CAPITULO PRIMEIRO

INTRODUÇÃO



Olho o relógio na barra de tarefas do Windows.
São onze e dez da manhã.
Já está quase na hora.
Desligo o computador.
Saio do escritório na hora em que Ester chega com o xampu, o sabão líquido e uma enorme toalha felpuda nas mãos.
- Dr. Silvio, tá na hora do banho.
Acho interessante aquela cerimônia do tratamento respeitoso.
Apesar da intimidade que aquele momento sugere, mantêm-se as distâncias.
Na verdade, aquele momento é uma satisfação e prazer apenas para mim.
Para Ester sempre tinha sido uma obrigação.
Fui para o terraço, onde começava o procedimento de rotina diária.
Sempre olhava para que ninguém nos visse da rua.
O momento tinha, a meu ver, de ser mantido o menos devassado possível.
E começa o procedimento.
Primeiro retira meus sapatos e com muito cuidado, as meias.
Em seguida, com seus dedos ágeis desafivela e tira meu cinto.
Minhas pernas se abrem imediatamente.
Lentamente tira minha camisa e meus óculos.
Em seguida é a hora que resolve usar as correntes.
Com cuidado leva-me às alturas e segue-se a sessão com a àgua.
Lizzie já não liga e até contribui.
É ela que escolhe o tipo de xampú e o perfume do sabão líquido.
A água começa a cair na minha cabeça, onde é passado o xampú.
Com suas mãos fortes Esterfesson passa a esponja com sabão, primeiro nas costas e depois nas pernas, no peito e nas axilas.
Joga a água enxaguando tudo.
Após o banho aquele piauiense espera pacientemente que eu esteja seco para ajudar a me sentar na cadeira motorizada.
Em primeiro lugar leva-me com a cadeira do banho até ficar em baixo do guindaste com a tralha.
Instala os dois ferros chatos, com furo na extremidade nas bainhas laterais da peça de lona plástica onde eu fico permanentemente sentado.
Instala os ganchos nos furos e nas correntes e me levanta facilmente com a tralha, tranferindo-me de uma cadeira para outra.
Para que as pernas não abram sem controle, volta a colocar o cinto amarrando-as firmemente.
A partir daí vai colocar a mesa do almoço.
Terminado o almoço é a hora de ir para a cama.
Lizzie participa neste momento.
A cama continua sendo sua atribuição exclusiva.
Após deitar, é ela que retira meu calção ainda úmido.
Fico deitado assistindo televisão até perto das quatro da tarde.
Ela volta a me calçar as meias elásticas, as sandálias e o calção.
A camisa logo em seguida à transferência da cama, de volta à cadeira motorizada.
Após uma sessão de ajustamento na cadeira voltando a amarrar as pernas com o cinto, retorno ao computador para verificar se alguém enviou alguma mensagem eletrônica.
De cinco às sete fico assistindo televisão.
Em seguida vou para a cozinha com Lizzie para fazer o lanche da noite.
Em meia hora volto a assistir televisão até oito e meia ou nove horas quando já não aguento o desconforto nas nádegas.
Nesta hora volto a ser transferido para a cama onde continuo assistindo televisão até a hora de Bruno voltar, quase sempre entre onze e meia noite.
Nesta hora tomo meu remédio indutor de sono e com a máscara que evita a apnéia do sono, durmo profundamente até as seis da manhã.
No dia seguinte, Lizzie novamente me veste e com a ajuda de Ester sou transferido novamente para a cadeira motorizada.
Volta a sessão de ajustamento na cadeira, amarrando as pernas com o cinto.
Após o café da manhã volto ao micro ou ao terraço e sendo nos dias de segunda, quarta ou sexta feira aguardo a chegada do Guilherme, um dedicado fisioterapeuta, quando de dez às onze e meia trabalha cada membro para manter certa elasticidade e amplitude.
Como os exercícios são realizados na cama, novamente a Lizzie e o Ester tiveram que fazer minha tranferência para a cama antes da sessão de fisioterapia e de volta à cadeira ao seu término, para o banho.
Com isto, Lizzie, troca minha roupa sete vezes nos dias de fisioterapia e quatro nos outros dias.
Dia sim, dia não, também corresponde a penosa e detestável tarefa de limpeza após as necessidades naturais.
Durante o dia ela só pode sair depois de eu ter esvaziado a bexiga, para evitar surpresas muito mais desagradáveis.
Isto é o que vem acontecendo desde 1996 quando aposentei por invalidez com Esclerose Múltipla.
Invalidez completa.
Poucos movimentos restaram no corpo.
Apenas um pouco na mão esquerda.
Tanto que para escrever no computador estou utilizando uma haste de alumínio que prendo com os dentes.
Cheguei a utilizar um programa de reconhecimento de voz, mas como a voz passou a ficar fraca, o programa cometia muitos erros de interpretação que me dava muito mais trabalho para corrigir.
Aliás, a falha na voz foi o motivo que me fez eliminar a única atividade, mais ou menos regular, que eu vinha desempenhando.
Estive gravando em fita cassette a leitura de livros e apostilas para os cegos.
Com a inexistência de materiais elaborados em Braille, os deficientes visuais se valem de gravações de livros e apostilas, feitas por voluntários.
Durante algum tempo eu também fiz gravações.
Hoje em dia, nem isto.
Até ler um livro é uma dificuldade.
Com poucos movimentos da mão esquerda, não há como virar a página e manter o livro aberto.
Para facilitar mandamos instalar uma espiral nos livros, mas a experiência não tem sido boa.
A encadernação é feita sem cuidado e sempre montam os livros não respeitando a ordem das páginas.
Minha rotina, acima descrita só muda no fim de semana, porque além de ter que contar com a ajuda de Bruno para as transferências, aos domingos pela manhã telefono para saber dos meus pais que moram em Recife e recebo a visita quase semanal de Maciel e Diva, sua esposa.
Conheço Maciel desde a década de 60, do Colégio Salesiano de Recife.
À tarde, na hora do lanche, quando estão em Brasília, vêm João e Mariza que conhecemos em Tallahassee quando lá estivemos em 1971.
Esporádicamente acontece a visita de Dalvino e sua esposa Natália, que também são amigos desde o Recife.
Logo que deixei o emprego alguns companheiros de trabalho ainda me visitavam ou telefonavam.
Agora, ninguém, a não ser por ocasião do meu aniversário e fim de ano, quando a Beth Fragoso, o Marwell, a Helena, Vera Caulit e o Heraldo também chamam.
Costumo dizer que me encontro em prisão domiciliar.
Isto em têrmos, porque enquanto para o preso existe a perspectiva de obter a liberdade em 5, 10 ou 15 anos, no meu caso não existe esta previsão de tempo limite.
Para sair de casa, só posso fazê-lo com a ajuda de Ester para colocar e tirar as rampas de aço para subir na Kombi.
Aliás a Kombi é adaptada.
Tem rampas removíveis e tecnologia de última geração dos anos 50.
Não tem direção hidráulica, não tem freios ABS, não tem vidros elétricos, não tem air-bag e nem ar-condicionado.
È uma não-van.
De qualquer forma não são todos os lugares que facilitam o acesso a alguém em cadeira de rodas.
Os elevadores nos edifícios, quase nunca estão ajustados para pararem nivelados nos andares, as rampas quando existem, são muito íngremes, já que existem para permitir o acesso dos entregadores com carrinho que levam engradados de bebidas e não para cadeiras de rodas.
Os cinemas reservam lugar para os cadeirantes ou na última fila, ou na "fila do gargarejo".

