CAPÍTULO 3
O Instituto Pio XII só ministrava aulas até a quarta série e consequentemente foi procurada outra escola para prosseguir com os estudos.
O interesse recaiu imediatamente no Colégio D.Bosco situado na Boa Vista, na rua de mesmo nome.
Morando na Iputinga e freqüentando a escola tão longe, era obrigado a usar o sistema público de transporte.
Estudava à tarde e, apesar do calor, o Colégio exigia camisa de mangas compridas.
Já era uma evolução pois me diziam que até hà pouco tempo atrás, a farda também era composta de gravata.
Aliás o Recife, apesar do calor, tinha alguns preceitos de vestimenta bastante rígidos.
O Cine Moderno, na praça Joaquim Nabuco, exigia o uso de paletó e gravata para os homens.
Lembro bem o dia em que fui com minha Tia Nelia, assistir algum filme infantil e apesar disto e da minha idade inferior aos dez anos, o gerente do Moderno não permitiu a minha entrada sem paletó.
O que fazer? Após a discussão de praxe, tivemos que voltar para casa e colocar o tal sobretudo de gabardina que compramos na Itália e que nenhum uso tinha tido.
Estava chovendo naquela tarde e até se justificava o impermeável, o que não era facilitado pela umidade e calor que fazia.
Assim, pudemos entrar no cinema.
Agora estava decentemente trajado.
Costumes da época.
O uso de transporte para ir ao Colégio estava ficando complicado.
Naquela Rua D.Bosco, em 1959, o trânsito de ônibus era nos dois sentidos.
Não perguntem como.
Quem vê aquela rua no dia de hoje, não imagina que tal coisa pudesse acontecer, no entanto havia uma parada na frente do colégio, quando se chegava, e outra, do lado oposto da rua, quando se saía do Colégio.
Uma determinada tarde, aconteceu o imprevisto.
Uma greve de ônibus inviabilizou a minha volta para casa.
Embora estivesse aguardando há um tempão e a noite já estivesse chegando, nenhum ônibus estava disponível.
Quando a tensão estava aumentando eis que vejo um rosto amigo.
João, o nosso vizinho de casa me vira e aproximou-se.
Sua sugestão foi de procurar um ônibus no terminal.
Só que o terminal era no bairro do Recife.
Fomos andando até lá.
Percorremos a av.Manuel Borba, a rua da Imperatriz, a ponte da Boa Vista, a Rua Nova, a Praça do Diário de Pernambuco, chegamos após a Ponte Princesa Isabel, ao Bairro do Recife para não encontrar qualquer ônibus disponível.
Decidimos então voltar e ir a pé para casa.
Voltamos agora pela Av.Conde da Boa Vista, João Alfredo e Av.Caxangá.
De vez em quando passavam caminhões fazendo o transporte das pessoas, mas eu preferia ir a pé do que tentar subir num daqueles caminhões cheios de gente.
A aula terminava às 17:30 e a estas alturas já eram perto de 21 horas.
De repente ouvi gritando por mim, era meu pai que havia saído à minha procura no jipe de um novo vizinho - o Seu Arnaud.
Chegar em casa, foi uma festa e motivo para uma decisão imediata.
- Mudar da Iputinga, para um local mais próximo da escola.
Achamos um apartamento na Rua do Paissandú, a menos de 1 quilômetro do Salesiano e alí fiquei até o dia de casar.
O apartamento tinha três quartos, banheiro, sala, cozinha e dependências.
Nós todos éramos oito pessoas.
Um quarto para papai e mamãe, um quarto para tia Nelia e Dany, um quarto com uma cama e uma poltrona-cama onde dormia eu e minha tia Titta e meus avós Daniela e Nicola dormindo em poltronas-cama na sala de estar-jantar.
Era um problema quando alguém vinha visitar depois do jantar.
Só podiam ir dormir quando fossem embora.
Estudar no Colégio Salesiano foi um pouco como voltar a frequentar um ambiente mais parecido àquele em que estava acostumado quando criança.
Embora a língua ainda fosse um pequeno problema, principalmente quanto ao sotaque, a existência de alguns padres italianos fazia com que numa hora de aperto houvesse a quem recorrer.
Nunca cheguei a precisar falar em italiano com qualquer um deles, mas para minha mãe era uma tranquilidade.
Aliás foi exatamente o sotaque a minha primeira frustração.
Naquele ano de 1959, estava freqüentando o curso de “admissão”, que corresponderia à quinta série primária e o professor de português - o Pe. Collares, instituiu um pequeno concurso de declamação, com uma poesia intitulada “Pingo d’água” .
Fiquei por último a ser chamado para declamar.
O Pe. Collares chegou a se surpreender quando após chamar o último aluno, eu levantei dizendo que ainda não fora chamado.
Acho que sua intenção não era de chamar-me.
De qualquer forma, teve que me chamar.
Eu havia treinado como um louco.
Sabia a poesia na ponta da língua e havia até ensaiado uma série de pausas de impacto.
Ao terminar, o grupo bateu palmas fortemente.
Realmente haviam gostado da minha interpretação, principalmente quando no final eu dizia de forma triste e sentida - “... porque...Pingo d’água ... sou eu!”
De Jacy Pacheco - Pingo d'água .
"A noite esqueceu
no côncavo de uma folha
vizinha de um riacho
um pingo d'água.
Veio o sol
como uma rosa grande ardendo em febre
e envolveu a pequenina gota
num punhado de cores.
Pingo d'água acordou
olhou para baixo
gostou do riacho...
Sonhou ser assim
ser riacho também...
E correr, e crescer, ir além...
Ser um rio bem grande
maior que ninguém.
Veio o vento
de repente
e desgarrou da folha o pingo d'água.
Pingo d'água morreu.
Pingo d'água perdeu-se no riacho...
Pingo d'água sou eu."
O Pe. Collares deu-me a nota máxima mas não me selecionou para representar a turma no Concurso, frente às outras turmas.
Fui perguntar para ele porque não havia sido selecionado se havia tirado a nota máxima e o grupo parecia haver gostado.
