Esta é a versão em html do arquivo http://gladiator.historia.uff.br/labhoi/pdf/dssma06.pdf.
G o o g l e cria automaticamente versões em texto de documentos à medida que vasculha a web.
Para criar um link para esta página ou armazenar referência a ela, use: http://www.google.com/search?q=cache:mv16iWAwRBgJ:gladiator.historia.uff.br/labhoi/pdf/dssma06.pdf+a+experiencia+burguesa&hl=pt-BR&ie=UTF-8


O Google não é associado aos autores desta página nem é responsável por seu conteúdo.
Os seguintes termos de pesquisa foram destacados:  experiencia  burguesa 

Page 1
CAPÍTULO V
CÓDIGOS, COMPORTAMENTOS E IMAGENS: A EXPERIÊNCIA
BURGUESA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, NA PRIMEIRA
METADE DO SÉCULO XX.
"A despeito da confiabilidade e do tirocínio de
muitas pesquisas e análises realizadas com
competência por estudiosos do passado, a
cultura burguesa continua a desafiar o
historiador a sondá-la mais fundo, a extrair
novas interpretações do seu solo
inesgotavelmente rico".
(Peter Gay,
Educação dos Sentidos
)
5.1 ­ EM BUSCA DE UMA (IN)DEFINIÇÃO
Na introdução do seu estudo sobre a experiência burguesa no século XIX, Peter
Gay, fez um inventário de definições contemporâneas do termo burguesia. Na seguinte
passagem sintetiza a dificuldade em se elaborar uma definição abrangente e diferenciada:
"(...) perseverante, ordeiro, prudente, (...) o burguês era antes de mais nada, um chato. Era ou
aspirava ser alguém que vivia de rendas (...). E de fato não havia um burguês típico: o empresário
inescrupuloso e o engenheiro criativo lhe serviam de modelo tanto quanto o quitandeiro pacato e o
burocrata pedante (...). O que os burgueses tinham em comum era a qualidade negativa de não serem
nem aristocratas nem operários e de se sentirem mal em suas próprias peles (...). Aqueles que se
propuseram, no século XIX, a caracterizar o burguês ­ e quase todo o mundo o tentou ­ sabiam
menos do que acreditavam saber".
1
Peter Gay, percebendo o perigo de se incorrer em "simplificações tentadoras",
afirma: "Minha concepção do que seja burguês surgirá claramente (...) dos personagens que
colocarei em cena e dos documentos de que lançarei mão".
2
Destaca ainda que: "a rigor
não houve experiência burguesa no século XIX e em nenhum outro, houve tão somente
experiências de burgueses".
3
No entanto, o sujeito da ação é coletivo, pois "estabelece
laços sociais, pertence a culturas parciais que o expõem a conjuntos previsíveis de
1
Gay, Peter. "A Educação dos Sentidos: a experiência burguesa da Rainha Vitória e Freud". São Paulo, Cia.
das Letras, 1989, p. 33.
2
Idem., p. 14.
3
Idem., p. 19.