Aliás estes são os únicos lugares onde uso calças compridas, por causa do frio do ar-condicionado.
Sempre uso bermudas, feitas pela minha sogra Jandira, num modelo de pernas bem amplas que facilitam a colocação da garrafa coletora.
Para isto, os banheiros precisam ser exclusivos para uso do cadeirante e do seu cuidador, mas estes banheiros não se encontram em qualquer lugar.
Banheiros para deficientes resumem-se na maioria dos casos, à instalação de um ou dois canos de apoio ao lado da bacia sanitária em um cubículo que não permite o acesso de uma cadeira de rodas.
Calças compridas, só em raras ocasiões, quando o ambiente é frio por causa de ar-condicionado.
Com isto acabou a obrigação diária do paletó e gravata.
Desde que fui para a cadeira de rodas só usei duas vezes.
Uma nas comemorações das nossas bodas de prata em 1996 e comemorando a formatura em jornalismo do Bruno.
A perspectiva é de usar apenas outras duas.
No seu casamento e no meu enterro.
Como o seu casamento já aconteceu em 2005, agora só falta uma.
As pessoas agem de forma diferente com quem usa cadeiras de rodas.
Falam com os acompanhantes, referindo-se aos deficientes com se estes não ouvissem.
- "Ele gostaria de um refrigerante?"
Tem sido difícil manter o bom humor, ultimamente.
A dificuldade de fazer qualquer coisa me tem deixado irritado.
Só para ilustrar a dificuldade - até apertar o botão para retirar um disquete do micro é um esforço sobre-humano.
Sair para comer fora tem sido evitado.
Não é nada agradável a comida ficar caindo na roupa já que uso apenas colher presa na mão com um elástico.
Isto eliminou por completo a possibilidade de comer um prato de espaguette.
Não há como comer espaguette de colher, com a mão esquerda.
Só se alguém o cortar pequenininho.
Mas não tem jeito, para mim, como italiano - o gosto muda.
O pior, no entanto é ter de beber usando canudo.
E impressionante como a cerveja, o vinho e o champagne precisam dos seus copos próprios para apreciar o seu sabor.
Embora viva estas dificuldades todas, sei que há pessoas que vivem em situações piores.
Percebe-se isto quando se visita um hospital.
No entanto ficam fortes as palavras da música de Lulu Santos, quando diz: Nada do que foi será, de novo do jeito que já foi um dia - embora também diga que - Tudo passa, tudo sempre passará.
E aí há duas conotações: Que o que era bom - passa, mas que o que era ruim - também passará.
Passo o dia em contemplação e espera.
È impressionante o caminho que percorrem as formigas, a forma que adquire uma nuvem, as vezes que contei as cerâmicas do terraço (cada peça tem 19 florzinhas colocadas diagonalmente), ou a impassibilidade da coruja que observa e aguarda como eu.
Hoje permanecem vivas as lembranças.
Revivo as memórias e fazendo isto revivo minha vida passada e com certeza lembro da música que dizia - Eu era feliz e não sabia! Contar a história de sua própria vida parece o supra sumo do pedantismo.
Ainda mais quando não se trata de ninguém conhecido e nem famoso.
A quem poderá interessar ler estas histórias? Talvez a ninguém.
Acho que decidi escrever para poder registrar alguns eventos que seguramente poderão ser interessantes para os mais jovens e principalmente para registrar os acontecimentos que vivi até o momento e para que meu filho me conheça um pouco mais.
Este livro está dividido em várias partes e cada uma delas corresponde ao que eu chamo de vida.
Na realidade poucas pessoas tiveram a oportunidade de viver várias vidas, numa só.
A maioria das pessoas nasce, cresce e morre sem sair do mesmo lugar, da mesma cidade, nem mesmo do bairro.
Minha avó materna, a nonna Daniela dizia - “Sabe-se onde se nasceu, mas não se sabe onde vai se morrer."
Muito sábia, ela.
Nasceu na Bósnia-Herzegovina - antiga Iugoslávia quando não era manchete e morreu em Recife, Pernambuco, do outro lado do mundo, lugar que nem se imaginava existir quando ela nasceu, no ano da abolição da escravatura no Brasil.
Achei que deveria compartilhar as minhas experiências pois minha vida tem algo de místico, ou mágico.
Nasci num lugar místico e fantasioso por excelência - o Egito - e vivi desde 1982, em Brasília.
Por muitos reconhecida como ambiente místico e até sobrenatural.
Se não por outros motivos mas principalmente pelos “fantasmas” a que tem dado guarida.

