CAPÍTULO 2
A viagem no “SKANDERUM” foi relativamente curta.
Seu trajeto foi do Cairo a Nápoles, na Itália e durou 3 dias.
Era um navio de nacionalidade turca e as instalações para os imigrantes de 3a. Classe, como nós, eram divididas entre a hospedaria de mulheres e crianças, que congregava entre 10 e doze beliches e a hospedaria dos homens, com outros tantos.
Ficava ao nível do mar e as escotilhas redondas viviam quase sempre fechadas, o que fazia o forte cheiro de maresia, pintura do navio, graxas e combustível, quase que insuportável.
Eu dormia no beliche de cima e minha mãe no de baixo.
Encontravamo-nos com papai no café da manhã, no restaurante próprio para a 3a. Classe.
Muito pouco se podia comer, já que o estômago, embrulhado como estava, não permitia gostar de nenhuma comida.
Não tenho muitas lembranças destes três dias.
Ainda bem.
Lembro dos corredores infinitos e das escadas que tínhamos que percorrer para ir até o salão de dormir ou até o banheiro, naturalmente comum e externo.
Chegamos a Nápoles e naquela cidade tivemos realmente o início de umas férias, que nos levou a conhecer a praça onde em Setembro, os devotos iam verificar o milagre da liquefação do sangue de San Gennaro.
No hotel em que ficamos lembro de acordar com um vendedor de frutas que quase de madrugada gritava - É oooora! Vendia uva.
A uva mais doce que conhecemos.
Neste hotel, que não lembro do nome, estavam hospedados também os tios Dodo e Clara, que viajaram conosco no mesmo navio.
Uma noite os dois vieram ficar no nosso quarto contando o que havia acontecido no deles.
O tio Dodo tinha percebido a existência de uma protuberância no teto de gesso sobre a cama em que dormiam, já há alguns dias.
Naquela noite aconteceu o desastre.
Acordaram com a queda do forro sobre eles e com o acompanhamento de um banho de água.
Havendo chamado imediatamente o responsável, este desculpou-se dizendo que não podia fazer nada porque o cano de água havia estourado e repetia a todo momento - “U cannolo ha crepato”.
O cano “morreu”.
Foi motivo de riso e chacota durante vários anos.
Em Nápoles visitamos a praia e à noite Santa Lucia.
Lá um passeio aos pés de uma série de estátuas de homens e mulheres nuas, ou quase.
Com oito anos foi estranho ver aquelas estátuas cobertas apenas com uma folha de parreira.
Fomos a um restaurante em “Margellina”, um local ao ar livre que vendiam as melhores pizzas jamais provadas.
Cada pizza era individual, e nem cabia direito no prato.
Zio Dodo e zia Clara viviam reclamando do estômago e de comer pesado à noite.
Mas o tio dizia, “Não faz mal, depois a gente toma Sal de Frutas e tudo bem.
” E assim passaram durante todo o tempo em que estivemos na Itália, a ótimas comidas, vinhos e acompanhamentos e ... Sal de Frutas.
De trem saímos de Nápoles e fomos a Roma.
Lá lembro de haver estado nos passeios tradicionais de todo turista.
A Fontana de Trevi
, a Basílica de São Pedro, o
Coliseu,
os Jardins da Villa Borghese e o Altar da Pátria.
Um monumento onde, ali perto, encontramos estátuas de bronze fundidas na Fonderia LAGANÁ.
Algum familiar.
Pela primeira vez cheguei a ver o nome Laganá relativamente a alguém fora da família conhecida e foi realmente uma sensação estranha.
Foi a única vez que tive um sentimento de pertinência, como se aquele local fazia parte da nossa vida.
Não se tinha essa sensação no Cairo e posteriormente, no Brasil tampouco.
Seu nome não dizer nada, não achar ninguém que o conheça é uma sensação difícil.
Naquele momento em que encontramos uma plaquinha no pé de uma estátua, referindo-se ao nome da nossa família suscitou uma alegria, misto de orgulho e honra.
Seu nome estar numa estátua no Altar da Pátria em Roma.
Puxa! Foi bom achar aquela indicação, na verdade foi uma atração a mais.
Em Roma fomos visitar alguns parentes.
Meu pai tinha um primo que trabalhava na FAO e morava em Roma com a mulher e os dois filhos.
A mulher, uma pessoa generosíssima porém com mania de perseguir moscas.
De repente, no meio da conversa, subia na cadeira e mandava um pano que sempre carregava, em direção às moscas, seja lá onde estivessem, inclusive contra um enorme lustre de pingentes de cristal, sem qualquer cuidado.
Era uma figura e a sua imagem pendurada numa cadeira e atacando as moscas, até hoje permanece.
Foi na sua casa que pela primeira vez vimos televisão.
Fiquei com o olho grudado durante todo o tempo da visita e considerei que aquele aparelho era a melhor das invenções, vistas até aquela data.
Após Roma, novamente de trem até Milão, quando nos encontramos com a irmã de papai - Adelina e seu marido armênio - Giorgio.
Eles também programaram viajar juntos, em direção ao Brasil.
Sua perspectiva, junto com os tios Dodo e Clara era de seguir viagem até o Rio de Janeiro, enquanto que nós permaneceríamos no Recife, onde se encontravam meus avós.
Em Milão visitamos a catedral gótica do Duomo e a Galeria em frente.
A coisa mais próxima de um Shopping Center, onde perambulavam vários pares de
Carabinieri.
Soldados vestidos de preto, com um chapéu napoleônico com um penacho vermelho no centro, o que os fazia parecer mais altos ainda.
Carregavam um enorme sabre e quando paravam se apoiavam no sabre como se fosse uma bengala.
A viagem na Itália terminou em Gênova, onde ficamos hospedados na casa de um tio de papai.
Ele com a esposa eram um par de anjos.
Tínhamos que ali pegar uma encomenda da minha avó para levá-la ao Brasil.
Quando ela passara por lá, 2 anos antes, havia deixado uma chapeleira e nós tínhamos que levá-la.
Foi aí em Gênova que me compraram um par de botas de cano alto, de borracha brilhante, próprias para enfrentar as “cobras da floresta tropical”, aonde estávamos indo e um sobretudo impermeável de gabardine, até os joelhos, igualmente para enfrentar as chuvas torrenciais.
Dois passeios ficaram na lembrança.