Ele me disse que a razão era em função do meu sotaque, que não era de brasileiro.
Para mim foi pior do que haver tirado uma nota baixa.
Havia sido discriminado não pela minha habilidade mas por algo que não era minha culpa.
Foi difícil agüentar aquela situação.
Fiquei envergonhado.
Meu sotaque não era brasileiro.
Durante muito tempo aquela frase ficou batendo na minha cabeça.
Acho que em lugar de me abater, serviu para incentivar-me a desempenhar melhor na língua falada.
A partir daquele momento envolvi-me em todos os concursos de apresentação em público que apareciam.
Fui evoluindo até chegar a participar do teatro.
Cursando o Ginásio participei de uma peça no próprio Colégio, onde fazia o papel principal.
A peça era uma adaptação do Fantasma de Canterville.
A peça chegou a ser levada em vários colégios da cidade e até no Colégio Salesiano de Carpina, que também era seminário de preparação sacerdotal.
O Pe. Collares a estas alturas era diretor do Colégio Salesiano e cheguei a dizer-lhe, após ser elogiado pela apresentação de sucesso, que talvez ele tivesse sido o meu melhor incentivo.
Lembrei-lhe aquilo que me havia dito por ocasião daquele concurso de declamação e como aquilo tinha sido preponderante na minha vida.
Fazer teatro estudantil, foi um passo para também atuar como apresentador de shows estudantis.
Naquela época eram comuns os shows nos colégios e eu era requisitado para fazer as apresentações.
Aliás, em função disto, apesar de aluno do ginásio, comecei a freqüentar um grupo que já eram do curso científico e que havia formado um grupo musical.
Era a época do Rock and Roll, da Jovem Guarda, e todos os jovens achavam que a fama também viria para eles.
O grupo era formado de um pianista - O Chico, um saxofonista - O Júlio Nacif Xavier, cuja mãe libanesa fazia umas comidas árabes para matar as saudades; um contrabaixista - O Luiz Augusto Amorim Silva. Com este eu compartilhava de uma amizade muito forte. Ele era quem morava mais perto e fomos até companheiros atletas. Ambos chegamos a treinar no Clube do Sport no time de basquete. Era com Luis Augusto que ficava conversando na esquina, até altas horas e foi um baque muito grande quando ele teve que deixar o Recife para estudar engenharia em Campina Grande.
O grupo ainda contava com um guitarrista - O Fábio e um baterista - O Hugo.
O Conjunto chamava-se “Grupo Fênix”.
De acordo com o Júlio era o nome de um conjunto que seu pai tinha quando jovem e que agora, apropriadamente ressurgia das cinzas.
Com este grupo passei a participar como cantor.
Cantava músicas italianas, naturalmente.
Minha voz de barítono não dava para cantar as músicas brasileiras da moda daquela época.
Em português só poderia cantar se fossem músicas de Rock and Roll da Jovem Guarda, que exigia vozes muito finas ou Bossa Nova que por sua vez exigia vozes muito leves.
Era moda o Festival de San Remo, Roberto Carlos chegou até a fazer uma música com Sérgio Endrigo - Canzone per Te, que foi um sucesso estrondoso tanto na Itália como no Brasil.
Recife que não tinha televisão até 1960, já possuia dois canais.
Um dos Diários Associados e o outro da Empresa Jornal do Commercio.
Aliás, lembro do período de transmissões experimentais.
Eram transmitidas imagens fixas com a narração de locutores invisíveis.
Na verdade era um rádio com imagem.
Na rua ninguém tinha televisão a não ser os cunhados dos donos do edifício onde morávamos e que tinham dois filhos - Jayme e Levy.
Muito gentilmente permitiam que a meninada da rua pudesse ir assistir televisão na sua casa.
Um televisor importado de nove polegadas.
Ficava-se horas, ouvindo música e vendo apenas o “padrão” da estação.
O “padrão” era uma tela com vários círculos concêntricos e umas barras horizontais e verticais com várias tonalidades de cinza.
Serviam para ajustar os controles dos televisores, para a melhor imagem preto e branco possível.
Apesar do enfadonho da programação, a meninada se orgulhava de dizer que havia estado vendo televisão.
Quando a programação regular começou, recebemos o convite, eu e minha prima Dany, para ir assistir os programas na casa do Sr. Domingos e Dna. Carolina, um casal de vizinhos portugueses que tinham a Anamaria, uma filha de dezoito anos que se dispôs até a ensinar-me as primeiras noções de música para aprender acordeão.
Foi lá na sua casa que também ia toda tarde para exercitar o músculo da batata da perna, na sua máquina de costura de pedal.
Havia sido acometido de um surto leve de poliomielite e o tratamento fisioterápico que fiz e o que me recuperou quase totalmente foram massagens com a minha tia Nelia, subir e descer as escadas e pedalar na minha bicicleta.
Meu pai mandou fazer um apoio de ferro para encaixar na roda traseira. Em se apertando o freio traseiro imprimia-se maior ou menor resistência.
Rapidamente havia recuperado os movimentos da perna esquerda e a sequela já era imperceptível.
Apesar de haver continuado a estudar na
Academia
Miriam Ramalho, na Av. Conde da Boa Vista, tocar acordeão nunca foi uma vocação.
Na verdade era até um sacrifício.
Ir a pé, três vezes por semana até a Av. Conde da Boa Vista, para aprender acordeão, numa sala sem ventilação, carregando no colo aquele peso, não era necessariamente um prazer.
Assistir televisão, era.
E como não se tinha televisão em casa, assistia televisão na casa dos vizinhos.
Roy Rogers e os Patrulheiros Toddy, às tardes, na casa de Dna. Carolina.
Papai Sabe Tudo e Aventura Submarina na casa do Jayme, e Perry Mason na casa do Dr. Mauro e Dna. Lena, vizinhos do andar térreo.
Na época tinham apenas uma filha, a Kátia, de quem eu tomava conta por alguns minutos quando os pais saiam e deixavam a criança, lá em casa.