Muitos eventos que o leitor vai conhecer serão romanceados, mas pode ter certeza que a maioria é a representação de fatos reais que efetivamente aconteceram.

CAPÍTULO 1

Nasci no Cairo - Egito em 1948.
O Egito encontrava-se iniciando seus esforços para se tornar uma república, o que de fato aconteceu em 1953.

Alguns dos fatos que vou comentar são lembranças vivas ainda na memória e outras seguramente são a representação de fatos que, por terem sido contados várias vezes em casa, passaram a fazer parte da minha memória.
Nasci tão magro que meu apelido era Ghandi, alusão ao pacifista indiano que naquela época estava dando o que fazer aos ingleses.
Dizem que chorava tanto, mas tanto, que minha mãe não sabia o que fazer e me levou ao pediatra.
Este foi taxativo ao diagnosticar o meu problema - fome.
Gritei tanto nesta época que, logo mais tarde, foi encontrado que estava com hérnia inguinal, o que me obrigou a usar, até os dez anos de idade, uma cinta que tinha dois suportes pressionando as hérnias, para dentro.
No Cairo, a cinta infantil era de borracha e os suportes eram cheios de água.
É claro que de vez em quando a bolsinha furava e o desastre acontecia.
Água por todo lado, dando a impressão de que teria me urinado.
A lembrança mais antiga que tenho nesta hora foi uma temporada passada na cidade de Magaga , distante algumas horas de trem do Cairo, onde meus avós paternos moravam.
Meu avô Tonino trabalhava numa indústria de algodão e morava numa casa enorme.
Não recordo se perto do Nilo, mas lembro que em determinada ocasião estava com minha mãe nas suas margens, e de repente uma gritaria chamou minha atenção.
Vários árabes estavam gritando junto de um ponte.
Pude perceber que estavam tentando puxar um cavalo para fora do rio.
Uma correnteza muito forte estava puxando o cavalo e lembro bem a expressão dos seus olhos, abertos, apavorados, quase que pedindo ajuda.
Embora muitos homens tentassem ajudar, o rio foi mais forte e o cavalo sucumbiu várias vezes.
Foi arrastado rapidamente para longe.
Lembro que eu também me senti impotente e agora percebo que era natural que eu não pudesse fazer muita coisa.
Não deveria ter mais do que dois ou três anos, nessa época.
Lembro da cozinha da casa da minha avó.
Lembro que a cadelinha tinha tido filhotes e que estavam escondidos debaixo de um armário.
Esta foi a primeira vez que senti a impossibilidade de demonstrar minha coragem.
Embora minha avó pedisse, eu simplesmente não sabia como fazer para puxar os cachorrinhos de baixo do armário.
Lembro do único presente marcante que meu avô, paterno, me deu - um boneco de madeira.
Na verdade - Pinóquio .

