"Na
segunda metade do século XIX, mais concretamente a partir de 1870, iniciou-se o
grande salto da expansão colonialista européia. Em menos de 30 anos, a febre
colonial chegou aos confins do globo. A Grã-Bretanha e a França alargaram e
consolidaram seus domínios na Ásia ao mesmo tempo em que se lançaram na grande
aventura africana. A Alemanha de Otto von Bismarck (1815/1898), estimulada por
um desenvolvimento econômico sem precedentes, provocou a divisão da África. Os
holandeses aperfeiçoaram seus métodos de exploração na Insulíndia (hoje
Indonésia), e o rei Leopoldo II (1835/1909), da Bélgica, instalou no Congo
(hoje Zaire) um "Estado independente". A partir de 1898, após
apoderar-se de Porto Rico, Cuba e Filipinas, o governo dos Estados Unidos
desencadeou um verdadeiro furacão imperialista. (...) Alguns dados darão a
idéia desta extraordinária expansão. Em 1875, os países europeus dominavam
apenas 11% do território africano; em 1902, seu domínio estendia se a 90%. No
norte da -África, até 1880, se excetuarmos a Argélia, unicamente no Egito e
Tunísia existiam indícios de controle europeu. Três decênios mais tarde, os
governos europeus tinham a soberania de quarenta unidades políticas em que
haviam repartido o continente africano. Como se produziu uma mudança tão
espetacular? Que impulsos se ocultavam por detrás do arrebatamento
colonialista? (MADRIDEJOS, Mateo. Colonialismo e Neocolonialismo. Rio de
Janeiro, Salvat Edit., 1979, p. 23 a 25.)
Na primeira metade
do século XIX, a expansão européia foi limitada. A Inglaterra manteve seu
domínio sobre a Índia, a parte mais importante de seu império ultramarino
remanescente da época moderna e ocupou as cidades do Cabo e de Natal no sul da
África. A França iniciou, em 1830, um longo processo de colonização da Argélia
(norte da África).
A
partir de 1870, o forte crescimento industrial, a intensa competição por
mercados, a passagem do capitalismo à fase do capitalismo monopolista e a grave
crise econômica de superprodução levaram os governos da Inglaterra, da França,
da Alemanha, dos Estados Unidos e mais tarde do Japão a assumirem uma política
expansionista em busca de novos mercados e áreas de investimentos, dando origem
ao IMPERIALIS MO.
Essa política
resultou na repartição quase completa da África na ocupação de vastos
territórios da Ásia ou sua subordinação a influência européia. Em 1900, a
Grã-Bretanha havia incorporado a seu império 4 500 000 milhas quadradas; a
França, 3 500 000; a Alemanha,1 000 000; a Bélgica, 900 000;- a Rússia, 500
000; a Itália, 185 000; e os Estados Unidos, 125 000 milhas quadradas.
A burguesia
européia, na busca crescente de lucros passou a financiar a exploração de
minas, as monoculturas, a eletrificação de cidades e a construção de portos,
pontes, canais e ferrovias, a fim de favorecer o setor exportador de cada
região sob sua influência. Assim, a dominação econômica de caráter mais geral
trazida pelo Imperialismo, acrescentou-se a dominação política, quase sempre
estabelecida através da conquista militar, caracterizando uma nova forma de
Colonialismo.
Para a burguesia, o
Estado que até então existia para preservar a propriedade e a segurança de seus
cidadãos, deveria agora apoiar a política imperialista, garantindo o capital
investido fora da Europa. "Nesse momento, ela (a burguesia) abandona a
postura liberal, ou seja, de não intervenção do Estado em questões econômicas,
para preservar sua taxa de lucro, deixando também de ser pacifista e
humanista". (Arendt, Hannah. 0 Sistema Totalitário. Lisboa, Publicações
Dom Quixote, 1978, p. 201.)