A colina da Igreja de
N.Sra.da Guarda
que por ser meados de outubro e estar a 1800 metros de altura, fazia um frio de rachar.
O segundo passeio foi inusitado - O Cemitério de Gênova.
Não foi para visitar qualquer parente mas para apreciar os mausoléus.
Verdadeiras obras de arte, com estátuas em várias cores de mármore e de bronze.
O cemitério fica na encosta de uma colina e de lá se vê ao longe o mar mediterrâneo e o porto de Gênova.
Estava se aproximando o dia da grande viagem para cruzar o Oceano.
A viagem definitiva, para uma nova terra, para uma nova vida.
Muito esquisito se olhar o porto, com a perspectiva de uma nova vida, estando num cemitério.
Por mais bonitas as estátuas, o local trazia tristezas, mesmo que você não conhecesse nenhum dos mortos que ali estavam.
De Gênova, as lembranças não foram muitas e todas muito emocionais.
Os últimos dias na “pátria”.
Uma pátria que só se conhecera durante três meses mas que causava um impacto muito esquisito.
Todos na rua falavam a mesma língua, a língua que se falava em casa.
Todos lhe entendiam, ou quase, já que nós italianos do Egito já havíamos incorporado várias palavras árabes, ao linguajar.
“Ialla”, para estimular que algo acontecesse rapidamente, foi a palavra mais forte.
Até hoje, 40 anos depois, ainda é algo que não se esqueceu e agora está incorporado ao português.
Aliás esta expressão de “italianos do Egito” tem uma conotação terrível.
Quando quer se dizer que algo é falso, na língua italiana se diz que é do Egito.
Com isto, sempre havia um misto de mofa e gozação quando os atendentes dos hotéis, ao fazer o registro, afirmavam alto que éramos italianos do Egito.
Parecia que éramos falsos, enfim nem mesmo na Itália éramos considerados autênticos italianos.
Enfim, chegou o dia da viagem, 28 de outubro de 1956.
O navio era um monstro.
Um enorme
transatlântico
com 2 chaminés e uma quantidade infindável de andares, ligados com escadarias e elevadores.
O navio era o Conte Grande que junto com o Conte Biancamano faziam o trajeto da Itália às Américas.
Era ali o momento de uma nova vida.
Embora ainda criança, tinha consciência de que algo diferente estava para acontecer.
Embora a Itália fosse um país desconhecido, as pessoas falavam a língua que se entendia.
A partir daí a coisa ficaria diferente.
Nem local conhecido e nem língua compreensível.
A viagem começou e logo na primeira
escala
se teve contato com diferentes costumes e língua.
Chegamos a Barcelona à noite do primeiro dia.
Descemos do navio e logo fomos abordados por um sujeito que vestia um “smoking” e falando em italiano explicou que estava com a mãe doente e que precisava comprar algum remédio.
Acho que papai colaborou com algum dinheiro, mais para que aquele sujeito se afastasse, do que por acreditar na sua história, embora tivesse sido a primeira vez que alguém tão bem vestido e falando italiano pedisse esmola.
O costume era enfrentar os árabes, vestindo “ghalabya” e falando árabe.
Logo em seguida o sujeito se afastou e o vimos entrando numa “cantina”.
Seguramente sua mãe não estava lá, mas apenas um bom copo de vinho.
A viagem seguiu e na noite seguinte aportamos em Lisboa.
Foi o primeiro contato com a língua portuguesa.
Lembro de meu pai comentar que se era assim que se falava no Brasil, teria sido enganado pelo seu instrutor de português no Cairo.
Não era aquela a língua que havia estudado.
Vários camponeses portugueses subiram no navio como passageiros para o Brasil.
Viviam em grupos, sentavam no chão em rodas e tocavam acordeão.
As músicas eram estranhas, nunca ouvidas antes.
Não havia meio termo, ou eram muito animadas que levavam todos a dançar e bater os tamancos no chão ou eram lamentos tristes.
Só foi mais tarde que passei a conhecer os “viras” e os “fados”.
O ambiente da 3a. Classe piorara sensivelmente.
As crianças dos camponeses portugueses não eram muito limpas e nem mesmo seus pais e mães, vestidas com roupas pretas, longas e com xales suados e malcheirosos.
O navio deixara a Europa em direção à sua última escala - Dakkar, no Senegal.
Chegamos na tarde de um domingo e não havia nenhum comércio aberto.
Na verdade havia apenas o comércio de artesanato de ébano, com estatuetas de bonecos negros da cabeça grande.
Um negro, falando francês aproximou-se querendo vender uma estatueta.
Uma beleza de peça.
Não lembro quanto pediu mas meu pai, acostumado ao sistema árabe, pechinchou.
Ofereceu acho que a metade, esperando que na barganha se chegasse a um acordo.
Na verdade não esperava a reação do senegalês.
Este ficou irado e ofendido e saiu esbravejando contra meu pai dizendo ‘Vous êtes fou! “Você está louco!” Saiu andando e olhando para trás com uma cara de poucos amigos e esbravejando a alta voz.
Foi uma impressão e tanto mas não tão forte quanto a que causaram as mulheres nativas.
Altas e magras algumas e carregando entre os panos as suas criancinhas, nas costas.
Os seios nus à mostra, com uma peculiaridade impressionante - pareciam braços de tão longos.
Serviam para continuar amamentando seus bebês, mantendo-os às costas e fazendo, seus afazeres.
Não foi fácil ficar olhando, minha mãe evitava que eu visse, dizendo que poderiam não gostar.
Realmente, uma imagem impressionante.
A última do continente africano.
À noitinha o navio zarpou, em direção ao outro lado do mundo.
A impressão foi um pouco de descobridor, de pirata, de aventuras.
O desconhecido.
O que se sabia do Brasil, naquela época? Pouco ou quase nada.
Carmen Miranda, era o nome mais conhecido e por mais que se soubesse que aquelas roupas que ela usava eram fruto da fantasia de Hollywood, lá dentro se imaginava que se fosse encontrar as mulheres do Brasil, vestidas daquela maneira.
Não só não se conhecia nada do Brasil como o que se imaginava saber era distorcido, era um pouco México, um pouco Argentina.
Tanto era assim que num carnaval, havia ganho um “sombrero” de palha mexicano, vesti um pijama e com uma toalha de banho no ombro e uma espingarda de brinquedo tirei um
retrato que enviamos
aos meus primos que já estavam no Brasil, indicando que já estava me acostumando ao clima que ia ser encontrado.
