Ludwig Andreas Feuerbach, filho de Anseln
Ritter Von Feuerbach e nasceu no dia 29 de julho de 1804, em Landshut cidade
localizada na Baviera sul da Alemanha. Feuerbach passou sua infância em Munique
(1806 a 1816). Embora batizado no catolicismo na adolescência passou ao
protestantismo.
Estudou Teologia em Heidelberg, mas desistiu do curso vindo a
Bacharela-se em 1822 em Filosofia, logo depois se doutorando em Berlim no ano
de 1828 este cursado na Universidade de Erlangem, a partir de 1829 dedica-se a
sua livre docência, adquirindo com a
tese intitulada “De ratione uma, universali, infinita, na tese Feuerbach já
polemiza alguns pontos essenciais com o antigo mestre, Hegel.
Feuerbach exerceu curta carreira no
magistério, dentre as disciplinas que exerceu consta Metafísica, Lógica e
História da Filosofia. Ao afastar-se do
magistério casa-se com Berta Löw muda-se para uma aldeia Buckber esta
praticamente isolada do convívio humano. Sua esposa era sócia de uma fabrica
nesta localidade, mas devido a falência da fábrica o casal transfere-se para a
cidade de Rechenberg onde passa a dedicar-se com maior ênfase a sua filosofia.
Morre pobre e esquecido em 13 de setembro de 1872, com 68 anos de idade.
Seu pensamento
pode ser compreendido nas obras a seguir, não esquecendo que sua principal
fonte de expiração foi a religião, assim sendo
publicou A Essência do
Cristianismo (1841) sua obra mais importante, Princípios da Filosofia do Futuro
(1843), A Essência da Religião (1845), Teogonia (1845), Crítica da Filosofia
Hegeliana (1839), Espiritualismo e Materialismo (1866), O mistério do
sacrifício ou o homem é o que ele come (1862)
e Pensamentos Sobre a Imortalidade da Alma (1828).
A filosofia hegeliana une homem e Deus, Deus não é
produto do homem. Através da meditação procurou ver Deus e o mundo em união.
Deus esta próximo. Deus é imanente ao mundo, Deus pertence a este mundo e este
mundo esta em Deus.
Outra pessoa significativa para a filosofia
Feuerbachiana foi Karl Marx, teórico do socialismo cientifico, discípulo de
Hegel. Feuerbach foi o precursor de
Karl Marx e segundo Henrique Lima Vaz e outros teóricos para entender bem esta
relação basta lembrar que Feuerbach foi para Karl Marx algo muito parecido com
que foi Aristóteles para Santo Tomás.
Marx foi primeiramente um teórico da ação
revolucionaria e política, da analise econômica, não há dúvida que Feuerbach
fora seu grande inspirador. Se por um lado, Feuerbach, com indiscutível lógica
ultrapassa os caminhos revolucionários trilhados por Hegel, Marx também parte
de Hegel, através de Feuerbach. Percebe-se também, que o ‘prometeu’ do século
XIX não recebe como dogma às posições de Feuerbach, nas quais critica a
filosofia feuerbachiana.
Entre estas, destaca-se a conhecidíssima undécima: os
filósofos se limitam a interpretar o mundo diferentemente, cabe transforma-lo.
Mas não só Marx conheceu o pensamento feuerbachiano, o filosofo de Landshut
também conheceu o de Marx.
É o humanismo de Feuerbach que fornece a Marx a noção
da alienação religiosa. Para Marx a religião aliena o ser humano. E esta
alienação religiosa terá de ser esclarecida a partir da situação
histórico-social concreta. A essência da alienação do ser humano encontra-se no
contexto economia, no tipo de relações de produção geradas no mundo
capitalista.
Existe aqui duas classes sociais os proprietários dos
meios de produção e os não-proprietários uma vez destruindo essa estrutura
econômica, também se destrói a religião que é produto seu. São as estruturas
econômicas que geram a falsa consciência, que é a religião. Assim a idéia de
Deus é resultado de uma economia alienante.
Urbano Zilles afirma
em sua obra Filosofia da religião que, Feuerbach e Marx significam ruptura
profunda entre cristianismo e tradição cultural, instaurando, de um lado, um
humanismo superteológico bateu. De um lado, busca-se a salvação somente através
da cultura, na evolução histórica, da qual a religião é apenas um momento
transitório. Assim pode-se dizer que a crise do mundo é antes de tudo
crise do humanismo, crise provocada pela ruptura entre religião e cultura. E
que este processo adquirira expressão máxima na filosofia de Hegel, que
reduzira o cristianismo a um grande episódio da história universal, um fenômeno
que se explica todo racionalmente.