Tinha um corpo feito numa peça só de madeira, duas pernas finas e dois braços que balançavam ao longo do corpo, presos aos ombros com dois pregos.
Tinha uma cabeça presa num pescoço longo que saia do corpo.
Caso apertasse a cabeça para dentro do corpo, emitia um ruído como se fosse um pranto.
Tinha um chapéu formado na própria cabeça de madeira, pintado de vermelho, tal como a sua roupa.
Desta fase da infância lembro da minha operação de amígdalas, quando tinha cinco anos.
Lembro-me estar num táxi e minha mãe dizendo que estávamos indo tirar retrato.
Achei estranho colocar um pijama, ao chegar no “fotógrafo”.
Mas minha mãe disse que era porque eu não tinha nenhuma foto com pijama.
Realmente a explicação era convincente.
Efetivamente não tinha nenhuma foto de pijama, mas na verdade também não tinha visto nunca a foto de ninguém de pijama.
Lembro-me estar em pé, encostado na porta, de um salão enorme, cheio de armários, pessoas vestidas de branco e instrumentos brilhantes.
Muitos instrumentos brilhantes.
Alguém me pegou pela mão e me levou para sentar numa cadeira alta, com correias de couro nos braços.
Até hoje lembro daquela cadeira quando vejo um filme de alguém sentenciado à morte na cadeira elétrica ou na câmara de gás.
Na época não lembro de saber disto, o que foi muito bom, já que se soubesse seguramente iria achar que havia chegado minha hora.
Acordei durante a operação e lembro de uma imagem difusa, escura, avermelhada.
Uma pessoa na penumbra, sentada na minha frente.
Lembro de uma pequena bacia branca, com algo sanguinolento, pousado sobre uma mesa, ao meu lado.
Percebi uma certa preocupação naquela pessoa e uma ordem para que eu respirasse profundamente .
Não lembro mais nada daquele momento.
Recordo-me do quarto, das gelatinas que me foram oferecidas e de uma cadeira estranha que estava ao lado da cama.
Era uma cadeira com braços e no assento um buraco redondo.
Pareceu-me estranha e absolutamente impossível de servir para qualquer finalidade.
Ao sentar nela, desapareci até a cintura, naquele buraco.
Pensava para que poderia servir uma cadeira que não permitisse sentar.
Hoje sei que se tratava de uma bacia sanitária móvel.
Havia um balde branco ao seu lado e que colocado sob o buraco servia para permitir as necessidades dos doentes que não podiam ir ao banheiro.
Voltei para casa e lá permaneci convalescendo, o que me pareceu uma eternidade mas era uma felicidade também, já que não ia para a escola.
A escola era um martírio.
Imaginem.
Eu italiano, onde em casa só se falava italiano, num país que falava árabe e numa escola maternal onde devia me alfabetizar em francês.

