Globalização
Índice
·
O que é Globalização
·
Globalização e conjuntura
internacional
·
Principais tendências da
Globalização
·
A crescente hegemonia do
capital financeiro
·
Novo Papel das Empresas
Transnacionais
·
Os Impactos da
Globalização para a América Latina
·
Impactos da globalização
no mercado de trabalho e os sindicatos
·
Globalização e Meio
Ambiente
·
Globalização - A História
interativa
O que é Globalização?
"A notícia do
assassinato do presidente norte-americano Abraham Lincoln, em 1865, levou 13
dias para cruzar o Atlântico e chegar a Europa. A queda da Bolsa de Valores de
Hong Kong (outibro-novembro/97), levou 13 segundos para cair como um raio sobre
São Paulo e Tóquio, Nova York e Tel Aviv, Buenos Aires e Frankfurt. Eis ao vivo
e em cores, a globalização"
(Clóvis Rossi – do
Concelho Editorial – Folha de São Paulo)
"O
furacão financeiro que veio da Ásia, passou pela Europa, Estados Unidos e
chegou ao Brasil, teve pelo menos uma vantagem didática. Ninguém pode mais
alegar que nunca ouviu falar da globalização financeira. Até poucos meses, é
provável que poucos soubessem onde ficava a Tailândia ou Hong Kong. Hoje muita
gente sabe que um resfriado nesses lugares pode virar uma gripe aqui.
Especialmente se fizer uma escala em Nova York."
(Celso Pinto – do Conselho
Editorial – Folha de São Paulo)
Mas, o que é essa
globalização e como é que ela se manifesta ?
Não há uma definição que
seja aceita por todos. Ela está definitivamente na moda e designa muitas coisas
ao mesmo tempo. Há a interligação acelerada dos mercados nacionais, há a
possibilidade de movimentar bilhões de dólares por computador em alguns
segundos, como ocorreu nas Bolsas de todo o mundo, há a chamada "terceira
revolução tecnológica"( processamento, difusão e transmissão de
informações). Os mais entusiastas acham que a globalização define uma nova era
da história humana.
Qual a diferença entre
Globalização, Mundialização e Internacionalização?
Globalização e
Mundialização são quase sinônimos. Os americanos falam em globalização. Os
franceses preferem mundialização. Internacionalização pode designar qualquer
coisa que escape ao âmbito do Estado Nacional.
Quando o mundo começou a
ficar globalizado?
Novamente, não há uma única
resposta. Fala-se em início dos anos 80, quando a tecnologia de informática se
associou à de telecomunicações. Outros acreditam que a globalização começou
mais tarde com a queda das barreiras comerciais.
Globalização é poder
comprar o mesmo produto em qualquer parte do mundo?
Não se pode confundir
globalização com a presença de um mesmo produto em qualquer lugar do mundo. A
globalização pressupõe a padronização dos produtos (um tênis Nike, um Big Mac)
e uma estratégia mundialmente unificada de marketing, destinada a uniformizar
sua imagem junto aos consumidores.
Se as empresas
globalizadas não tem país-sede, o que ocorre quando querem fazer um lobby?
A rigor, as empresas
globalizadas preocupam-se muito mais com marketing, o grosso de seus
investimentos. Se em determinado país as condições de seu fornecedor se
tornaram desfavoráveis - os juros aumentaram, o que implica no aumento dos
produtos -, a empresa globalizada procura outro fornecedor em outro país. Ela
não perderá tempo em fazer lobby sobre determinado governo para que o crédito
volte a ser competitivo.
Por que dizem que a
globalização gera desemprego?
A globalização não
beneficia a todos de maneira uniforme. Uns ganham muito, outros ganham menos,
outros perdem. Na prática exigem menores custos de produção e maior tecnologia.
A mão-de-obra menos qualificada é descartada. O problema não é só individual. É
um drama nacional dos países mais pobres, que perdem com a desvalorização das
matérias-primas que exportam e o atraso tecnológico.
A
globalização vai deixar os ricos mais ricos e os pobres mais pobres?
Em seu relatório deste ano
sobre o desenvolvimento humano, a ONU comprova que a globalização está
concentrando renda: os países ricos ficam mais ricos, e os
pobres, mais pobres. Há muitos motivos para isso. Alguns deles: a
redução das tarifas de importação beneficiou muito mais os produtos exportados
pelos mais ricos. Os países mais ricos continuam a subsidiar seus produtos
agrícolas, inviabilizando as exportações dos mais pobres.
Conjuntura
Internacional
A conjuntura internacional se
desenvolve no contexto de declínio do sistema capitalista. É a antítese da era
de prosperidade vivida nas primeiras décadas do pós-guerra e a expressão do
esgotamento do padrão de acumulação de capital proveniente deste período.
Configura-se uma situação crítica caracterizada por taxas de crescimento
econômico declinantes e elevados níveis de desemprego em quase todos os países onde
predomina a economia de mercado.
A crise econômica, que não deve ser
confundida com as perturbações cíclicas do sistema provocadas pela
superprodução, vem acelerando o processo de centralização e globalização do capital,
traduzidos principalmente pela onda de aquisições, incorporações e megafusões
de empresas. Como resultado, seus efeitos têm maior repercussão mundial, assim
como as políticas propostas ou impostas como "solução" pelas classes
que encarnam os interesses do capital.
