cirurgia na Lizzie, pois achara ovários policísticos.
A operação transcorreu sem problemas, mas nada de engravidar.
Neste período, morando em Recife, compramos uma
cachorrinha vira-lata
, na esquina da loja Viana Leal. Pra nós foi como termos uma filha.
Como tal a tratávamos, ela era super ensinada, inicialmente dormia aos pés da nossa cama e em breve passou a dormir aos nossos pés, já sobre a cama.
Ela fazia suas necessidades sobre um jornal na área de serviços.
Quando tinha necessidade, ela descia da cama sem fazer qualquer barulho e ia calmamente até a área de serviços procurar o seu jornal e posteriormente voltava para o nosso quarto.
A MINNIE, era este o seu nome, era brincalhona e extremamente amorosa.
Quando eu chegava do trabalho, pulava no sofá ao meu lado e não sossegava enquanto não lambesse minha orelha.
Como não tínhamos filhos, ela era quem recebia todo o nosso carinho.
Naquele ano de 1973 chegou ao Recife como técnico da OEA o
doutor Hipólito González
que conhecêramos na Universidade da Flórida.
No ano seguinte, em função dos meus trabalhos junto com a OEA, foi possível participar novamente do programa de bolsas para voltar à Universidade do Estado da Flórida e terminar os créditos para o meu mestrado.
Em março de 1975, estávamos de volta a Tallahassee, já em outra situação totalmente diferente.
O meu salário em Recife estava mantido e com isto pudemos comprar um carro e alugar um apartamento um pouco melhor do que aquele em que ficamos na primeira vez.
Viver nos EUA aquela segunda vez já não era tão complicado como havia sido na primeira.
A insatisfação de Lizzie na primeira vez, tinha sido tanta, que ela se propôs a fazer o mesmo que a rainha de Portugal fez quando voltou para Lisboa, deixando o Brasil.
Tal como a rainha, ao entrar no avião, tirou o sapato, e batendo-o disse - "Dessa terra nem o pó!"
Agora a situação era muito diferente.
Pudemos comprar um carro, de um inglês que eu já conhecera através da OEA.
Era o que hoje pode se chamar uma banheira.
Um enorme carro da marca
CHRYSLER
com transmissão automática, azul com capota de vinil branca.
Faltava o gás para que o ar-condicionado também funcionasse, e tal como tudo nos EUA, pudemos comprar um kit para que nós mesmos colocássemos o gás do ar-condicionado.
O carro funcionava perfeitamente embora a pintura estivesse muito danificada.
Para melhorar o aspecto, coisa a que estávamos acostumados no Recife, resolvi passar uma cera e dar um polimento alugando uma máquina politriz.
O carro ficou um brinco.
O mais impressionante de tudo era o preço que pagamos por ele - apenas US$300.
Nunca, no Brasil, teríamos um carro como aquele, por aquele preço.
Chegamos até a viajar duas vezes com ele.
Uma das viagens foi até
Nova Orleans
junto com colegas e vizinhos de apartamento, Manoel, Carmen y seu filho Manoelito.
Viajar naquele carro era um conforto do qual até hoje nos lembramos.
Nova Orleans era, na época, uma cidade muito diferente dos padrões que conhecíamos.
Parecia encontrar-se permanentemente em festa.
A música ouvida em toda parte, nas praças, nas ruas, e saindo dos clubes de jazz.
Viajar com uma criança de um ano e meio para conhecer Nova Orleans não é nada recomendável.
Um dos passeios que resolvemos fazer foi conhecer um restaurante na cobertura de um edifício.
O tal salão girava em torno do seu eixo, o que possibilitava ver o panorama da cidade e do Rio Mississipi em toda sua beleza, em 360°.
O Manoelito vinha no colo de seu pais e assim que saímos do elevador, imediatamente o maitre do restaurante veio correndo ao nosso encontro e nos fez dar meia-volta e descer pelo mesmo elevador.
