A FORMAÇÃO DO PROLETARIADO INGLÊS

 

Com a mecanização, nasceu o proletariado industrial, formado por homens, mulheres e crianças recrutados entre os camponeses expu1sos das aldeias, os soldados licenciados e sem emprego e os indigentes a cargo das paróquias. Submetidos à disciplina férrea da fábrica, os operários transformaram-se em simples apêndice da produção, agora realizada pela máquina.

Os operários trabalhavam na fiação, na tecelagem, nas vidrarias nas oficinas mecânicas e nas minas. As fábricas pareciam prisões e o serviço era árduo, daí a dificuldade inicial em se encontrar trabalhadores em número suficiente. Os industriais passaram a empregar mulheres e crianças, cujo salário era menor, em larga escala. As crianças, por sua maior flexibilidade e menor porte, eram usadas para puxar as vagonetes nos túneis das minas ou para consertar fios quebrados atrás das máquinas.

As crianças submetiam-se ao trabalho com maior facilidade e eram buscadas entre aquelas amparadas pelas paróquias. Estas faziam contratos com o fabricante que se comprometia a alimentar e educar os meninos e meninas cedidos para o trabalho. Na realidade, os "aprendizes" de paróquias ficavam confinados nas fábricas, isolados da sociedade e ao arbítrio dos patrões. Nos relatos sobre o emprego de crianças nos primeiros anos da Revolução Industrial, não foram raras as denúncias sobre torturas e maus tratos dispensados a elas.

As fábricas impunham uma disciplina de trabalho mais rígida do que a existente nas oficinas manufatureiras. 0 operário foi obrigado a ser assíduo e ajustado às novas necessidades' da produção fabril, com ponto diário de entrada e de saída e descontos nos salários em caso de faltas ou desatenção. As extensas jornadas de trabalho se estendiam por 12 a 16 horas diárias, sem feriados ou férias, não se respeitando nem mesmo os domingos. Acidentes ocorriam com freqüência, devido aos curtos períodos de descanso.

Os horários de entrada e de saída das fábricas eram marcados geralmente pelo toque dos sinos, que na cidade de Manchester começavam a tocar às quatro e meia da manhã. No interior da fábrica, o operário 1 tinha uma função específica e sempre repetitiva, adestrada ao ritmo da maquina e sob a supervisão do contramestre que o ameaçava com multas e despedida do emprego pelo menor erro cometido.

A fome, a miséria e a fiscalização constante impunham disciplina no trabalho, mas uma outra coerção foi muito utilizada: a coerção moral e religiosa. Nesse sentido, o metodismo, religião organizada por John Wesley (1703-1791), teólogo anglicano, teve um papel destacado ao afirmar que as conseqüências da indisciplina poderiam ser, não apenas a demissão, mas algo muito pior, as "chamas do inferno". A salvação do homem estaria ligada aos serviços que ele prestasse a Deus, como bom cristão e, principalmente, pelo trabalho diligente.

Os metodistas fundaram nas paróquias industriais as "escolas do minicais evangélicas", onde se buscavam "serviçais fiéis e bons trabalhadores". Nelas, a recreação consistia em rachar lenha, cavar o solo e aprender hinos cujas letras falavam sempre da presença de Deus como o mais vigilante dos contramestres, Como aos ingleses pobres muito pouco restasse da antiga vida em comunidade, a Igreja oferecia uma oportunidade de convivência, de ajuda mútua e de consolo, Os cultos religiosos levavam, muitas vezes, a histeria, com gritos, desmaíos, exorcismo, etc. Na opinião do historiador Thompson, apesar desse terrorismo religioso o metodismo serviu de base para o surgimento de um movimento de solidariedade entre os trabalhadores, na sua luta por melhores salários durante o século XIX,

 

BURGUESIA INDUSTRIAL E LIVRE -CAMBISMO

0 aparecimento da máquina não só revolucionou o sistema de produção, como transformou os donos de forjas, de fiações e de tecelagens numa forte burguesia industrial. No Lancashire e no Yorkshire, os membros dessa nova classe eram antigos agricultores e tecelões que, com muito esforço, haviam comprado algumas jennies movidas à mão, mais tarde as water-frames e os teares mecânicos. Dessa maneira, conseguiram passar da atividade agrícola para a pequena indústria domestica, desta para a manufatura e da manufatura para a grande indústria.