Page 2
experiências, os quais constituem famílias suficientemente semelhantes entre si para
seduzir o historiador a emitir julgamentos coletivos".
4
Seduzido pela mesma possibilidade, Lucien Goldmann destaca que:
"O sujeito transindividual só existe enquanto estrutura coletiva nas consciências individuais, mas
também, que os processos que surgem em cada consciência individual (pensamento, afetividade,
comportamento, etc.) não podem ser comp reendidos senão a partir de uma consciência
transindividual e do comportamento do grupo (...) este comportamento do sujeito transindividual,
apresenta-se sempre sob a forma de uma estrutura significativa que, não devemos esquecer, nunca
nos é dada empiricamente de forma imediata. Uma das tarefas mais importantes consiste em
encontrar o conjunto de fatos que constituem uma tal estrutura e em relacionar entre si os vínculos
mais importantes que reúnem os seus elementos".
5
A composição deste quadro de significados é fundamental, por ser tal estrutura a
delimitadora do campo de respostas possíveis, essencial para se conhecer o quadro de
representações sociais do grupo. O campo de respostas possíveis, por sua vez, tem a
característica fundamental de ser dinâmico, por variar de acordo com as modificações das
estruturas e processos existentes.
Portanto, estudar os fenômenos humanos procurando recompor a sua estrutura
significativa requer que se considere dois itens, como foi proposto por Goldmann:
"1º - A existência de um sujeito coletivo que atua permanentemente e que, através desta ação, tenta
resolver o número considerável de problemas que lhe coloca a vida cotidiana, ou mais exatamente,
que esta coloca a cada um dos indivíduos que dela fazem parte".
2º - A elaboração através deste comportamento, por centenas e milhares de comportamentos
individuais, de tentativas, de erros, de correções orientadas no sentido da coerência, de um conjunto
de categorias mentais estruturadas que constituem uma unidade com a ajuda das quais o grupo se
orienta não só no seu comportamento prático, mas que constituem o fundamento psíquico na base do
que podem elaborar a sua obra de grandes gênios da arte e da literatura, os filósofos (...) estas
categorias mentais têm na realidade um caráter histórico passageiro e precário (...) estreitamente
ligadas ao contexto social e econômico e ao comportamento de um sujeito coletivo que no interior do
contexto tenta resolver o conjunto de seus problemas, elas têm um caráter racional relativamente a
esta situação dada e somente em relação a ela".
6
Inserindo-se na mesma linha de análise acima exposta, o presente trabalho procurou
aprofundar o estudo sobre o comportamento burguês do século XX, na cidade do Rio de
Janeiro, à luz da perspectiva histórico-semiótica, tal como ficou exposto na sua introdução.
4
Idem., p. 22.
5
Goldmann, L. "Ciências Humanas e Filosofia: O que é Sociologia?", São Paulo, Difel, 1980, p. 77,
6
Goldmann, L. "Epistemologia e Ciência Política", Lisboa, Ed. Presença, 1978, pp. 53 e 106.

Page 3
Tanto Peter Gay como Lucien Goldmann valorizaram o contexto sócio-cultural para
a elaboração de conceitos analíticos. O primeiro autor, como já foi exposto, rejeita qualquer
definição
a priori
que não seja historicamente elaborado. Já o segundo, reforça a ligação da
produção de categorias mentais com o contexto social, sendo necessariamente elaboradas a
partir de realidade históricas dinâmicas.
7
Da mesma forma, neste trabalho não se preocupou definir
a priori
uma burguesia
carioca, optando-se por realizar, no primeiro capítulo, a composição do panorama geral de
comportamento da classe dominante, ao longo dos primeiros cinqüenta anos deste século.
Período em que tal grupo se constitui como classe social, à medida que gerava um quadro
de significações, através do qual poderia ser reconhecido por seus pares e identificado por
outros grupos que o antagonizavam na dinâmica social.
8
Anteriormente, no terceiro e quarto capítulos, em torno da codificação da noção de
espaço, foram recuperadas programações sociais de comportamento que fizeram surgir um
universo de signos repletos de referências burguesas.
Com efeito, um sistema de signos que caracterizasse um comportamento do tipo
burguês já poderia ser encontrado, em alguns setores da classe dominante, desde o início do
século. Entretanto, ao longo do período estudado observou-se tanto o aprimoramento da
coleção de objetos, lugares e vivências etc., quanto uma ampliação para o conjunto da
classe dominante, do consumo de tais signos, caracterizando, assim, um padrão
comportamental que conferiu o estatuto de burguesia à classe dominante carioca.
Tal padrão de comportamento era formado por determinadas atitudes diante do
mundo e das coisas, dentre as quais destacam-se: o culto à boa aparência, a riqueza
associada ao poder, o conforto relacionado ao luxo ­ expresso, principalmente, no consumo
exagerado de objetos ­, a valorização de uma educação formal e tradicional e a
hierarquização do espaço concedendo dignidade a determinados lugares que, a partir de
então, forneciam para quem pudesse freqüentá-los o estatuto de riqueza e exclusividade.
Desta forma, a idéia de pertencer à classe dominante está intimamente ligada, tanto
à possibilidade de se freqüentar lugares exclusivos, eleitos pelo grupo como signos de
riqueza e poder econômico, quanto ao consumo de um repertório de objetos que também
7
Thompson, E. P. " Tradicion, Revuelta y Consciencia de Clase", Barcelona, Ed. Crítica, 1979, p. 35.
8
Gay, Peter, op. Cit., p. 27.