O cenário atual está caracterizado pelo
avanço da globalização econômica, financeira e comercial defendida pelos
organismos internacionais (FMI, Banco Mundial e Organização Mundial do
Comércio) com base na ideologia neoliberal. Trata-se de um processo em curso,
comandado pelas grandes corporações transnacionais que procuram abrir novos
mercados para sua produção e, ao mesmo tempo, recuperar as taxas de lucro,
reduzindo seus custos pelo aumento da exploração dos trabalhadores, via redução
de salários, aumento das jornadas de trabalho e eliminação dos direitos dos
trabalhadores, atacando as conquistas sindicais e trabalhistas obtidas na era
de ouro do sistema e desmantelando o chamado Estado de Bem-Estar Social. A
globalização tem representado o aumento do desemprego, a precarização dos
contratos de trabalho, a informalidade e crescentes ataques aos direitos de
organização sindical.
O neoliberalismo surge neste quadro e
vem sendo aplicado desde os anos 80 como uma resposta da burguesia ao panorama
crítico. Tendo adquirido ares de verdade absoluta após a derrocada do
"socialismo real", seu objetivo é, basicamente, elevar as taxas de
lucros das empresas multinacionais (revertendo a queda observada nas últimas
décadas). Em tese, o aumento dos lucros resultaria na recomposição dos níveis
de investimentos e viabilizaria a inauguração de um novo padrão de acumulação e
uma fase de crescimento econômico capitalista, o que na prática não vem
ocorrendo.
O ritmo e a natureza da inserção das
economias nacionais à globalização são diferenciados e depende em grande medida
de opções políticas e da correlação de forças entre os setores populares e os
defensores do neoliberalismo. Ainda não está concluída a forma de inserção das
economias nacionais no mercado global.
Os sindicatos, em nível nacional e
mundial, podem influir em seu curso. Greves e mobilizações recentes na Europa,
Ásia e América Latina revelam que os sindicatos reagem e buscam alternativas
para a maneira excludente como a globalização vem se processando. Essas lutas
ainda ressentem-se da ausência de um projeto alternativo capaz de se contrapor
ao neoliberalismo.
Grandes mobilizações, como a greve na
Coréia do Sul, a mobilização dos mineiros alemães e dos trabalhadores franceses
e belgas da Renault revelam que os trabalhadores não estão dispostos a arcar
com os custos da globalização, e que é possível impor derrotas ao
neoliberalismo.
As estratégias e os atuais modelos de
organização sindical, criados num período de fronteiras nacionais parcialmente
protegidas, têm sido incapazes de enfrentar as transformações econômicas em
curso.
Principais tendências da globalização
A crescente hegemonia do capital
financeiro
O crescimento do sistema financeiro
internacional constitui uma das principais características da globalização. Um
volume crescente de capital acumulado é destinado à especulação propiciada pela
desregulamentação dos mercados financeiros. Nos últimos quinze anos o crescimento
da esfera financeira foi superior aos índices de crescimento dos investimentos,
do PIB e do comércio exterior dos países desenvolvidos. Isto significa que, num
contexto de desemprego crescente, miséria e exclusão social, um volume cada vez
maior do capital produtivo é destinado à especulação.
O setor financeiro passou a gozar de
grande autonomia em relação aos bancos centrais e instituições oficiais,
ampliando o seu controle sobre o setor produtivo. Fundos de pensão e de seguros
passaram a operar nesses mercados sem a intermediação das instituições
financeiras oficiais. O avanço das telecomunicações e da informática aumentou a
capacidade dos investidores realizarem transações em nível global. Cerca de 1,5
trilhão de dólares percorre as principais praças financeiras do planeta nas 24
horas do dia. Isso corresponde ao volume do comércio internacional em um ano.
Da noite para o dia esses capitais
voláteis podem fugir de um país para outro, produzindo imensos desequilíbrios
financeiros e instabilidade política. A crise mexicana de 94/95 revelou as
conseqüências da desregulamentação financeira para os chamados mercados
emergentes. Foram necessários empréstimos da ordem de 38 bilhões de dólares
para que os EUA e o FMI evitassem a falência do Estado mexicano e o início de
uma crise em cadeia do sistema financeiro internacional.
Ao sair em socorro dos especuladores, o
governo dos Estados Unidos demonstrou quem são os seus verdadeiros parceiros no
Nafta. Sob a forma da recessão, do desemprego e do arrocho dos salários, os
trabalhadores mexicanos prosseguem pagando a conta dessa aventura. Nos períodos
"normais" a transferência de riquezas para o setor financeiro se dá
por meio do serviço da dívida pública, através da qual uma parte substancial
dos orçamentos públicos são destinados para o pagamento das dívidas contraídas
junto aos especuladores. O governo FHC destinou para o pagamento de juros da
dívida pública um pouco mais de 20 bilhões de dólares em 96.
Novo Papel das Empresas Transnacionais
As empresas transnacionais constituem o
carro chefe da globalização. Essa empresas possuem atualmente um grau de
liberdade inédito, que se manifesta na mobilidade do capital industrial, nos
deslocamentos, na terceirização e nas operações de aquisições e fusões. A
globalização remove as barreiras à livre circulação do capital, que hoje se
encontra em condições de definir estratégias globais para a sua acumulação.
Essas estratégias são na verdade cada
vez mais excludentes. O raio de ação das transnacionais se concentra na órbita
dos países desenvolvidos e alguns poucos países periféricos que alcançaram
certo estágio de desenvolvimento. No entanto, o caráter setorial e diferenciado
dessa inserção tem implicado, por um lado, na constituição de ilhas de
excelência conectadas às empresas transnacionais e, por outro lado, na
desindustrialização e o sucateamento de grande parte do parque industrial
constituído no período anterior por meio da substituição de importações.