Ficamos sabendo que, como eram servidas bebidas alcoólicas, havia a proibição da permanência de crianças naquele ambiente.
Foi uma surpresa muito grande para nós.
Nunca, jamais, no Brasil, teríamos tido aquele tipo de proibição ou preocupação com uma criança.
Da mesma forma não pudemos entrar nos vários clubes/bares porque nos ambientes, além de mulheres com pouca roupa, estavam sendo servidas bebidas alcoólicas.
Só pudemos mesmo conhecer um clube de jazz, onde um conjunto tocava músicas por solicitação dos assistentes.
Enquanto tocariam qualquer música gratuitamente, havia algumas que só eram tocadas se o solicitante também enviasse uma nota de 5 dólares.
Música como WHEN THE SAINTS GO MARCHING IN só era tocada se paga antecipadamente.
Imaginamos que os músicos já estavam saturados de tocar aquela música, já que é quase um hino do jazz.
Na praça principal de Nova Orleans, aos pés da estátua de ANDREW JACKSON, vive-se em festa.
Vários conjuntos musicais tocam suas músicas e os vários assistentes dançam e cantam.
Com apenas mais um trimestre, eu conclui os créditos correspondentes ao mestrado e como ainda faltavam três trimestres da bolsa da OEA, pude iniciar o doutorado.
A bolsa foi estendida por mais um ano para concluir também os créditos do doutorado.
Neste segundo ano, a OEA decidiu ter um estudante que pudesse orientar e apoiar os novos bolsistas que viriam para a universidade, e com isto eu passei a receber mais US$100 para executar esta tarefa.
Com isto a situação melhorou muito e nós passamos a morar agora em um apartamento de dois quartos.
Semanalmente eu tinha que realizar uma
reunião com todos os bolsistas
e a participação de algum professor convidado, que em um ambiente tranqüilo pudesse estar à disposição para responder perguntas e dúvidas que os alunos tivessem.
Não era um trabalho que ocupasse demais o meu tempo, mas permitia uma boa experiência de coordenação e planejamento de eventos.
Foi neste período que a OEA realizou uma reunião em Buenos Ayres e aproveitando a ocasião, a Universidade Federal de Pernambuco realizou um seminário com a TV UNIVERSITÁRIA do qual eu participaria.
Naquele tempo havia sido criado no Brasil um "empréstimo compulsório" para todos os viajantes ao exterior.
Estavam isentos os estudantes, só que a burocracia para justificar a situação de estudante implicava até em autorização escrita do Ministério da Educação em Brasília.
Com isto eu não podia sair do país, a não ser que pagasse o imposto ou conseguisse as autorizações.
Quando finalmente conseguí a documentação e o carimbo no passaporte, já havia passado mais de duas semanas em Recife.
Estava com urgência, porque Lizzie estava só em Tallahassee, estava perto do Natal e nós iríamos com um casal de chilenos, Patrício e Amélia, de carro para Washington.
Nada podia me atrazar.
Na véspera da viagem, quando ia me despedir dos meus pais, o carro tem um pneu furado, à noite, num local perto do porto do Recife.
Paro o carro e enquanto estou agachado, tentando tirar o pneu, dois homens se aproximam pelas minhas costas.
Pensei imediatamente que se tratava de um assalto.
De um salto peguei a chave de rodas e com ela fiquei me defendendo, fazendo girar ameaçadoramente aquela ferramenta, contra os dois.
- Não venham, não! dizia brandindo o ferro. Não venham, não!
- Que é isto, doutor? Só queremos ajudar.
- Não quero ajuda nenhuma! Podem ir embora.
Gritava eu, ameaçando machucar quem se aproximasse.
Essa cena continuou um pouco até os dois homens irem embora.
Tentei voltar a tirar o pneu, mas tremia e suava horrivelmente.
Foi aí que tive a idéia de parar um táxi que passava para pedir ajuda.
Acenei para o primeiro que passou.