Page 4
evidenciassem uma condição social elevada. Neste sentido, a classe dominante que vivia na
cidade do Rio de Janeiro escolheu, da mesma forma que uma outra burguesia já havia
feito,
9
a riqueza material como signo por excelência de um modo de vida.
Denominar tal modo de vida de "burguês", implica reconhecer um modo de
produção que lhe é subjacente e que lhe informa de valores e normas sociais. De fato, a
cidade do Rio de Janeiro sofreu, ao longo do período analisado, graves transformações
urbanas, sociais e políticas que devem ser compreendidas à luz de sua inserção no circuito
internacional do sistema capitalista, como já foi feito, de acordo com a perspectiva adotada
por este trabalho, no primeiro capítulo.
5.2 ­ O PODER DA IMAGEM FOTOGRÁFICA
A fotografia, nesta pesquisa, foi considerada como um produto cultura, fruto do
trabalho social de produção de signos, assim sendo, contribuiu, de maneira decisiva, para a
veiculação de novos comportamentos e representações da classe no poder. Por outro lado, a
imagem fotográfica atuou como eficiente meio de controle dos comportamentos e
representações da maioria dos grupos que a antagonizavam na dinâmica social, devido
principalmente a sua pretensa objetividade.
Todo o processo de desenvolvimento tecnológico ocorrido a partir da segunda
metade do século XIX, com descobertas científicas ­ relacionadas, entre outras coisas, à
produção de energia ­ e aprimoramento de outras, como foi o caso da própria fotografia ­
viabilizou a criação da idéia de um "admirável mundo novo" repleto de certezas e
possibilidades.
10
Este mundo moderno, criado no bojo de uma segunda revolução industrial, é um
mundo que se pretende anônimo. A simulação caracteriza a experiência contemporânea,
justificando-se assim, o prestígio concedido à imagem, pois através dela se substitui a
experiência por sua representação. Suzan Sontag caracteriza a modernidade, experimentada
pelo século XX, sob este ponto de vista:
9
Centro de Memória da Eletricidade no Brasil. "Energia Elétrica e Urbanização", Rio de Janeiro, Centro de
Memória de Eletricidade no Brasil, Mimeografado, Capítulo I.
10
Hobsbawn, Eric. "A Era do Capital", Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1979, Capítulo 12.

Page 5
"Uma sociedade tornar-se moderna quando uma de suas principais atividades passa a ser a produção
de imagens; quando as imagens, que possuem poderes extraordinários para determinar as nossas
exigências com despeito à realidade são elas mesmas substitutas cobiçadas da experiência autêntica,
tornam-se indispensáveis à boa saúde da economia, a estabilidade política e a busca da felicidade
individual".
11
É interessante notar que o processo de naturalização da imagem e homogeneização
das representações se faz, par a par, à instituição da ordem burguesa que, como explica
Roland Barthes, é:
"O movimento pelo qual a burguesia transforma a realidade do mundo em imagem do mundo, a
História em Natureza. E esta imagem tem de notável o fato de ser uma imagem invertida. O estatuto
de burguesia é particular, histórico e o homem que ela representa será universal e eterno; a classe
burguesa edificou o seu poder sobre progressos técnicos, científicos e sobre uma transformação sem
limites da natureza".
12
Desta forma, tanto para o controle das relações sociais, como para a ampliação do
universo de consumo as imagens, no período estudado, principalmente as fotográficas, são
fundamentais, pois trazem embutidas na sua composição programas sociais de
comportamento formulados por quem controla os meios técnicos de produção da imagem,
reforçando com isso o controle das representações alternativas e garantindo a própria
reprodução do sistema.
Já foi amplamente demonstrado, no Capítulo II, a relação entre o controle dos meios
técnicos de produção da imagem e a possibilidade de se criar um padrão de representação,
utilizando-se determinados sistemas de signos e não outros. Assim, o mundo em frente às
lentes é revivido ao ser selecionado, enquadrado e transformado em um só plano, por
aquele que está por trás das lentes. Este último, como já foi comentado, não é um sujeito
individual, mas um sujeito coletivo que produz representações sociais. Tal produtor de
discursos fotográficos pertence, ou está atrelado por laços de dependência, a uma
determinada classe social, cujas representações e códigos comportamentais são pertinentes
ao papel que ela desempenha no conjunto da sociedade.
Com efeito, a classe dominante controla os meios técnicos de produção cultural
tanto ao nível de propriedade dos equipamentos, máquinas, meios de locomoção, quanto ao
nível da concepção e divulgação de valores culturais. Portanto, através da mensagem
fotográfica, foi traçado o perfil do universo de representações e os principais códigos
11
Sontag, Susan. "Ensaios sobre Fotografia", Rio de Janeiro, Ed. Arbor, 1980, p. 147.
12
Barthes, Roland. "Migologias", Lisboa, Edições 70, s.d., p. 208.