A posse de colônias
significava ter o "status" de potência e não possuí-las era
reconhecer uma situação de inferioridade em relação aos demais países
industrializados. Nesse sentido, o Imperialismo esteve também ligado ao desenvolvimento
do nacionalismo e converteu-se numa política nacional seguida pelos Estados
europeus, financiados por fundos públicos e apoiada pela criação de aparelhos
administrativos nas regiões ocupadas.
Os
políticos, os homens de negócio e os governantes europeus encaravam o
Imperialismo como um fator necessário à prosperidade econômica e como uma forma
de diminuir os graves problemas sociais de seus países. 0 discurso de Cécil
Rhodes, imperialista inglês, milionário e 12 ministro da Colônia do Cabo na
África do Sul, proferido em 1895, mostra claramente as raízes socioeconômicas
do Imperialismo:
"Ontem estive no East-End (bairro operário de Londres) e
assisti a uma assembléia de desempregados. Ao ouvir ali discursos exaltados,
cuja nota dominante era: pão! pão!, e ao refletir, de regresso a casa, sobre o
que tinha ouvido, convenci-me, mais do que nunca, da importância do
imperialismo... A idéia que acalento representa a solução do problema social:
para salvar os 40 milhões de habitantes do Reino Unido de uma mortífera guerra
civil, nós, os políticos coloniais, devemos apoderar-nos de novos territórios;
para eles enviaremos o excedente de população e neles encontraremos novos
mercados para os produtos das nossas fábricas e das nossas minas. 0 império,
sempre o tenho dito, é uma questão de estômago. Se quereis evitar a guerra
civil, deveis tornar-vos imperialistas." (CATANI, Afrânio Mendes. 0 que é
Imperialismo. São Paulo, Editora Brasiliense, 1982, p. 36.)
Entretanto,
a fim de justificar a violência, e as atrocidades que estavam sendo cometidas
no processo de conquista e ocupação das colônias, os europeus introduziram
critérios étnicos que estabeleciam distinções entre os dominadores (brancos) e
os dominados (de outra cor), estando al implícita a idéia de
"superioridade" da civilização e da raça européias.
0
colonialismo passou a ser visto como uma tarefa árdua que beneficiava muito
mais o colonizado do que o colonizador. Caracterizava-se como uma missão e um
"dever moral" do europeu, a fim de acabar com as doenças tropicais,
com o canibalismo, o escravismo e o paganismo e de levar a higiene, a
instrução, o cristianismo, a ciência, enfim o progresso, aos povos atrasados.
0
nativo africano ou asiático era visto pelo colonizador como uma mão-de-obra
disponível e barata para trabalhar em suas fazendas. Os europeus fossem eles
soldados, funcionários públicos ou agricultores, consideravam-se superiores aos
habitantes das colônias, aos quais davam ordens. Nas colônias, eles se sentiam
verdadeiros cidadãos de seus países e assumiam uma importância que não possuíam
em sua pátria. Segundo o historiador Hobsbawn, "em Dakar ou Mombaça, o
mais modesto funcionário era um amo e era aceito como um gentleman por pessoas
que não teriam notado sua existência em Paris ou Londres; o operário branco era
um comandante de negros." (A Era dos Impérios. Rio de Janeiro, Paz e
Terra, 1988, p. 107.)
0
poeta inglês Rudyard Kipling, nascido na Índia, ao referir se a presença a
européia no mundo, falava do "fardo do homem branco", para quem a
superioridade criava obrigações:
"Toma
o fardo do Homem Branco,
as guerras selvagens da paz.
Enche o estômago da fome e faz com que cesse a doença.
E quando estiver mais próximo
nessa busca em favor de outrem,
vê como a indolência e a loucura pagã
arruinam tuas esperanças".
Assim,
do ponto de vista do europeu, a obra civilizadora legitimava a dominação
política e econômica, embora as populações submetidas não fossem consultadas
sobre seus próprios interesses nessa troca.