Era um fusca.
- Meu caro, disse.
Quer dez paus para trocar meu pneu?
Continuava com a chave de rodas do Corcel, na mão.
O motorista saiu do táxi e topou o serviço.
Para tirar a roda me pediu a ferramenta, que continuava na minha mão.
- Pode usar a sua chave.
Esta eu não dou!
O sujeito me achou estranho, mas não discutiu.
Voltou para seu carro, abriu o capô e pegou sua própria chave de rodas.
Voltou para o Corcel e para o pneu.
Depois de tentar muitas vezes chegou à conclusão que a porca do meu pneu não era compatível com sua ferramenta.
Olhou para mim desconsolado, me entregando a sua chave de rodas, e disse:
- Doutor, vamos fazer um negócio? Tome esta e me dê essa?
Foi aí que me dei conta do ridículo que estava fazendo.
Entreguei a minha ferramenta, dando uma gargalhada.
O taxista não entendeu nada.
No início de 1977, a OEA me convidou para participar de uma reunião de instalação do projeto de educação de adultos a ser realizado em Santiago do Chile.
Lá fiquei conhecendo a diretora do centro regional de educação de adultos de Caracas - Venezuela, a professora ELLA PETIT, e o coordenador do projeto na OEA, o professor Carlos PALDAO, que eu já conhecia de uma avaliação em TALLAHASSEE.
Demonstraram interesse em que eu participasse do projeto de educação de adultos indo para a Venezuela como técnico da OEA.
Sendo um trabalho para a OEA, a Universidade Federal de Pernambuco tinha que facilitar a minha aceitação.
No entanto, o reitor da universidade decidiu informar para a OEA de uma maneira ambígua, não autorizando e nem tampouco proibindo a minha cessão.
O curso na Flórida havia se encerrado e consequentemente a bolsa de estudos havia sido suspensa.
A OEA queria a minha ida para Caracas e a Universidade Federal de Pernambuco não deixava clara a minha situação.
Esta não se definia e nós tínhamos que entregar o apartamento da Flórida.
Decidimos então tirar todos os móveis que eram nossos e guardar num depósito de aluguel, tomar o carro e viajar para Washington e tentar resolver o assunto, lá.
Para colocar nossas coisas num depósito guarda-móveis, não tínhamos dinheiro para contratar uma empresa de mudanças.
Decidimos então fazê-lo por conta própria.
Alugamos um caminhãozinho que eu mesmo dirigi e contamos com a ajuda da Neuza, uma colega brasileira e seu marido americano - Ron Lindhall.
Ron falava um pouco de português e não esqueço sua ajuda carregando os móveis.
Ele queria saber se eu já tinha segurado firmemente alguma coisa e perguntava - "Tem?" traduzindo do inglês - "Got it?" todo móvel ou caixa que levantava, perguntava - Tem? Tem? eu só repondia - Tenho.
Foi a manhã inteira - Tem? Tenho.
Tem? Tenho.
Para tornar a viagem mais econômica decidimos viajar com outros colegas brasileiros que queriam conhecer a capital, dividindo os custos da viagem.
Desta vez fomos com o Jairo, sua esposa Marisa, e sua filha recém-nascida.
Só que o assunto com OEA não se resolveu rapidamente e nós tínhamos que trazer aqueles amigos de volta para TALLAHASSEE.
Assim, voltamos para a Flórida com a intenção de retornar novamente para Washington para resolver a situação com a OEA.
Lá fomos nos hospedar na casa de Hipólito, que àquelas alturas já havia saído de Recife e voltado para lá.
Foram dias de muita indefinição.
Não se tinha uma resposta de Recife, positiva ou negativa. Não podíamos voltar para a Flórida porque o curso e a bolsa haviam acabado, a Venezuela estava aguardando a minha ida, e o contrato com a OEA não se definia.
Levamos mais de duas semanas neste processo de percorrer os escritórios da OEA sem qualquer definição.