Segundo alguns teóricos dentre eles
Draiton Gonzaga, a proximidade destes filósofos, está vinculada ao fato de
ambos terem pertencido ao Doktorclub ou clube de doutores, composto de
hegelianos de esquerda em Berlim ao qual também pertenciam Arnold Ruge, Moses
Hess, Friedrich Engels tendo a frente Bruno Bauer o criador do clube.
Seu pensamento num primeiro momento foi completamente
influenciado por Hegel, após tornar-se seu aluno e conhecer melhor suas teorias
passaram a criticar algumas de suas idéias, afastando posteriormente
completamente do professor, seu pensamento também sofreu influência de
pensadores como Kant, Max Stirner, Bruno Bauer, Schleiermacher talvez a mais
fundamental tenha sido mesmo o de Martin Buber.
A obra de Hegel ficou posteriormente
dividida, ou melhor, conhecida como direita e esquerda hegeliana, o contexto
histórico de Ludwig Andreas Feuerbach encontra-se na corrente do pensamento
religioso contemporâneo, fortemente enraizado no idealismo Alemão. Esta
corrente teve na pessoa de Johann Gottlieb Fiche nos séculos XVIII e XIX
chegando a seu ápice na pessoa de Georg Wilhelm Hegel.
Fato
importante derivado da filosofia foi os movimentos conhecidos como e direita
hegeliana e esquerda hegeliana. Num primeiro instante o idealismo foi um
movimento estritamente alemão e posteriormente já em meados da segunda metade
do século XIX e inicio do século XX, imigrou para outros países como Estados
Unidos e Europa, atingindo muita influencia na França.
A divisão ou, digamos, briga ocorreu entre os
“herdeiros” de Hegel, as divergências foram relativas a interpretação da obra
do mestre referente à religião.
A chamada direita encabeçada por G. Herdermann,
mudando a legado de Hegel esta corrente defende o dialogo entre a ortodoxia e a
fé cristã, preservando a imortalidade da alma, motivo de desavença entre ambas
e ainda a união da natureza humana com a divina na pessoa de Jesus Cristo, sem
deixar de esquecer da transcendência de Deus.
Esses três pontos foram fundamentais na proposta da chamada direta
hegeliana.
Outro ponto forte era a procura de (justificar o
cristianismo e o Estado existente, a esquerda, sempre em nome da dialética
hegeliana, transformava o idealismo em materialismo, fazia da religião cristã
fato puramente humano e combatia a política existente com base em posições
democrático-radicais).
O padre Henrique Lima Vaz afirma em seu livro
Antropologia Filosófica que a direita hegeliana permaneceu fiel ao mestre em
sua forma sistemática, por sua vez a esquerda utilizou-se da filosofia
hegeliana para fazer uma crítica política e social, que por sua vez acabou
voltando-se contra o próprio Hegel, defrontando-se contra a natureza teológica
e seu sistema.
Em
outro ponto a chamada esquerda hegeliana tendo a frente Ludwig Feuerbach e Karl
Marx, esta linha da corrente pregava a uma radical negação dos fenômenos
sobrenaturais e também naturais da vida religiosa. Anterior a Marx Feuerbach
foi o principal representante da esquerda hegeliana. Karl Marx afirma:
“Feuerbach é nosso maior profeta. Não há outro caminho até a verdade que aquele
que passa por Feuerbach (arroio de fogo); é o purgatório do presente”[3].
A convicção que está na base da esquerda hegeliana é
a de que as verdadeiras cadeias dos homens estão em suas idéias, razão por que
os jovens hegelianos pedem coerentemente aos homens, “como postulado moral, que
substituam sua consciência atual pela consciência humana, crítica ou egoísta,
desembaraçando-se assim de seus impedimentos. Essa exigência de modificar a
consciência leva a outra exigência, de interpretar diversamente o que existe,
ou seja, reconhece-lo através de interpretação diversa”[4].
Segundo
César Augusto Ramos à esquerda hegeliana combate contra as frases e não contra
o mundo real do qual tais frases são o reflexo. Com efeito, não é a consciência
que determina a vida, mas a vida que determina a consciência.
Outra figura que teve forte influencia no pensamento
feuerbachiano foi Karl Marx. E uma de sua teses ficou assim conhecida, ou divulgada. Segundo a tese de Marx, a análise
objetiva da realidade demonstra que todos os acontecimentos sociais, políticos
e intelectuais da história foram conseqüência da economia. A produção e a
repartição das riquezas são o único fato que determina a economia e por sua vez
os antagonismos de classes que deles resultam, a superestrutura de valores
espirituais e ideologias próprias de cada sociedade esta fundamentada nestes
antagonismos na vida econômica.