As estratégias globais das
transnacionais estão sustentadas no aumento de produtividade possibilitado
pelas novas tecnologias e métodos de gestão da produção. Tais estratégias
envolvem igualmente investimentos externos diretos realizados pelas
transnacionais e pelos governos dos seus países de origem. A partir de 1985
esses investimentos praticamente triplicaram e vêm crescendo em ritmos mais
acelerados do que o comércio e a economia mundial.
Por meio desses investimentos as
transnacionais operam processos de aquisição, fusão e terceirização segundo
suas estratégias de controle do mercado e da produção. A maior parte desses
fluxos de investimentos permanece concentrada nos países avançados, embora
venha crescendo a participação dos países em desenvolvimento nos últimos cinco
anos. A China e outros países asiáticos, são os principais receptores dos
investimentos direitos. O Brasil ocupa o segundo lugar dessa lista, onde
destacam-se os investimentos para aquisição de empresas privadas brasileiras
(COFAP, Metal Leve etc.) e nos programas de privatização, em particular nos
setores de infraestrutura.
Liberalização e Regionalização do
Comércio
O perfil altamente concentrado do
comércio internacional também é indicativo do caráter excludente da
globalização econômica. Cerca de 1/3 do comércio mundial é realizado entre as
matrizes e filiais das empresas transnacionais e 1/3 entre as próprias
transnacionais. Os acordos concluídos na Rodada Uruguai do GATT e a criação da
OMC mostraram que a liberação do comércio não resultou no seu equilíbrio,
estando cada vez mais concentrado entre os países desenvolvidos.
A dinâmica do comércio no Mercosul
traduz essa tendência. Na realidade a integração do comércio nessa região, a
exemplo do que ocorre com o Nafta e do que se planeja para a Alca em escala
continental, tem favorecido sobretudo a atuação das empresas transnacionais,
que constituem o carro chefe da regionalização.
O aumento do comércio entre os países
do Mercosul nos últimos cinco anos foi da ordem de mais de 10 bilhões de
dólares. Isto se deve em grande parte às facilidades que os produtos e as
empresas transnacionais passaram a gozar com a eliminação das barreiras tarifárias
no regime de união aduaneira incompleta que caracteriza o atual estágio do
Mercosul.
No mesmo período, o Mercosul acumulou
um déficit de mais de 5 bilhões de dólares no seu comércio exterior. Este
resultado reflete as conseqüências negativas das políticas nacionais de
estabilização monetária ancoradas na valorização do câmbio e na abertura
indiscriminada do comércio externo praticadas pelos governos FHC e Menem.
O empenho das centrais sindicais para
garantir os direitos sociais no interior desses mercados tem encontrado enormes
resistências. As propostas do sindicalismo de adoção de uma Carta Social do
Mercosul, de democratização dos fóruns de decisão, de fundos de reconversão
produtiva e de qualificação profissional têm sido rechaçadas pelos governos e
empresas transnacionais.
A liberalização do comércio e a
abertura dos mercados nacionais têm produzido o acirramento da concorrência. A
super exploração do trabalho é cada vez mais um instrumento dessa disputa. O
trabalho infantil e o trabalho escravo são utilizados como vantagens
comparativas na guerra comercial. Essa prática, conhecida como dumping
(rebaixamento) social, consiste precisamente na violação de direitos
fundamentais, utilizando a superexploração dos trabalhadores como vantagem
comparativa na luta pela conquista de melhores posições no mercado mundial.
Nesse contexto, as conquistas sindicais são apresentadas pelas empresas como um
custo adicional que precisa ser eliminado ("custo Brasil",
"custo Alemanha" etc.).
Os Impactos da Globalização para a
América Latina
São distintos os impactos da
globalização para os países da periferia do sistema capitalista. O grau de inserção
desses países depende, em grande parte, do estágio de desenvolvimento
industrial alcançado até os anos oitenta, das perspectivas de crescimento do
mercado interno e de condições políticas que vão se constituindo internamente.
Isto vale para os países da América Latina, cujos governos se orientam pelas
formas subordinadas de inserção preconizadas pelo chamado Consenso de
Washington.
A partir dos anos cinqüenta, num
contexto de políticas desenvolvimentistas e populistas, consolida-se a divisão
internacional do trabalho com a presença de empresas multinacionais operando em
setores chaves da estrutura produtiva de países como Brasil, México e
Argentina. Desde então, as elites políticas e econômicas desses países
aceitaram a condição de sócias minoritárias na condução do capitalismo
associado e dependente da região.
Por meio dessa associação com o capital
estrangeiro a burguesia industrial abdicou de qualquer pretensão à hegemonia na
condução do desenvolvimento nacional, aceitando um papel subalterno na dinâmica
do capitalismo dependente. O desenvolvimento industrial alcançado pela
associação com o capital externo foi acompanhado de um padrão de financiamento
que aprofundou a dependência desses países. Os empréstimos externos dos anos
setenta resultaram no pesadelo da crise da dívida externa dos anos 80,
provocada pelo aumento das taxas de juros internacionais impostos pelos EUA.