Quando, finalmente, a universidade de Pernambuco enviou uma carta para a OEA dizendo que não se aplicava qualquer procedimento de cessão no meu caso.
Com isto a OEA se viu desobrigada de aguardar outra resposta e prosseguiu com os trâmites da contratação.
Assim pudemos voltar para a Flórida, mais uma vez, porque tínhamos que entregar nossos móveis e o carro para a empresa de transportes.
Ao voltar para TLH, ficamos hospedados na casa do Jairo.
Entregamos tudo para a transportadora e no dia 24 de julho viajamos para Caracas.
Em Caracas, encontrava-se uma família de colombianos que também havíamos conhecido na Flórida e ele agora estava trabalhando como técnico da OEA no projeto de tecnologia educacional.
O ABRAHAM ZALTZMAN estava no aeroporto aguardando-nos e nos levou para o seu apartamento em Caracas.
Pelo menos a primeira noite estávamos junto com amigos.
O casal nos cedeu o seu quarto, mas o apartamento estava situado no quarto andar de um edifício que dava para a avenida EL CAFETAL .
Depois de morar mais de dois anos na Flórida, numa cidade universitária, tranqüila e silenciosa, estávamos agora novamente em uma cidade grande.
Na avenida passavam motos em disparada, com os escapamentos livres e barulhentos.
Foi impossível dormir naquela noite.
A partir do dia seguinte, uma outra colega de trabalho da OEA, a argentina Alicia Rojas nos ofereceu o seu apartamento, para ficarmos enquanto ela estaria viajando de férias.
O apartamento ficava em um bairro bem mais silencioso, no entanto estava no extremo oposto do lugar onde eu que iria trabalhar.
Enquanto o apartamento se encontrava no extremo norte da cidade, no bairro El Marquês, o Centro Regional de Educação de Adultos encontrava-se no extremo sul da cidade, no bairro Paraíso.
A viagem de ônibus, levava pelo menos uma hora.
Decidimos então procurar um apartamento perto do lugar de trabalho, e uma colega do Centro Regional estava alugando um apartamento fabuloso no 11º andar de um edifício que se encontrava a no máximo 10 minutos a pé do meu lugar de trabalho.
Decidimos alugá-lo, apesar do preço ser muito alto - US$1.500 aproximadamente.
Estaríamos instalados naquele apartamento, embora os móveis e tampouco o automóvel ainda não houvessem chegado .
A GLADYS, que nos alugou apartamento, também nos emprestou uma geladeira, uma mesa com quatro cadeiras e duas camas, o que nos permitiu ir morar no apartamento, esperando a mudança para breve.
Novamente estávamos em uma cidade sem parentes, sem amigos, e sem os utensílios domésticos.
Minha mãe enviou uma carta dizendo que em Caracas vivia uma prima, filha da irmã da minha avó.
Telefonamos e fomos visitá-la.
Ela nos apresentou ao
restante da família
que nos adotou como se fôssemos realmente parentes.
Imaginava eu que iria ser breve o tempo de espera, dos nossos móveis e utensílios .
Os dias se passaram e até os meses, e os móveis nada de chegar.
Greve nos portos dos EUA - em Miami - fez com que a mudança tivesse que sair de Miami para WASHINGTON e dali para Nova Orleans.
Para resumir a história, nossos móveis chegaram em casa apenas poucos dias antes do Natal daquele ano (1977) quando o pai e a mãe de Lizzie haviam acabado de chegar para passar as festas conosco.
Os parentes que encontramos em Caracas nos convidaram para passar o Natal com eles, e o Ano Novo resolvemos que o passaríamos em um restaurante.
Imaginávamos que os restaurantes estivessem abertos e oferecendo a ceia do Ano Novo.
Qual não foi nossa surpresa quando saindo às 11 horas da noite começamos a procurar um restaurante para passarmos a festa e nos deparamos com absolutamente todos os restaurantes fechados.