Ir para a aula de acordeão servia, no entanto, para me fazer sentir adulto e independente.
Tanto que para completar a minha performance de adulto só faltava algum sinal exterior, como o cigarro.
Fumar, naquele tempo era sinal de status, sinal de adultez.
Ninguém nem cogitava nos danos que o cigarro trazia e limitar o ambiente onde pudesse ser usado, nem pensar.
Decidi também participar do processo e antes de ir até a academia, passei pela lanchonete da esquina da Praça Chora Menino, entre a Paissandú e D.Bosco, do lado oposto ao Cine Boa Vista e fazendo cara de enfado pedi - “Me dê 5 cigarros Continental.” Os cigarros eram vendidos a granel, o que era muito conveniente para mim, já que eu não teria que ficar escondendo o maço, ao voltar para casa.
Ao receber aqueles cinco cigarros e dar meia volta, lembrei de um detalhe - como acendê-los? Não tinha fósforos e nem isqueiro.
Resolvi, como quem não quer nada e como se fosse algo muito normal, voltar ao rapaz do balcão e pedir o favor para acender um cigarro, no que ele estava fumando.
Ele, de forma natural, balançou gentilmente a cinza da ponta do cigarro e cuidadosamente o passou para mim.
Eu, como se tivesse muita experiência, coloquei na boca um dos cigarros recém comprados e fazendo uma copa com a outra mão levei o cigarro aceso para acender o meu primeiro cigarro.
Aspirei com muito cuidado e devolvi o resto de cigarro para o rapaz.
Com um olho meio fechado para evitar a fumaça entrar, no melhor estilo Robert Mitchum, saí da lanchonete.
E agora? Estava fumando e no meio da rua.
Será que algum conhecido me veria? Afinal de contas encontrava-me a menos de uma quadra do Colégio Salesiano, onde fumar era terminantemente proibido e fazê-lo já tinha servido de base para algumas suspensões de colegas.
Estava fumando meu primeiro cigarro e escondido de todos.
Surgiu rapidamente um outro problema.
Cinco cigarros eram muitos para serem escondidos.
Tinha que acabar com eles antes de voltar para casa.
Sem dúvida.
Mas como? Não tinha fósforos e nem isqueiro.
Não podia contar em encontrar alguém, na rua, que estivesse fumando para novamente me permitir acender outro.
E se não encontrasse ninguém fumando? Ou teria que jogar fora os cigarros não fumados ou escondê-los em casa.
Escondê-los - nem pensar e jogá-los fora seria um desperdício inútil.
Tomei a única decisão plausível naquele momento: - fumar todos os cigarros, um acendendo o próximo.
Foram cinco cigarros seguidos.
Os cigarros Continental eram fortes e sem filtro.
Cheguei na Academia Miriam Ramalho com a língua queimada e um gosto de fumaça na boca.
Em casa, à noite me senti mal.
A cabeça girava, não pude jantar e tive que ir ao banheiro para vomitar.
Meu pai foi quem descobriu o mal feito.
O cheiro do vômito, no banheiro, era pura fumaça.
Tive que prometer não fazer nunca mais.
Promessa inútil, porque naquele momento ninguém me faria fumar novamente.
Naquela época, o Canal 2 - TV Jornal do Commercio, ia lançar um programa para os jovens e fizeram testes para conseguir novos cantores e grupos musicais.
Através do intermédio do meu pai, que trabalhava na empresa e conhecia o Mayerber de Carvalho - produtor do programa, conseguimos nós também fazer um teste.
Prática de tocar e cantar em público já se tinha e agora era o momento de experimentar a Televisão.
O programa era o
Bossa 2
, apresentado pelo Augusto Boudoux - colunista social do Jornal do Commercio e uma francesinha jeitosa, imitadora da Brigitte Bardot - a Jaqueline Mirna.
O programa seria apresentado todas as tardes de Domingo e o Grupo Fênix e
eu
fomos selecionados para participar do primeiro programa.
Promessa de cache de 5 mil cruzeiros, por pessoa.
Para nós uma nota.
Uma vez selecionados, cabia a nós escolher a roupa.
Recife, domingo à tarde, 15 horas, calor estúpido.
O conjunto resolveu vestir calça preta, malha vermelha de mangas compridas e gola rulê, com camisa social por baixo para aparecer o colarinho branco, sob a gola vermelha.
Botinhas de cano curto, completavam o traje.
Eu, que não pertencia ao Grupo, mas cantava free-lancer, fazendo-me acompanhar pelo grupo, não precisei ir com aquela fantasia.
Minha mãe costurou uma camisa bordoux, de mangas curtas, com parte em xadrez e calça preta.
Tiramos uma música nova do Adriano Celentano, que ninguém conhecia, e estreamos na televisão.
O rítmo era o twist.
E podemos dizer que
foi um sucesso.
Tanto que nos convidaram para vários outros programas.
Quando o Boudoux e a Jaqueline não podiam apresentar o programa, fui convidado para fazê-lo.
Programa de auditório, ao vivo, sem roteiro, sem falas previstas, enfim, um acontecimento.
Quando não ia com o conjunto, na Vemaguete do pai do Júlio, ia a pé.
Da rua do Paissandú até a rua do Lima.
E para dizer a verdade gostava de ir a pé principalmente para ser reconhecido na rua.
Ir com o conjunto, na Vemaguete era uma aventura.
Além dos 5 integrantes do grupo e eu, tinhamos que transportar todo o instrumental.
A guitarra do Fábio, a Bateria completa do Hugo, o saxofone do Júlio e o Contrabaixo - rabecão - do Luiz Augusto.
Ainda bem que o piano era do estúdio.
Por causa deste conjunto, chegamos a ser convidados para tocar e cantar numa festa ao ar livre, num palanque em frente à igreja de Gameleira, uma cidadezinha perto de Recife.
Esta vida de artista levou-me a receber várias cartinhas de fãs.
Raro era o dia que não havia 5 ou seis cartas na portaria da Televisão Jornal do Commercio.