0 PROCESSO DE CONQUISTA E DE
OCUPAÇÃO COLONIAL NA ÁSIA E NA ÁFRICA
A conquista e a
ocupação da Ásia e da África ocorreram através da força militar e da violência.
Aventureiros, traficantes, homens ambiciosos fizeram parte das expedições que
usaram de todos os meios como saques, destruição de aldeias, escravização da população,
requisição forçada de alimentos para o domínio da região desejada.
Os imperialistas
defendiam a necessidade de se fornecer proteção aos comerciantes, missionários
ou aventureiros que se encontravam longe da pátria. 0 ataque a cidadãos
europeus, principalmente religiosos, fornecia o pretexto para a intervenção
armada na Ásia e na África. 0 dramaturgo Bernard Shaw assim se expressava sobre
os métodos de conquista empregados pelos ingleses:
"0 inglês
nasce com um certo poder milagroso que o torna senhor do mundo. Quando deseja
alguma coisa, ele nunca diz a si próprio que a deseja. Espera pacientemente até
que lhe venha à cabeça, ninguém sabe como, a insopitável convicção de que é seu
dever moral e religioso conquistar aqueles que têm a coisa que ele deseja
possuir. Torna-se, então, irresistível Como grande campeão da liberdade e da
independência, conquista a metade do mundo e chama a isso de Colonização.
Quando deseja um novo mercado para seus produtos adulterados de Manchester,
envia um missionário para ensinar aos nativos o evangelho da paz. Os nativos
matam o missionário; ele recorre às armas em defesa da Cristandade; luta por
ela, conquista por ela; e toma o mercado como uma recompensa do céu..." ("The Man of Destiny", citado por LINHARES, M. Yedda. A luta contra a metrópole.
São Paulo, Brasiliense, 1983, P. 36).
Na corrida
imperialista pela posse de colônias na Ásia e na África, países de civilização
tradicional e densamente habitado, como a Índia, a China, a Argélia, foram
dominados devido à superioridade tecnológica e bélica dos europeus. 0 uso de
fuzis com carregamento pela culatra, de navios de guerra movidos a vapor
equipados com canhões de longo alcance, etc, eliminavam qualquer resistência à
conquista européia. Apesar disso, as populações locais reagiam e os europeus
tiveram que enfrentar guerras em várias regiões, como a Revolta dos Sipaios, na
Índia (1857/59) e a Revolução dos Taipings (1851/64), na China.
A presença européia
a partir de meados do século XIX, resultou no retrocesso e no empobrecimento
das sociedades asiáticas e no acirramento das rivalidades entre elas
(muçulmanos contra hindu, na Índia; malaios contra chineses, etc.) No início do
século XX, em conseqüência do processo de conquista e de ocupação, a Ásia
encontrava-se assim repartida:
- a Inglaterra
dominou a Índia (1845/48), a Birmânia e a Malásia;
- a França
conquistou, nos anos 1860, a Indochina (hoje Vietnam, Laos e Camboja),
dedicando-se à exploração de seus recursos naturais como mi nerais, carvão,
seda e arroz;
- a Holanda ocupou o
Arquipélago de Sonda ou Índias Neerlandesas (hoje Indonésia), formado pelas
ilhas de Sumatra, Java, Bornéu, Celebes e parte da Nova Guine; as terras mais
férteis foram utilizadas para a agricultura de exportaçao;
- Portugal manteve
as antigas feitorias de Diu e de Goa, na Índia; de Macau na China e uma parte
de Timor, no Arquipélago de Sonda;
- o território da
China foi dividido em áreas de influência submetidas ao controle de ingleses,
franceses, alemães, italianos, japoneses e russos.