Os exemplos desses pioneiros são muitos, como nos mostra Paul, Mantoux: Robert Peel, fabricante de fios e de tecidos estampados, deixou uma fortuna imensa com a indústria; Joshua Fielden proprietários, de algumas jennies, Aaron Walker, inicialmente fabricante de pregos, William Hawks e John Parker, antigos ferreiros, tornaram-se grandes industriais.

Os agricultores, os ferreiros, os tecelões, os barbeiros de aldeia que formaram a primeira geração de grandes industriais ingleses, mais do que espíritos inventivos tinham que ser grandes organizadores, buscar sócios, reunir capitais e partir para a contratação de operários. A princípio, a atividade industrial era vista como um risco mui to alto para os bancos aplicarem seus capitais; os banqueiros ingleses preferiam emprestar seu dinheiro aos comerciantes, aos agricultores e ao governo do que investir na indústria.

No período compreendido entre meados dos séculos XVIII e XIX, a indústria consolidou-se e a burguesia industrial inglesa ascendeu socialmente. 0 burguês tornou-se um "gentleman", possuidor de belas propriedades no campo e na cidade, elegendo seus representantes para o Parlamento e conseguindo estudo para seus filhos nas melhores escolas e universidades. Para fazer prevalecer seus interesses industriais, a burguesia defendia a idéia de quê o enriquecimento individual representava a felicidade e o bem estar de todos e da nação.

Os industriais passaram a pleitear a liberdade de comércio e o fim do protecionismo alfandegário existente sobre os produtos agrícolas, argumentando que a livre importação de cereais a preços mais baixos que os produzidos na Inglaterra seria um dos meios de se acabar com a miséria dos trabalhadores. Os grandes proprietários de terra eram contra, afirmando que nada disso valeria para o operário, pois, com os alimentos mais baratos, os industriais acabariam por reduzir os seus salários. A polêmica envolvendo as elites agrárias e industrial terminou com a aprovação, em 1846, pelo Parlamento, de leis que eliminavam o protecionismo econômico e instituíam o livre- cambismo na Inglaterra.

 

 

A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL E 0 CAPITALISMO

 

No decorrer do século XVIII, a Europa Ocidental passou por uma grande transformação no setor da produção, em decorrência dos avanços das técnicas de cultivo e da mecanização das fábricas, a qual se deu o nome de Revolução Industrial. A invenção e o uso da maquina permitiram o aumento da produtividade, a diminuição dos preços e o crescimento do consumo e dos lucros.

As origens da Revolução Industrial podem ser encontradas nos séculos XVI e XVII, com a política de incentivo ao comércio adotada pelo s países absolutistas A acumulação de capitais nas mãos dos comerciantes burgueses e a abertura dos mercados proporcionada pela expansão marítima estimularam o crescimento da produção, exigindo mais mercadorias e preços menores. Gradualmente, passou-se do artesanato disperso para a produção em oficinas e destas para a produção mecanizada nas fábricas.

A Inglaterra foi o país pioneiro da industrialização. A agricultura inglesa desenvolveu-se com o cercamento dos campos e a difusão de novas técnicas e instrumentos de cultivo.0 fim do uso comum das terras gerou o "trabalhador livre", expulso do campo onde não tinham mais condições de sobrevivência e transformado em mão-de-obra urbana. A mecanização da produção criou o proletariado rural e urbano, composto de homens, mulheres e crianças, submetido a um trabalho diário exaustivo, no campo ou nas fábricas.

Com a Revolução Industrial, consolidou-se o sistema capitalista, baseado no CAPITAL e no TRABALHO ASSALARIADO.

0 capital apresenta-se sob a forma de terras, dinheiro, lojas, máquinas ou crédito. 0 agricultor, o comerciante, o industrial e o banqueiro, donos do capital, controlam o processo de produção, contratam ou demitem os trabalhadores, conforme sua conveniência. Estes, que não possuem capital, vendem sua força de trabalho por um salário.