Com isto foi aberta a oportunidade de também trabalhar em
tele-teatro
e tele-novela.
Mayerber de Carvalho chegou a escrever uma peça de tele-teatro, própria para os jovens que participavam no programa Bossa 2.
A peça foi “Eu, Betty e o Dançarino”.
Sempre pensei que o Eu, fosse eu.
Mas na verdade, eu era o dançarino.
Não cheguei a ver esta peça.
No dia da apresentação, estava na rua e não cheguei em casa a tempo de assistir.
Fazia papel terciário, nas novelas e tele-teatros.
Afinal de contas não era fácil arranjar um papel para mim.
Com 17 anos e 1,90 de altura, nem podia fazer papel de jovenzinho e nem papel de adulto, embora os maquiadores da TV, o Múcio Catão e o João Batista, seu ajudante, se esforçassem com alvaiade branco nos cabelos, bigodes colados e perucas falsas.
Estavamos em 1965 um ano após a revolução de 31 de março de 1964.
Naquele momento o Brasil passava por uma verdadeira febre de caça às bruxas.
De acordo com os militares qualquer demonstração de interesse em resolver problemas sociais era motivo para se imaginar o indivíduo como comunista.
Os movimentos estudantis eram bastante fortes, principalmente dos secundaristas, e Recife chegou a ter uma Associação Recifense dos Estudantes Secundaristas a ARES.
Para poder participar do movimento estudantil os colégios precisavam ter diretórios constituidos e o Colégio Salesiano tinha apenas Grêmios estudantis, em sendo eu o presidente.
Assim transformou-se o Grêmio em Diretório para poder-se participar das eleições da ARES que aconteceram no Colégio Regina Pacis.
A partir daí em toda reunião estudantil, lá ia eu representando os alunos do Ginásio do Colégio Salesiano.
Não tardou muito e recebi uma convocação do 4º exército para prestar declarações.
Em casa foi um reboliço só.
O que estariam querendo saber, o que tinha eu feito que precisasse prestar declarações diretamente no 4º Exército? A entrevista estava marcada para as 15 horas na Rua do Sossego e com nada menos que o temido Coronel Ibiapina.
Lá estava eu, de paletó e gravata para a entrevista com o Coronel Ibiapina.
Suava um pouco mais do que era natural e aceitável para o clima de Recife.
Ao chegar fui recebido por um ajudante de ordens que usava uma farda em mangas de camisas e estava com uma prancheta debaixo do braço cheia de folhas de papel.
Usava óculos escuros ray-ban, como era moda entre os militares, chovesse ou fizesse sol, ao ar livre ou nos interiores.
Os óculos escuros serviam para evitar que as pessoas percebessem o que estavam olhando.
Pediu-me para esperar um pouco e entrou por uma porta de duas folhas.
Logo em seguida saiu e me fez entrar.
A sala era comprida e estreita.
As janelas à direita davam diretamente para a rua e preenchiam totalmente uma parede.
Um ventilador grande, de pé, com uma grade protetora funcionava a toda força.
Parecia o ruído de um bombardeiro B-52 pronto para decolar.
Atrás de uma mesa enorme estava um homenzinho de aspecto minúsculo.
Dava a impressão que seus pés não chegavam até o chão.
Óculos, meio careca, um nariz arredondado, deu-me a impressão de estar falando com Hortelino Trocaletra.
Embora seu aspecto amável tinha a nítida impressão que todas suas palavras eram perfeitamente calculadas e que nenhuma frase que ouvia era desconsiderada.
Prestava muita atenção naquilo que se lhe dizia e nada escapava do seu crivo.
Tinha uma formulário diante de si e assim que entrei fez um gesto com a mão para que eu me sentasse à sua frente.
Embora eu já tivesse 1,90m e aquele homenzinho não devia ter muito mais de 1,60 sua postura era de mando e inibia só com o olhar.
Olhando a ficha em suas mãos disse com uma voz fina.
– Você é Silvio Lagana. – com a silaba tônica erradamente na paróxitona
– Eu consertei imediatamente – Laganá.
Ele olhou-me levantando a sobrancelha esquerda como se dissesse
– Não lhe perguntei nada.
- Pelo menos foi esta a sensação que tive.
A conversa foi relativamente curta.
Pelo menos bem mais curta do que eu pensava.
Queria saber se os padres estavam comentando sobre campanhas contra o governo.
Minha resposta revelou imediatamente a minha ingenuidade e total alienação.
– Eles são padres e cuidam de assuntos da religião. –disse eu.
Imediatamente senti como se tivesse tocado em um nervo exposto.
Reagiu com agressividade e ironia
– Quem disse que padres só cuidam disto? É do que deveriam cuidar, mas a realidade é outra. O que eu quero saber é do que falam, as críticas que fazem, essas coisas..."
– Acho que naquele momento me dei conta que os padres do Colégio Salesiano não estavam engajados em nada comunitário.
Faziam o seu trabalho independentemente de qualquer movimento ou agrupamento.
Todos os domingos abriam o Colégio para um dia de atividades com os meninos carentes da região.
Era o chamado Oratório Festivo.
Depois da missa e do café da manhã havia pelada até as 11:00 horas, quando começava a sessão de cinema.
No salão de teatro eram exibidos filmes de aventura, Tarzan, National Kid, todos em preto e branco de 16 mm.
Os meninos assistiam na maior animação apesar do calor infernal que fazia naquela sala fechada, sem ar condicionado ou ventiladores entre 11 e meio dia do Recife.
O cheiro de suor era quase insuportável.
Eu que morava perto, quase todos os domingos ficava para assistir.
A ação dos padres do colégio salesiano terminava com o almoço para aqueles meninos, no dia de Domingo.
Outra atividade era desenvolvida pelo salesiano no bairro do Bongí, onde davam formação profissional.
Tudo isto era feito sem discussão política e disse isto ao Cel Ibiapina.
Parece que minhas explicações o convenceram e encerrou a conversa dizendo que não havia mais nada que quisesse saber.