A
viagem foi calma,
ao se passar a imaginária linha do Equador, o navio fez uma festa, mesmo para nós da terceira classe.
Estávamos em dois camarotes.
Um na ala das mulheres e crianças, onde estávamos minha mãe, a tia Adelina, a tia Clara e eu, e na ala dos homens estava o camarote de papai, o tio Dodo e o tio Giorgio, que compartilhavam o camarote com um velhote que carregava uns enormes queijos provolone pendurados no beliche de cima.
O navio chegou à tardinha no porto do Recife e estavam nos esperando os avós Tonino e Maria.
Os tios não desembarcaram no Recife, seguindo viagem para o Rio de Janeiro.
Um carro de um amigo de vovô ajudou a levar as malas, as mulheres e crianças- eu.
Meu pai e meu avô foram de ônibus até Camaragibe - uma viagem.
Do porto do Recife até Camaragibe, no município de São Lourenço, são pelo menos 40 Km, que naquela época, sem avenidas grandes e desimpedidas tornavam a viagem de quase 2 horas.
A casa onde morava o meu avô, pertencia à fábrica de tecelagem dos Lündgren e como não havia eletricidade pública, a fábrica mantinha uma pequena usina de geração de energia com dois enormes motores diesel da Sülzer - alemã.
A casa era enorme.
Tinha um alpendre em toda a lateral e uma sala dividia a ala onde meus avós tinham o seu quarto e a ala onde o corredor levava à copa e cozinha.
A casa tinha mais um quarto para nós três, uma saleta de estar, junto ao salão principal, uma cozinha, despensa e apenas um único banheiro, no final do corredor, dando para o quintal.
Para se chegar ao quintal, saia-se da copa e se tinha acesso a uma escada de 8 a dez degraus onde uma enorme mangueira dava sombra para todo quintal.
Havia as dependências dos empregados, ao lado da copa, dando para um corredor aberto que levava a outra escada que permitia o acesso à área de lavanderia e cozinha dos empregados que tinham um fogão a lenha.
Coisa que eu jamais havia visto.
Esta casa era gêmea.
Ou seja dividia uma parede com outra casa exatamente idêntica onde moravam os donos da fábrica - a família Collier.
Tinham sido eles a emprestar um Jeep Land-Rover com motorista para nos trazerem do porto.
Meu pai e meu avô vieram de ônibus, que naturalmente não entrava até a fábrica, mas tinha uma parada na estrada principal que se dirigia até São Lourenço da Mata.
O resto tinha que ser percorrido a pé.
Uma caminhada de pelo menos dois quilômetros numa estrada de paralelepípedos que levava até a fábrica de Camaragibe.
Esta estradinha era totalmente coberta por árvores e a maioria azeitona doce.
Chegando à noite, a iluminação quase não existia, já que os poucos postes com lâmpadas comuns não permitiam grande visibilidade.
Quando papai chegou começou contando as primeiras impressões.
Havia desconfiado que houvessem homens escondidos entre as árvores, no trajeto que percorreu a pé, que assobiavam chamando-os.
Só mais tarde é que meu avô explicou que eram sapos.
Os sapos assobiavam um longo silvo, idêntico ao chamado de um assobio.
Por mais que confiasse no seu pai, acho que demorou, até acreditar que eram apenas sapos.
Aliás o meu avô era especialista em contar histórias fantásticas.
Logo nos primeiros dias ele contou os detalhes dos animais do Brasil e que nos deixavam absolutamente estarrecidos.
Falou das aranhas peludas, do tamanho de uma mão grande fechada.
Falou das onças que tinham três pêlos atrás de cada orelha e que subiam em árvores e que eram como tigres enormes.
Contou das cobras que poderiam ser encontradas.
Algumas eram capazes de engolir um boi inteiro, devido ao seu tamanho.
E mais, os insetos.
Este mereciam um cuidado especial.
Havia alguns - chamados “maruim” que eram pequeníssimos.
Do tamanho de uma cabeça de alfinete, pretos.
Mas que causavam uma dor intensa com sua picada, tão forte que se muitos atacassem, a pessoa poderia até morrer.
Para se defender dos maruins se tomavam duas providências.
A primeira era colocar estopa em uma lata redonda de cera e se tocava fogo, deixando que a fumaça afastasse os insetos.
A segunda era dormir com mosquiteiros.
Uma tela enorme de tule, colocada sobre as camas onde deveria se permanecer cuidando para que nenhum inseto penetrasse aquela rede.
O cheiro da estopa queimando era característico da casa dos meus avós.
Uma alternativa era a espiral Sentinela que fazia o mesmo efeito, com um cheiro um pouco mais agradável, porém com uma duração bem menor.
Estávamos impressionados com as histórias de animais e insetos.
O Cairo, naquela época, era uma cidade grande e desenvolvida, quase européia.
Com todos os confortos de uma metrópole.
Recife e principalmente Camaragibe, era quase o protótipo do atraso e da pobreza.
A começar pela água, tudo deveria ser bem cuidado.
Enquanto que no Egito, naquela época se podia beber a água diretamente da torneira, pela segurança do seu tratamento, até hoje - 40 anos depois, ainda não é possível fazê-lo, em nenhuma cidade do Brasil.
A água tinha que ser filtrada em recipientes de barro onde passava por uma vela de um material poroso, onde deixava o depósito de sujeira.
Até hoje o processo é o mesmo.
Um pouco mais sofisticado, já que se aboliram os depósitos de barro, mas a passagem por uma vela, seja de material poroso ou de carvão ativado, é o mesmo.
O que salvava o lugar era a jovialidade e a amizade das pessoas.
Rapidamente descobrí a existência de uma porta que da área de serviço, onde estava o fogão a lenha, dava para uma ruazinha onde havia várias casas de empregados da fábrica.
Não sei como, mas conseguí conhecer duas irmãs que deveriam ter entre 14 e 17 anos, com quem tentava me comunicar.
Achava interessantíssimo o pai delas cavalgar um jumento.
Aliás até hoje acho que ele não gostava de mim .
Acho que me dava bronca toda vez que me via por perto.
Digo “acho” por que eu não entendia nada do que ele falava.
Uma das broncas foi quando, estando na sua casa, decidi subir a escada que dava para os quartos.
Acho que entendi o “não... alguma coisa” que ele gritava.
