A  experiência burguesa da Rainha Vitória e Freud

 

 

As condições de vida na Inglaterra e na América do Norte diferem daquelas reinantes na Alemanha, de sorte que na língua inglesa não há um único termo para ixprimir as idéias. As dificuldades lingüísticas  exprimiam as dificuldades essenciais. A terminologia Alemã por certo as reconheciam: Bürgertum e bougeosie, do modismo importado. O Bürger era um rotulo simultaneamente legal e social: designava o cidadão de um Estado ou membro de uma  classe, uma ambigüidade que os escritores alemães não deixaram de explorar.mais ainda os alemães usavam não só o termo Bürgertum, como também Misttelstand, e a curiosa historia lingüística desta última denominação oferece  uma prova adicional de que a instabilidade no uso da linguagem no século XlX muitas vezes revela uma instabilidade no âmago da sociedade, bem como uma certa inquietação.

Na  década de 1870, com a fundação do novo reich e em meio a turbulência de uma especulação desenfreada, muitas vezes ruinosa, o termo Misttelstand foi rebaixado a sinônimo de “pequeno burguês”, do pequeno comerciante que tentava por todos os meios sobreviver a mares de falências, e dos funcionários subalternos que se amontoavam nos empregos desalentadores que os novos impérios industriais e comerciais lhe ofereciam. Misttelstand. A historia deste termo, incluindo sua irresistível decadência, documenta as sérias tensões existentes no seio da burguesia alemã.

Tudo indica, contudo, que  autores ingleses julgavam aceitáveis chamar as classes médias alemãs de “burgeois”.

A grande superioridade da França sobre a Inglaterra consiste em que na França todo bourgeois aspira a ser um artista, ao passo que na Inglaterra todo artista aspira ser bourgeois.

Bourgeois, bürger ou middle class, exibe a variedade dos tipos sociais reunidos sob estes amplos rótulos.

Os burgueses eram proprietários de terras que viviam de renda de seus investimentos rurais. Eles eram numerosos e influentes na França e na Prusia até meados do século XlX.

Eles não viviam em suas propriedades rurais. O burguês era conhecido como uma animal urbano, porque viviam em casas luxuosas nos grandes centros.

Na França, numerosa, a classe média estava nitidamente dividida entre a classe ativa, engajada no comercio, na industria, na agricultura e nas profissões liberais, e a burguesia ociosa, formada por  homens sem emprego ativo proprietários que tem rendimentos de 500 ou 1.500 libras pelo aluguel de suas propriedades ou através da divisão de produção com os agricultores, sem toda via tentarem aumentarem a produtividade.

Particularmente a Bildung, ou seja, o domínio de uma cultura superior ou, por vezes, apenas a sua exibição elegante, fornecia as classes médias mais instruídas os argumentos para sua preensão a um status mais elevado e, às vezes, uma certa autoridade.

Em Berlim, na Alemanha, o aristocrata Rudolf von Delbruck, ocupava um cargo publico. Apesar de viver entre a burguesia e a corte tinha uma vida própria.

Na Alemanha, o Bürgertum perfazia, em 1861, 9% da população, abrangendo desde homens economicamente poderosos, num extremo, até o ameaçado Mittelstand, no outro.

Na Grã-Bretanha , o numero de contribuintes com renda anual de 200 libras esterlinas praticamente duplicou em duas décadas, passando de pouco mais de 9 mil em 1951 para aproximadamente 17.500 em 1971.

Em meados do século  na Grã-Bretanha, enquanto as camadas inferiores e sobre tudo as classes médias razoavelmente prosperas,ian diminuindo ligeiramente a distancia que as separava dos burgueses mais abastados, os verdadeiramente ricos permaneciam inacessíveis, uma fonte de fantasias e invejas.

Na Inglaterra, na Alemanha, ou em qualque ouro lugar, um jovem esforçado e atento às oportunidades podia transformar um doutorado ou um diploma universitário num passaporte para uma posição social.

Na Munique do século XlX, o teatro, a ópera, a orquestra sinfônica, os museus, a universidade, tudo foi criado e se manteve graças ao mecenato Wittelsbach.

Em Berlin, capital do reino da Prússia, a partir de 1871, do Império unificado da Alemanha, embora todos os seus magníficos museus tenham sidos construídos às custas e sob as ordens dos Hohenzollern, a esplendida Orquestra Filarmônica  de Berlin foi fundada em 1882 como um empreendimento particular.