Como é bem lembrado no livro História da Filosofia
que diz o seguinte: “não é a consciência dos homens que determina o seu ser,
mas, ao contrario, o seu ser social que determina a sua consciência”.[5]
Em outro trecho deste livro os autores nos lembram
que as representações e os pensamentos, bem como o intercambio espiritual dos
homens, ainda aparecem aqui como emanação direta do seu comportamento material.
O que determina o ponto de vista em que se considera o mundo e a história, e em
geral, o pensamento e a atividade humana, é a matéria nas suas relações com o
homem, ou o homem nas suas relações com a matéria.
O materialismo histórico como o próprio nome sugere é
a explicação da historia por fatores materiais e científicos, assim sendo ele
não é mais do que a aplicação dos princípios do materialismo dialético
aplicados a historia. Esta foi umas das vertentes do materialismo,
o outro é a dialético que foi um sistema que é baseado na relação de
produção e troca, evoluindo até atingir um máximo de eficiência, entrando em
decadência posteriormente, assim que um sistema entre em crise um outro o
substitui preservando os aspectos positivos dele.
Mais
do que um materialismo trata-se de um dialetismo naturalista, cujos princípios
foram postos por Marx, avançaram com Engels,
hoje seguido por filósofos do mundo comunista, estes são ainda os únicos
seguidores dessa corrente filosófica. “A principal dessas conquistas é a dialética,
isto é, a doutrina do desenvolvimento em sua expressão mais completa, mais
profunda e menos unilateral, a doutrina da relatividade dos conhecimentos
humanos, reflexo da matéria e perpetuo desenvolvimento. Um dos méritos da
dialética é levar da historia o movimento real, e assim, portanto o estado de
coisas existente. O confronto entre o estado de coisas existente e sua negação
é inevitável, esse confronto se resolvera com a superação do estado de coisas
existente”.
Feuerbach trabalho com o pressuposto que é
necessário a negação de Deus para realmente libertar o ser humano, pois a
religião não dá grande importância à vida presente deixando a esperança de
libertação para o outro mundo.
Seu método de indagação é chamado
genético-crítico, porque pergunta sobre o surgimento da religião. Feuerbach
informa em a essência do cristianismo que “diferente dos seres humanos os
animais não têm nenhuma religião” . A diferença esta na consciência, pois o ser
humano pode refletir por si mesmo. Propõe que a filosofia deixasse o
cristianismo, e diz que o ser humano religioso não dá importância para a
miséria, a injustiça e o sofrimento neste mundo.
Para uma melhor compreensão da obra de
Feuerbach aqui vamos estudar alguns tópicos relevantes para a correta
interpretação de sua filosofia, são eles materialismo, ateísmo, o ser humano e
o divino.
Segundo César Augusto Ramos o
materialismo é aquele que admite a existência dos entes materiais. O
materialismo afirma que a matéria é a única causa das coisas. Feuerbach propõe
um materialismo em que só existe o ser humano, a natureza e “nada mais”. Feuerbach segue a linha da esquerda
hegeliana, que acredita apresentar “as verdades cristas como forma
transitória para a filosofia, a razão especulativa e seu saber absoluto. Desta
maneira a religião seria assumida negativamente ou dissolvida na filosofia”.[6]
Em Feuerbach “a única base para
sua filosofia é a realidade sensível. Por isso a nova filosofia deverá ter por
objetivo o homem em sua totalidade: razão, vontade e coração”.[7]
Marx acreditava que na Alemanha, a
critica da religião ficava-se com Feuerbach. O empirismo antropológico de
Feuerbach pressupõe que nos dá o ser ou a essência idêntica com a existência é
a intuição sensível, para ele o real é o objeto dos sentidos. “A realidade
fundamental é a natureza, não consciência ou o pensamento, que são derivados ou
secundários[8]”. Para
Feuerbach o pensamento provém do ser, mas não o ser do pensamento.
Alcançar a verdade é o ponto chave de seu pensamento,
mas para isso é preciso “passar do pensamento abstrato para a realidade
sensível, da essência para a existência, da representação e fantasia para
intuição imediata sensível (Zilles p. 100)”.
O materialismo feuerbachiano compreende-se dentro de
uma conexão orgânica que existe entre o ateísmo e o materialismo. P.F. Iludin
quando se refere ao materialismo afirma:
“O ponto culminante – no Ocidente – corresponde ao
materialismo ‘antropológico’ de Feuerbach. Neste, torna-se evidente o caráter
contemplativo próprio de todo o materialismo pré-marxista”.[9]
Com a radicalização do Iluminismo Francês
nasce o ateísmo. Com isso o ser humano orienta-se de maneira atéia, esta ocorre
no comunismo, na ciência, na técnica e em algumas correntes filosóficas
contemporâneas. A visão antropológica de Feuerbach é negar a Deus para afirmar
o ser humano, apenas o ser humano.