Enfim, nunca mais tentei subir e nem mesmo entrar naquela casa.
Só “conversava” com as meninas até perto da hora dele voltar para casa, aí voltava correndo.
Muito diferente era a sua mulher - D.Amália.
Lembro do nome por causa da primeira musiquinha brasileira que aprendi, que a meu ver se referia a uma mulher com o seu nome - “Eu vou para Maracangalha, eu vou. Eu vou convidar Anália, eu vou.”
Havíamos chegado, ao Brasil, no dia 07 de novembro de 1956 e à custa de gibis, das tentativas de comunicação com aquelas duas irmãs e de acompanhar juntamente com a minha avó as radionovelas matutinas, fui aprendendo a nova língua.
Havia muitos costumes diferentes.
O primeiro que nos pareceu esquisito era o adotado pelos fiéis, nas missas de domingo.
A fábrica tinha uma capela onde, aos domingos pela manhã era rezada a missa.
A capela era um galpão da fábrica e os homens sentavam de um lado e as mulheres do outro.
Todos com sua melhor roupa.
A maioria dos homens de terno branco, de linho, super engomado.
As mulheres com uma fita azul e medalha de filha de Maria, pendurada no pescoço.
Em dezembro chegou o primeiro Natal.
Foi a minha avó que nos seus comentários me fez entender a inexistência de Papai Noel.
Naquele ano, pela primeira vez ele não veio pessoalmente.
Os presentes “apareceram” sobre a mala que estava debaixo da minha cama.
Não esqueço o que ganhei - dois gibis e um conjunto de sabre e pistola de pirata, feitos de plástico.
Não lembro dos presentes dados diretamente pelos meus avós.
Aliás conhecer meus avós paternos era algo novo.
Eles sempre moraram longe e afastados, quando morávamos no Egito.
Pouquíssima era a minha intimidade com eles.
Eles tentavam uma maior aproximação.
Meu avô me levava consigo para ver o funcionamento da usina e da fábrica de tecelagem.
A usina termoelétrica subsistiu até 1959 quando com a inauguração da hidroelétrica de Paulo Afonso, tornou-se obsoleta para prover a energia necessária à fábrica, com custos compatíveis.
A usina fechou e com isto meu avô viajou para o Rio de Janeiro onde estavam os outros três filhos e ele tinha a tal casa de Jardim Primavera.
Minha avó me levava até o mercado São José, de ônibus, para comprar salsichas e peixes frescos.
Nestes passeios ganhava gibís e algo muito estranho - pipocas confeitadas, que eram vendidas por ambulantes, na parada de ônibus nos Correios, no centro da cidade do Recife.
Era uma pipoca inchada, gorda e lisa, que não mais se encontra, desde que começaram a aparecer as pipocas estouradas em flocos, estilo americano.
Conhecer a cidade incluiu a praia de Boa Viagem onde se ia de ônibus até o terminal, onde a pracinha tinha uma igrejinha e em frente o Hotel Boa Viagem, à beira mar.
Ali ao lado havia várias casinhas onde alugavam roupas de banho ou serviam para trocar de roupa e guardá-las em pequenos armários.
Era o mais parecido que havia com as cabines que se encontravam na praia de Alexandria, no Egito.
O dia na praia era um tormento.
Enfrentar uma viagem de dois ônibus, por hora e meia pelo menos, desde Camaragibe até o terminal de Boa Viagem, passar o dia no sol, sem nenhuma sombra ou guarda-sol, sem a possibilidade de um banho de água doce após o banho de mar, e enfrentar o retorno, com o corpo peguento e a pele vermelha como um índio americano, era um suplício.
Acho que até hoje não gosto de praia, em função destas lembranças de infância.
Neste período em Camaragibe, minha mãe meio chorando, me chamou uma noite e junto com papai tiveram uma conversa da qual entendi muito pouco, mas se tratava de uma espécie de decisão que tinha que ser tomada e que eu deveria tomar parte.
Minha mãe me disse - “Filho, você sabe que mamãe vive doente”.
- Eu não sabia.
- “Precisamos saber uma coisa. Você prefere ter um irmão ou sua mãe com saúde? Para ter um irmão, sua mãe precisaria fazer uma operação, que é sempre perigosa. Agora, se você não faz questão, com outro tipo de tratamento sua mãe pode melhorar, rapidamente.”
Só muito mais tarde foi que entendi que aquelas visitas semanais que fazíamos, na Rua Manuel Borba, no Instituto de Raios X, era o tratamento para “queimar” os seus ovários que deveriam ter cistos, possíveis de serem extirpados com uma intervenção cirúrgica.
Minha mãe, muito cedo deixou de produzir hormônios, coisa que acelerou seu processo de envelhecimento e sua atual osteoporose.
É claro que minha decisão naquele momento foi a de preferir a minha mãe a um eventual irmão.
Com o início do ano novo houve necessidade de se pensar em escola e fui matriculado no
Instituto Pio XII,
que tinha as quatro séries do primário e pertencia ao Prof. Lucena e sua esposa D.Camila.
O Instituto ficava no Cordeiro, na Av.Caxangá, do lado em direção ao centro, onde passava o bonde.
O bonde estava nos últimos momentos de serviço, tanto que logo mais uns 6 meses ou pouco mais, deixou de funcionar.
Não era nenhum transporte especial, mas é uma lembrança interessante.
Meu pai conseguira emprego no Jornal do Commércio, quinze dias após haver chegado.
Com isto alugou-se uma casinha de 3 quartos, na Iputinga, onde nos mudamos em fevereiro de 1957, já que meus avós maternos, minha tia Nelia com sua filhinha Daniela, de dois anos e a prima de minha mãe Gemma, que chamávamos Titta, haviam decidido que não poderiam continuar mais no Egito e pretendiam vir em breve para o Brasil.
O Canal de Suez estava sendo invadido pelos ingleses para garantir o seu acesso e consequentemente se enfrentavam os bombardeios aéreos.
Tive que ser inscrito na segunda série primária, apesar de haver já cursado aquela mesma série no Cairo, já que não sabia nada de português, nem História ou Geografia do Brasil.
O primeiro dia de aula foi uma emoção para minha mãe, mais do que para mim.
Ela levou-me para a aula e lá as turmas perfiladas cantaram o Hino Nacional brasileiro.
Tudo era estranho.
No Egito a escola era européia e todos os colegas também o eram.
No Brasil, todos eram brasileiros, menos eu.