Os planos de estabilização monetária e
a reforma do Estado são as condições impostas pelas organizações financeiras
internacionais para que esses países venham se inserir, num futuro remoto, à
nova realidade econômica mundial. A baixa taxa de crescimento dos países
latino-americanos é uma das faces desse modelo de estabilização (vide quadro
1). Mas as conseqüências perversas são imediatas, e se expressam na
desindustrialização, no desemprego, no aumento da miséria, na privatização das
empresas e dos serviços públicos, com corte nos gastos sociais em educação,
saúde, moradia, previdência etc.
O desemprego na Argentina, da ordem de
20% da força de trabalho, a informalidade do mercado de trabalho no Brasil, de
cerca de 50% da PEA (população economicamente ativa), e o brutal arrocho dos
salários que se seguiu à crise mexicana ilustram dramaticamente o preço que os
trabalhadores latino-americanos estão pagando em nome da pretensa modernização
econômica da região.
Quadro1 Taxas de crescimento países
latino-americanos selecionados (*)
|
Países |
81-90(*) |
90 |
91 |
92 |
93 |
94 |
95 |
96 |
|
Brasil |
1,6 |
-4,4 |
0,2 |
-0,8 |
4,2 |
5,7 |
4,2 |
3,1 |
|
Argentina |
-0,9 |
0,1 |
8,9 |
8,7 |
6,0 |
7,4 |
-3,5 |
|
|
Chile |
3,0 |
3,0 |
7,3 |
11,0 |
6,3 |
4,2 |
8,5 |
|
|
México |
1,7 |
4,4 |
3,6 |
2,8 |
0,6 |
3,5 |
-6,9 |
|
(*)média % - Fonte: Relatório da OEA
(diversos) IPEA
Impactos da globalização no mercado de
trabalho e os sindicatos
A eliminação dos postos de trabalho
representa o lado mais perverso da globalização. Duas conferências de cúpula do
G-7 já trataram do problema mundial do desemprego e a posição dos chefes de
Estado dos países mais ricos foi a mesma: nada a fazer, senão prosseguir os
programas de ajuste com base no rigor fiscal e no equilíbrio monetário. Mesmo
que isto implique a continuidade das medíocres taxas de crescimento da economia
mundial dos últimos vinte anos( vide quadro das taxas de crescimento dos países
do G-7).
Quadro 2 Taxas de crescimento países
G-7
|
G-7 |
81-90(*) |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
1996 |
|
EUA |
2,6 |
-0,6 |
2,7 |
2,2 |
3,5 |
2,0 |
2,1 |
|
Alemanha |
2,2 |
4,5 |
1,8 |
-1,2 |
3,0 |
2,1 |
0,9 |
|
Japão |
4,1 |
4,3 |
1,0 |
0,1 |
0,5 |
0,7 |
2,6 |
|
Itália |
2,2 |
1,2 |
0,7 |
-1,2 |
2,2 |
3,0 |
2,4 |
|
França |
2,4 |
0,8 |
1,3 |
-1,5 |
2,9 |
2,4 |
1,4 |
|
Inglaterra |
2,7 |
-2,0 |
-0,5 |
2,3 |
3,8 |
2,4 |
2,2 |
|
Canadá |
2,9 |
-1,8 |
0,8 |
2,2 |
4,6 |
2,2 |
1,8 |
(*) média % - Fonte: Relatório da OEA
(diversos) IPEA
O resultado mais dramático da crise da
economia capitalista é o crescimento extraordinário do desemprego, fenômeno
motivado por duas causas básicas: o progressivo declínio das taxas de crescimento
econômico aliado ao desenvolvimento tecnológico com aplicação condicionada
pelas relações de produção características de tal sistema. O problema não é só
social, mas sobretudo econômico. Revela a crescente ineficiência capitalista na
utilização dos recursos colocados à disposição da humanidade pelo
progresso das forças produtivas. Neste contexto, cresce a importância da luta
em defesa do emprego e pela redução da jornada de trabalho. O proletariado
europeu vem organizando e realizando grandes e poderosos movimentos neste
sentido, num exemplo que merece ser seguido pelos trabalhadores do chamado
Terceiro Mundo.
Os governos neoliberais dizem que o
custo do trabalho e as conquistas históricas dos trabalhadores são as causas do
desemprego. Buscam eliminar essas conquistas por meio da flexibilização da
legislação trabalhista. O argumento é completamente mentiroso: a Espanha e a
Argentina foram os países que mais avançaram na flexibilização e as taxas de
desemprego, ao invés de cair, estão por volta de 20% da população ativa.
As transformações no mundo do trabalho
indicam claramente as grandes dificuldades colocadas para um sindicalismo
baseado exclusivamente nos setores tradicionais. A organização dos
desempregados, dos trabalhadores informais, das mulheres, que ingressam no
mercado de trabalho em condições ainda mais precárias do que os homens, e de
contingentes cada vez mais amplos de excluídos, representa um desafio crucial
para o futuro do sindicalismo.
A precarização dos contratos de
trabalho (tempo parcial, tempo determinado), o aumento das jornadas, a
rotatividade, a informalidade, a redução dos salários e a deterioração das
condições de trabalho são outras tantas formas de ataque aos trabalhadores. Em
razão destes ataques, o perfil do mercado de trabalho nos países desenvolvidos
e em desenvolvimento começa apresentar semelhanças (o crescimento do desemprego
nos países do G-7 é um fenômeno quase generalizado, como podemos comprovar na
tabela abaixo).