O ateísmo hodierno nega a Deus e a pluralidade de
deuses, nega também a absolutização do ser humano. O ser humano torna-se a
consideração filosófica do problema, deixando Deus e a religião ausente disso.
Feuerbach faz uma redução antropológica da religião, diz que a nova religião é
atéia. O ateísmo de Feuerbach parte do pressuposto que é a religião a causa da
alienação humana, pois faz com que o ser humano não dê valor a vida presente,
deixando de lutar com as injustiças presentes. “A alienação religiosa, segundo
ele, é tomar como Deus algo que, na verdade, é apenas expressão do próprio
homem, ilusão, ídolo (Zilles pg. 103)”. Feuerbach fundamenta sua evolução
espiritual da seguinte maneira: “Deus foi o primeiro pensamento; a razão, o
segundo; o homem, o terceiro e ultimo (Zilles p.100)”.
Ele
diz que é necessário o ateísmo para que “as classes oprimidas possam lutar por
sua libertação”. (Zilles p. 103) Deus é o projeto do ser humano, e ao
projetá-lo aliena-se de si mesmo. “O ateísmo é, então, o caminho necessário
para o ser humano redescobrir sua dignidade, reconquistando sua essência
perdida (Zilles p. 106”.
Feuerbach no fundo defende um
ateísmo mais intuitivo, sem os fundamentos críticos ou científicos, seu desejo
era ser um ateu refletido, decidido e programático. O grande feito deste
filosofo ateísta foi mostrar que o discurso sobre Deus não pode ser interpretado
como o da superação da oposição entre o mundo dialético e Deus num dialético
movimento do espírito. Devemos fugir da interpretação equívoca dobre Deus
porque uma interpretação equivocada sobre Deus possibilita uma interpretação
errônea do homem. Para os estudiosos de Ludwig Feuerbach é desvendar até que
ponto Feuerbach soube tematizar o homem real.
Após vermos o materialismo e o ateísmo
vou fazer uma breve e clara exposição sobre o ser humano. Ao abordar a temática
do ser humano na obra, “A essência do cristianismo”, Feuerbach principia pela
religião, que se funda na diferença essencial destes dois elementos. A
diferença do primeiro se dá pelo fato de possuir consciência, considerada para
o ser humano, o objeto, o seu gênero, a sua quididade.
Uma vez tendo a consciência, também tem a
faculdade para a ciência, a qual é a consciência dos gêneros. O animal tem vida
simples, e a vida interior e exterior são similares. A do ser humano é mais
complexa, a vida interior e exterior se diferenciam.
Aqui vou recorrer ao autor Rubem Alves
ele diz: o animal tem uma vida reduplicativa, o protótipo ideal empirista de
consciência. A consciência animal não tem condições de transcender o dado, ou
seja, não pode “acrescentar algo ao real”.
E mais a relação com o mundo acontece de
forma tranqüila, de ajustamento. Entre eles não encontramos artistas, nem
revolucionários, nem neuróticos e muitos menos o fenômeno da religião. O animal
não tem imaginação. Encontra-se imerso no seu mundo. Sente-o, vive-o, aceita a
relação do ser humano é problemática. Não ajustamento, mas tensão permanente.
A essência do ser
humano é o fundamento e o fundamento e o objeto da religião. O ser humano
feuerbachiano é real não como um mero ser pensante, mas como instinto, sentido,
corpo: “o homem é um corpo consciente, é este conjunto de necessidades, que
busca satisfazer sua felicidade. Sua essência é constituída de razão, vontade e
coração. Razão, amor e vontade são perfeições, são os mais altos poderes, a
essência absoluta do ser humano enquanto ser humano e finalidade da existência”[10].
Este ser humano existe para conhecer,
para amar e querer. É o eu e tu na sua reciprocidade. Valoriza a relação social
porque é nesta que todo ser humano adquire consciência da sua própria
humanidade. A sua antropologia apresenta a busca da unidade do eu, tu e nós
(comunidade), entre indivíduos e espécie, ou seja, historia universal e
historia individual. O eu precisa da complementação do tu para ser realmente eu: “O homem singular por si não
possui em si a essência do homem nem enquanto ser moral, nem enquanto ser
pensante. A essência do homem está contida apenas na comunidade, na unidade do
homem com o homem – uma unidade que, porém, se funda apenas na realidade da
distinção do eu e do tu”.[11]
Enfocado no livro a essência da religião
posso afirmar que a espécie para Feuerbach é o ser humano pleno. A medida da
espécie é a medida absoluta, lei e critério do ser humano. Admite a unidade de
finito e infinito, só que ao contrario de Hegel que coloca o infinito no absoluto,
este inverte colocando o infinito no ser.
A consciência é definida como
autoconfirmação, auto-afirmação, amor próprio, contentamento com a própria
perfeição humano. É marca características, de um ser perfeito, completo.