Era quase como se estivesse de repente estudando numa escola com os árabes.
A cor da pele, morenos e negros na sua maioria, aproximava a idéia.
Foi um período muito difícil.
As crianças sabem ser cruéis e aqueles novos coleguinhas nunca haviam visto um estrangeiro.
Gozavam tudo o que eu dizia e como eu dizia.
Imitavam debochando, tudo o que eu falava.
Tive problemas até com meu uniforme.
A escola requeria uma calça curta ou longa, de “tropical” azul marinho e uma camisa bege de mangas curtas com um modelo próprio, onde só era aberta a gola, até o início do osso externo.
A camisa foi costurada a mão pela minha mãe, já que não se tinha máquina de costura e para calça passei a usar uma calça curta azul, que já tinha.
Este era um short com elástico e sem cinto.
A vice-diretora, D.Carminha, chegou a me chamar, afastado dos demais alunos, para perguntar se aquele não era um calção de banho.
Não foi fácil explicar e acho que somente se acalmou quando percebeu que eu não deixara de usar cuecas.
Aliás, naquele tempo, só as crianças muito pequenas podiam usar calças curtas.
Os maiores e os adultos, nem pensar de usar shorts fora da praia.
No Egito era comum se usar calças curtas, os inglêses haviam implantado este costume para os europeus e chegavam a usar uma farda caqui onde usavam shorts como uniforme regular.
A primeira vez que papai saiu de casa, de short, e foi até a padaria na Av.Caxangá, comprar o pão, causou um alvoroço.
Todas as pessoas ficaram olhando curiosas e fazendo comentários.
Nunca mais saiu de casa daquela maneira.
No meu caso, que era criança com 8 anos, apesar da minha altura, minha mãe insistia que só deveria usar calças compridas a partir dos 14 anos, como era praxe, no Egito.
Foi motivo de muitas discussões e brigas.
Eu insistindo na necessidade de calças compridas e ela insistindo nas calças curtas.
Durante este período aguardando a chegada do restante da família, papai e mamãe se dedicaram a mobiliar a casa.
Compraram um guarda-roupas de três portas, uma mesa extensível com buffet e oito cadeiras, uma cama de casal para eles, um berço para minha prima e mais cinco camas-patente para meus avós, minhas tias e para mim.
Os colchões foram todos de capim, que eram resistentes quando novos, mas também bastante cheirosos.
Comprou ainda um fogão e uma mesinha pequena e retangular para a cozinha, que ele revestiu com uma folha de zinco e pregos.
Serviria para a preparação da comida.
Conseguiu ainda uns caixotes de madeira, na época em que tanto os produtos de limpeza, como o sabão em barra e as enlatados eram acondicionadas neles.
Ainda bem, porque hoje tudo vem em papelão, e a alternativa adotada não teria sido possível.
Os caixotes serviram para, muito habilidosamente, se fazer vários móveis.
Principalmente estantes que naturalmente, para evitar portas e ferragens, as estantes tinham cortinas de fazenda, onde mamãe costurarara alguns anéis de metal que eram enganchados em pequenos pregos instalados na parte superior.
Foi assim que aguardávamos o resto da família.
Devem se perguntar sobre a geladeira, se não esqueci de mencionar.
Não, não foi comprada nenhuma geladeira e tampouco nenhum outro eletrodoméstico.
Nem rádio havia e a casa era muito silenciosa, principalmente à noite.
Líamos.
Os gibis em italiano eram mantidos como verdadeiros tesouros.
Não eram muitos e por isso mesmo eram cuidados com muito carinho.
A falta de geladeira foi suprida com a amizade de quatro famílias vizinhas, que muito amáveis ofereceram espaço nas suas geladeiras, para acomodar nossos perecíveis.
A carne ficava na geladeira de D.Yolanda, uma negra carioca com vários filhos.
O mais velho - Zeca, era alto e magro e tinha uma bicicleta MSM, da Mesbla, que era uma das minhas invejas.
As bicicletas, no geral, naquela época traziam como equipamento padrão, um farolete alimentado por um dínamo.
O dínamo era um aparelhinho que ficava instalado na roda traseira e que quando se queria que alimentasse o farolete era inclinado para fazer contato com o pneu traseiro.
Ao se correr, o pneu girava a cabeça do dínamo e este gerava energia para fazer o farolete funcionar.
Além do farolete da frente, o dínamo também alimentava a lâmpada vermelha traseira.
As bicicletas também vinham com pára-lamas, estojo de ferramentas, bomba de ar e até bagageiro.
Agora, a bicicleta MSM tinha uma pintura especial, parece até que mais brilhante que as outras e era mais cara.
Eu desejava ardentemente uma bicicleta.
Não havia nada que eu mais quisesse.
Sentia muita falta de todos os meus brinquedos que tiveram que ser deixados para trás.
Não havia condições de se comprar uma bicicleta.
Assim a solução era o aluguel por uma hora.
O Zeca ia buscar e levar a bicicleta na loja de aluguel que se encontrava na av.Caxangá para que eu a usasse durante uma hora.
A irmã do Zeca, a Helena, era muito simpática e brincalhona.
A verdura ficava na guarda de D.Esmerita, que tinha duas filhas, mais próximas da minha idade.
Eli e Letinha, que era uma verdadeira bonequinha.
Todas as tardes, após o banho, vestiam-se com vestidos rodados, cheios de anáguas engomadas, com uma enorme fita na cintura, amarrada em um laço nas costas, combinando com o laço nos cabelos.
Sapatinhos brancos de verniz, com uma tirinha no dorso do pé e um botãozinho do lado.
Ficava-se brincando de roda e de passar anel.
Isto tudo, no meio da rua.
Já viu que não havia qualquer movimento de automóveis.
Na verdade, apenas passavam bicicletas, carroças e jumentos.
Passavam ainda, de vez em quando, à tardinha, manadas de gado tangidas por rapazolas, com varas longas, berrando - Eeeee... boooi!
Havia também um comércio ambulante.
Durante o dia passavam alguns vendedores de algo que nunca tínhamos visto e nem sabíamos do que se tratava.
Um deles gritava, com um enorme balaio de gravetos, na cabeça - “Xeeeera! Óia a Xeera e Nham!”.
Nunca perguntamos o que era.
Só foi mais tarde que entendi que se tratava de Macaxeira e Inhame e não cera e indicação de mordida.