Page 6
comportamentais da classe dominante, na cidade do Rio de Janeiro, que se constitui nas
primeiras décadas deste século e se institui ao longo dos anos posteriores.
Em tal universo de representação estão contidas imagens que permitiram a esta
classe adquirir consciência de dominação, como aquelas que lhe possibilitaram exercer a
sua hegemonia sobre os outros grupos, principalmente em relação às classes populares, na
constituição da sociedade burguesa carioca; à medida que tais imagens interferiram na
produção de representações próprias dos grupos dominados, ou então relegarem suas
manifestações culturais ao plano do pitoresco. Neste sentido, o discurso fotográfico, como
expressão da classe dominante, reforça a ilusão da "liberdade burguesa" ao reafirmar,
principalmente através da abundância e variedade das imagens, o caráter simulacro das
relações burguesa-capitalistas, nas quais o real é substituído por sua representação, o
trabalho torna-se mercadoria e as relações de classe são descaracterizadas nas
representações de massa.
Da mesma forma que outras mensagens, a fotografia possui várias agências
produtoras, neste trabalho optou-se por trabalhar com exemplos procedentes de duas destas:
as fotografias de uma coleção familiar e de duas revistas ilustradas. Sendo que cada um
destes grupos de fotografias atua num determinado âmbito do imaginário social que, por
vezes, se interagem, mas que, via de regra, possuem uma certa autonomia.
Através das fotografias das revistas ilustradas, a imprensa conquistou o seu objetivo
primordial, o de "se colocar como mediador entre a realidade e o leitor, procurando apagar
a sua intervenção para valorizar a informação que transmite (...) o esforço de ocultar
produziu o mito da verdade fotográfica".
13
Reafirma-se aí um dos pressupostos da
ideologia burguesa: a transformação da História em Natureza.
14
Por outro lado, a família, como agência produtora de imagens, forneceu consciência
e coesão à classe dominante. Especialmente no período trabalhado as fotografias de família
­ incluindo-se os instantâneos urbanos, os passeios ao ar livre, as festas, etc. ­, compõem o
quadro onde é possível identificar o que, no universo cultural da época, foi valorizado e
evidenciado como pertencendo a classe que o produziu.
13
Medeiros, H. P. "A Imagem Fotográfica e suas Construções", Rio de Janeiro, Dissertação de Mestrado,
UFRJ, ECO, 1984, p. 14.
14
Barthes, R. op. Cit., p. 209.