O ser humano é o ser-objeto-de-si-mesmo,
é ele voltado para si que vai encontrar a confirmação de tal verdade diante do
espelho, verdade sobre seu eu próprio sua essência que agrada-se com sua imagem
refletida neste, e deve admirá-la, porque não existe algo mais belo e mais
sublime do que a forma humana.
Segundo
Feuerbach, Deus não pode ser senão a essência do homem. Falar sobre Deus é
falar sobre o ser humano; a essência absoluta, o Deus do ser humano é sua
própria essência. A personalidade de Deus é a personalidade do ser humano livre
de toda concretude.
Feuerbach procura mostrar que o objeto da
religião não é nada mais do que o objeto da autoconsciência, isto é, a própria
essência humana. A essência do ser humano é o que constitui o gênero, a
humanidade no humano. A essência humana constitui-se da razão, vontade e do
coração; estas são as três perfeições essenciais absolutas, são as que
Feuerbach afirma ser as constituintes da essência absoluta do ser humano. Ele
afirma: “Mas qual é então a essência do homem, da qual ele é consciente, ou o
que realiza o gênero, a própria humanidade do homem? A razão, à vontade, o
coração”.[12]
Essas forças são de extrema necessidade
para o ser humano, é através delas que a essência do ser humano, transcende o
individuo, impulsioná-los para além dos limites de sua finitude. Contudo, essas
forças se realizam não no individuo, mas na essência do homem enquanto espécie.
A razão, à vontade e o amor são,
portanto, perfeições das quais cada individuo da humanidade participa, no
entanto o ser individual não as possui plenamente, uma vez que estas estão
acima das realizações individuais. Sua realização dá-se no gênero humano.
Sendo, o individuo um ser limitado, deve
reconhecer-se como tal em diferença qualitativa frente gênero. É precisamente
pelo fato do individuo tomar consciência da sua finitude, da sua limitação
frente ao gênero humano é que consiste a sua diferença frente ao animal. Com
relação a isso afirma: “O homem singular por si não possui em si a essência do
homem nem enquanto ser moral, nem enquanto ser presente. A essência do homem
está contida apenas na comunidade, na unidade do homem com o homem”.[13]
O que se pode
deduzir disto é que Feuerbach considera o ser humano enquanto ser genérico e
não enquanto individuo, enquanto consciente ou racional e, assim ao considerar
a relação indivíduo-essência ou gênero, afirma-se a diferença qualitativa. É,
então, pelo fato do ser humano desconhecer tal diferença que ele postula a
idéia de Deus. Isto porque, uma vez que o ser humano não conhece o gênero,
hipostasia a infinitude das suas qualidades que é própria do gênero como Deus,
imaginando assim o gênero como um indivíduo, “Deus”, divinizando-o.
Feuerbach é esta infinita possibilidade
que é o ser humano, o que faz dele uma tarefa indefinida, é a partir disto que
o ser humano cria o seu Deus como ele é e, converte-o naquilo que ele deseja
ser. Deus nada mais é do que o humano livre de todos os limites que condicionam
a existência dos indivíduos. Quanto a isto Feuerbach afirma que “Primeiramente
o homem cria Deus, sem saber e querer, conforme a sua imagem e só depois este
Deus cria o homem, sabendo e querendo, conforme sua imagem”.[14]
Sintetizo aqui o conceito de quem é Deus como o que
pode ser considerado divino. “O conceito de Deus é dependente do
conceito de justiça, de bondade, de sabedoria um Deus que não é bom, não é
justo, não é sábio, não é Deus, mas não vice-versa. Uma qualidade não é divina
em si e por si, porque sem ela seria Deus um ser imperfeitíssimo”.[16]
Segundo Feuerbach o divino é não negar a essência das
qualidades, pois elas compreendem a própria essência do ser divino. O que o Ser
humano fala sobre Deus é na realidade o que ele transpõe de dentro de si, uma
vez falando do gênero humano e divino. Somente quando compreendemos a unidade
da essência humana consigo mesma compreenderemos a essência divina com a
humana.
A religião é o
comportamento do ser humano perante seu próprio ser infinito, ela é o meio pelo
qual os seres humanos extraem de seu âmago interior, essência o divino contido
nele, o ser divino que uma vez expresso é chamado de Deus. Em contrapartida a religião pode tornar-se
um problema quando leva a pessoa independente de si mesma o seu próprio
infinito, separando-o, e pondo-o como diferente de si, produzindo a
bipolaridade Humano e Divino, alienando, assim, o penúltimo.