Naquela época não tinha nada de considerar a realidade do contexto, palavras motivadoras, a psicologia da criança, seu desenvolvimento pessoal, seu ritmo e outras coisas mais.
Na verdade havia uma régua bem grande para esquentar as mãozinhas e uma mão bem gorda, da freira bem gorda, que esquentava o pescoço das crianças que demoravam em responder.
A escolinha era do Cor de Jesu.
E a freira “Mére Superieure”, balançava um enorme coração de prata no pescoço.
Havia uma professora, a Mademoiselle Antoinette, uma morenaça, dos olhos amendoados e muito perfumada.
Pelo menos bem mais do que o rosto suado da Madre Superiora, por baixo de todos aqueles panos, quentes, no calor do Cairo.
Outra lembrança de calor, suor e cheiro era o contato com a banca escolar.
À tarde, depois de comer o lanche, ao voltar do recreio, tínhamos que fazer a sesta.
Todas as crianças tinham que baixar a cabeça entre os braços dobrados , deitando-a sobre a banca de madeira.
Experimentem cheirar madeira onde o suor do rosto já deixou sua marca.
Nunca mais vão esquecer .
Terminou a minha convalescença e minha mãe levou-me uma tarde de volta para aquela escola.
Lembro-me de estar nas grades do portão, berrando que não queria ficar e que estaria com vontade de vomitar.
Chantagem barata para que ela se condoesse do filho recém operado.
Não adiantou nada.
A Mademoiselle Antoinette dizia-lhe para que fosse embora e que eu seria muito bem cuidado.
Que não se preocupasse e que me deixasse.
E ela me deixou.
Foi embora sem olhar para trás.
Conhecendo minha mãe como a conheço agora, acredito que deveria estar chorando.
Deveria estar, se bem que a minha mãe dos anos cinqüenta era outra pessoa.
Só para que vocês tenham uma idéia de como era diferente, deixem-me contar outra lembrança.
Naquela época quem tinha um carro era milionário e meu pai tinha apenas uma moto - tchecoslovaca - JAWA o que já era uma grande evolução porque antes disso ele andava de bicicleta a motor - uma italiana - LEGNANO.
Nessa época já era nascida a minha prima e com pouco mais de um ano recebia o mesmo tratamento que eu recebia.
Para todos os efeitos ela foi criada como minha irmã.
Muitas vezes, aos domingos meu pai resolvia ir passear de moto e eu cavalgava sobre o tanque de gasolina, enquanto minha mãe, muito composta, sentava lateralmente, na garupa, com uma mão agarrada ao meu pai e a outra segurando a minha prima ... no seu colo! Que loucura, vocês diriam.
Que loucura digo eu e se minha prima lembrasse quando tinha apenas um ano de vida, seguramente também diria - que loucura! O que faz a idade.
Nunca que minha mãe, hoje, poderia aceitar a idéia de tremenda aventura.
Passeios, naquela época foram bem marcantes.
A minha “tia” Tita , na verdade não era tia, mas prima da minha mãe e tendo ficado órfã muito criança, foi criada pela minha avó.
Na verdade tinha uma verdadeira adoração por mim.
Não tendo casado, eu era como um filho e fazia todas as minhas vontades.
Trabalhava como caixa, no mesmo salão em que minha tia Nelly , trabalhava.
O salão era de um senhor que embora italiano utilizava seu nome afrancesadamente, para denominar o seu salão de beleza - Maison George que não funcionava às segundas feiras e cujo dia era aproveitado pela minha Tia TITA para me levar no jardim de Ezbequia.
Um enorme parque no centro do Cairo e que tinha umas grutas onde ficavam uns aquários com peixes exóticos, que eu não cansava de admirar.
Passava o dia neste parque mas minhas brincadeiras eram pouco de ar livre.
Levava comigo uns bonequinhos de borracha de 10 centímetros de altura que eram fundidos com roupa de vaqueiro e que cavalgavam burrinhos de borracha.
Junto com eles, os soldadinhos de chumbo, coisa que os meninos de hoje em dia não tem nem idéia de como eram “feios”.
Para mim, no entanto eram meus brinquedos favoritos e apesar de já trazerem uma função previamente definida, ou eram vaqueiros ou eram soldados, a imaginação os transformava em qualquer coisa.
Estes brinquedinhos eram da responsabilidade do meu nonno Nicola que no seu trabalho de pracista (vendedor ambulante de atacados de secos e molhados) trazia-me toda semana um bonequinho novo.
Era ele também que cuidava do meu “arsenal”.
Revólveres de todo tipo, que abriam como de verdade e que disparavam espoletas em tiras.
Espadas, espingardas, etc.
Era com estes brinquedinhos que eu passava horas brincando com meu primo Sérgio.
Ele, filho da irmã de meu pai, Rosetta, morava quase vizinho e apesar de ser mais velho, tinha muita paciência comigo.
Sua irmã Luciana era menor do que eu e portanto eu também era sua única companhia.
Principalmente depois que nosso outro primo Roby tinha viajado com sua irmã Loriana para o Brasil.
O tio Armando, com sua esposa Dorina, foi o primeiro a emigrar para o Brasil, ainda em 1950.
Algumas vezes eu também ia para sua casa para brincar.
Sérgio era o irmão que eu não tinha e era muito apegado a ele.
Mas os passeios não eram apenas estes.
Às segundas feiras, folga das tias, era o dia de ir ao cinema.
Naquela época, antes do filme propriamente dito, era exibido regularmente o desenho animado.