Os europeus
iniciaram a exploração da África no decorrer do século XIX, visto que até 1800
apenas o litoral era conhecido. A princípio, expedições religiosas e
científicas, como as comandadas pelos ingleses Livingstone, Stanley, Burton,
pelos franceses Caillé e Brazza, pelo alemão Barth, pelo português Serpa Pinto,
atravessaram os desertos de Saara e de Kallaari, subiram os rios Nilo e Congo
em busca de suas nascentes, descobriram os lagos Niasa, Tanganica, Vitória,
Tchad e cortaram o continente, de São Paulo de Luanda a Moçambique.
De fornecedora de
escravos, a África passou a produzir os bens necessários à Europa, tais como
café, amendoim, cacau, sisal, borracha, cobre, ouro. 0 interesse científico aos
poucos transformou-se em interesse econômico e político e, a partir de 1870, a
competição imperialista na África tornou-se acirradíssima.
Em função dessa
disputa, em 1885, o chanceler alemão Bismarck convocou a Conferência de Berlim,
com o objetivo de disciplinar e definir a repartição "amigável"
continente africano, tendo em vista a importância da "missão
civilizadora" do homem branco. A Conferência de terminou que qualquer
anexação de território africano deveria ser comunicada imediatamente às outras
potências e ser seguida de ocupação efetiva para garantir a posse; finalizou
com o compromisso de submeter os conflitos coloniais entre as potências, à
arbitragem internacional.
Apesar dos
compromissos assumidos na Conferência de Berlim, corrida imperialista na África
afetou as relações internacionais, contribuindo para intensificar as
rivalidades entre os países europeus. Entre os principais pontos de atrito,
podemos citar:
a) o confronto entre
ingleses e franceses no interior da África, devido à tentativa dos franceses em
estabelecer a uniao entre Dakar e Djibuti;
b) o confronto entre holandeses e ingleses na região da África do Sul (guerra
dos Bôers
c) a disputa entre França e Itália pela posse da Tunísia, vencida pela França;
d) a disputa entre França e Alemanha, no Marrocos, vencida também pela França.
A resistência das
populações africanas à conquista foi tenaz. Os franceses enfrentaram prolongada
luta no Marrocos e na Tunísia. Os italianos foram vencidos pelos etíopes, em
1887 e 1896. Os ingleses sofreram derrotas no Sudão. Os alemães lutaram muito
para subjugar o povo herero, no Sudoeste Africano. Os zulus, os ashantis, os
matabeles e outras tribos ofereceram grande resistência. Entretanto, essas
populações não conseguiram suportar as demoradas campanhas empreendidas pelos
europeus e acabaram submetidas, após violências e atrocidades de toda sorte.
Os relatos das
expedições de conquista trazem descrições como essa, sobre a ocupação do Chade:
"Dundahé e Maraua foram as principais etapas antes da Birni N'Koni.
Aqui pudemos ler no solo e entre as ruinas da pequena cidade as diversas fases
do assalto, do incêndio e da matança... Em torno da grande aldeia de Tibery, os
cadáveres de dezenas de mulheres pendiam das árvores próximas... Em quase todas
as aldeias por que passamos, os poços estavam fechados ou contaminados por
montões de cadáveres que apenas se podia distinguir se pertenciam a animais ou
a homens." (GAL, Meynier. Lés conquérants du Tchad,
cit. Por
FALCON F. & MOURA, G. A formação do mundo contemporâneo. Rio de Janeiro,
Ed. Campus Ltda., 1985, p. 88.)
Em 1914, apenas a
Etiópia e a Libéria conseguiam manter-se independentes e a África estava assim
dividida: - a França ocupou a África do Norte (Argélia, Tunísia e Marrocos), a
região do Saara (dividida para fins administrativos em África Equa torial
Francesa e África Ocidental Francesa) e a ilha de Madagáscar;
- a Inglaterra
incorporou o Egito, o Sudão Anglo-Egípcio, o Quênia, Uganda, Somalia, Costa do
Ouro e Nigéria; ao sul, os ingleses anexaram o interior da Colônia do Cabo e
através de Cecil Rhodes, surgindo assim as Rodésias; em 1902, numa guerra
contra os Boers, antigos colonos holandeses, os britânicos conquistaram o
Transvaal e Orange;
- a Bélgica
apoderou-se do Congo Belga (Zaire);
- a Alemanha
assenhorou-se do Togo, dos Camarões, da África Oriental e do Sudoeste Africano;
- a Itália tomou a Eritréia, a Somália ee a Tripolitânia (Líbia); - Portugal
conservou Angola, Moçambique, Guine e o arquipélago de Cabo Verde; - e a
Espanha manteve o Saara Ocidental (Rio do Ouro).
