O MANIFESTO COMUNISTA
O Manifesto Comunista fez
a humanidade caminhar. Não em direção ao paraíso, mas na busca (raramente bem
sucedida, até agora) da solução de problemas como a miséria e a exploração do
trabalho. Rumo à concretização do princípio, teoricamente aceito há 200 anos,
diz que "todos os homens são iguais". A Liga dos Comunistas
encomendou a Marx e a Engels a elaboração de um texto que tornasse claros os
objetivos dela e sua maneira de ver o mundo. Nesse sentido, o Manifesto é
mais um monumento do que um documento... Pétreo, determinante, forte: letras,
palavras, e frases que queriam Ter o poder de uma arma para mudar o mundo,
colocando no lugar "da velha sociedade burguesa uma associação na qual o
livre desenvolvimento de cada membro é a condição para o desenvolvimento de
todos."
O Manifesto tem uma
estrutura simples: uma breve introdução, três capítulos e uma rápida conclusão.
A introdução fala com
um certo orgulho, do medo que o comunismo causa nos conservadores. O
"fantasma" do comunismo assusta os poderosos e une, em uma
"santa aliança", todas as potências da época. É a velha
"satanização" do adversário, que está "fora da ordem", do
"desobediente". Mas o texto mostra o lado positivo disso: o
reconhecimento da força do comunismo. Se assusta tanto, é porque tem alguma
presença. A parte I, denominada "Burgueses e Proletários", faz
um resumo da história da humanidade até os dias de então, quando duas classes
sociais antagônicas (as que titulam o capítulo) dominam o cenário.
A grande contribuição deste
capítulo talvez seja a descrição das enormes transformações que a burguesia
industrial provocava no mundo, representando "na história um papel
essencialmente revolucionário".
Com a argúcia de quem
manejava com destreza instrumentos de análise socioeconômica muito originais na
época, Marx e Engels relatam (com sincera admiração !) o fenômeno da
globalização que a burguesia implementava, mundializando o comércio, a
navegação, os meios de comunicação.
O desenvolvimento capitalista
libera forças produtivas nunca vistas, "mais colossais e variadas que
todas as gerações passadas em seu conjunto". O poderio do capital que
submete o trabalho é anunciado e nos faz pensar no agora do
revigoramento neoliberal: nos últimos 40 anos deste século XX, foram produzidos
mais objetos do que em toda a produção econômica anterior, desde os primórdios
da humanidade.
A revolução tecnológica e
científica a que assistimos, cujos ícones são os computadores e satélites e
cujo poder hegemônico é a burguesia, não passa de continuação daquela descrita
no Manifesto , que "criou maravilhas maiores que as pirâmides do
Egito, que os aquedutos romanos e as catedrais góticas; conduziu expedições
maiores que as antigas migrações de povos e cruzadas". Um elogio ao
dinamismo da burguesia ?
Impiedoso com os setores
médios da sociedade – já minoritários nas formações sociais mais conhecidas da
Europa - , o Manifesto chega a ser cruel com os desempregados, os
mendigos, os marginalizados, "essa escória das camadas mais baixas da
sociedade", que pode ser arrastada por uma revolução proletária mas, por
suas condições de vida, está predisposta a "vender-se à reação". A
relativização do papel dos comunistas junto ao proletariado é o aspecto mais
interessante da parte II, intitulada "Proletários e Comunistas".
Depois de quase um século de
dogmatismos, partidos únicos e "de vanguarda" portadores de verdade
inteira, é saudável ler que "os comunistas não formam um partido à parte,
oposto a outros partidos operários, e não têm interesses que os separem do
proletariado em geral".
Embora, sem qualquer
humildade, o Manifesto atribua aos comunistas mais decisão, avanço,
lucidez e liderança do que às outras frações que buscam representar o
proletariado, seus objetivos são tidos como comuns: a organização dos
proletários para a conquista do poder político e a destruição de supremacia
burguesa.
O "fantasma" do
comunismo assombrava a Europa e o livro procura contestar, nessa parte, todos
os estigmas que as classes poderosas e influentes jogavam sobre ele. Vejamos
alguns desses estigmas, bastante atuais, e a resposta do Manifesto:
Os comunistas querem acabar
com toda a propriedade, inclusive a pessoal !
Você já deve ter ouvido
isso... Em 1989, no Brasil, quando Lula quase chegou lá, seus adversários
espalharam o boato de que as famílias de classe média teriam que dividir suas
casas com os sem-teto... Marx e Engels responderam que queriam abolir a
propriedade burguesa, capitalista. Para os socialistas, a apropriação pessoal
dos frutos do trabalho e aqueles bens indispensáveis à vida humana eram
intocáveis.
Os comunistas querem acabar
com a família e com a educação !
Sempre há alguém pronto para
falar do comunista "comedor de criancinha". Na sociedade capitalista
a educação é, ela própria, um comércio, uma atividade lucrativa...
Os comunistas querem
socializar as mulheres !
Essa fazia parte do catecismo
de "satanização" das idéias socialistas. "Para o burguês, sua
mulher nada mais é que um instrumento de produção. Ouvindo dizer que os
instrumento de produção serão postos em comum, ele conclui naturalmente que
haverá comunidade de mulheres. É bom lembrar que alguns socialistas, até hoje,
não conseguiram aceitar essa nova compreensão da mulher. O machismo nega o
marxismo...
A parte III, denominada
"Literatura Socialista e Comunista" faz fortes críticas às
diferentes correntes socialistas da época.
O Manifesto corta
com a afiada faca da ironia três tipos de socialismo da época: o
"socialismo reacionário" (subdividido em socialismo feudal,
socialismo pequeno-burguês e socialismo alemão, o "socialismo conservador
e burguês" e o "socialismo e comunismo crítico-utópico".
Nesse capítulo a obra mostra
seu caráter temporal, quase local. Revela sua profunda imersão na efervescência
das idéias e combates daquela época, quando a aristocracia, para salvar os
dedos já sem seus ricos anéis, condena a burguesia e, numa súbita generosidade,
tece loas a um vago socialismo.
A conclusão, "Posição
dos Comunistas Diante dos Diferentes Partidos de Oposição" é um relato
das táticas adotadas naquele momento pelos comunistas, na França, na Suíça, na
Polônia e na Alemanha. Estados Unidos e Rússia, que viviam momentos de alta
tensão social e política, não são mencionados, como reconheceu Engels em maio
de 1890, ao destacar com sinceridade "o quanto era estreito o terreno de
ação do movimento proletário no momento da primeira publicação do Manifesto em
fevereiro de 1848".
O Manifesto Comunista como
não poderia deixar de ser, termina triunfalista e animando. Curiosamente,
retoma a idéia do "fantasma", ao desejar que "as classes
dominantes tremam diante da idéia de uma revolução comunista". Os
proletários, que têm um mundo a ganhar com a revolução, também são, afinal,
conclamados, na célebre frase, que tantos sonhos, projetos de vida e revoluções
sociais já inspirou:
"PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-VOS !"
Referencias Bibliográficas
MARX,
Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto comunista. 8.
ed., Ed. Vozes, Petrópolis 1998