Taxas de desemprego países
desenvolvidos (definição OCDE)
|
|
81-90 (*) |
1991 |
1992 |
1993 |
1994 |
1995 |
1996 |
|
EUA |
7,1 |
6,7 |
7,5 |
6,9 |
6,1 |
5,6 |
5,8 |
|
Alemanha |
7,1 |
5,5 |
7,8 |
8,9 |
9,5 |
9,4 |
11,1 |
|
Japão |
2,5 |
2,1 |
2,2 |
2,5 |
2,9 |
3,2 |
3,4 |
|
Itália |
8,0 |
8,1 |
9,7 |
10,3 |
9,3 |
8,2 |
11,8 |
|
França |
9,3 |
9,4 |
10,3 |
11,7 |
12,3 |
11,6 |
12,1 |
|
Inglaterra |
9,1 |
8,1 |
9,7 |
10,3 |
9,3 |
8,2 |
7,9 |
|
Canadá |
9,4 |
10,3 |
11,3 |
11,2 |
10,4 |
9,5 |
9,6 |
(*)média % - Fonte: Relatório da OEA
(diversos) IPEA
O novo padrão de acumulação pressupõe a
destruição das conquistas trabalhistas obtidas no período anterior. Os ataques
à organização sindical, ao contrato de trabalho e às negociações coletivas vêm
se tornando cada vez mais intensos, ampliando a violência dos confrontos
sociais e resultando em grandes mobilizações sindicais, como demonstram as
greves gerais da França, Brasil e Coréia do Sul.
Estruturados numa fase de economias
nacionais reguladas, mercados parcialmente protegidos e padrões de organização
tradicionais, os sindicatos têm encontrado enormes dificuldades para combater
os efeitos da globalização.
Apesar da crise, as perspectivas são
muito maiores para uma ação internacional da classe trabalhadora, com vistas a
realização de ações articuladas em torno de objetivos comuns. A uniformização
das estratégias empresarias e os ataques aos trabalhadores produz reações
nacionais que devem ser canalizadas pelo movimento sindical internacional para
a promoção de campanhas mundiais.
O declínio relativo da liderança
econômica dos EUA no mundo
Combinada à crise econômica,
verificam-se os desdobramentos do declínio relativo da liderança econômica
norte-americana no mundo capitalista, fenômeno decorrente do desenvolvimento desigual,
que solapa as bases da ordem internacional formalizada nos acordos de Bretton
Woods e acirra os conflitos entre as grandes potências. A decadência dos EUA
tem sido acompanhada de uma ofensiva mais feroz por parte do Estado
norte-americano. Sinais disto são as leis Helms-Burtons e Amato, de alcance extraterritoriais,
contra multinacionais instaladas em Cuba, Irã e Líbia ou comércio com estes
países - que geraram uma oposição enérgica de outras potências, principalmente
na Europa; crescentes retaliações comerciais contra concorrentes; divergências
em torno da constituição da Alca e ainda o processo de descertificação de
países latino-americanos sob o pretexto de que não aplicam corretamente a
hipócrita política anti-droga americana. São iniciativas que só se explicam
pela pretensão dos EUA se transformarem no árbitro e polícia do planeta, fazendo
da sua própria vontade e interesses os critérios de julgamento político e moral
do universo, num movimento que contraria sua decadência econômica relativamente
às outras potências capitalistas e vai criando novas contradições geopolíticas.
As declarações do presidente francês, Jacques Chirac, durante sua visita ao
Brasil e AL, são sintomáticas das contradições que emergem com o declínio
relativo dos EUA e de redefinições de alianças que estão em curso. A CUT tem o
dever de denunciar a crescente arrogância e agressividade do imperialismo
norte-americano.
Os desequilíbrios da economia
norte-americana - que no ano de glória e prosperidade de 1996 registrou o maior
déficit no comércio de bens mercadorias com o exterior, superior a 180 bilhões
de dólares, ao lado de um rombo nas contas correntes em torno de US$ 170
bilhões - têm grande repercussão econômica em todo o globo, uma vez que a
necessidade de financiamento externo dos débitos influencia poderosamente o
fluxo internacional de capitais. É bom lembrar que durante o ano de 1994, cujo
final foi agitado pela crise cambial mexicana (num dezembro de pânico),
ocorreram sete elevações das taxas de juros dos EUA. Novas altas dos juros
norte-americanos influenciam imediatamente a capacidade de atração de capitais
pelos países periféricos, assim como o custo dos empréstimos contraídos no
exterior e a política de juros no interior desses países (a decisão do Banco
Central de manter para maio a mesma Taxa Básica do BC - TBC -, interrompendo a
política de redução gradual dos juros que vinha implementando desde setembro de
1996, foi motivada pela expectativa de elevação das taxas norte-americanas. A
repercussão de tal decisão sobre a dívida interna será bem negativa). Também é
importante observar, pois é mais um significativo sinal da crise do
imperialismo, o avanço da extrema-direita - é um fenômeno que se observa em
vários países, sobretudo na Europa e com mais ênfase na França (medidas e leis
de intolerância contra imigrantes, por iniciativa do governo e das forças
conservadoras; avanço eleitoral da Frente Nacional de Le Pen ), mostrando que
uma das alternativas com que as classes dominantes vêm acenando é este, o do
obscurantismo, do neofascismo (ou algo parecido). Os trabalhadores e as
personalidades democráticas da sociedade não podem observar com passividade
este fenômeno, como se expressasse acontecimentos sem maior importância. Vai
ficando claro que neoliberalismo não combina com democracia.
GLOBALIZAÇÃO E MEIO AMBIENTE
José de Sena Pereira Jr.