Minha mãe fazia-me entrar no cinema e por ser criança, não cobravam a minha entrada.
Ficava com eles até a exibição do “jornal”, dos “prochainement” (trailers) e dos desenhos animados - quase sempre “Tom & Jerry”, que eram lançamento naqueles dias e que até hoje são exibidos na televisão.
Logo em seguida levava-me para fora do cinema, onde Titta estava me esperando para me levar para casa, não sem antes passar na lanchonete “Excelsior” onde comia um gostosissimo sanduíche de miolo frito.
Isto acontecia quando o filme em exibição não era próprio para crianças.
Em outras ocasiões, vários cinemas exibiam sessões duplas, com intervalo com show de pianista e tudo.
No verão era comum ir-se a cinemas ao ar livre e nestes intervalos eram vendidos sanduíches de pão árabe com falafel ou queijo branco picante - grego- com “coulouria” que eram uns pães tipo bisnaga bem fina em forma de aros de aproximadamente 25 centímetros de diametro que eram pendurados, um junto ao outro nos braços dos vendedores.
Estes vendiam além disso, refrigerantes.
Soda limonada - Zepas, e o lançamento do momento, a Pepsi Cola.
Aliás não sei qual era a doença que eu sofria que precisava tanto tomar purgante.
Só lembro que minha mãe tinha sido aconselhada pelo meu pediatra - Dr. Kardiacos - um grego que usava um estetoscópio geladíssimo, para que o laxante Leite de Magnésia de Phillips, fosse ministrado com Pepsi Cola, para melhorar o sabor.
Minha mãe enchia o copo de Pepsi e colocava uma colher cheia de laxante dentro.
Até hoje sinto o gosto do leite de magnésia quando tomo Pepsi.
Coisa que não consigo tomar, de jeito nenhum.
Desta época lembro-me do colégio Dom Bosco , do Cairo.
Ia de ônibus escolar que era supervisionado por um padre que utilizava pedagogicamente “castanhas” para controlar a algazarra das crianças.
Suas “castanhas” não eram doces e nem salgadas, não eram cozidas e nem assadas, na verdade eram apenas “duras”.
Suas “castanhas” eram os tradicionais cascudos - golpes desferidos nas cabeças das crianças com o nó do dedo médio da mão direita.
Nunca cheguei a provar uma.
Neste colégio “Istituto Don Bosco” cursei os dois primeiros anos de primária.
Era um bom aluno.
Em ambos os anos fui primeiro lugar, premiado com “ medalha de ouro ”.
Naquele tempo ninguém estava preocupado com os traumas psicológicos que poderia se causar nas crianças não agraciadas.
Estavam interessados em ressaltar a qualidade dos chamados “bons alunos”.
E temos que admitir, era muito bom ser o melhor deles.
Apesar disso não faltaram castigos.
O bedel da escola tinha como obrigação diária preencher de tinta de escrita, os potinhos de louça colocados em buracos das bancas de trabalho.
Estávamos aprendendo a escrever com caneta de pena e tinta.
Tínhamos que molhar a extremidade da pena metálica na tinta e depois de assegurar-se que não pingaria no trabalho, se começaria a escrever.
Caneta-tinteiro era para os de posse e os adultos, aliás um modernismo.
Uma determinada tarde, estudava-se até as 16 horas, o bedel acabara de preencher os potinhos e eu estava copiando um soneto que falava de São Francisco, quando de repente pingou um ponto de tinta da pena, sobre o papel.
Imediatamente recorri à folha de mata-borrão, própria para estes acidentes ou para assegurar-se que o trabalho estava suficientemente seco para não sujar outras folhas ou as mãos de quem o manuseasse.

Quando percebi que a gota de tinta espalhava-se em linhas finas fazendo com que aparecessem verdadeiras figuras estranhas, como se pequenos satélites.
Achei muito bonita a imagem e resolvi repeti-la.
Dois pingos não foram suficientes para apreciar os efeitos que apareciam.
Continuei fazendo pingos pequenininhos caírem entre outros maiores, até que apareceu a professora atrás de mim querendo saber o que estava eu fazendo.
Como não tinha nenhuma resposta justificável para dar ela me deu uma tarefa para casa.
Tive que copiar cem vezes a mesma frase - Não devo fazer borrões nos meus livros e cadernos.
Acho que aprendi a lição .
Estas são as poucas lembranças organizadas, desse tempo.
Tenho outras lembranças esparsas que talvez valha a pena narrar, sem necessidade de detalhar o momento e nem o nome dos participantes.
Lembro de uma viagem realizada de ônibus, em uma excursão, com um grupo de amigos de trabalho de meu pai.
Fomos para um lugar chamado Ismailia.
A filha do amigo de meu pai era uma menina linda.
Tinha um cabelo louro, bonito e uns olhos azuis da cor da piscina.
Mas o que mais me chamava atenção era o longo cabelo preso como um rabo de cavalo.

Ela viajou, na volta, no banco da minha frente.
Meu coração batia fortemente, quase na boca, quando no escuro eu acariciava os seus cabelos que caíam na minha frente.
Acho que foi o meu primeiro amor.
Só que ela nunca soube e eu nunca mais a vi e nem me lembro do seu nome.
Lembro de uma cena natalina.
Papai Noel havia chegado em casa e distribuido os presentes.
Eu estava morrendo de medo daquela figura vermelha e com barbas brancas.
Ganhei um cavalo de madeira.
Era Branco com bolas coloridas, alto e tinha até um encosto para evitar que eu caísse.
Sempre achei esquisito aquele cavalo.
Lembro que meu pai não estava presente naquela festa e que chegou logo depois dizendo que encontrou com Papai Noel na escada do edifício e que dissera que estava muito velhinho e pedira para meu pai trazer um bonequinho que ainda havia ficado no fundo do saco.
Não me causou estranheza meu pai não estar na festa.
Ele nunca estava.
Ele trabalhava em jornal e seu expediente sempre era noturno.
Dormia de dia e trabalhava à noite.
Quase nunca nos víamos.
Lembro do meu tio-avô Dodo.
Na verdade ele chamava-se Santo.
Nunca entendi porque tinha o apelido de Dodo, enfim.
Ele era baixinho.
Foi meu padrinho de crisma e vestiu-se de branco.
Ele não era muito mais alto do que eu com 8 anos de idade e naquele dia estava difícil saber-se quem era o padrinho e quem era o afilhado.
Lembro-me de um fato acontecido dias antes.
Ele foi em casa, junto com a esposa Clara.
Sentou-se numa poltrona e eu fui cumprimentá-lo.
Mostrou-me um relógio interessantíssimo.
Era uma relógio que não tinha fundo.
Através de um vidro podia ser visto o movimento do mecanismo de corda.
Achei interessantíssimo e ele me disse que era o meu presente de 1a.
comunhão.
Achei que estava me dando o seu próprio relógio e fiquei achando que não devia ter demonstrado tanto interesse.
Lembro ainda dessa época o primeiro sangue derramado. O meu próprio.
No recreio, um colega que era uma “peste”, atirou-me uma pedra na cabeça que resultou numa ferida profunda.
O Don Carbone, “conselheiro” do colégio levou-me à enfermaria e fez um curativo.