A ADMINISTRAÇÃO COLONIAL
As potências
imperialistas procuraram administrar suas colônias de modo a assegurar o
aproveitamento máximo de suas riquezas. A mão de obra nativa foi então colocada
a serviço da nação colonizadora, extraindo minérios, trabalhando nas lavouras,
construindo pontes, ferrovias, canais e portos, a fim de favorecer o escoamento
das matérias primas e dos gêneros agrícolas até os locais de embarque. Esse
sistema impedia qualquer possibilidade de desenvolvimento interno das colônias
e não levava em consideração as necessidades da população local. Por isso, a
violência foi o instrumento necessário usado pelo colonizador para vencer a
resistência da população e mantê-la submissa.
A administração
variou de acordo com as condições demográficas, culturais e econômicas das
regiões ocupadas. Ela podia ser direta, com os funcionários da metrópole
substituindo as autoridades locais, ou indireta, utilizando-se das autoridades
locais subordinadas a funcionários da metrópole.
Os ingleses,
geralmente adeptos da administração indireta, conseguiram controlar populações
enormes e diferenciadas entre si, aproveitando-se das Instituições e das
lideranças locais. Aqueles que não queriam colaborar eram substituídos.
Os franceses tiveram
a pretensão de desenvolver uma política de "assimilação" dos colonos.
Eles acreditavam que, através da instrução, os africanos e os asiáticos
poderiam vir a adquirir a cidadania francesa, desde que tivessem profundo
conhecimento da língua francesa, da religião cristã, bom nível de instrução e
boa conduta, Entretanto, essa prática não se tornou comum na administração
colonial francesa, prevalecendo os aspectos econômicos de exploração dos
recursos minerais e agrícolas.
Os demais povos
colonizadores, tais como belgas, alemães, holandeses, portugueses e espanhóis,
adotaram métodos que variavam entre o ideal de assimilação e as necessidades
práticas de utilização das autoridades locais para extrair vantagens da
comercialização da produção colonial.
De maneira geral, as
colônias podem ser classificadas da se forma:
Eram
países ou regiões administradas direta ou indiretamente por funcionários da
metrópole, e que se destinavam a exportar produtos exóticos, gêneros agrícolas
ou matérias primas minerais. Nesse caso enquadram-se a Índia, a Indochina e a
Indonésia, nações densamente povoadas da Ásia, e grande parte da África. 0
território africano, do Saara até o sul, possuía baixa densidade demográfica e
organização predominantemente tribal. A colonização européia afetou ou destruiu
as instituições tradicionais (os clãs, as aldeias comunitárias, a religião
totêmica) e substituiu a economia de subsistência pela "plantation"
(monocultura para exportação). As rivalidades intertribais foram mantidas e/ou
aprofundadas com o objetivo de favorecer a dominação estrangeira. Para obrigar
as populações locais a trabalhar, o colonizador fixava impostos que somente
poderiam ser pagos em dinheiro. Dessa maneira, os nativos tinham que cultivar
as lavouras que interessavam aos europeus. Os endividados eram levados aos
trabalhos forçados nos campos, à construção de estradas, portos e linhas
férreas.