Vale a pena ressaltar que a cidade de Caracas é muito bem provida de restaurantes.
Restaurantes para todo tipo de gosto, de carnes, churrasco, italianos, franceses , japoneses, chineses, de todo nível.
Caros, baratos, simples, sofisticados, enfim tudo o que se desejasse em termos de comida, pode ser encontrado em Caracas.
Só não se pode encontrar um restaurante às vésperas de Ano Novo.
Nenhum restaurante encontrava-se aberto e nós resolvemos voltar para casa antes da meia-noite para comer alguma coisa.
Nada havia sido preparado de especial e assim decidi parar em um restaurante poeira na avenida BARALT e levar para casa um frango assado em máquina.
Com um pouco de arroz, este foi o nosso jantar/ceia de ano novo 1978.
Aproveitando o período de recesso de fim de ano, decidimos levar meus sogros para os EUA a fim de que conhecessem Miami.
O clima apesar de ser janeiro, como sempre estava muito ameno e aproveitamos para ir com carro alugado até o Orlando e naturalmente Disney World.
A viagem foi muito boa e
meus sogros gostaram demais.
Em Caracas, na volta, nada de chegar o carro. Nós continuávamos com um pequeno carro que havíamos comprado da marca RENAULT , modelo 16.
Não havia comparação entre este carro e aquele que estávamos aguardando.
Além de pequeno ele não tinha força para subir as ladeiras da cidade de Caracas, que não eram poucas e eram bastante íngremes, já que Caracas encontra-se em um vale entre duas montanhas.
O carro que aguardávamos com a mudança, demorou até fevereiro ou março do ano de 78, para chegar.
Ainda restava, no entanto, uma outra surpresa, na sua chegada.
O despachante informou que o carro havia chegado mas que encontrava-se no estacionamento da alfândega sem as quatro rodas e correspondentes pneus.
Naquele momento estavam faltando pneus em Caracas e alguém os roubou do meu carro, deixando-o no chão, pousado na carroceria.
O roubo tinha sido realizado dentro do depósito da própria alfândega do porto.
Mais uma dificuldade para encontrar o tipo correto de rodas e pneus para aquele carro.
Tive que colocar quatro pneus com medida mais larga. Com isto o carro andava com os pneus raspando no pára-lamas.
Só pude trocar os pneus quando Caracas voltou a estar abastecida com pneus de todos os tamanhos.
Com o tempo, fomos nos adaptando à cidade e fazendo novos amigos.
Continuava no entanto nossa busca por um filho.
Lizzie continuava a fazer dezenas de exames.
Cada um deles, mais dolorido que o outro.
Eu nunca demonstrei que também queria muito um filho, principalmente para evitar colocar mais uma pressão sobre suas costas.
Já bastava a frustação mensal que se sente ao ficar sabendo da chegada da menstruação.
Se experimentou de tudo.
Desde ficar com as pernas elevadas por uma hora, após a relação, a passar gelo nos testículos para baixar a temperatura escrotal e eventualmente assegurar uma maior produção espermática.
Enquanto nós passávamos por esta tensão permanente, os amigos e parentes continuavam querendo saber:
- E filhos? vão querer?
O bairro onde morávamos, apesar do nome Paraíso, era um verdadeiro caos em termos de trânsito.
Entrar e sair do Paraíso era um problema muito grande que nós evitávamos a qualquer custo, tanto que procurávamos sempre os supermercado do bairro para o abastecimento semanal.
Uma tarde, após o expediente, ficara de encontrar-me com Lizzie no supermercado, para voltarmos juntos para casa.
Quando chego no supermercado, ligeiramente atrasado, vejo um cãozinho sarnento, abandonado junto ao meio-fio do portão de entrada do supermercado.
Vi que estava bastante debilitado e ao lado dele estavam alguns pedaços de carne, que ele não podia comer devido à sua extrema fraqueza.
Não vi o carro de Lizzie estacionado e apesar disso, entrei para procurá-la lá dentro.