Ao sair daquela reunião, em direção a casa fiquei pensando até que ponto estava sendo levada em consideração a situação que se vivia naquele momento na nossa formação escolar.
Na verdade não havia qualquer discussão sobre liberdade, democracia, necessidades de quem quer que seja.
A educação do colégio salesiano era uma ilha na realidade nacional.
Até como militarista poderia ser entendida.
Não somente quanto aos aspectos de disciplina e comportamento que eram exigidos dos alunos, já que não eram poucas as vezes que alunos eram retirados da sala de aula por não se comportarem de acordo com o que era exigido.
Isto podendo ser uma conversa com o vizinho na hora da oração, ou não estar devidamente fardado.
Além de retirados da sala de aula, os alunos tinham que ficar em pé, calados, em posição de descansar (pernas afastadas e braços cruzados às costas) entre duas colunas pelo tempo que durasse a aula.
Enquanto o resto da turma assistia à aula, o castigado ficava naquela posição exposto à vergonha geral.
Além desses procedimentos, não se pode esquecer a tendência militarista da escola, obrigando a todos os alunos do colégio a formar fileiras, divididos por turmas antes do início das aulas, quando após as orações era feita uma preleção de 5 minutos ou pelo padre Conselheiro ou pelo Diretor.
Esta preleção era quase a “ordem do dia” dos quartéis embora tivesse o nome de “Bom Dia” .
Aliás esta tendência à militarização ficava evidente quando chegava a semana da pátria.
Durante vários dias ensaiava-se para o desfile de 5 de setembro.
Os colégios desfilavam dois dias antes do dia da independência, pelas ruas do Recife e havia uma rivalidade muito grande entre eles, cada um querendo ganhar o prêmio de melhor escola no desfile.
Cada colégio tinha uma banda e os alunos desfilavam fardados.
A farda podia ser a diária composta de camisa de mangas compridas e calça caqui, a farda olímpica de calças brancas e malha de gola redonda ou a
farda de gala
.
Esta era a farda que eu usava.
Calças brancas com um vinco azul no lado.
Camisa branca e gravata preta.
Casaco branco de botões dourados e bolsos grandes com abas.
Completava ao farda um quepe e um talabarte de couro negro.
Na verdade era uma fantasia de cadete da marinha.
E eu desfilava com muita vontade e orgulho, quase sempre na frente do grupo seja
carregando a bandeira,
seja carregando um cartaz com o
nome do colégio.
Para completar a história, colocava no peito todas as medalhas que havia recebido em minha vida estudantil.
Naquele tempo se costumava premiar os melhores alunos com medalhas, na festa de premiação do fim do ano.
Ouro para o primeiro da classe, prata e bronze para o segundo e terceiro.
Eu desfilava com uma medalha de ouro por cada ano de estudo.
Havia até
2 de ouro
com a bandeira italiana que eu havia recebido no Istituto D.Bosco do Cairo.
Quando estudara no Instituto Pio XII na Iputinga recebi uma de prata correspondendo ao terceiro primário.
Eram tantas as medalhas no meu peito que a inveja dos colegas estimulava sua crueldade infantil perguntando – Onde foi que comprastes? – Isto me fazia ficar com ódio.
Enfim este era Colégio Salesiano que não tinha nem um padre que merecesse a atenção mais acurada do Cel.
Ibiapina.
Ainda bem que ele não sabia das minhas atividades na TV Jornal do Comercio, canal 2 – poderia começar a perguntar pelas pessoas com as quais eu andava.
Não que alguma participasse de qualquer movimento, mas havia uma atriz, Zodja Pereira, cujo pai tinha sido preso e torturado pela revolução.
Só isto seria motivo para eventualmente buscarem-se ligações.
Sem falar do irmão de outro amigo do colégio com quem andava sempre.
Este fora preso distribuindo panfletos em um ônibus e ficou detido quase 2 anos.
Aliás este amigo com quem eu me identificava muito era o Dalvino Troccoli Franca e seu irmão é hoje ex-secretário do governador Miguel Arraes.
Dalvino, e eu, eramos colegas de mesma classe no Colégio Salesiano e por isto muito unidos.
Eles costumavam acampar e eu decidi que numa próxima vez participaria também da aventura.
Não era fácil convencer minha mãe, mas depois de algumas promessas e garantir alguns cuidados especiais pude aderir à excursão seguinte – acampar no rio Papocas.
O trecho do rio Papocas onde se acamparia situava-se na divisa entre o estado de Pernambuco e da Paraíba.
Na verdade naquele local era apenas um riacho.
Marcamos o dia da saída e na véspera já fui dormir na casa de Dalvino em Olinda.
Juntos e com o Albertino Alexandre Maciel Filho com quem fomos sempre os mais unidos, pegamos um ônibus até a Av. Norte.
Este foi o único transporte público oficial, a partir daí, a regra era de usar bigús - caronas.
No ponto de encontro devidamente acertado, todos os colegas foram chegando.
Alain Quérette, neto de franceses, Cláudio Duque, filho de um desembargador da Justiça estadual, Ricardo Coutinho que só levava um bloco de rapadura para fazer as refeições, Ovídio Pascual Maestre que era filho de espanhóis cujo pai tocava violino na orquestra sinfônica de Pernambuco e na orquestra da TV e Rádio Jornal do Comércio.
O Ovídio também estudava violino na Escola de música da Universidade Federal de Pernambuco.
O último chegara ao encontro e agora nos tocava conseguir um transporte para nós e nossas tralhas, para chegar ao destino.
Um caminhão parou atendendo aos nossos acenos e enquanto a maioria já subia na carroceria, o motorista informava que só poderia levar-nos até a entrada de Paulista.
É claro que aceitamos.
Já era meio caminho andado.
O trajeto da Av.Norte até a entrada de Paulista foi bastante rápido.
O caminhão estava vazio e não havia nenhum trânsito às 7 horas da manhã.
Descemos na Br.101 e conseguimos outro caminhão para continuar a viagem muito rapidamente.
