A GLOBALIZAÇÃO DO SÉCULO XIX.
A formação dos trustes e dos
cartéis conduziu gradativamente os países industrializados à adoção de
políticas protecionistas, com o objetivo de evitar a concorrência, no mercado
interno, de grupos semelhantes de outros países, que poderiam oferecer produtos
similares a preços mais baixos. Os Estados Unidos, a Alemanha, a França e mais
tarde o Japão, que emergiam como potencias industriais de primeira ordem
estimulando a concorrência no mercado internacional, começaram a erguer
barreiras tarifárias aos produtos importados, tornando-os proibitivos em
relação aos produzidos localmente.
Os Estados Unidos criaram suas primeiras taxas
alfandegárias durante a Guerra Civil (1860/64); a Rússia, a partir de 1877; a
Alemanha, em 1879 e a França, dois anos depois. Apenas a Inglaterra permaneceu
defensora do livre comércio, que tão bem servira aos seus interesses de
pioneira do processo de industrialização. Mas o crescimento industrial dos
demais paises, com base no protecionismo, fez com que este fosse discutido
dentro da própria Inglaterra:
"Nós fornecíamos outrora as nossas armas
ao mundo inteiro. Hoje, a maior parte dos governos meteram-se a fabricá-las, e
a América popularizou as suas armas de Springfield e Winchester... Ainda
fornecemos as armas de luxo. Mas a Bélgica levou-nos todo o resto... Tínhamos o
monopólio dos parafusos e pregos. Ao abrigo das tarifas aduaneiras, a Alemanha
e a América desenvolveram as suas fábricas... Os botões que vendíamos a toda a
Europa, chegam-nos hoje da Alemanha. 0 fio de ferro alemão vende-se hoje, nas
nossas lojas de Birmingham... No reino, pode-se dizer que o interesse de
Sheffield está ligado aos interesses da classe agrícola: é ela que compra os
nossos utensílios e as nossas máquinas agrícolas e a nossa cutelaria... Ora, a
ruína a da nossa agricultura pelas importações da América, da Índia da Rússia e
de outros países é demasiado evidente... 0 camponês restringe (pois) o seu
consumo. Fora, os Estados Unidos eram o nosso grande consumidor. Mas, de
potência agrícola, eles quiseram tornar-se industriais e as suas tarifas
protetoras permitiram às suas fábricas estabelecer-se. Esse mercado está-nos
hoje fechado... A França duplicou as suas tarifas... Os russos também nos
fechara os seus mercados... Nas nossas colônias, a concorrência estrangeira, as
alfândegas e as más colheitas atuam igualmente contra nós,.. A Alemanha tomou o
caminho de nossos mercados, o endereço de nossos clientes e, vendo nossos lucros,
falsificou as nossas marcas.. Creio que o único meio de nos ajudar seria fundar
entre a metrópole e as nossas colônias uma Federação, com o regime de
livre-câmbio entre todos os seus membros e estabelecer o regime de
reciprocidade com o resto do mundo". (Queixas de membros das câmaras de
comércio de Birmingham e de Sheffield, in Víctor Bérard, A Inglaterra e o
Imperialismo.)
Com os avanços tecnológicos
alcançados, os países industrializados podiam produzir muito mais mercadorias
do que conseguiam vender a seus habitantes. Assim, os empresários passaram a
buscar novos mercados fora da Europa, onde pudessem vender seus produtos e
ampliar seus negócios e seus lucros.
Além disso, era
imprescindível garantir 'às indústrias, o fornecimento de matérias primas
essenciais ao seu funcionamento, que muitas vezes não existiam dentro do país.
As empresas siderúrgicas, químicas, farmacêuticas, têxteis, de equipamentos,
que investiam capitais vultosos em grandes fábricas,, buscaram no mundo as
reservas de petróleo (Oriente estanho (Ásia e América Latina), cobre (Chile,
Peru, Congo, Zâmbia), borracha (Congo, Amazônia, Zâmbia), algodão (Índia),
indispensáveis à produção de aço, material elétrico, motores, veículos,
tecidos".
A partir de 1874, sofrendo
forte concorrência no mercado internacional, devido ao protecionismo
alfandegário adotado pelos demais países industrializados, a Inglaterra
enfrentou a primeira crise de superprodução do sistema capitalista, que trouxe
consigo estagnação e desemprego, Para enfrentar a concorrência, garantir o
fornecimento de matérias primas às suas indústrias e buscar novos investimentos
para seus capitais, superando a crise interna, a Inglaterra reiniciou a corrida
colonial, conquistando e anexando vastos territórios da Ásia e da África. Essa
política de expansão foi rapidamente seguidos pelos demais países
industrializados, dando origem ao IMPERIALISMO, fenômeno característico do
período de 1870/1945.
S Í N T E S E
0 desenvolvimento industrial
e tecnológico trouxe novas formas e métodos de administração do capital e de
especialização' do - trabalho nas fábricas acarretando enorme avanço do
capitalismo. Ao longo do século XIX, este deixou de ser um sistema baseado na
concorrência entre inúmeros produtores, para se tornar um empreendimento de um
número reduzido de grandes empresas. -As fronteiras nacionais tornaram-se
pequenas para essas corporações, levando-as à procura de novas fontes de
recursos e de lucros em are as fora da Europa.