Abertura de mercados ao comércio
internacional, migração de capitais, uniformização e expansão tecnológica, tudo
isso, capitaneado por uma frenética expansão dos meios de comunicação, parecem
ser forças incontroláveis a mudar hábitos e conceitos, procedimentos e
instituições. Nosso mundo aparenta estar cada vez menor, mais restrito, com
todos os seus cantos explorados e expostos à curiosidade e à ação humana. É a
globalização em seu sentido mais amplo, cujos reflexos se fazem sentir nos
aspectos mais diversos de nossa vida.
As circunstâncias atuais parecem
indicar que a globalização da economia, com todas as suas conseqüências sociais
e culturais, é um fenômeno que, no mínimo, irá durar. O fim da bipolaridade
ideológica no cenário internacional, a saturação dos mercados dos países mais
ricos e a ação dos meios de comunicação, aliados a um crescente fortalecimento
do poder das corporações e inversa redução do poder estatal (pelo menos nos
países que não constituem potências de primeira ordem) são apenas alguns dos
fatores que permitem esse prognóstico. O meio ambiente, em todos os seus
componentes, tem sido e continuará cada vez mais sendo afetado pelo processo de
globalização da economia.
Os impactos da globalização da economia
sobre o meio ambiente decorrem principalmente de seus efeitos sobre os sistemas
produtivos e sobre os hábitos de consumo das populações. Alguns desses efeitos
têm sido negativos e outros, positivos.
Está havendo claramente uma
redistribuição das funções econômicas no mundo. Um mesmo produto final é feito
com materiais, peças e componentes produzidos em várias partes do planeta. Produzem-se
os componentes onde os custos são mais adequados. E os fatores que implicam os
custos de produção incluem as exigências ambientais do país em que está
instalada a fábrica. Este fato tem provocado em muitos casos um processo de
"migração" industrial. Indústrias são rapidamente montadas em locais
onde fatores como disponibilidade de mão-de-obra, salários, impostos,
facilidades de transporte e exigências ambientais, entre outros, permitem a
otimização de custos. Como a produção de componentes é feita em escala global,
alimentando indústrias de montagem em várias partes do mundo, pequenas
variações de custos produzem, no final, notáveis resultados financeiros.
O processo de migração industrial,
envolvendo fábricas de componentes e materiais básicos, pode ser notado
facilmente nos países do Sudeste Asiático e, mais recentemente, na América
Latina. São conhecidas as preocupações dos sindicatos norte-americanos com a
mudança de plantas industriais - notadamente da indústria química - para a
margem sul do Rio Grande. O fortalecimento da siderurgia brasileira, além, é
claro, de favoráveis condições de disponibilidade de matéria-prima, pode ser,
em parte, creditado a esse fenômeno.
Há uma clara tendência, na economia
mundial, de concentrar-se nos países mais desenvolvidos atividades mais ligadas
ao desenvolvimento de tecnologias, à engenharia de produtos e à
comercialização. Por outro lado, a atividade de produção, mesmo com níveis
altos de automação, tenderá a concentrar-se nos países menos desenvolvidos, onde
são mais baratos a mão-de-obra e o solo e são contornadas, com menores custos,
as exigências de proteção ao meio ambiente.
Essa tendência poderá mascarar o
cumprimento de metas de redução da produção de gases decorrentes da queima de
combustíveis fósseis, agravadores do "efeito estufa", pois a
diminuição das emissões nos países mais ricos poderá ser anulada com o seu
crescimento nos países em processo de industrialização.
Outro fator que tem exercido pressão
negativa sobre o meio ambiente e que tem crescido com a globalização da
economia é o comércio internacional de produtos naturais, como madeiras nobres
e derivados de animais. Este comércio tem provocado sérios danos ao meio
ambiente e colocado em risco a preservação de ecossistemas inteiros.
A existência de um mercado de dimensões
globais, com poder aquisitivo elevado e gostos sofisticados, é responsável por
boa parte do avanço da devastação das florestas tropicais e equatoriais na
Malásia, Indonésia, África e, mais recentemente, na América do Sul. A
tradicional medicina chinesa, em cuja clientela se incluem ricos de todo o
mundo, estimula a caça de exemplares remanescentes de tigres, rinocerontes e
outros animais em vias de extinção. Mercados globalizados facilitam o trânsito
dessas mercadorias, cujos altos preços estimulam populações tradicionais a
cometerem, inocentemente, crimes contra a natureza.
Na agricultura e na pecuária, a
facilidade de importação e exportação pode levar ao uso, em países com
legislação ambiental pouco restritiva ou fiscalização deficiente, de produtos
químicos e técnicas lesivas ao meio ambiente, mas que proporcionam elevada
produtividade a custos baixos. É o caso, por exemplo, de determinados
agrotóxicos que, mesmo retirados de uso em países mais desenvolvidos, continuam
a ser utilizados em países onde não existem sistemas eficientes de registro e
controle. Os produtos agrícolas e pecuários fabricados graças a esses insumos
irão concorrer deslealmente com a produção de outros países.
A medida mais eficaz para evitar ou
minimizar os efeitos deletérios dessas e de outras conseqüências da
globalização sobre o meio ambiente seria a adoção, por todos os países, de
legislações ambientais com níveis equivalentes de exigências. O fortalecimento
das instituições de meio ambiente, principalmente dos órgãos encarregados de
implementar e manter o cumprimento das leis, é igualmente fundamental. Para
isto, seriam necessárias, além de ações dos governos dos países em
desenvolvimento, assistência econômica e técnica das nações mais ricas.