Page 7
Não obstante, como chama atenção Jacques Le Goff,
15
as fotografias familiares
preservam a memória do tempo e da evolução cronológica, podendo ser consideradas como
um recurso diante da realidade irremediável da morte. A fotografia materializa uma
imagem que se foi, preserva um olhar, um sorriso, um jeito de ser, um amor, uma
lembrança, um passado, enfim, toda uma história vivida de fato.
Do ponto de vista ideológico, ambas as agências formulam um catálogo de imagens,
para uso coletivo, através do qual a burguesia consagra a indiferenciação ilusória das
classes sociais.
16
Tais imagens cumprem sua tarefa, invadem o espaço da cidade,
acostumam a população à fotografia e seduzem-na com sua mensagem.
Compreendida a produção da imagem sob este aspecto, a utilização do conceito de
hegemonia, elaborado por Antonio Gramsci, torna-se extremamente pertinente, tendo em
vista a sua abrangência e adequação à perspectiva metodológica adotada neste trabalho, tal
como fica exposto na seguinte passagem:
"A novidade gramsciana consiste em considerar que o conceito de hegemonia inclui o de Cultura
como processo global que constitui a `visão do mundo' de uma sociedade e de uma época, e o
conceito de Ideologia como sistema de representações, normas e valores da classe dominante que
ocultam a sua particularidade numa universalidade abstrata. Todavia, o conceito de hegemonia
ultrapassa aqueles dois conceitos: ultrapassa o de Cultura porque indaga sobre as relações de poder e
alcança a origem do fenômeno de obediência e subordinação; ultrapassa o conceito de Ideologia
porque envolve todo o processo social vivo percebendo-o como práxis, isto é, as representações, as
normas e os valores são práticas sociais dominantes e determinadas (...). A hegemonia não é um
`sistema': é um complexo de experiências, relações e atividades cujos limites são fixados e
interiorizados, mas que por ser mais do que ideologia tem a capacidade para controlar as mudanças
sociais, (...) é uma práxis, um processo, pois se altera todas as vezes que as condições históricas se
transformam, alteração indispensável para que a dominação seja mantida. (...) A hegemonia não é
apenas um conjunto de representações, nem doutrinação e manipulação. É um corpo de práticas e
expectativas sobre o todo social existente e sobre o todo da existência social: constitui e é constituída
pela sociedade sob a forma de subordinação interiorizada e imperceptível".
17
O processo de incorporação da hegemonia é feito através da socialização das
práticas típicas do grupo hegemônico para o conjunto da sociedade. Tal socialização se faz,
no mais das vezes, pela reificação do passado através da memória e da tradição, ou então,
pelo reconhecimento resignado de certas práticas como inevitáveis e necessárias. A
introdução de experiências e sabedoria, como bens comuns à coletividade, faz com que
15
Le Goff, Jacques (Org.), "Enciclopédia Einaudi", Volume I, Lisboa, Casa da Moeda, p. 39.
16
Barthes, R. op. Cit., p. 208.
17
Chauí, Marilena. "Conformismo e Resistência", São Paulo, Ed. Brasiliense, 1987, p. 21.

Page 8
cada geração seja aprendiz de suas maiores e cada classe social subordinada àquela que
controla o saber.
18
Tanto pela responsabilidade em transmitir uma determinada tradição, como pelo
controle do saber ­ no caso, a própria produção da imagem ­ a mensagem fotográfica, no
período estudado, atuou como importante veículo de transmissão da hegemonia burguesa
que se formulava na cidade do Rio de Janeiro. Cabe, portanto, avaliar, mais de perto, os
quadros de representações de ambas as agências produtoras da mensagem fotográfica: a
família e as revistas ilustradas, apontando seus pontos de comunicação e independência na
construção de tal hegemonia.
5.3 ­ SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS
Ambas as agências produtoras da imagem fotográficas, acima referidas, pertencem
ao universo da classe dominante, no entanto, possuem naturezas diversas que devem ser
ressaltadas.
Sem dúvida, ficou claro no próprio desenvolvimento da análise de ambas, tal
diversidade, ditada em primeiro lugar pelo âmbito de circulação mais restrito, as fotos de
revista ampliavam o seu mercado consumidor para todos aqueles que tivessem acesso à
revista, comprando-a, tomando-a de empréstimo, ou até mesmo encontrando-a no lixo.
Sendo assim, muitas vezes o acesso a tais revistas ultrapassava a classe dominante, para
qual tais imagens eram produzidas, e atingiam outros grupos sociais estendendo desta
forma a possibilidade de dominação através do controle de outros códigos
comportamentais.
Em segundo lugar, deve-se assinalar o fato de que a coleção familiar pertence a
imigrantes de origem libanesa que, ao longo da primeira metade do século XX,
enriqueceram às custas do comércio de café. Uma trajetória de ascensão social que foi
detalhadamente trabalhada no Capítulo III.
Desta forma, guardando as devidas diferenças de natureza das coleções, procurou-se
compará-las, no que diz respeito ao quadro mais amplo de representações sociais de classe
dominante e dos códigos comportamentais formulados, na cidade do Rio de Janeiro, por
18
Thompson, E. P. Op. Cit., p. 43.