Dei meia volta e fui para casa.
O cachorro ficou lá me olhando com aquele olho de abandono.
Ao chegar em casa, Lizzie já se encontrava arrumando as compras e disse que havia estado no supermercado. Perguntei se ela vira o cachorrinho abandonado.
Ela confirmou com ar bastante triste.
Eu fiz-lhe ver que deveria haver alguém que estava cuidando do cachorrinho, porque alguns pedaços de carne estavam ao lado dele.
Ela me respondeu que sabia disto, porque fôra ela a colocar aquela comida para o cachorrinho.
Com a certeza de que ele estava em absoluto abandono, resolvemos telefonar rapidamente para o veterinário que cuidava da nossa cadela MINNIE, para que aguardasse e que não fechasse o consultório enquanto nós não chegássemos.
Descemos rapidamente e fomos novamente até o estacionamento do supermercado.
Lá estava ele, ainda no mesmo lugar em que o havíamos visto anteriormente.
Havíamos levado uma bacia plástica e um pano de chão para recolhê-lo com muito cuidado.
Ele estava com um olhar agradecido balançando a pontinha do rabo sem pêlos.
Segurei-o com muito cuidado, coloquei dentro da bacia e o levamos ao veterinário.
Este e sua enfermeira nos fizeram ver que tratava-se de um animal vira-lata e que não valia a pena qualquer esforço em tentar salvá-lo.
Mesmo assim, insistimos e o médico nos passou a receita de fortificante, antibiótico e creme para a sarna.
Não poderíamos levá-lo para casa, receando o contágio com nossa cadela.
Levei para a casa onde funcionava o Centro Regional, instalado ali perto.
Depois de colocá-lo na área de serviço, chamei o vigia e disse que se o cachorro morresse durante a noite se desfizesse dele, tal era o estado em que se encontrava.
Fomos para casa e Lizzie preparou arroz com carne moída para ele, que eu levei em uma panela.
Apesar de fraco, ele conseguiu comer e aliás nunca deixou de comer, o que realmente serviu para afastar o perigo de morte.
Com o passar dos dias, ele foi melhorando.
Estava tão magro e sem carne que não havia onde aplicar as injeções de antibiótico que tivemos que fazê-lo engolir.
Deste processo de tratamento participou um colega do Centro Regional que tinha alguma experiência com biologia o que o ajudou principalmente a detectar, na pata do animal, uma bicheira que tratamos com creolina.
Depois de não estar mais com bicheira, a pata continuou a inchar, é que no outro lado saiu a mãe daqueles vermes, perfurando-lhe a pata.
Aquele animal cresceu, virou um lindo cachorro, demos-lhe o nome de PIPPO e viveu conosco vários anos.
Aquele colega que ajudara no tratamento do cachorro era o GERARDO que com a esposa Maria Eugenia e sua filha Alexandra passou a ser um grande amigo na nossa estadia em Caracas.
Com a alegria que lhe era peculiar, o Gerardo criou logo um apelido para a enfermeira veterinária.
A chamava de Enfermera Asesina.
A amizade foi tanta que quando a esposa teve a segunda filha, Marianella, nós fomos escolhidos para
seus padrinhos.
Passavam as festas conosco, inclusive o Natal.
O Natal de 1979, que eles passaram conosco, pudemos perceber como era grande a alegria de ter uma criança entre nós.
Até aquela data nós estávamos sem filhos apesar de todos os exames tanto em Lizzie como em mim, os médicos não encontravam razões para que nós não tivéssemos crianças.
Naquele ano de 79 havia preparado um presépio com peças italianas, muito similares àquelas do presépio da minha casa, quando eu era uma criança.
A alegria e emoção de Alexandra, me deu uma enorme inveja e naquela noite fiz um pedido com muita fé.
Se era para que nós tivéssemos um filho, que este viesse logo.
O tempo estava passando e nós pretendíamos usufruir da sua companhia por muito tempo.