Um pouco de mercúrio cromo e um tampão de gaze esterilizada preso com esparadrapo.
Precisou no entanto cortar o cabelo em torno da ferida e embora não estivesse doendo nada, foi motivo para me transformar no mais novo “ferido de guerra”, motivo de ódio de todos os familiares com os regulares conselhos de não aproximação do “inimigo”.

O “inimigo” no entanto era legal.
Era o colega que mais artes sabia ensinar, talvez o mais animado de toda a turma.
Até hoje lembro do Catena. Foi com ele que assisti pela primeira vez a uma encenação teatral, no próprio colégio.
Era época de páscoa e como não podia deixar de ser, a peça era a Paixão de Cristo, apresentada por alunos mais velhos e até ex-alunos.
Foi uma experiência impressionante.
Foi difícil de acreditar nos meus próprios olhos quando dias mais tarde encontrei no recreio o próprio Cristo e percebi que as feridas dos cravos nas suas mãos já haviam “sarado”.
Não lhe restavam marcas e na minha ingenuidade não compreendi o que poderia haver acontecido, já que a simples pedrada do Catena ainda estava marcada na minha cabeça.
Aliás as marcas de pedradas tinham a qualidade de serem bastante permanentes.
Nessa época, os árabes subiam nas árvores que circundavam o colégio e de lá começavam a apedrejar aos participantes das procissões.
Embora havendo nascido no Cairo, em nenhum momento poderia eu ser considerado egípcio.
Filhos de estrangeiros, automaticamente adquiriam a nacionalidade dos pais.
Poderiam nunca ter estado no país da própria nacionalidade.
Ter nascido, crescido e morrido no Egito que a “jus sanguinis” estimulava o não pertencer.
Aliado ao fato que apenas os muçulmanos poderiam ser árabes, o Cairo naquela época, era dividido em verdadeiras colônias.
Os estrangeiros se relacionavam apenas entre si.
O fato das escolas receberem apenas os filhos dos estrangeiros não permitia qualquer maior aproximação.
A minha avó que foi para o Egito muito pequenininha, não sabia manter uma conversação em árabe nem com a empregada doméstica.

Aliás os contatos com os domésticos eram os únicos que existiam com os árabes.

Não havia maiores aproximações, visitas ou amizades.

Na verdade algumas vezes até que eram tentadas as ligações sociais mas as diferenças culturais eram muito grandes.
Lembro da visita do casal de vizinhos do apartamento onde vivíamos à Rue Faramauy, 20 no bairro de Choubra.
No meio da conversa, o marido pediu licença, foi para um dos quartos do nosso apartamento e passou um tempo a rezar ajoelhado e inclinando a cabeça até o chão.
Estava eu olhando espantado a cena, da fresta da porta e minha mãe dando-me aqueles olhares de reprovação.
Não ficava bem eu ficar olhando.
Os contatos eram apenas com os domésticos e variavam muito.
Havia o porteiro Mahmud que nos inspirou muitíssima pena quando os “chawish” do rei o prenderam e além de bater-lhe, o fizeram ser mordido por cães.
Não sei o que pode ter feito que tivesse merecido tamanho sofrimento.

Sofrimento, no entanto sofri eu por culpa de Saieda, a lavadeira.
Naquela época nem o apartamento tinha tanque próprio para lavar roupa e muito menos se dispunha de máquina de lavar.
Consequentemente às segundas feiras vinha Saieda para fazer a lavagem das roupas e principalmente dos lençóis e toalhas.
Em casa havia um enorme tonel de ferro que depois de cheio d’água, acendiam um fogareiro em baixo para esquentar a água e ferver a roupa.
A segunda feira era uma confusão em casa.
Saieda trazia mais duas ajudantes e aquelas mulheres enchiam o banheiro onde havia espaço e condições de espremer a roupa na banheira.
Eu gostava de ficar por perto principalmente olhando as coxas daquelas mulheres, cujas saias eram arregaçadas nas pernas, deixando-as à mostra.