Pode-se afirmar que
o que é divino para o ser humano é o seu espírito, o que é para o ser humano
tanto seu espírito é a sua alma, tanto o coração como sua alma é também o seu
‘ser divino’, o divino é a intimidade revelada, o pronunciamento do eu do ser
humano, para Feuerbach a religião é uma revelação solene dos seus mais íntimos
pensamentos, a manifestação pública dos seus segredos de ‘espírito’. A vida
celestial é a uma verdade apenas para os que vivem plena e verdadeiramente a vida
terrena. Diante disso Deus é
incompreensível se eu não conheço a minha essência divina.
III CAPITULO
PROTAGONISMO HUMANO SEGUNDO
FEUERBACH
Agora vou apresentar sucintamente o
conceito de religião, a onde Feuerbach expõe a essência da ‘verdadeira’
religião segundo seus princípios.
A crítica de Ludwig Feuerbach a religião,
nada mais é do que substituir o absoluto (Deus ou Idéia) pela pessoa humana
real, concreta; um ente real, verdadeiro sujeito. Torna-se evidente que a
religião é algo especialmente humano, tendo, todavia a razão de ser na essência
do homem. Sendo este objeto e fundamento da religião.
O que é religião? É um produto puramente
humano, porque a pessoa humana uma vez, não conseguindo satisfazer todas as
suas necessidades, ou seja, ver-se livre da necessidade, vai postular e
formular um “um ser ilusório”, que é fruto de sua imaginação, que é a projeção
dele mesmo como queria ser, ou seja, sem necessidade, livre da necessidade de
necessidade. É assim nasce à alimentação religiosa, que é este abandonar a Deus
a efetivação de seus próprios valores, encarregando-o de uma missão que cabe ao
ser humano realizar. Se ao amor de Deus se substitui o amor da humanidade e se
efetiva, cessa a alienação. Na religião o ser humano busca a si mesmo. A
alienação religiosa é o humanismo absoluto.
A religião é a primeira consciência de si
assumida pela pessoa humana, mas é ainda indireta. Deste modo a religião
antecede a filosofia, quer na historia da humanidade, fundamental para
compreender outro foco das teorias feuerbachianas quer na historiado individuo.
O ser humano começa projetando sua
essência fora de si, antes de encontra-la em si mesmo.
Após estudarmos um pouco sobre a religião
passar a compreender as dificuldades e alegrias da convivência eu, tu, ou seja,
a relação sujeito e objeto.
Esta relação, sujeito e objeto é
examinada por Feuerbach, enquanto ser consciente, o objeto de sua consciência.
Como sujeito consciente, o ser humano não pode prescindir de um mundo de
objetos; ou seja, é consciência de objetos. Feuerbach afirma em a essência do
cristianismo que a pessoa humana não pode viver sem objetos, sem os objetos da
consciência. Pois a partir do contato com seu objeto, o ser humano se
torna consciente de si mesmo: a consciência do objeto é a consciência de si do
ser humano. Por seu objeto se conhece a pessoa humana; nele aparece sua
essência: o objeto é sua essência revelada, seu eu verdadeiro e o objetivo.
Feuerbach faz uma distinção entre o que
ele chama de objeto sensível e o objeto religioso. O primeiro está fora do ser
humano, e o segundo dentro. Precisamente no fato de ser objeto para a
consciência está suposta a objetividade. Além disso, quanto a esta relação
está-se dizendo somente que, na objetividade do objeto da consciência, se toma
consciência e emerge a própria subjetividade, a autoconsciência.
A analise das relações entre o sujeito e
o objeto nos oferece duplo aspecto: um subjetivo, no qual o objeto só existe
como produto do sujeito, e outro objetivo no qual o sujeito tenta capta-lo como
ele é em si, independente de qualquer relação com ele.
A origem desse tema em Feuerbach e de
vital importância para entender-se as idéias, as teses de Ludwig Feuerbach. A
este respeito é que a consciência do objeto é sempre autoconsciência, uma vez
que o objeto nada mais e do que a própria essência objetivamente. A esse
respeito afirma: “Mas o objeto com a qual um sujeito se relaciona essencial e
necessariamente nada mais é que a essência própria, objetiva deste sujeito”.[17]
Pode-se inferir desta afirmação que a
pessoa humana não é nada sem o objeto, logo, não se pode conhecer-se ou ser
autoconsciente sem o objeto, faz-se necessário exteriorizar o objeto para que
este ao ascender-se, reconheça-se e chegue a uma nova identidade. Não se chega
de imediato a autoconsciência, é preciso passar pela mediação do objeto ou
objetivação da própria essência. Isso Feuerbach afirma em:
“Por isso toma o ser humano consciência de si mesmo
através do objeto: a consciência do objeto é a consciência que a pessoa humana
tem de si mesmo”.[18]
Uma outra citação talvez deixe mais claro a relação
sujeito e objeto. “Grandes homens, homens exemplares, que nos revelam a
essência da pessoa humana, confirmaram esta frase com sua vida. Tinham apenas
uma paixão fundamental dominante: a realização da meta que era objetivo
essencial da sua atividade”.[19]
Feuerbach quer com isso negar a
objetividade da consciência, acentuando a subjetividade a ponto de querer
mostrar que os objetos – quaisquer que sejam, espirituais os sensíveis nada
mais são do que a própria essência objetiva.