No ano seguinte Lizzie ficou grávida de Bruno, que veio a nascer em 25 de janeiro de 1981 em Caracas.
O trabalho de parto começou no sábado à noite e na melhor hora, a partir das 10 da noite.
A esta hora o trânsito em Caracas era bastante fácil e nós pudemos ir para a clínica sem nenhum problema.
Digo isto porque o trânsito em Caracas era realmente muito difícil.
Quando o Ministério da Educação resolveu absorver a funções do Centro Regional de Educação de Adultos, nós tivemos que passar a funcionar diretamente no prédio no centro da cidade.
A distância de casa, em um dia de domingo pela manhã, não levava mais do que dez a 15 minutos. Num dia de semana o trânsito era tão complicado que não se podia fazer aquele trecho em menos de 1 hora e meia.
A maternidade onde nosso filho ia nascer ficava no extremo leste da cidade e se tivéssemos que pegar trânsito numa hora complicada, dificilmente a criança não nasceria no próprio carro.
No preciso momento do nascimento de meu filho, passei a ter a certeza da sua responsabilidade.
É muito interessante o que acontece na cabeça de uma pessoa no momento em que vê pela
primeira vez o seu primeiro filho.
Naquele momento você percebe a importância da sua responsabilidade.
No meu caso fiquei tão alterado que não sabia mais onde estava.
Passamos a noite no quarto do hospital aguardando o tão esperado momento.
Logo cedo na manhã do domingo, ficou decidido que iria se fazer uma cesariana.
Lizzie foi levada para a sala de operações e eu fiquei aguardando naquele quarto.
Nunca o tempo passou tão devagar.
Num determinado momento, uma enfermeira chegou dizendo que eu estava sendo chamado para o escritório que se encontrava no meio do corredor.
Havia uma chamada da sala de operações para mim.
Naquele momento fiquei sabendo do nascimento da criança e eu rapidamente subi até o andar onde ela se encontrava.
Foi mostrado um menino através de um janelão, e o pediatra me assegurou que estava perfeito e que a mãe se encontrava bem, então decidi voltar para o nosso quarto.
Ao entrar no quarto encontrei tudo mudado.
A cama estava impecável.Os quadros da parede haviam sido trocados e até mesmo a posição da cama.
Até a vista que se via pela janela, era totalmente diferente.
Demorei um pouco para perceber que havia entrado no quarto errado.
Ficamos em Caracas até meados de 1982.
Neste período participei de muitas
reuniões
em vários países integrantes da OEA.
Destaco as lembranças em três deles.
O primeiro pela pobreza extrema - o Haiti.
A cidade capital - Port-au- Prince me deu a impressão de estar num filme de Tarzan com Johnny Weissmuller, tendo em vista a quantidade de casas de madeira estilo vitoriano.
A iluminação noturna das ruas era extremamente deficitária.
Apenas uma lâmpada comum a cada dois postes.
Ao sair à noite, do Hotel Splendid - um casarão colonial, para jantar, simplesmente desistí e dei meia volta.
A rua era um bréu, ouvia-se a voz de pessoas falando mas não se via ninguém.
Voltei para o hotel e como não havia restaurante tive que resolver a fome com dois ovos fritos na lanchonete do hotel.
O trabalho foi dos mais esquisitos.
Pela manhã, o diretor residente representante da OEA, me levou num carrão preto com chofer à sede do ministério da Educação do Haiti.
Chamou a atenção a cor das paredes internas - Rosa -pantera-cor-de-rosa.
Um enorme ventilador de pé que fazia o barulho de um motor de avião e muitas pessoas em pé conversando e fumando. Tudo isto junto com secretárias batendo em máquinas de escrever manuais, na mesma sala do ministro.
Só muito depois é que entendi porque o projeto precisava de poucos recursos para uma pequena quantia para pagar pessoal.
O pessoal que se queria pagar eram os chamados "tonton macoutes", pessoas que ficam nas aldeias a mando do governo, para espionar o comportamento das pessoas.