 

AS NOVAS TÉCNICAS E MÉTODOS AGRÍCOLAS

A agricultura era praticada na Inglaterra, bem como no restante da Europa, através de métodos e de instrumentos ainda bastante primitivo, 0 cultivo do solo, realizado pelo sistema medieval do arroteamento trienal, deixava o campo improdutivo durante um ano em três, para recuperação da fertilidade. Os arados eram rudimentares e as forragens insuficientes para a alimentação dos rebanhos durante o inverno, tornando-se necessário abatê-los em grande número no outono.

A partir do século XVIII, a aristocracia inglesa realizou um esforço sistemático de modernização da agricultura, com o objetivo de aumentar as rendas de suas propriedades, seguindo o exemplo da burguesia que enriquecia-se com as atividades comerciais e financeiras, 0 impulso inicial foi dado, em 1731, com a publicação do livro de JETHRO TULL "The new horse husbandry, or an essay on the principles of tillage an vegetation".

Estudioso e observador dos métodos agrícolas praticados na Alemanha, França e Holanda, J. Tull (1674/746) era proprietário de terra no Berkshire, onde se dedicou a experiências e pesquisas e foi um dos primeiros a conceber a noção de cultura intensiva. Ele sugeriu o esterroamento e a lavra profunda dos campos; o estabelecimento contínuo da rotação de culturas que produzia colheitas variadas sem cansar a terra e sem necessidade do pousio prolongado; mostrou a importância das forragens de inverno que proporcionavam alimento para o gado nessa estação, dispensando o abate e, conseqüentemente, aumentando a oferta de adubo animal.

Os grandes proprietários passaram a aplicar as teorias de Jetho Tull em seus domínios, chegando alguns deles a aperfeiçoá-las, Lord Townshend (1674/1750) desenvolveu técnicas de drenagem e adubamento do solo e iniciou cultivos que se sucediam em rotações regulares (como nabo, cevada, trigo, beterraba, aveia, ervilha, feijão), sem esgotar a terra e sem deixá-la improdutiva. Sir Robert Bakewell (1725-1795) empreendeu a melhoria de rebanhos ovinos e bovinos através de cruzamentos hábeis e da seleção artificial das espécies. Com isso, conseguiu dobrar o peso médio de bois, bezerros e carneiros.

0 impulso dado pelos grandes proprietários se comunicou a toda a nação e o governo contribuiu com a construção de obras públicas como estradas, canais e drenagem de pântanos. A partir de meados do século XVIII, a agricultura moderna estava implantada na Inglaterra.

 

0 CERCAMENTO DOS CAMPOS

Entretanto, a produtividade agrícola encontrava um obstáculo ao seu desenvolvimento devido ao sistema de "campos abertos" e de "terras comuns" utilizado pelos camponeses para o plantio e a criação de gado desde a época medieval. Por isso, as inovações técnicas foram acompanhadas de um grande reordenamento das propriedades rurais, através da intensificação dos cercamentos dos campos ou "enclousures".

Os "enclousures" consistiam na unificação dos lotes dos camponeses, até então dispersos em faixas pela propriedade senhorial (campos abertos), num só campo cercado por sebes e usado na criação intensiva de gado e de carneiros ou nas plantações que interessassem ao p proprietário. Em sua perspectiva, o cercamento e as novas técnicas agrícolas promoviam o aumento da oferta de mercadorias que podiam ser vendidas a um melhor preço, beneficiando a nação.

Essa prática era legalmente utilizada e permitida pelo Parlamento Inglês desde o século XVI e foi intensificada no século XVIII causando a eliminação dos yeomen e dos arrendatários. Os cercamentos provocaram também um brutal desemprego na área rural, com os camponeses e suas famílias perdendo os lotes de onde tradicionalmente tiravam o seu sustento.