Estas são preocupações expressas em
vários documentos, como a Agenda 21, resultante da Conferência das Nações
Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada no Rio de Janeiro em
1992. No entanto, interesses econômicos imediatos, aliados ao grave problema do
desemprego, que hoje assola boa parte do mundo, têm dificultado o avanço de
acordos e ações efetivas nesse sentido.
A globalização da economia, pelo menos
na fase de transição que impõe a todos os países, cria um contingente de
mão-de-obra desativada, via eliminação de empregos em setores nos quais o país
não consegue competir. O estímulo à mecanização da agricultura, dispensando
mão-de-obra, por outro lado, acelera o êxodo rural. Essa massa de excluídos do
processo de integração da economia acaba por provocar grave degradação
ambiental, principalmente no ambiente urbano, criando invasões de áreas não
urbanizadas e favelas. A degradação do ambiente urbano - destruição de
atributos naturais, poluição da água, perturbações da segurança e da saúde
pública, prejuízos na estética urbana, etc.- resulta na perda da qualidade de
vida, tanto dos novos como dos antigos moradores urbanos. O ressurgimento de
epidemias e endemias supostas extintas é um dos ângulos mais visíveis desta
questão.
Para uma transição menos traumática
para uma economia globalizada, a sociedade deveria estar disposta e preparada
para prover condições mínimas de subsistência aos que, provisória ou
definitivamente, não se adaptassem às novas condições de acesso ao mercado de
trabalho globalizado. Seria o preço a pagar pela tranqüilidade pública, por
usufruir os benefícios materiais que a nova ordem econômica pode trazer àqueles
mais aptos a obter os bens de consumo, o luxo, a comodidade e o conforto
material que o sistema capitalista pode prover. Sem essa disposição da
sociedade em dividir resultados, o meio ambiente como um todo sofrerá graves
conseqüências, afetando profundamente nossas vidas e comprometendo o nosso
futuro.
Mas a globalização da economia oferece
também perspectivas positivas para o meio ambiente. Até pouco tempo era comum a
manutenção, até por empresas multinacionais, de tecnologias ultrapassadas em
países mais pobres e com consumidores menos exigentes. A escala global de
produção tem tornado desinteressante, sob o ponto de vista econômico, esta
prática. É o caso, por exemplo, dos automóveis brasileiros. Enquanto a injeção
eletrônica era equipamento comum na maior parte do mundo, por aqui
fabricavam-se motores carburados, de baixa eficiência e com elevados índices de
emissão de poluentes. Com a abertura do mercado brasileiro aos automóveis
importados, ocorrida no início desta década, a indústria automobilística aqui
instalada teve que se mover. Rapidamente, passou-se a utilizar os mesmos
motores e os mesmos modelos de carrocerias usadas nos países de origem das
montadoras. É claro que isto causou impacto sobre a indústria nacional de
autopeças, pois uma grande quantidade de componentes, principalmente os mais
ligados à eletrônica, passaram a ser importados, o que antes não era possível,
dado o caráter fechado que até então dominava o nosso mercado interno.
Os efeitos sobre a emissão de poluentes
dos veículos foi notável. Dados da CETESB e da ANFAVEA mostram que os
automóveis fabricados em 1996 emitem cerca de um décimo da quantidade de
poluentes que emitiam os modelos fabricados em meados da década de 80. Os
efeitos não são ainda notados na qualidade do ar das grandes cidades, porque a
maior parte da frota de veículos em circulação é antiga, com sistemas precários
de regulagem de motores.
O mesmo efeito sentido na indústria automobilística estende-se a uma gama de
outros produtos, como os eletrodomésticos. A globalização da produção
industrial está levando à rápida substituição do CFC, em refrigeradores e
aparelhos de ar condicionado, por gases que não afetam a camada de ozônio. Isto
está ocorrendo em todos os países, pois não é interessante, economicamente, a
manutenção de linhas de produção de artigos diferenciados de acordo com os
países que os vão receber.
Outro efeito positivo da globalização
da economia sobre o meio ambiente é a criação de uma indústria e de um mercado
ligados à proteção e recuperação ambiental. Nesta lista incluem-se equipamentos
de controle da poluição, sistemas de coleta, tratamento e reciclagem de
resíduos sólidos e líquidos, inclusive lixo e esgoto urbanos, e novas técnicas
de produção. São setores que movimentam fortes interesses econômicos, os quais
acabam por influenciar os poderes públicos para que as leis ambientais sejam
mais exigentes e haja instituições mais eficientes para torná-las efetivas.
GLOBALIZAÇÃO - A HISTÓRIA INTERATIVA
Luiz Roberto Lopez
Prof. do IFCH/UFRG
Historiógrafo da SEDAC/RS
Globalização implica uniformização de padrões econômicos e
culturais em Âmbito mundial. Historicamente, ela tem sido indissociável de
conceitos como hegemonia e dominação, da qual foi, sempre, a inevitável e
previsível conseqüência. O termo globalização e os que o antecederam, no correr
dos tempos, definem-se a partir de uma verdade mais profunda, isto é, a
apropriação de riquezas do mundo com a decorrente implantação de sistemas de
poder.