0 CASO DA ÍNDIA "Durante mais de 150 anos, até a conquista de
Bengala em 1757, a Companhia inglesa das Índias Orientais manteve intensas
relações comerciais com a região. A Índia era, nessa época, um país
relativamente avançado economicamente. Seus métodos de produção, bem como sua
organização industrial e comercial eram comparáveis" aos que prevaleciam
na Europa Ocidental. Na realidade, a Índia já fabricava e exportava musselinas
e outros tecidos de luxo de excelente qualidade, desde os tempos em que a
maioria dos povos da Europa Ocidental vivia ainda mergulhada no atraso. No
entanto, após a conquista de Bengala, a Companhia das Índias Orientais impôs a
sua autoridade sobre grande parte do território indiano, e as relações
comerciais mantidas durante 150 anos converteram-se em relações brutais de
exploração. ( ... ) A política adotada pela Companhia das Índias Orientais nas
últimas décadas do século XIX e na primeira metade do século XX visava a
alcançar dois objetivos. Em primeiro lugar, contentar os milhares de
funcionários gananciosos que para lá se deslocavam com a intenção de fazer
fortuna do dia para a noite: "Estes funcionários, absolutamente
irresponsáveis e vorazes, esvaziaram os tesouros particulares. Sua única
preocupação era extorquir algumas centenas de milhares de libras dos nativos, e
retornar para a Inglaterra o mais cedo possível para exibir as fortunas recém
adquiridas. Imensas fortunas foram assim acumuladas em Calcutá, num curto
espaço de tempo, enquanto trinta milhões de seres humanos eram reduzidos mais
negra miséria."(I) ( ) Havia ainda um objetivo a longo prazo: desestimular
ou eliminar os fabricantes indianos, e transformar a Índia em mercado e em
fonte de abastecimento de matérias-primas para a indústria britânica, sobretudo
as suas manufaturas têxteis. Essa política, executada de forma brutal e
metódica, produziu os resultados esperados. "A administração britânica na
Índia empreendeu a destruição sistemática de todas as fibras e alicerces da
economia indiana para que em seu lugar se instalassem parasitariamente, os
proprietários de terra e os prestamistas. Sua política comercial resultou na
destruição do artesanato indiano, e deu origem às infames favelas das cidades
indianas, nas quais se aglomeravam milhões de indigentes famintos e doentes.
Sua política econômica cortou pela raiz os rebentos de um desenvolvimento
industrial autóctone, favorecendo a proliferação de especuladores, pequenos
comerciantes e espertalhões de toda espécie que levavam uma vida miserável e
improdutiva nas malhas de uma sociedade em decadência".(2) ( ... ) As
conseqüências da presença britânica na Índia eram evidentes ao se abrir o
século XX. Em 1901, a renda "per capita". era inferior a 10 dólares
por ano. Cerca de dois terços da população encontrava-se subnutridos. A maior
parte das manufaturas indianas fora arruinada ou tomada pelos ingleses.
Aproximadamente 90% da população lutavam com enormes dificuldades para prover a
sua subsistência em aldeias onde a propriedade média era de apenas 5 acres e as
técnicas agrícolas, extremamente primitivas. Do pouco que produziam, uma parte
substancial era apropriada pelos ingleses sob a forma de imposto, rendas e
lucros. Grassavam as epidemias e reinava a fome. Em 18919 o indiano vivia em
media 26 anos para em seguida, morrer na miséria. TRANSCRITO DE: HUNT &
SHERMAM. História do pensamento econômico, Petrópolis, ED. Vozes, 1990, p.
149/151 e 153.
(1) BROOKS, Adams. The Law of Civilization
and Decay. An Essay on History. New York, 1896. Citado por: BARAN, Paul A. The
Political Econom of Growth. New York, Monthly Review Press, 1962, p. 145. (2) BARAN, po. cit. p. 149.