Perto de quem come e longe de quem trabalha diz o ditado e tem muito sentido.
Chamara-me a atenção como ficava bonita a coloração do suporte do tonel.
Embora não houvesse fogo a cor era quase igual e resolvi verificar do que se tratava.
Não deu outra, queimei seriamente uma das mãos, pois aquela cor, mesmo já havendo desaparecido do ferro do suporte, este ainda acumulava muito calor.
O resultado foi muita manteiga na mão e muito choro de dor.
É natural que Saieda foi considerada culpada por haver permitido que eu chegasse perto e me machucado.
Não lembro se chegou a ser demitida mas seguramente se minha família fosse inglesa teria lhe aplicado um corretivo mais sério.
O tratamento que os ingleses dispensavam aos domésticos chegava a ser cruel.
Quase de dono e escravo.
Não admira o ódio dos árabes aos ingleses e por conseqüência a todos os estrangeiros.
Não havia aproximação, nem mesmo, ou muito menos, entre as crianças.
A estas alturas, meu tio Armando escrevia cartas desde o Brasil, insistindo para que o restante da família também viajasse.
O Brasil era uma terra de grandes oportunidades, o verdeiro país do futuro.
Assim, em 1954 , meus avós Antonio e Maria, junto com Rosetta, marido e filhos Sergio e Luciana, também viajaram para o Brasil.
Para mim foi um grande trauma perder meu único amigo e companheiro de brincadeira.
Na verdade, insubistituível, já que nem ia na casa de ninguém e nem recebia nenhuma criança vizinha.
Lembro que o edifício de 4 andares onde morávamos, tinha sacadas dando para rua estreita.
Em frente havia outro edifício.
Moravam dois irmãos no quarto andar.
Nunca soube seus nomes.
Na verdade um era “psit!” e outro “ei!" Era assim que eu os chamava da sacada do nosso apartamento e “brincava” com eles todas as tardes.
Eles na sua sacada e eu na minha.
Brincávamos de tiros e até de “esconde esconde”.
Como? Muito criativamente.
Eles se escondiam abaixo da balaustrada da sacada e eu também.
Quando nos encontrávamos visivelmente, então era aquela risada.
Nunca os vi de perto, acho que nem os reconheceria se os encontrasse na rua, coisa difícil de acontecer, mas deixaram uma boa lembrança de amizade.
Não se tratava de não ter permissão de cruzar a rua ou de sair de casa porque era pequeno.
Tinha a oportunidade de ir brincar com uma menina num apartamento que estava igualmente do outro lado da rua e até mais longe.
Simplesmente esta menina era italiana e os coleguinhas do edifício em frente eram egípcios.
Lamento não tê-los conhecido, mas assim era a vida dos estrangeiros no Egito.
Culpa deles e nossa.
A situação em 1956 estava começando a esquentar para os estrangeiros.
Estar num taxi não era garantia de segurança.
Não eram poucos os árabes que estiravam língua e jogavam pedras para os ocupantes estrangeiros dos táxis.
Tanto que deixou de ser possível utilizar com tranqüilidade as “carroças” , verdadeiros táxis puxados por até dois cavalos e que tornavam a volta para casa um verdadeiro passeio.
Carroças altas, pretas, forradas de couro.
Algumas totalmente abertas e outras fechadas ou com a tampa estirada sobre as cabeças apenas dos passageiros.
O cocheiro balançava um enorme chicote que apenas estalava ao lado das orelhas dos cavalos sem ferí-los e gritava “Emchi, Emchi!” A decisão de sair do Egito foi mais em função do ambiente social que se estava vivendo do que por outra razão qualquer.
Todos nós adorávamos viver no Cairo.

Até hoje a família sente saudades e pequenas lágrimas despontam nos olhos.

Permanecer, no entanto, parecia ser perigoso e havendo um irmão de meu pai viajado para o Brasil e escrito que já tinha construído uma casa própria e que o Brasil estava aceitando a vinda de imigrantes, foi um chamariz para o resto da família.
O Brasil ficava na América, do sul, mas este era apenas um detalhe.
Não poderia ser tão longe.
Meu tio chamou meu avô, que depois de tentar um pouco a vida no Rio de Janeiro, aliás no Jardim Primavera, perto de Caxias, e até ter construído uma enorme casa naquele local, aceitou um emprego no Recife.
Para supervisionar a usina de força elétrica da fábrica de tecidos em Camaragibe, município de São Lourenço.
As promessas e oportunidades pareciam ser muito boas para conseguir emprego e fazer uma nova vida.
A decisão aconteceu e em meados de 1956 tomamos um trem do Cairo até Alexandria e aí um navio turco para Nápoles, na Itália.
O navio, turco, era o SKANDERUM que levou três dias entre o porto de Alexandria e o de Nápoles.
Lembro até hoje estarmos sentados numa mesa do bar do navio, quase à popa, e começamos a senti-lo em movimento, afastando-se do cais.
Estava junto com meus pais, de mãos dadas, eu sem entender, e eles chorando.
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