Outro ambulante causava repugnância.
Sujo e maltrapilho, de calção e sem camisa, coberto de lama da cabeça aos pés, carregava num dos ombros, um bastão de madeira onde nas duas pontas estavam pendurados uns animais sujos e lamacentos, que se mexiam dentro do que era uma verdadeira trouxa.
Pareciam caranguejos, mas nós nunca os havíamos visto tão grandes e tão sujos.
O vendedor gritava “Óia o Gaaamum!” Os vizinhos corriam às portas, para comprar, e nós nunca o fizemos.
Passava outro ambulante, carregando na cabeça um tabuleiro e gritava “...Nêêês! Óia o Japonês!”
Eram doces com castanhas e amendoins que eu, escondido do pessoal de casa, provava quando algum menino me cedia um pouco.
Pensar em vencer a barreira, em casa, de poder comprar aqueles doces que não se sabia onde eram feitos, com que água e com que cuidado higiênico, impossível.
Só cheguei a convencer a compra do produto de outro ambulante.
Passava todas as tardes tocando um triângulo de ferro com um outro pedacinho de ferro, fazendo um rítmo muito interessante.
Gritava “Quinho! Óia o Cavaquinho! - Um é três - dois é cinco”.
Tratava-se de um biscoito cilíndrico e fino como uma hóstia.
Doce e crocante, era vendido em saquinhos de papel de seda em conjuntos de três.
Cada pacote custava três mil réis e dois era cinco mil réis.
Aliás o dinheiro era outro problema.
Oficialmente era o cruzeiro e havia cédulas que diziam que eram cruzeiros e outras, valendo o mesmo, porém inscritas como mil réis.
Um cruzeiro correspondia a um mil réis, só que quando algo custava dois cruzeiros, o vendedor dizia que eram “Dois Tões.
” Na verdade - dois tostões.
Quando era um cruzeiro, falava - “É um conto” - referindo-se a um conto de réis ou um mil réis ou seja, um cruzeiro.
Enfim, era uma confusão terrível, ainda mais para quem acabara de chegar e que tentava comparar os preços, com libras esterlinas e piastras - dinheiro egípcio.
Os vizinhos ao lado eram dois velhos aposentados, Seu Camilo e Dona Arlinda que moravam com outro velhote, seu parente, o Seu Martim.
Tinham um “filho de criação”- o João, que não era adotado mas morava no quarto de empregados, sem ser empregado tampouco.
O João era um rapaz de pelo menos 17 anos, com quem gostava muito de “conversar”.
Naquela casa havia uma cadela. Duquesa. Chata como ela só. Era mistura de pequinês. Castanha, barbudinha e histérica.
Nunca pude lhe fazer um carinho. Ficava com as patas dianteiras encostadas no muro divisório e latia furiosamente.
Eu, que sempre gostei de cachorros, tinha uma incompatibilidade com a Duquesa.
O problema maior acontecia quando eu tinha que buscar os ovos que eram guardados na casa de Dna. Arlinda.
Entrar na casa, nem pensar, a cachorrinha não permitia de jeito nenhum.
Tinha que sempre contar com a ajuda de João que passava os ovos por sobre o muro, no bom sentido.
A rua Dr. Virginio Marques, na Iputinga, era perpendicular à Av.Caxangá e naquele inicio de ano de 1957 não era asfaltada e quando chovia, tornava-se um enorme lodaçal.
A rua piorava sensivelmente às 4as.feiras, quando no seu início acontecia a feira livre semanal.
Ainda hoje lembro do cheiro de fumo de corda que era vendido nas barracas cobertas de lona e do perfume de uma fruta esquisita, enorme, cheia de espinhos na parte externa e uma gosma amarelada, na parte interna.
O pessoal abria aquela fruta e jogava a cobertura cheia de gomos no meio da rua, na lama, só muito mais tarde que provei da jaca e passei a apreciar aquela fruta.
Ali junto eram vendidos porcos vivos, galinhas e patos e muitos, muitos passarinhos em gaiolinhas de madeira com arame.
Vendiam ainda pequenas gaiolinhas com alçapão, para pegar passarinhos.
O que mais me interessava, na feira, eram as barraquinhas de brinquedos.
Os meus tinham ficado para trás e renovar o estoque foi algo que demorou muito, principalmente, nas condições em que nós nos encontrávamos.
O que mais chamava a atenção no entanto, era o costume das pessoas de carregar um espelhinho redondo, revestido com uma lata e com a figura de mulheres quase nuas.
É claro que naquele tempo, mulher com maiô já era demais e aqueles espelhinhos eram realmente ousados, pois traziam mulheres com os seios nus.
Além do espelhinho, era costume se dispor também de um pente longo, preto, de plástico inquebrável - marca Flamengo.
Não poderia deixar de se passar no cabelo - fixador Juvênia que deixava o cabelo brilhante e absolutamente duro.
Outro detalhe que acompanhava, era um canivete de lata, onde uma metade partida de uma lâmina comum, de barba, era encaixada numa peça que dobrava e fechava sobre a outra, tal como uma navalha profissional.
Para nós, meninos, servia para fazer ponta de lápis.
Os brinquedos, no entanto, mais interessantes eram os carrinhos, ônibus e caminhões, feitos artesanalmente com latas de óleo e madeira.
E alguns não muito comuns para mim, também chamavam a atenção.
Os chamados badoques, atiradeiras feitas com forquilhas de árvore e tiras de borracha de câmara de ar, peões de madeira que eram jogados ao chão através de um cordão que era enrolado no seu corpo bojudo e que rodopiavam por bastante tempo.
Não eram raras as “guerras” de peão onde um menino pretendia rachar os dos outros.
Também eram comuns as brincadeiras com bolinhas de gude, bolinhas de vidro coloridas, que permitiam verdadeiras demonstrações das habilidades.
A feira ocupava toda a rua, junto da Igreja de N.Sra. de Fátima, cujo pároco era Pe.Camilo, um holandês que mamãe insistia em chamar D.Camilo, um pouco pelo costume de tratar os padres como Don e um pouco por causa de uma série do cinema italiano com Fernandel e Gino Cervi, representando D.Camillo e Peppone.
Um padre que falava com a imagem do Cristo crucificado e um prefeito comunista de uma pequena cidade italiana.
Na igreja, a minha mãe, sempre muito religiosa, fez uma promessa para N.Sra. de Fátima, para que ela intercedesse e não deixasse nada de mal acontecer à família que ainda continuava no Cairo.