0 CASO DO CONGO (ZAIRE)
Provavelmente, em nenhuma outra colônia africana a exploração
européia revestiu-se de características tão brutais quanto no Congo Belga. Em
1879, Leopoldo II, rei da Bélgica, enviou H. M. Stanley em missão à África
central. A serviço de uma companhia privada com finalidades lucrativas,
dirigida pessoalmente por Leopoldo e alguns associados, Stanley criou uma rede
de postos comerciais e, usando de astúcia, convenceu os chefes nativos a
assinarem "tratados" autorizando o estabelecimento de um império
comercial que abarcava cerca de 900 000 milhas quadradas. Leopoldo arvorou-se
em autoridade soberana do Estado Independente do Congo e empreendeu a
exploração dos recursos humanos e naturais da região em proveito de sua própria
companhia. A exploração foi impiedosa. Trabalhando sob constante coação física,
os nativos foram forçados nas florestas a extrair o latex com o qual faziam
borracha e a caçar elefantes dos quais extraiam o marfim. Leopoldo confiscou
todas as terras que não eram diretamente cultivadas pelas comunidades locais,
transformando-as em "propriedade governamental". As piores
atrocidades foram cometi das para obrigar os nativos a se submeterem a um
opressivo sistema fiscal, que incluía impostos pagáveis em borracha e em marfim
e sob a forma de prestações de trabalho. No século XX, o Congo passou a
fornecer outros recursos naturais: diamantes, urânio, cobre, algodão, azeite de
coco, semente de coco e coco. Pode-se dizer que, de um modo geral, o Congo foi
uma das mais lucrativas possessões imperialistas européias e tam bem uma das
mais escandalosas. TRANSCRITO DE: HUNT & SHERMAN, op. cit. P. 152
Nas
regiões de clima temperado, estabeleceram-se colônias de povoamento, com ampla
migração de população "branca" européia (que havia dobrado do
decorrer do século XIX), em busca de melhores condições de trabalho, de
alimentação e de moradia. Foi o caso da colonização inglesa na Rodésia e no
Cabo (África do Sul), na Austrália e na Nova Zelândia (Oceania) e no Canadá (América
do Norte); da colonização francesa na Argélia (África) e na Nova Caledônia
(Oceania) e da colonização portuguesa em Angola e em Moçambique (África).
Nesse
tipo de colônia, as minorias européias ocupavam posições sociais, econômicas e
administrativas dominantes. Os nativos foram expropriados de suas terras pelos
europeus e excluídos até mesmo das mais simples funções burocráticas; em
qualquer atividade, os brancos recebiam salários mais elevados. Essa situação
deu origem a conflitos particularmente agudos, como a guerra civil pela
independência da Argélia e a política do "apartheid" da África do
Sul.
0
método usado para a ocupação das terras dos nativos foi à pressão ou violência,
como podemos perceber nas palavras do Comandante Poinçot, na Argélia:
"Se quiséssemos, poderíamos tomar vossas terras, mas nós vos
solicitamos que no-las dêem; ... nosso governo não quer usar de seu poder e
deseja obter de vós pela persuasão o que não poderíeis igualmente recusar
diante de nossos (Cit. por FALCON, F. & MOURA, G., op. cit. p.107).
O
CASO DA ÁFRICA DO SUL
A Inglaterra apoderou-se das regiões mais populosas e ricas doa
África. Desde o início do século ela ocupava a cidade do Cabo e -Lambem Natal.
Em 1870, Cécil Rhodes embarcou para o Cabo, por motivo de saúde. Graças ao seu
tino para os negócios e à habilidade com que açambarcou o mercado de diamantes,
no curto espaço de dois anos transformou-se em um milionário. Nos anos
subseqüentes, a Companhia Britânica da África do Sul, dirigida por Rhodes,
estendeu o domínio sobre toda a África do Sul. Embora fosse uma empresa
privada, com finalidades lucrativas, estava investida de poderes comparáveis
aos de um governo. Tinha, por exemplo, autoridade (concedida por carta patente
em 1889) para "firmar tratados, promulgar leis, preservar a paz, manter
uma força policial e adquirir novas concessões"
A Política expansionista da Companhia Britânica da África do Sul
culminou na Guerra dos Bôers (1899-1902). As repúblicas holandesas de Orange e
do Transvaal foram esmagadas e a Inglaterra adquiriu o controle total sobre a
África do Sul. Mais tarde, seriam descobertas jazidas riquíssimas de minério,
principal recurso natural da região. 0 mais explosivo legado do imperialismo
britânico e holandês são os mecanismos discriminatórios erguidos contra os
negros que constituem a maioria esmagadora da população. TRANSCRITO DE: HUNT
& SHERMAN, op. cit. p. 152/153.