Page 9
esta camada endinheirada da população que usufruía, além do poder econômico, também
do poder político.
Em termos de quadros de representações as principais diferenças entre ambas as
agências foram as seguintes:
1. Enquanto na família a representação das vivências está relacionada à experiência e
à construção da memória do grupo, nas fotos de revista, as representações de
vivências estão relacionadas ao evento, à construção de uma determinada imagem
de cidade e à alienação cultural, e através delas são impostos padrões
comportamentais alheios a experiência do leitor. Configurando-se aí a função
didática das fotografias de imprensa, função essa pouca valorizada nas fotografias
familiares.
2. A imagem produzida pela família, justamente por estar mais atrelada à experiência
vivida, traz uma marca temporal mais delimitada que as produzidas pelas revistas,
embora tal marca não esteja ausente nestas publicações, indicando que ao longo do
tempo os comportamentos e representações coletivas mudam. Tal fato pode ser
explicado por esta coleção de fotografias revelar um processo de ascensão social
bem definido em décadas, podendo estar diluída numa outra coleção familiar.
3. O espaço fotográfico das revistas foi feito exclusivamente por profissionais
apresentando uma incidência de erro quase nula, assim compôs imagens nítidas e
contrastadas bem próximas da realidade. Já o espaço fotográfico da coleção
familiar foi feito tanto por profissionais como por amadores, apontando uma
incidência razoável de erro e um certo distanciamento entre imagem e realidade.
4. O espaço geográfico na coleção familiar está associado à trajetória desta família em
direção à cidade do Rio de Janeiro, sendo tal espaço caracterizado por oposições
que estruturam sua trajetória. Por outro lado, nas revistas ilustradas, o espaço
geográfico está centrado no Rio de Janeiro, mas sua representação ultrapassa-a
mantendo para com ela uma relação de complementaridade ou de oposição,
dependendo do tipo de revista, como pode ser observado no Capítulo IV.
5. Da mesma forma as opções técnicas de revistas como
O Cruzeiro
, valorizam mais
o espaço da figuração, ou seja, as pessoas, suas vivências e estilo de vida, em

Page 10
detrimento do ambiente no qual estão localizadas. Já as opções técnicas de revistas
do tipo da
Careta
se assemelham mais as das fotografias familiares, valorizando
tanto o indivíduo quanto o ambiente. Cabe lembrar que, nos anos cinqüenta, ambas
foram influenciadas pelo padrão impresso por
O Cruzeiro
, deslocando a objetiva
para a figuração e ressaltando a sua participação na composição da imagem.
Do ponto de vista das diferenças de comportamento tratados por ambas as agências,
uma única pode ser apontada e diz respeito justamente ao fato de fotografar. Portanto,
enquanto na família o ato de fotografar está vinculado a captação dos momentos vividos,
lembranças queridas e a publicação de uma posição social conquistada, nas revistas o ato de
fotografar está vinculado a uma representação o mais "natural" possível dos fatos e eventos,
para serem prontamente apreendidos e assimilados pelo público leitor. Tal diferença
repousa justamente na natureza de ambas as agências, anteriormente apontada.
Por outro lado, foi justamente através da avaliação dos pontos de comunicação entre
as duas agências que se reconstruiu o universo de representações da classe dominante
carioca, e que se recuperou um conjunto de programações sociais de comportamento que
conferem, a este grupo no poder, o estatuto de burguesia. É importante deixar claro a
especificidade de um conceito formulado a partir de um contexto e de uma experiência
histórica determinados que, em certa medida, concordam com outros contextos e
experiências da mesma natureza.
A mensagem fotográfica produzida por ambas as agências revelam um quadro de
representações sociais caracterizado pelos seguintes aspectos:
1. As opções técnicas denotam que o ato de fotografar está associado à necessidade de
documentar, de captar a realidade tal como se apresenta, desta forma, a busca da
verdade contifica a representação, que mesmo assim continua sendo representação.
2. Construção de uma imagem do Rio de Janeiro voltada para a vivência de lugares
exclusivos, ligados ao lazer luxuoso, à riqueza e à abundância.
3. Valorização de um tipo de lazer, no qual toda a riqueza produzida pelo trabalho
poderia estar exposta e consumida como orçamento necessário desta atividade.