Prometeu um terço de contas de prata e assim que o pessoal chegou pagou a promessa e insistiu para o padre colocasse aquele rosário nas mãos da imagem de N.Sra. de Fátima.
Terminou que a imagem ficou ostentando dois terços, o que ela já tinha e o novo, brilhante, prometido com devoção.
Logo antes do início das aulas, aconteceu o primeiro carnaval.
A experiência que se tinha do
Egito
eram os bailes a
fantasia
, realizados nos clubes.
No Recife experimentou-se a verdadeira alegria do povo.
Naquele ano, fomos com os meus avós, naturalmente de ônibus, conhecer o carnaval.
As ruas estavam cheias de crianças, principalmente disfarçadas de índios, com penas na cabeça, tangas e o rosto e corpo pintado.
Para entrar no clima estava eu também disfarçado de cow-boy e uma máscara preta.
Usava para completar a fantasia, aquelas botas de borracha brilhante que havíamos comprado em Gênova.
O passeio foi a pé, pelas ruas do Recife.
Rua Nova, Imperatriz, Conde da Boa Vista, terminando com um lanche na frente da Sertã, ao lado do Cine Trianon.
O ambiente era impressionante, todos extravasavam uma alegria intensa.
Aliás não se podia dizer que era privilégio do Centro do Recife.
Na nossa rua todos estavam comemorando.
Nunca havíamos presenciado 5 dias de festas seguidas, com músicas contagiantes, o pessoal dançava no meio da rua e as casas estavam em festa o dia inteiro.
Foi uma experiência e tanto.
Em abril os meus avós, as tias e Dany, minha priminha de dois anos, chegaram ao Recife, no navio Conte Biancamano.
A
casa passou a estar cheia
e nunca mais nos separamos.
O meu avô Nicola, com idade avançada, sem conhecer a língua, nem a praça do Recife e sem instrução especializada, não conseguiu qualquer emprego.
O responsável, em parte, foi também o temor de um lugar diferente, estranho e desconhecido.
Assim, ele se dedicou a ajudar com os afazeres e limpeza da casa, que com o jardim era algo diferente do costume de viver-se em apartamento.
Era responsável por cuidar de regar as plantas e alimentar algumas galinhas e patos que passaram a ser criados no fundo do quintal.
Só que ninguém da casa tinha coragem de matá-las e além dos eventuais ovos, morriam de velhas ou com gôgo, uma doença esquisita que fazia as galinhas ficarem tristes, com remela no nariz e morrer.
Papai era o único que se dizia capaz de fazê-lo, porque quando era menino fazia muito isto na casa dos seus pais, em Magaga.
Acontece que no dia que estava programada uma morte de galinha, o fato se tornava um acontecimento.
Desde a véspera havia toda uma preparação.
A galinha era “despedida” por todos da casa.
Parecia estar no” corredor da morte” pronta para a guilhotina.
Quase sempre tinha passado do ponto e já era uma galinha dura e intragável.
Servia principalmente aos sábados para se fazer uma canja, rala.
Muito breve se chegou à conclusão de que não valia à pena o esforço de tantas e tantas vezes se correr pelo mato atrás da casa, perseguindo os patos, que por não se saber, se havia deixado crescer as asas.
Decidiu-se que não se criariam mais as tais galinhas e patos e que a alternativa era se plantar verduras e hortaliças.
Como? Quando? O quê? Perguntas difíceis.
Tivemos que solicitar a ajuda dos vizinhos e a empregada do Dna.Esmerita, tinha um irmão que trabalhava como jardineiro.
Heleno era um negro forte e mal encarado que não se entendia nada do que dizia.
Foi contratado para preparar alguns canteiros onde se plantariam as verduras.
Para começar pediu estrume de vaca, o que deixou a casa inteira com aquele cheiro característico, por um bom tempo.
Ninguém agüentava ficar na varanda pois além do mau cheiro havia aumentado sensivelmente a quantidade de moscas.
Logo em seguida preparou os canteiros, na verdade pequenas elevações que mais pareciam - covas.
Eram oito, no área disponível no quintal.
A família não gostou nada da figura de se ter um cemitério, com uma cova preparada para cada morador da casa e mandou-se rapidamente desmanchar todo o trabalho.
Afinal de contas quem iria comer algo que tivesse frutificado daquela cama cheia de esterco? Quem sabe se aquele negro não estava preparando uma “macumba” contra todos nós?
Foi papai que resolveu arrumar alguns tijolos colocando-os em forma de estrela e de círculos e fazer alguns canteiros bem mais ao gosto do pessoal.
A minha avó, como fazia no Egito, passou a se encarregar de preparar a comida e o fazia como ela só.
Sua especialidade era uma carne assada, com molho ferrugem e pequenas cebolas, cujo molho cobria uma massa cilíndrica pequena com queijo parmesão, que era um prazer e uma saudade somente similar à que é produzida atualmente pela minha esposa.
As tias começaram a procurar emprego.
Titta começou a exercitar suas habilidades de modista e papai imprimiu alguns panfletos com nome e endereço e com o favor da padaria, os panfletos eram distribuídos dentro dos sacos dos pães.
Logo logo conseguiu uma certa freguesia, com as mulheres do bairro.
Pequenos consertos, um zíper e algumas vezes, um vestido completo.
O dinheiro arrecadado serviu rapidamente para junto com as economias da tia Nélia, ajudar no mobiliário da casa.
Compraram mais um guarda-roupa.
Nélia conseguiu um emprego no salão do Alécio, na rua da Palma, que logo depois resolveu abrir um salão próprio para limpeza de pele e massagens, situando-o no edifício Tabira na Av. Conde da Boa Vista.
Rapidamente investiu-se, na compra de uma geladeira.
A gente sabia o incômodo que estávamos causando aos vizinhos e comprou-se uma geladeira Champion.
A Champion veio com um brinde - 3 meses de provimento de refrigerantes Fratelli Vita.
A Fratelli Vita produzia guaraná, laranja, pêra e soda limonada.
Nunca se tomou tanto refrigerante.
Semanalmente passava o caminhão de refrigerantes e deixava uma grade com 24 garrafas diversas.
A geladeira ocupou um local importante na casa, a própria sala, que não tinha muitos móveis além daqueles comprados originalmente e mais um baú de madeira, de dois metros de comprimento, que servia de sofá, com um colchão colocado em cima.
