OS MOVIMENTOS OPERÁRIOS E O SOCIALISMO
A Revolução Industrial deu
início, na segunda metade do século XVIII, ao processo de mecanização das
fábricas, que continua ininterruptamente até nossos dias. A industrialização
consolidou o modo de produção capitalista, pelo qual o empresário burguês
concentra em suas mãos os bens de produção, enquanto o trabalhador vende sua
força de trabalho por um salário.
A introdução das máquinas
deteriorou as condições de trabalho e de vida dos operários, gerando a chamada
"questão social". 0 grande número de homens, mulheres e crianças a
procura de emprego aviltava cada vez mais os salários. A jornada de trabalho se
estendia por 15 horas ou mais, visto que as máquinas podiam funcionar sem
parar. Os edifícios das fábricas eram inadequados, com ambientes fechados,
insalubres, mal iluminados. Não havia segurança no trabalho, causando
constantes acidentes e muitos produtos utilizados faziam danos à saúde. Como o
manejo das máquinas era simples, cresceu o emprego de mulheres e de crianças,
cujo trabalho recebia menor remuneração, trazendo mais lucro ao empresário.
Mal alimentados e mal pagos,
os operários habitavam bairros das cidades industriais sem qualquer
infraestrutura de água e de esgotos; moravam em cômodos nos quais a família
vivia em promiscuidade, convivendo com doenças intestinais, tuberculoses,
alergias, asmas, raquitismo, etc. Ao referir-se a um desses bairros operários
de Londres, em viagem realizada em 1840, assim se expressou Friedrich Engels:
"Não há um único vidro de janela intacto, os muros são leprosos, os
batentes das portas e janelas estão quebrados, e as portas, quando existem, são
feitas de pranchas pregadas. ( .... ) Aí moram os mais pobres dentre os pobres
os trabalhadores mal pagos misturados aos ladrões, aos escroques e às vítimas
da prostituição." (Citado por BRESCIANI, M. Stella M. Londres e Paris no
século XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo, Brasiliense, 1985, p. 25.)
Outra descrição do bairro
East End de Londres, não muito diferente, nos foi fornecida por Arthur
Morrison, na década de 80: "Um lugar chocante, um diabólico emaramhado de
cortiços que abrigam coisas humanas arrepiantes, onde homens e mulheres imundos
vivem de dois tostões de aguardente, onde colarinhos e camisas limpas são
decências desconhecidas, onde todo cidadão carrega no próprio corpo as marcas
da violência e onde jamais alguém penteia os cabelos." (BRESCIANI, M. S. M., op. cit. p. 26).
Os trabalhadores não gozavam
de direitos ou amparo social (como assistência médica, aposentadorias,
pensões), estando sujeitos a multas e castigos; as greves ou associações de
classe eram consideradas "casos de polícia" e duramente reprimidas pelos
governos. A multidão de trabalhadores nas ruas era uma ameaça à ordem e à moral
burguesas, pois nela confundiam-se indivíduos honestos com bandidos, batedores
de carteira, prostitutas. A multidão representava para a classe dominante uma
ameaça as instituições e à propriedade.
Para os estudiosos e
escritores da época, a má quina era responsável - pelo aumento das riquezas da
nação, mas, ao mesmo tempo, pelo desumanização dos homens. 0 trabalhador,
transformado em extensão da máquina, controlado pelos contramestres e vivendo
ameaçado pelo desemprego e pela miséria, tornou-se um indivíduo rude,
turbulento e beberrão; em conseqüência, a classe trabalhadora passou a ser
sinônimo de classe perigosa.
0 crescimento do operariado,
a sua concentração nos centros urbanos, as constantes revoltas por melhores
condições de vida e de trabalho fizeram com que a classe operária aos poucos
aprendesse a se organizar, dando origem aos primeiros movimentos e associações
de operários.
Na Inglaterra, onde o emprego
da máquina era mais generalizado, surgiu o Ludismo, movimento que recebeu o
nome de seu líder, Ned Ludd. 0 sentimento de insegurança e os terrores da
miséria convenceram Ludd e seus seguidores da maledicência da máquina,
considerada a inimiga principal. Podemos ter uma idéia do que foi esse
movimento, por uma carta ameaçadora que Ludd endereçou a um certo empresário de
Hudersfield, em 1812: "Recebemos a informação de que é dono dessas
detestáveis tosquiadoras mecânicas. Fica avisado de que se elas não forem
retiradas até o fim da próxima semanal eu mandarei imediatamente um de meus
Representantes destrui-las... E se o Senhor tiver a imprudência de disparar
contra qualquer dos meus Homens, eles têm ordem de Matá-lo e queimar toda a sua
Casa". (Citado por RUDÉ, G. op. cit..p. 92.)
Assim, nas primeiras décadas
do século XIX, na Inglaterra, na França, na Bélgica, na Renânia e até na Suíça,
trabalhadores destruíram equipamentos, aos gritos de "Quebrai as
máquinas!" Instintivamente, o homem que para viver só contava com seu
trabalho pessoal, transferia a culpa de seus males para a máquina, que ele
denunciava como uma competidora, responsável pelo desemprego e pelos baixos
salários.
Para atender os casos de
acidentes de trabalho, doenças ou mesmo de desemprego, os operários criaram as
primeiras associações de auxílio mútuo, que funcionavam por meio de cotizações.
Dessas associações surgiram os sindicatos de trabalhadores, reunindo operários
de um mesmo ofício. Através de seus representantes, os sindicatos conseguiam
obter dos patrões melhores salários e horários de trabalho, Essas conquistas
foram fruto de muitas lutas porque durante muito tempo os parlamentos dos
diversos países procuraram dificultar a organização dos trabalhadores proibindo
o funcionamento dos sindicatos.
Em 1832, o Parlamento inglês
aprovou o "Reform Act" (lei eleitoral que privou os operários do
direito ao voto). Os trabalhadores reagiram e formularam suas reivindicações na
"Carta do Povo", fundando o primeiro movimento nacional operário do
nosso tempo, o "cartismo" movimento cartista ajudou os operários
ingleses a melhorarem suas condições de vida e deu-lhes experiência de luta
política. Assim, em 1833, surgiu a primeira lei limitando a 8 horas de trabalho
a jornada das crianças operárias. Em 1842 proibiu-se o trabalho de mulheres em
minas, Em 1847, houve a redução da jornada de trabalho para 10 horas.
0 "cartismo"
extinguiu-se por volta de 1848, mas foi uma etapa importante do aprendizado e
da conscientização política dos trabalhadores, não só ingleses como de toda a
Europa. Mostrou que a miséria do operariado devia-se não à máquina ou a
mesquinhez pessoal dos empresários, mas à própria estrutura do sistema
capitalista.