Este nos levaria até o destino já que tinha intenção de viajar até João Pessoa.
Desta vez optei por ir junto com a turma em cima da carroceria não me interessando de novo pela cabine, como fizera no caminhão anterior.
A viagem lá em cima trazia um sabor de aventura, bem maior.
Nunca havia viajado na carroceria de um caminhão e nem imaginava que era tão ... desconfortável.
Se ficasse em pé, só estaria seguro se estivesse bem agarrado à peça de madeira instalada logo acima da cabine.
A carroceria era uma peça viva.
Mexia desesperadamente para todos os lados, principalmente para cima e para baixo.
Balançava e trepidava loucamente.
O jeito era sentar no chão da carroceria que nem por isto deixava de balançar, mas pelo menos a sensação de segurança era um pouco maior.
Afinal de contas encontrava-me no chão e quando muito poderia escorregar de um lado para outro nas curvas que, diga-se de passagem não existiam naquele trajeto.
A sensação de liberdade no entanto não tinha comparação com nada.
Em pé, logo atrás da cabine, tinha-se o vento forte batendo no rosto e inchando a camisa como se fosse uma vela.
A poeira e areia em suspensão na estrada também vinha com o mesmo vento, tirando qualquer figura poética do momento.
Estar em pé atrás da boléia de um caminhão, com a poeira batendo no rosto a 100 km por hora me trouxe à realidade rapidinho e entendi que ficar na cabine, bem sentado atrás de um parabrisa, podia não ser poético mas tinha enormes vantagens.
Mas agora era tarde.
Lá estava eu sentado no chão da carroceria de um caminhão correndo e corcoveando como um cavalo bravo.
Só queria que chegasse logo à divisa e a Papocas.
Chegamos finalmente por volta do meio dia.
A fome já havia iniciado seu processo inexorável de apertar o estomago de sua forma característica.
Na verdade nunca soube se realmente estava com fome porque era meio-dia ou porque era meio-dia estava com fome.
Ao chegar perto da ponte começamos a avisar o motorista para que parasse.
Descemos todos e descarregamos nossas tralhas.
O único que vestia botas de cano longo era eu, mas era para prevenir das cobras.
O único que levava uma mala era eu também, já que os demais levavam mochilas.
Eu não tinha mochila mas também era o único que estava levando camisas, calças e shorts bem passados, cuecas e camisetas para trocar a cada dia.
Na mala também levava chinelos de borracha e os alimentos.
Latas de sardinha, atum e salsichas, bolachas e biscoitos, sopa em pacote, abridor de latas, canivete multiuso, colher, garfo, copo de plástico, cantil para água.
Panela, frigideira, prato, fósforos, enfim uma quantidade bem grande de apetrechos para que não faltasse nada em nenhum momento.
Curativo, esparadrapo, mercúrio cromo, antiácido, remédio para dor de barriga, dor de cabeça, dor de dente, de ouvido, enfim, não podia faltar nada.
Como não levar uma mala? Os amigos até ensaiaram uma gozaçãozinha dizendo que um pouco mais precisaria de levar aqueles negros carregadores de safari da África.
Como não dei trela, a gozação parou logo.
Descemos do caminhão e saímos da estrada para debaixo da ponte, ao lado do rio PAPOCAS.
Havia uma espécie de prainha, com árvores altas, totalmente fora da visão da estrada.
Era preciso descer uma ribanceira de pelo menos 15 metros, o que não foi fácil carregando a tal mala.
A primeira atividade era armar a tenda do acampamento.
Tenda, maneira de dizer.
Os meninos levavam uma lona locomotiva que era pendurada numa corda amarrada entre duas árvores e cujas quatro pontas eram esticadas por cordas amarradas em paus enfiados no chão.
Nenhuma sofisticação portanto.
A tenda era apenas uma lona que era esticada sobre uma corda amarrada entre 2 árvores.
Vale ressaltar, que naquele tempo, não havia a venda tendas sofisticadas, e que nós víamos apenas nos filmes ou nas revistas de quadrinhos.
Acampar em Papocas era realmente quase uma aventura.
Após passar o dia tomando banho de rio, alguns de nós se dedicavam a preparar o almoço que consistia basicamente, e fazer uma sopa pronta, daquelas que vêm em saquinhos.
Além disso, a etapa importante, era fazer o café.
Esse, na verdade, era muito mais consistente, mais grosso, do que normalmente se tomava em casa.
Sobrava sempre muito pó de café em suspensão, e o jeito era se tomar aquela bebida sem qualquer filtragem.
Na verdade estávamos tomando, um café turco, embora não fosse essa, a intenção.
Quando anoitecia, acendia-se uma fogueira e ficava-se apreciando as estrelas. Estas existiam em muito maior profusão do que nas cidades. Na escuridão da noite viam-se muito mais estrelas do que normalmente.
Depois de comer qualquer coisa, subíamos até a estrada para apreciar o movimento.
Uma noite estávamos nós sentados na amurada da ponte, quando notamos que uma camionete que vinha no sentido João Pessoa-Recife parou a +/- uns 200 m e sentimos que as pessoas que estavam nela procuravam saber o que é que nós estávamos fazendo no meio da estrada à noite na amurada de uma ponte.
Com certeza, imaginavam que se tratava de um assalto.
Para evitar problemas, decidimos não ficar mais olhando o movimento.
Voltamos para o nosso acampamento e lá ficamos até a manhã seguinte.
Voltar para casa, era outro processo bastante complicado.
Lá estávamos nós, no meio da estrada, pedindo carona para voltar para Recife.
Pouquíssimos eram os que paravam para perguntar o que queríamos.
Apenas alguns caminhões de carga, se dispunham a ajudar.
Desde que nós ficássemos na carroceria.
Este era o nosso passeio, o nosso acampamento especial em PAPOCAS.
Uma viagem maior.
SOUZA- PB
Finalmente decidimos um dia, fazer uma viagem mais longa.