Não posso deixar de citar novamente
Feuerbach para melhor explicitar minha afirmação. “Através do objeto
conheces o ser humano; nele a sua essência te aparece; o objeto é a sua
essência revelada, o seu Eu verdadeiro, objetivo. E isto não é valido somente
para os objetos espirituais, mas também para os sensoriais. Também os objetos
mais distantes do pessoa humana são revelações da essência humana, e isto
porque e enquanto eles são objetos para ele. Também a lua, o sol e as estrelas
gritam o conheça-te (sic) a ti mesmo. Pelo fato dele os ver da forma que ele os
vê, tudo isso já é um testemunho da própria essência”.[20]
Contudo, apesar desse seu subjetivismo Feuerbach
afirma que não quer cair no subjetivismo absoluto ao dizer: “Do fato de que os
objetos, porque e enquanto o ser humano os conhece, sejam espelhos da sua
essência, não segue a irrealidade dos objetos ou a pura subjetividade do
conhecimento”.[21]
Querendo ainda fugir
desse subjetivismo absoluto, busca mostrar que, apesar dos objetivos
espirituais e sensíveis serem manifestações da própria essência, os objetos
sensíveis distingue-se da consciência, residindo fora dela, enquanto que os espirituais coincidem imediatamente
com a consciência. Sobre isto afirma: “O objeto sensorial está fora da pessoa
humana, o religioso está nele, é mesmo íntimo (...) é na verdade o mais íntimo,
o mais próximo”.[22]
Com isso reduz a relação entre sujeito e
objeto a um único elemento: o subjetivo e, assim reduzindo o objeto da religião
ao órgão da percepção.
Chegando ao final de
minha pesquisa abordarei o predicado Feuerbachiano que com certeza fechará com
perfeição nossa exposição. Feuerbach havia demonstrado, em A Essência do
Cristianismo, a tese espantosa para o período, “que a essência da religião é a
essência do ânimo humano, e que a teologia pode ser explicada pela
antropologia”[23]. Feuerbach
discorre apresentando as representações e também os segredos atribuídos a um
‘ser sobre-humano’ não eram mais do que representações humanas naturais, e que
aquilo que no imaginário pairava no Céu, pode ser encontrado sem maiores
dificuldades no solo da Terra. Assim sendo, a ser humano transporia para o Céu
o ideal de justiça, bondade e virtude que não conseguia realizar na terra,
transportaria para um grau universal e absoluto atributos e qualidades de si
mesmo. Todos os Deuses não seriam então, mais do que criações humanas.
Feuerbach reconhece o sistema de Hegel como
uma teologia especulativa, e critica a Idéia absoluta, que seria baseada na
revelação e encarnação cristãs, ultrapassando assim o racional e se tornando
teologia. Coloca em seu lugar a noção de Ser genérico da pessoa humana. A
teologia, religião institucionalizada, é fonte de dogmas a abstrações metafísicas
que perdem a ligação com o real e palpável.
Cada religião pretende ser a detentora da
verdade, e isso é motivo de fanatismo e intolerância com outras formas de
pensamento. A verdade acessível apenas a alguns (revelada pela fé), sem
critérios objetivos, torna fácil a manipulação de pequenos grupos sobre os
demais, por se tratar de algo que não pode ser demonstrado com base em
elementos sensíveis. Feuerbach inicia A essência do Cristianismo dizendo que o
pessoa humana difere do animal por ter uma consciência no sentido estrito, ou
seja, sua consciência (tem por objeto o seu gênero, a sua essencialidade)
“1 Essa consciência do pessoa humana enquanto espécie, que é próprio
deste por fazer parte de sua ciência, o difere do animal. Do outro lado está a consciência
de si. Afirma Feuerbach sobre ela: A consciência de Deus é a consciência de si
do ser humano, o conhecimento de Deus é o conhecimento de si pessoa humana.
Pelo seu Deus conheces o pessoa humana e, vice-versa, pelo pessoa humana
conheces o seu Deus; é a mesma coisa”[24].
“2 Essa idéia de que a natureza dos deuses difere na mesma proporção da
natureza dos povos não é nova. Feuerbach realmente desenvolve algumas frases
dos pensadores pré-socráticos, como sua frase de que o ‘ser é, o não ser não
é’, tomada emprestada de Parmênides e aplicada em um contexto mais profunda”[25].