Caso a atitude não fosse satisfatória, eram encarregados de aplicar as "gravatas" , degolar a pessoa e puxar a língua pelo pescoço.
E´claro que não foi aprovado projeto nenhum.
O segundo país que visitei e que me causou estranheza foi a Costa Rica.
Na verdade, fiquei surpreso com o piloto da PAN AMERICAN.
Ao chegar em San José, ele anunciou: Senhoras e senhores passageiros, bem-vindos ao aeroporto da Costa Rica!
Estava acostumado a países que possuíam mais do que apenas um único aeroporto.
Outro país que mostrou algo digno de lembrança foi o Panamá.
Visitei o canal e chamou a atenção o trabalho nas Eclusas.
Os oceanos Atlântico e Pacífico tem águas em níveis diferentes.
Os navios entram num lugar onde uma comporta está fechada na sua frente, então outra comporta é fechada atrás dele.
Lentamente sobe o nível da água, onde se encontra o navio.
Este vai se elevando até a água ficar nivelada com o trecho seguinte.
A primeira comporta então é aberta e o navio pode seguir viagem.
Acontece que o navio tanto pode ser de passageiros, como super-petroleiros.
O trabalho realmente impressiona.
Decidimos então, voltar para o Brasil, já que o projeto de educação de adultos em Caracas, estava terminando. As alternativas eram, se continuasse trabalhando para a OEA, ir ou para o Paraguai ou então para a Costa Rica.
Morar naqueles países não era algo que nos interessava.
Enquanto estivemos na Venezuela eu já havia tido a oportunidade de visitar outros países e dentre eles estive com Lizzie na Guatemala e no México.
Foram duas viagens muito interessantes para nos mostrar uma realidade totalmente diferente daquela que havíamos conhecido na Venezuela e da que estávamos acostumados no Brasil ou que havíamos experimentado nos EUA.
Na Guatemala, visitamos a cidade de
Chichicastenango
onde os índios organizam uma verdadeira feira de artesanato, na praça principal, em frente a uma igreja do século XVI.
Da época da colonização.
Uma coisa que chamou a atenção foi a escuridão da igreja, iluminada apenas pela luz exterior que entrava pela porta principal e pela luz da enorme quantidade de velas acesas no chão da nave central.
Subindo as escadas, vinham sempre duas pessoas.
Uma em pé ao lado de outra de joelhos.
A que estava em pé "traduzia" para Deus o que rezava a de joelhos.
São os rezadores oficiais.
No México estivemos perto do final de outubro e já estavam se organizando para comemorar o dia de finados, onde as padarias fazem uns bolinhos de açúcar com forma de caveira, chamados de
"pan de muertos"
.
Chamou atenção também os grupos de
"mariachis"
, na praça Garibaldi, prontos e exibindo sua música típica ao mesmo tempo, para serem contratados para fazerem alguma serenata.
Durante o dia chama a atenção, na "zona rosa", o cheiro de milho tostado e principalmente o ruído que se ouve.
Parece que uma platéia está lhe aplaudindo ao passar, mas as palmas são a forma que as cozinheiras mexicanas preparam as "tortilhas" nas portas dos restaurantes.
No México não pode se deixar de mencionar nossa visita a
Tenochtitlán
e ao espetáculo de "Luz y Sonido" apresentado no
Vale das Pirâmides do Sol e da Lua.
Percebemos que Bruno precisava urgentemente de um lugar certo para pertencer e decidimos que o melhor lugar seria mesmo o Brasil.
O Bruno, achávamos, estava com dificuldades em falar por causa da interferência de várias línguas ao mesmo tempo.
Enquanto os pais falavam em português, os amigos, empregada e a televisão falavam em espanhol , a tia Zorca falava italiano e alguns conhecidos falavam inglês, a pobre criança não se decidia a falar.
Decidimos que era a hora de voltar.