Olhando o mapa da Paraíba, decidimos em viajar até quase o fim da linha do trem.
O objetivo era chegar a Souza.
Feitos planos, nas férias de janeiro, decidimos pegaram trem ia acampar em Souza, da Paraíba. Os últimos dois vagões para levavam pessoas, de menor poder aquisitivo.
O importante era a mudança na qualidade do ar entre os vagões onde nós estávamos, e os últimos vagões do trem.
Logo no início da viagem, podia-se circular entre os vagões seguem problemas.
Com o tempo passando, as pessoas dos últimos vagões, começaram a fumar os cigarros de palha e que eram preparados por eles mesmos.
O cheiro da palha queimada, era insustentável a partir de um determinado momento.
Assim, deixamos de ir ver a paisagem da porta do último vagão, e voltamos para o nosso vagão e os nossos bancos confortáveis.
Também fizemos uma visita até a locomotiva.
Chegamos a circular pela parte externa, com todos os perigos a que estávamos submetidos naquele momento.
Aproximadamente que as 8 horas da noite, chegamos em Souza
Descemos do trem na estação como e apareceu a primeira dificuldade.
O onde ir para dormir ? na estação de trens, estavam parados alguns táxis.
Táxis em Souza, significava dizer Jeep.
Tomamos dois "táxis" e orientamos o motorista para que nos levasse até um hotel no Centro.
- "Hotel Central? " - perguntou ele .
- "É! Isso mesmo!" - dissemos nós.
Chegamos ao único hotel da cidade, que ficava ao lado da única praça.
Nenhum de nós levava dinheiro suficiente para ficar em quartos individuais.
Nem havia quartos suficientes, para atender individualmente a cada um de nós.
Decidimos então ficar todos num único quarto.
Era um quarto onde além de duas camas havia condições de pendurar duas redes, e foi o que fizemos.
Eu, grande e pesado, decidi dormir deitado no chão, apenas espalhando um cobertor.
Comemos ovo frito com um pão francês, e uma Coca-Cola.
Saímos do hotel e fomos dar uma volta na praça, para reconhecer o ambiente.
Na única praça da cidade, estava a única igreja da cidade.
Por volta das 11 horas decidimos ir dormir.
O quarto que estávamos hospedados, era construído com meia parede e consequentemente ouvíamos tudo o que era falado no quarto vizinho.
Quando estávamos instalados e prontos para dormir, alguém do hotel bateu na porta do nosso vizinho e chamou seu inquilino pelo nome de coronel.
Falando baixo, informou que havia um grupo de rapazes, que havia chegado naquela noite, que pareciam estrangeiros carregando armas.
Na verdade tanto Alain, como Ricardo o galego, Ovídio com seus olhos azuis, e eu, sugeriamos a quem nos visse que realmente seríamos estrangeiros.
As "armas", eram as nossas espingardas de caça.
Nem todos tínhamos uma espingarda mas efetivamente, olhando o grupo como um todo, percebia-se que estávamos carregando espingardas.
O tal coronel começou a querer saber mais sobre nossos planoa, de onde vinhamos, quantos éramos, o que queríamos, aonde íamos, enfim, as perguntas que normalmente se fazem para saber quem são os visitantes.
Nós, àquela altura, ainda não estávamos dormindo e ouvimos toda a conversa.
Estávamos na metade da década de 60, e naturalmente ouvir falar em coronel, era algo que nos preocupava bastante.
Apesar do título coronel ser honorífico no interior da Paraíba, Pernambuco e o nordeste em geral, ainda assim o termo nos fazia pensar em exército e nada mais.
Olhamo-nos silenciosamente, só imaginando como seria a conversa no dia seguinte.
Estávamos muito cansados para pensar em outra coisa a não ser dormir.
Pegamos no sono profundamente e eu fui o primeiro a acordar, como sempre com necessidade de ir ao banheiro.
Já estava ouvindo o movimento na sala ao lado, onde o tal coronel, já estava acordado e esperando por algum de nós.
Por mais que eu evitasse, as necessidades do corpo eram mais fortes, e eu tive que sair do quarto em direção ao banheiro.
Falei rapidamente um bom dia para os que se encontravam na sala, e não esperando a resposta andei apressadamente em direção ao banheiro.
Este se encontrava ao final do corredor, descendo alguns degraus e situado numa construção à parte do corpo principal da casa.
Fiquei no banheiro mais do que seria necessário ou até mesmo razoável.
Quanto tempo se consegue ficar em um banheiro fétido esperando? chega um ponto onde você consegue enfrentar qualquer coronel.
Decidi finalmente sair do banheiro e voltar para o quarto.
Ao passar pela sala lá estava o coronel aguardando-me.
Começou a perguntar tudo o que podia a respeito da gente.
Naquele momento, tive que criar uma história razoável, ou pelo menos, que parecesse razoável.
Inventei que tínhamos vindo para Souza encontrar o tio de um dos nossos colegas - o Ovídio, que morava em uma fazenda perto dali.
Deveria ter estado nos esperando na estação de trem, mas lá chegando não encontramos ninguém e por isto que vieramos procurar um hotel para pernoitar.
Na verdade não sabíamos o endereço da tal fazenda, porque estávamos com a certeza de encontrar o tio de Ovídio na estação, esperando.
Assim, agora, não sabemos mais o que fazer, para onde ir, já que não tínhamos dinheiro suficiente para ficar naquele hotel.
A história parece que foi aceita tanto pelo coronel como pelo dono do hotel.
Nos sugeriram então procurar apoio com a prefeitura, e nos deram orientações de como chegar.
A
turma
que não havia saído do quarto, mas ficara só ouvindo a minha conversa com o coronel e o dono do hotel, àquelas alturas começaram a "acordar".
Foram aparecendo na sala contribuindo com a minha história, enriquecendo-a com detalhes.
Decidi então ir até à prefeitura e explicar nosso caso solicitando informações de onde poderíamos acampar já que o tio de Ovídio, não aparecera para nos recolher na estação de trens.