Xenófanes de
Colofão, mestre de Parmênides, ficou famoso por ser um dos primeiros filósofos
a defender a unidade da divindade, o monoteísmo. Também afirmava, como
Feuerbach, que a natureza dos Deuses variava com a natureza de quem os adorava.
Vejamos os seguintes fragmento de Xenófanes: Mas se mãos tivessem os bois, os
cavalos e os leões e pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os
homens, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois,
desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam tais quais eles próprios
têm.
E mais adiante, os
egípcios dizem que os deuses têm nariz chato e são negros, os trácios, que eles
tem olhos verdes e cabelos ruivos. “3 Por esses trechos, vê-se que, mesmo antes
da ascendência do Deus cristão, já havia uma crítica à antropomorfização dos
Deuses. Para Feuerbach, uma essência finita não pode ter a mais remota idéia de
uma essência infinita. Também Hegel afirma, em Introdução à História da
Filosofia, que o pessoa humana não pode conceber o que é o Infinito porque só
pode empregar para isso categorias finitas”[26].
A religião cristã pretende a essência da pessoa humana infinita, mas para
Feuerbach a pessoa humana só pode ter consciência de tal essência se ela for
razão, vontade e pensar. A consciência de si da pessoa humana vem pela
consciência do objeto.
Feuerbach inicia assim sua busca de superação
do subjetivo. O que nas antigas religiões era considerado objetivo, hoje é
apenas reflexo de idéias que só podem ser sentidas por abstrações, pertencendo
portanto ao interior do pessoa humana. Feuerbach constata que a teologia se
transformou em antropologia há muito tempo. Sua crítica às religiões pretende
ser universal, buscando o que há de comum a todas as religiões. Chega à
conclusão de que o mundo transcendente e a caracterização humana dos
personagens divinos é comum nas religiões. Porém, essa generalização é no
mínimo complicada.
Muitos povos não
podiam separar o sujeito do objeto, ou seja, o indivíduo nada mais era do que
parte integrada do ambiente, e não podia ser entendido fora do seu quadro
social. A religião muitas vezes não reconhece em sua idéia de divindade
características humanas. Pois, afinal, a pessoa humana é apenas uma parte do
todo, e nesse caso Deus é identificado com a totalidade da Natureza. Isso
ocorre no panteísmo e em algumas religiões indígenas e orientais.
A natureza é entendida como um complexo sistema de ambientes que existe independente da percepção humana. O egoísmo e a vaidade são os responsáveis por representar a divindade como algo humano, e a raça humana como herdeira da Terra. De fato, não é preciso ir muito longe para concluir que a idéia do planeta existir para servir ao ser humano constitui equívoco grave. O que Feuerbach fala é válido sobretudo para a religião judaico-cristã. No Velho Testamento está escrito que Deus fez humana à sua imagem e semelhança, e no Novo Testamento é um pessoa humana que se faz Deus. Para Feuerbach isto é uma inversão da relação sujeito-predicado. A pessoa humana cria um sujeito infinito e atribui a ele a criação de si.
[1] Ramos, César Augusto. Revista de Filosofia. UFPR, 1980. p.12.
[2] Cruz, Estevão. Compêndio de Filosofia, p.12
[3] Cruz, Estevão. Compêndio de Filosofia, p.24.
[4] Marx, Karl. Teses Sobre Feuerbach. Baderna, p. 07.
[5] Reale, Giovanni e Antiseri, Dario. História da Filosofia: Do Romantismo até nossos dias, p.194.
[6] Zilles, Urbano.Filosofia Da Religião,p.104.
[7] Ibid. p.107.
[8] Ibid. p. 100.
[9] Rosental, M.M. e Iludin, P..F., p.33.
[10] Zilles, Urbano. Filosofia da Religião.p 124.
[12] Feuerbach, Ludwig. A essência do cristianismo, p. 44.
[13] Feuerbach, Ludwig. Princípios da filosofia do futuro e outros escritos, p.70.
[14] Feuerbach, Ludwig. A essência do cristianismo, p.41
[15] Feuerbach, Ludwig. A essência do cristianismo, p.55.
[16] Ibid. p. 64.
[17] Feuerbach. A essência do cristianismo, p.46.
[18] Ibid.
[19] Ibid.
[20] Ibid.
[21] Amengal, Gabriel. Críticade la
religión y antropologiaen L. Feuerbach, p.55.
[22] Feuerbach, A essência do cristianismo, p.55.
[23] Marx, Karl. Baderna:Teses sobre Feuerbach, p.4
[24] Marx, Karl. Baderna:Teses sobre Feuerbach, p.4
[25] Marx, Karl. Baderna:Teses sobre Feuerbach, p.4
[26] Marx, Karl. Baderna:Teses sobre Feuerbach, p.6