Em algumas paróquias, o simples anúncio de editais para o cerca mento gerava revoltas e tentativas para que não fossem afixados nas por tas das igrejas. As próprias autoridades encarregadas pelo Parlamento de realizar os "enclousures" revelavam a tragédia:

 

"Lamento profundamente" - afirmava um comissário de cercamento - "o mal que ajudei a fazer a dois mil pobres, a razão de 20 famílias por aldeia. Muitos deles, aos quais o costume permitia levar rebanhos ao pasto comum, não podem de fender seus direitos, e muitos deles, pode-se dizer quase to dos os que têm um pouco de terra, não têm mais de um acre; como não é o bastante para alimentar uma vaca, tanto a vaca como a terra são, em geral, vendidos aos ricos proprietários. (Annals of Agriculture, citado por MANTOUX, P., op. cit', p. 169.)

 

 

A acumulação das terras em mãos de poucos proprietários está atestada nós documentos da época:

 

"Não é raro ver quatro ou cinco ricos criadores se apossarem de toda uma paróquia, antes dividida entre trinta ou quarenta camponeses, tanto pequenos arrendatários,quanto pequenos proprietários.: todos foram repentinamente expulsos e, ao mesmo tempo, inúmeras outras famílias, que dependiam quase que unicamente deles, para o seu trabalho' e sua subsistência, as dos ferreiros, carpinteiros, carro e outros artesãos e pessoas de ofício, sem contar os jornaleiros e criados." (Citado por MANTOUX PauI. A Revolução, Industrial no século XVIII. São Paulo, Editora Hucitec, p. 164.)

 

Para o historiador inglês Karl Polany, "os cercamentos foram chamados, de forma adequada, de revolução dos ricos contra os pobres. os senhores e nobres estavam perturbando a ordem social, destruindo as leis e costumes tradicionais, às vezes pela violência , as vezes por intimidação e pressão. Eles literalmente roubavam o pobre na sua parcela de terras comuns, demolindo casas que até então, por força de antigos costumes, os pobres consideravam como suas e de seus herdeiros. Aldeias abandonadas e ruínas de moradias testemunhavam a ferocidade da revolução." (POLANY, Karl. A Grande Transformação. Rio de Janeiro, Editora Campus, 1988, P. 52.)

Por outro lado, a admiração pelos "enclousures" pode ser vista nos relatos de agrônomos- economistas, como Arthur Yong (1741/1820) que afirmava:

"A meu ver, a população é um objetivo secundário. Deve-se cultivar o solo de modo a fazê- lo produzir o máximo possível, sem se inquietar com a população. Em caso algum o fazendeiro deve ficar preso a métodos agrícolas superados, suceda o que suceder com a população. Uma população que, ao invés de aumentar a riqueza do país, é para ele um fardo, é uma população nociva.'' (Citado por MANTOUX, Paul, op. cit. p. 166.)

0 "HOMEM LIVRE''

Em conseqüência do desemprego e do pauperismo provocados pelos cercamentos, uma massa de camponeses sem terra passou a perambular por estradas e paróquias, atemorizando os proprietários e aumentando a carga de impostos necessários para mantê- los, já que pelas leis inglesas as paróquias eram responsáveis pelo auxilio aos pobres.

O aumento da miséria levou à revisão da Legislação dos Pobres, existente desde 1601 e que organizava o auxílio público aos desvalidos. A legislação tornou-se cada vez mais repressiva: todo indivíduo sem trabalho ou ocupação podia ser preso ou chicoteado e, em caso de furto, mesmo que fosse para matar a fome, ser marcado a ferro, ter as mãos decepadas ou ser enforcado.

Durante o século XVIII, para evitar a entrada de desocupados em seu território, as paróquias passaram a recorrer a Lei do Domicílio (1662) que determinava que todo indivíduo que mudasse de paróquia pode ria ser expulso, privando assim o cidadão da liberdade de locomoção. Essa lei facilitou aos grandes proprietários a exploração ao máximo do trabalho dos camponeses de sua paróquia ou da paróquia vizinha.

A consolidação das grandes propriedades, com a expulsão de grande de número de camponeses, criou uma massa de "homens livres", no sentido de estarem desprovidos de qualquer propriedade e desligados da autoridade de um senhor; prontos, portanto, a se tornarem mão de obra industrial.