 

 

Na introdução do seu estudo sobre a experiência burguesa no século XIX, Peter Gay, fez um inventário de definições contemporâneas do termo burguesia. Na seguinte passagem sintetiza a dificuldade em se elaborar uma definição abrangente e diferenciada:

 

"(...) perseverante, ordeiro, prudente, (...) o burguês era antes de mais nada, um chato. Era ou aspirava ser alguém que vivia de rendas (...). E de fato não havia um burguês típico: o empresário inescrupuloso e o engenheiro criativo lhe serviam de modelo tanto quanto o quitandeiro pacato e o burocrata pedante (...). O que os burgueses tinham em comum era a qualidade negativa de não serem nem aristocratas nem operários e de se sentirem mal em suas próprias peles (...). Aqueles que se propuseram, no século XIX, a caracterizar o burguês ­ e quase todo o mundo o tentou ­ sabiam menos do que acreditavam saber". 1

 

Peter Gay, percebendo o perigo de se incorrer em "simplificações tentadoras", afirma: "Minha concepção do que seja burguês surgirá claramente (...) dos personagens que colocarei em cena e dos documentos de que lançarei mão". Destaca ainda que: "a rigor não houve experiência burguesa no século XIX e em nenhum outro, houve tão somente experiências de burgueses". No entanto, o sujeito da ação é coletivo, pois “estabelece laços sociais, pertence a culturas parciais que o expõem a conjuntos previsíveis de experiências, os quais constituem famílias suficientemente semelhantes entre si para seduzir o historiador a emitir julgamentos coletivos".

 

Simplificações tentadoras: A necessidade de viver segundo classificações nitidamente delineada está profundamente arraigada na mente humana e constitui uma de suas primeiras exigências. Deixando simplesmente à margem qualquer evidencia complicadora, eliminando sumariamente quaisquer duvida e empregando o que supunha indicadores objetivos e impressões subjetivas, tudo igualmente problemático, jornalistas,políticos e  romancistas do século XlX falavam e escreviam como se a burguesia fosse uma entidade social sólida, única, definível e imensamente importante.

 

1. Gay, Peter. "A Educação dos Sentidos: a experiência burguesa da Rainha Vitória e Freud". São Paulo, Cia. das Letras, 1989, p. 33.

 

 

Todos, porém, ou quase todos, se utilizavam da linguagem de classes com naturalidade. Poetas e romancistas não eram menos inequívocos ao escolherem

suas palavras. E não era verdade que o burguês já era visível havia séculos? Um dos caminhos usados pelos estudiosos do burguês na tentativa de defini-lo foi o de trilhar sua historia.

“O triunfo da burguesia”, conforme sugere a lenda popular, tal triunfo não se restringia às esferas políticas ou econômicas. Os burgueses conquistadores pareciam tão irresistível no âmbito do gosto e das idéias quanto o eram na legislatura ou na bolsa de valores.

Na revolução de 1830 levou ao trono o paradigma da burguesia, Lois Philppe.

Em 1832 na Inglaterra, a lei de reformas assegurou a primazia política a classe média. Não podemos esquecer que a  rainha Vitória era a mais burguesade todos. Como nos demais paises a classe dominante é a burguesia. Na Inglaterra a burguesia nunca manteve sozinha o poder.

Uma batalha de percepções: todos esses esforços para definir a burguesia é uma batalha de percepções. As classes médias eram incapazes de sentir ou dar amor  com sinceridade. Sobre o casamento burguês, Freud define como um sintoma patológico comum entre os homens com ficção em suas mães. Ou seja, “quando amam não desejam, quando desejam não pode amar”.

No Manifesto Comunista, Marx e Engels escreveram: “O burguês vê   em sua mulher um mero instrumento de produção”. E continuam, “nossos burgueses, não satisfeitos por terem à sua disposição as esposas e filhas de seus proletários, sem mencionar as meretrizes, tem imenso prazer em seduzir as mulheres dos outros. Por isso Marx também dizia que, alem  da burguesia não ser amada, não sabe amar.

Nas décadas em que se saudavam ou se deploravam, a burguesia viu-se forçada a    defensiva, sem os mais retumbantes triunfos.  Apesar da influencia, os burgueses não detinham o monopólio da opinião  publica acerca da classe média. Nem mesmo Marx e Engels, que não morriam de amor pela burguesia, acharam palavras expressivas para louva-la. “A burguesia sujeitou o campo às leis da cidade”. E em um famoso parágrafo do manifesto comunista   escreveram: “a burguesia criou cidades enormes, arrastou para dentro da civilização todas as nações, até mesmo as bárbaras”, e assim “salvou uma parcela considerável da população da estupidez da vida rural”.50

“Quando falo da burguesia, incluo nela a assim chamada aristoclacia”. (Engels  Friedrich – The Condition of the Working Class in England in 1844), ( a condição  da classe operaria na Inglaterra). Que a burguesia do século XlX produziu alguns superegos não resta nenhuma duvida. Para divulgar um ou outro sentimento de culpa,  geralmente eles usam expressões como esta: “nós, refiro-me as classes médias,  e não somente aos ricos, abandonamos vocês”.  Para parecerem mais reais eles diziam que ao invés de oferecer justiça, oferecia caridade e ao invés de simpatias ofereciam conselhos irreais.

Os burgueses  tinham um estilo comum de pensamento em que se refere ao amor e a agressão.

 

 

 

Referência bibliográfica

 

Gay, Peter. "A Educação dos Sentidos: a experiência burguesa da Rainha Vitória e Freud". São Paulo, Cia. das Letras, 1989

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