A tendência histórica à globalização - fiquemos com o termo
atual - é um fenômeno que, no Ocidente moderno, tem suas raízes na era do
Renascimento e das Grandes Navegações, quando a Europa emergiu de seus casulos
feudais. Paralelamente no início da globalização, traduzida na europeização da
América, tivemos a criação da imprensa (1455). À tecnologia que permitiu ao
europeu expandir a sua civilização, correspondeu a tecnologia que lhe
possibilitou expandir a informação.
Até a Revolução Industrial, no entanto, o processo de
globalização foi acanhado - pouco afetou Ásia e África. Resultava mecanismos
predatórios e ainda incipientes da apropriação. Com a Revolução Industrial e a
liberação do Capitalismo para suas plenas possibilidades de expansão, a
globalização deu um salto qualitativo e significativo.
Para entender este salto, é preciso ter presente que ;é
intrínseco ao Capitalismo a apropriação e, por suposto, a expansão. A ampliação
dos espaços de lucro conduziu à globalização. O mundo passou a ser visto como
uma referência para obtenção de mercados, locais de investimento e fontes de matérias-primas.
Num primeiro momento, a globalização foi também o espaço para o exercício de
rivalidades inter-capitalistas e daí resultaram duas guerras mundiais.
Simultaneamente à globalização da apropriação e da opressão, tentou-se a
globalização dos oprimidos, o que levou ao surgimento das Internacionais de
trabalhadores. Imaturos para se unirem e cooptados pelas rivalidades dos
opressores, os oprimidos não conseguiram criar uniões duradouras e estáveis.
Ao longo do século XX, a globalização do capital foi
conduzindo à globalização da informação e dos padrões culturais e de consumo.
Isso deveu-se não apenas ao progresso tecnológico, intrínseco à Revolução
Industrial, mas - e sobretudo - ao imperativo dos negócios. A tremenda crise de
1929 teve tamanha amplitude justamente por ser resultado de um mundo
globalizado, ou seja, ocidentalizado, face à expansão do Capitalismo. E o papel
da informação mundializada foi decisivo na mundialização do pânico.
Ao entrarmos nos anos 80/90, o Capitalismo, definitivamente
hegemônico com a ruína do chamado Socialismo Real, ingressou na etapa de sua
total euforia triunfalista, sob o rótulo de Neo-Liberalismo. Tais são os nossos
tempos de palavras perfumadas: reengenharia, privatização, economia de mercado,
modernidade e - metáfora do imperialismo - globalização. A classe trabalhadora,
debilitada por causa do desemprego, resultante do maciço investimento
tecnológico, ou está jogada no desamparo , ou foi absorvida pelo setor de
serviços, uma economia fluida e que não permite a formação de uma consciência
de classe. O desemprego e o sucateamento das conquistas sociais de outros
tempos, duramente obtidas, geram a insegurança coletiva com todas as suas
mazelas, em particular, o sentimento de impotência, a violência, a tribalização
e as alienações de fundo místico ou similares. No momento presente, inexistem
abordagens racionais e projetos alternativos para as misérias sociais, o que
alimenta irracionalismos à solta.
A informação mundializada de nossos dias não é exatamente
troca: é a sutil imposição da hegemonia ideológica das elites. Cria a aparência
de semelhança num mundo heterogêneo - em qualquer lugar, vemos o mesmo
McDonald`s, o mesmo Ford Motors, a mesma Mitsubishi, a mesma Shell, a mesma
Siemens. A mesma informação para fabricar os mesmos informados. Massificação da
informação na era do consumo seletivo.
Via informação, as elites (por que não dizer: classes
dominantes?) controlam os negócios, fixam regras civilizadas para suas
competições e concorrências e vendem a imagem de um mundo antisséptico,
eficiente e envernizado. A alta tecnologia, que deveria servir à felicidade
coletiva, está servindo a exclusão da maioria. Assim, não adianta muito exaltar
as conquistas tecnológicas crescentes - importa questionar a que - e a quem -
elas servem. A informação global é a manipulação da informação para servir aos
que controlam a economia global. E controle é dominação. Paralelamente à
exclusão social, temos o individualismo narcisístico, a ideologia da humanidade
descartável, o que favorece a cultura do efêmero, do transitório - da moda. De
resto, se o trabalho foi tornado desimportante no imaginário social, ofuscado
pelo brilho da tecnologia e das propagandas que escondem o trabalho social
detrás de um produto lustroso, pronto para ser consumido, nada mais lógico que
desvalorizar o trabalhador - e, por extensão, a própria condição humana. Ou
será possível desligar trabalho e humanidade?
É a serviço do interesse de minorias que está a globalização
da informação. Ela difunde modas e beneficia o consumo rápido do descartável -
e o modismo frenético e desenfreado é imperativo às grandes empresas, nesta
época pós- keynesiana, em que, ao consumo de massas, sucedeu a ênfase no
consumo seletivo de bens descartáveis. Cumpre à informação globalizada vender a
legitimidade de tudo isso, impondo padrões uniformes de cultura, valores e
comportamentos - até no ser "diferente" (diferente na aparência para
continuar igual no fundo). Por suposto, os padrões de consumo e alienação,
devidamente estandartizados, servem ao tédio do urbanóide pós-moderno.
Nunca fomos tão informados. Mas nunca a informação foi tão
direcionada e controlada. A multipliciade estonteante de informações oculta a
realidade de sua monotonia essencial - a democratização da informação é
aparente, tal como a variedade. No fundo, tudo igual. Estamos - e tal é a
pergunta principal - melhor informados? Controlada pelas elites que conhecemos,
a informação globalizada é instrumento de domesticação social