Page 11
4. Valorização da Zona Sul como representação por excelência do modo de vida
burguês.
5. A cidade do Rio de Janeiro é concebida como palco para o desfile de personalidades
da classe em ascensão.
6. O ato de posar para uma foto indica a participação de um sistema de codificação
que relaciona gestos, indumentária e ambiente.
7. Utilização de objetos como atributos de situações, ambientes e condição social, de
acordo com as seguintes associações: Objetos-Pessoais = estilo de vida do
indivíduo. Objetos-Interiores = determinação do ambiente (doméstico ou público;
simples ou luxuoso, etc.). Objetos-Exteriores = caracterização da paisagem e das
situações (cidade/campo; trabalho/lazer, etc).
8. Valorização do plano coletivo associando-o às idéias de estabilidade, união e
manutenção.
9. Coesão de classe através da vivência e do consumo de um mesmo universo de
signos.
10. Concepção do universo infantil como equivalente ao do adulto.
11. Criação de uma imagem de mulher associada à frivolidade e aos papéis de
expectadora e modelo exemplar.
12. Criação de uma imagem masculina relacionada à ação, à inteligência e ao poder de
deliberação.
13. Concepção de uma noção de trabalho distante do âmbito produtivo e misturado ao
lazer no exercício do poder.
14. Valorização de uma educação formal e acadêmica.
15. Concepção dicotômica da sociedade entre: os "naturalmente" pobres e os
"naturalmente" ricos.
Tais representações fornecem a base para as programações sociais de
comportamento vigentes no período analisado, envolvendo toda a experiência social da
classe dominante, como fica exposto nos seguintes itens:

Page 12
1. Consumo e ostentação como forma de demonstração de um padrão social
relacionado ao luxo e à riqueza.
2. Trabalho voltado para as esferas de decisão e gerenciamento.
3. Valorização de situações de lazer onde se podia ver e ser visto.
4. Escolha do traje sempre adequado à situação.
5. Hábito de tomar banho de mar em Copacabana ostentando objetos-pessoais que
distinguissem quem os tivesse usando do restante dos freqüentadores.
6. Priorização da Zona Sul como local de moradia.
7. Valorização dos espaços de lazer pelo seu caráter de exclusividade na freqüência.
8. Tanto os fotógrafos profissionais como os amadores reciclavam suas opções
técnicas acompanhando a mudança de expressão dos novos contextos.
9. Hábito de vestir e associar as crianças à indumentária e aos objetos tipicamente
adultos.
10. Hábito de registrar a vida escolar somente nas suas solenidades, tais como: festas de
encerramento do ano letivo de colégios renomados e formaturas da Escola Militar,
do Instituto de Educação e de diversas universidades.
11. Ação caridosa utilizada como forma de resolver os problemas da pobreza e como
espaço político da ação feminina.
12. Realização de atividades sociais, tais como: festas, reuniões, exposições,
apresentações artísticas, etc, em lugares exclusivos do tipo dos clubes e hotéis.
13. Utilização do carro como signo de uma condição social elevada.
14. Utilização de empregados para o trabalho braçal, tanto doméstico como externo, nas
fábricas e no campo.
15. Comportamento feminino associado à vida em família, ao gerenciamento da casa e
ao lazer.
16. Comportamento masculino associado ao trabalho de gerenciamento da riqueza e ao
esporte ao ar livre.
Desta forma, foram registradas, por ambas as agências, uma coleção de imagens que
corroboram, em grande medida, àquelas produzidas por outras agências e expostas no
primeiro capítulo deste trabalho.

Page 13
São imagens que revelam a evolução social de um grupo que, aos poucos, adquire
consciência de classe, tanto pelo papel conquistado no âmbito da produção, quanto pelos
quadros de representação social e programações sociais de comportamento elaboradas neste
processo. Estes últimos foram estendidos para o conjunto da sociedade como sendo a única
representação possível do real e como a forma correta de agir, relegando todos os
comportamentos alternativos ao âmbito da marginalidade.
Hosted by www.Geocities.ws

1