A vida começava a se estabilizar.
Comprou-se um rádio da marca Mullard, a 7 válvulas, com gabinete de madeira e olho mágico que indicava pela sua amplitude a sintonia perfeita da estação.
Dizia que também recebia em ondas curtas e à noite era um tal de ficar procurando as ondas das transmissões de rádio italianas que se transformavam em um martírio.
O rádio foi utilíssimo para voltar a se acompanhar as radionovelas matutinas e as séries de aventuras.
À tarde - “O Anjo” e à noite, nada mais e nada menos do que “Jerônimo - o herói do Sertão”.
A produção era local da Rádio Jornal do Commercio - com Geraldo Liberal como o herói nordestino.
Eu, sempre desejoso de uma bicicleta, conseguia que o Zeca, o nosso vizinho, fizesse o favor de, de vez em quando, ir até a Av. Caxangá e alugar uma para durante uma hora, poder passear.
Havia começado a aprender a andar de bicicleta alugando bicicleta feminina, sem quadro, o que facilitava a aprendizagem e não esqueço meu pai segurando no selim, para dar um certo equilíbrio e correndo para me acompanhar.
O dia que resolveu soltar, perdi a direção e saindo da rua, só fui parar na porta de uma casa feita de taipa, situada perto da nossa casa.
Quase entrei pela casinha a dentro, causando um susto em todo mundo.
Um vizinho interessou-se de vender uma bicicleta velha, preta, da marca Phillips e por pouco não a compramos.
Cheguei a estar com ela por um pouco, mas minha mãe sempre muito zelosa não permitia que eu andasse na rua pois poderia danificar a bicicleta.
Tinha que limitar-me a andar dentro do jardim.
A alternativa era tentar equilibra-me entre a entrada do portão e a entrada do terraço da casa, num passeio de concreto de no máximo 4 metros, ou então entre os canteiros que meu pai fizera e que não deixavam mais do que um metro de espaço, entre eles.
Tinha que se ter muita habilidade para “andar” de bicicleta, naquelas condições.
Meu pai decidiu então que iríamos escolher uma bicicleta nova e comprou uma Monarch vermelho grená.
Não dormi naquela noite, excitado com aquele presente de aniversário.
Papai veio pedalando com ela, trazendo-a para casa.
Agora não precisava mais pedir o favor aos coleguinhas vizinhos, para que me permitissem dar uma voltinha nas suas bicicletas.
Meu pai passou a usar a bicicleta para ir trabalhar à noite e voltar de madrugada após a impressão do jornal.
Na verdade, durante o dia, meu pai dormia e a casa tinha que ter muito silêncio já que todas as madrugadas, inclusive aos sábados ele tinha que trabalhar.
Voltava para casa não antes das cinco horas da manhã e dormia até as 11:00.
Andando naquela bicicleta, furou novamente e pela últimas vez a bolsa de água do meu cinto contra hérnia inguinal, e tivemos que procurar o que havia no Brasil a respeito.
Aquele cinto de borracha fininha e leve não existia e consequentemente tivemos que passar a usar um cinto com uns apoios acolchoados e com umas peças de aço inox, onde cintinhos eram conectados e davam a volta abaixo das coxas.
Foi numa briguinha com alguns coleguinhas que ao receber um “golpe baixo” o oponente foi surpreendido com o protetor de aço e machucou-se na mão muito mais do que pensava em machucar-me.
Naquele ano, em junho, aconteceu outra festa à qual não estávamos acostumados -
São João.
De repente, a escola promoveu uma quadrilha e as crianças se candidataram para dançar aos pares.
As gozações dos assistentes que decidiram não participar, quase fazem a diretora cancelar toda a festa.
Os meninos ficavam envergonhados de dançar e faziam gozação com os outros que se dispunham a fazê-lo, inclusive eu.
Como era alto, para a idade, fui designado para dançar com uma menina da quarta série, repetente.
Chamava-se Sônia e eu era tão envergonhado e apaixonado que a garganta embargada não permitia dizer uma única palavra.
Além da quadrilha haveria um desfile com as crianças caracterizadas como “matutos”, cujo significado não tínhamos idéia do que era.
Com as habilidades de costura de minha mãe e de Titta, ganhei uma bela camisa xadrez, de mangas curtas, um laço vermelho de seda no pescoço, uma calça Far-West (que eram os “jeans” daquele tempo, as tais botas de cano alto de borracha brilhante e um chapéu de feltro à cow-boy, que já tinha usado no carnaval .
Bem que procuramos um chapéu de palha como haviam recomendado.
Procuramos muito um chapéu inteiro e por algum estranho motivo, em todas as lojas só havia chapéus de palha estragados, com as abas desfiadas.
Chapéus inteiros somente para meninas, que já vinham com tranças falsas.
Achamos que não se poderia desfilar com um chapéu daqueles.
Chegou o dia da festa.
Ao chegar no arraial, começamos a ficar impressionados como as crianças haviam sido mal vestidas.
Os meninos estavam com as roupas rasgadas e cheias de remendos, nos lugares mais impróprios das calças e nas camisas.
As meninas, embora com roupas até bem feitas, mas com fazendas muito simples e com padrões de muito mau gosto.
A maioria usava sandálias.
Imediatamente achamos que o prêmio do desfile seria meu.
Qual não foi a frustração quando ganhou, a nosso ver, o par mais mal vestido e maltrapilho de todos.
Só foi mais tarde que entendemos o espírito da coisa.
Logo em seguida consegui fazer um teste em julho e fui promovido para a terceira série, onde no final do ano consegui o terceiro lugar entre todos os alunos.
O ano seguinte melhorei e no final da quarta série alcancei a medalha de ouro de primeiro lugar na turma, o que foi uma honra para todos os da família.
Na quarta-série, na época de São João, já mais integrado, fui o juiz de paz da quadrilha, usando roupa característica com paletó, chapéu côco, bengala, bem mais dentro do espírito da festa.
Aliás, tal como todos os vizinhos haviam feito no ano anterior, nós também armamos uma grande fogueira, na rua, junto ao portão de casa.
Fizemos correntes de papel de seda, com as cores- vermelho, branco e verde e penduramos no beiral do telhado da casa.
Foi lamentável haver chovido, estragado a corrente, não sem deixar manchada toda a fachada da casa, com as cores da bandeira italiana.