O prefeito não se encontrava na cidade mas estava um rapaz que trabalhava na prefeitura e resolveu que ia nos ajudar.
Mandou um caminhão da prefeitura, nos recolher no hotel, e nos levar até uma fazenda que se encontrava à margem do Rio das Piranhas.
Todos subimos na carroceria do caminhão e fomos até a tal fazenda.
O caminhão nos levou até uma clareira junto ao rio e embaixo de uma árvore muito frondosa.
Desceremos rapidamente da carroceria e começamos a montar o nosso acampamento.
O local era muito bom.
Longe de qualquer casa, estrada, movimento, etc.
Depois de armarmos a tenda embaixo da árvore, prepamos uma fogueira para esquentar o almoço. Veio nos visitar um velho que era o zelador da fazenda.
Com ele veio o seu neto de aproximadamente dez anos.
O velho, naturalmente, queria saber quem éramos.
E lá fomos nós, contar novamente a tal história do tio de Ovídio.
Ele começou então a falar dos cuidados que devíamos ter para dormir naquele lugar.
Falou que por ali vivia, ou se encontrava, o lobo guará.
Nós nunca tínhamos ouvido falar em tal lobo e o velho começou a explicar que era um animal do tamanho de um cachorro e de perna fina e orelhas grandes.
Nós dissemos que não havia perigo porque à noite nós acendiamos uma fogueira.
O velho dise que o lobo não tinha medo de fogo.
Falamos então que a nossa tenda ficava junto à margem do rio e portanto a salvo.
O velho falou que o lobo nadava sem problemas.
Enfim, o lobo era o cão.
Não havia jeito de nos salvarmos se aquele animal decidisse atacar.
Alain decidiu mostrar então um facão que tinha levado.
O velho pegou no facão e balançando entre as mãos a sua lâmina, falou -
- "Ahhh! - é de flandres!"
Ou seja, seria de zinco.
Um material muito fraco e maleável para se considerar capaz de nos defender.
A risada do velho, dizendo que o facão era de flandres, é algo que até hoje não posso esquecer.
De qualquer jeito, aquele era o facão que nós tínhamos, de flandres ou não.
O neto do velho ficou conosco um pouco mais, mesmo depois que o velho foi embora.
O menino era na verdade um sádico.
Carregava no cinturão uma faquinha, metida numa bainha de couro.
Usava um chapéu de couro do tipo cangaceiro-mirim.
Ficou conosco, mostrando o arredores.
Nossa certeza de que se tratava de um sádico aconteceu quando nos contou para que queria aquela pequena faca.
Servia para tirar os olhos dos passarinhos que conseguia pegar.
Supostamente, os passarinhos cantavam melhor sem os olhos.
Na verdade aquele sádico era na verdade um apreciador da música dos passarinhos.
Depois de
passar o dia
explorando o
rio
, tomando banho de costas, afinal de contas o nome do rio sendo "das piranhas" não deixava que pudéssemos tomar banho despreocupados.
Ao chegar a noite, na hora de dormir, eu era o primeiro a me deitar.
Com isso podia escolher o centro da tenda, e com isto deixar que os outros ficassem nas pontas, eventualmente mais ao alcance dos animais que resolvessem nos visitar.
Junto com Maciel, Dalvino e Ovídio, passamos lá apenas três dias e decidimos voltar para casa.
.
O velho mandou uma carroça puxada a burro, para nos levar de volta até a cidade.
Ao chegar lá fomos até a estação de trem e ficamos sabendo que o trem para Recife, só sairia de lá, às 11 horas da noite.
Nós ainda estávamos apenas no final da tarde e compramos os bilhetes. Pedimos para deixar as malas guardadas, lá mesmo na estação.
Voltamos então para a cidade, para ver se comíamos algo em alguma a lanchonete.
Entramos, sentamos em uma mesa e pedimos alguma coisa para comer.
Logo em seguida aproximou-se um sujeito que notava-se bastante embriagado e que começou a perguntar sobre quem éramos e o que fazíamos alí, naquele lugar.
Começou a contar que duas semanas antes haviam estado lá alguns gaúchos que terminaram numa briga de faca e que várias pessoas haviam se ferido naquela ocasião.
Nós começamos a ficar bastante apreensivos com aquela conversa e dalí a pouco resolvemos sair de lá imediatamente e procurar a delegacia de polícia para que nos dessem alguma proteção.
O policial que estava lá era muito educado e nos contou que realmente duas semanas antes havia ocorrido uma briga bastante séria naquele bar e que algumas pessoas haviam ficado bastante feridas.
Contou-nos ainda que lá por perto haviam sido encontradas pegadas de dinossauros o que motivara alguns pesquisadores americanos a visitar o lugar e verificar o que havia por ali.
Na verdade o pessoal da cidade estava desconfiado de que não era nenhuma pegada de dinossauro que os americanos estavam procurando mas alguma a mina de pedras preciosas ou alguma jazida de petróleo.
Com isto tinham ficado bastante irritados com os americanos, posteriormente com os gaúchos, e agora estavam vendo a história se repetindo conosco naquele lugar sem conhecer ninguém e sem saberem o que estávamos fazendo em Souza.
Nos disse que não havia como oferecer qualquer tipo de proteção porque estava ele sozinho na delegacia, cuidando dos presos na carceragem.
Que a única coisa que podia fazer era deixar-nos ficar ali na sala até a hora de ir para a estação.
Ao chegar a hora ele nos conseguiu uma viatura para levar-nos até o trem.
Aguardamos o trem em uma sala abandonada da estação, e quando o trem chegou fomos os primeiros a abordá-lo.
Enfrentamos a viagem de volta até Recife de uma forma muito mais tranquila do que na ida, pois sendo uma viagem noturna dormimos boa parte dela.
Chegamos ao Recife pela manhã e lá estava meu pai e o pai de Dalvino para nos receberem.
Não posso dizer que tinha sido uma viagem muito boa, mas pelo menos nos deixou uma lembrança e a certeza de que nossas viagens futuras deveriam ser muito melhor planejadas.