Alem
das colônias de exploração e de povoamento, existiram outras formas de
dominação imperialista, em países onde aparentemente a independência política
foi mantida. A dominação se deu basicamente na área econômica, caracterizando
as chamadas áreas de influência e as áreas de penetração financeira.
Essa
forma de dominação ocorreu em países onde o Estado existente foi conservado e
com o governante local foram negociados tratados e acordos que beneficiavam a
potência colonizadora, em determinada área do país. Nessa "área de
influência'', a metrópole podia atuar sob a proteção de privilégios especiais
em detrimento dos possíveis competidores europeus. Foi o caso da Pérsia, que em
1907 se viu repartida em duas áreas de influência, uma russa e outra inglesa, e
da China, cujo território foi dividido em seis áreas de influência: inglesa,
francesa, alemã, italiana, russa e japonesa.
0 CASO DA CHINA
A China, desde a "guerra do Ópio" (1835-1842), já havia
si do obrigada, diante do potencial de fogo dos ingleses, a assinar r tratados
desiguais, isto é, tratados nos quais ela concedia vantagens à Europa sem
contrapartida. Para conseguir um desses tratado de 1860, tropas francesas e
britânicas chegaram até mesmo a destruir o Palácio de Verão de Pequim, um dos
tesouros artísticos insubstituíveis da humanidade. ( ... ) Após o saque de
Pequim, um inglês foi indicado para "assistir"a administração de toda
a receita da alfândega chinesa. vários portos foram abertos, mercadores
estrangeiros receberam liberdade de movimento e imunidades diante da lei
chinesa. Esse método de penetração tão violento adveio do fato de a China,
diferindo da Índia, possuir uma unidade política, com um imperador fazendo
sentir sua autoridade sobre as províncias mais distantes. Basta dizer que, até
antes da chegada dos europeus ela recebia tributos da Coréia, do Vietnã e de
outras monarquias da região: Sião, Laos, Birmânia e Nepal. Na verdade, era o
império, mais elaborado e mais antigo de todos os Estados monárquicos da Ásia
Oriental. Por essas razões, a China sempre se recusara a admitir relações com o
resto do mundo em posição de desigualdade. E manteve-se fechada a qualquer tipo
de comércio com o Ocidente. Foi a "guerra do ópio que mareou o início da
preponderância ocidental na China. Nas o desmembramento da China aconteceu mesmo
quando o Império, enfraquecido com os tratados desiguais, teve que enfrentar
uma guerra com o Japão (1895). Foi "salvo" do desastre pela
intervenção das potências européias. Gomo reconhecimento ao serviço prestado,
as nações européias receberam concessões econômicas e territoriais. A partir
daí, a China passou a ser um território dividido em áreas de influencia das
potências ocidentais. Não só a França e a Inglaterra penetraram no território
Chinês, como também a Rússia, a Alemanha e a Itália. A penetração econômica se
precipitou rapidamente com a construção de linhas de estradas de ferro,
concessão de minas, estabelecimentos industriais e bancos. E a soberania
chinesa transformou-se numa ficção. TRANSCRITO DE: CANÊDO, Letícía Bicalho. A
descolonização da Ásia e da África. São Paulo, Atual, 1985, p. 127137
Em
alguns países independentes, porém não industrializados, a dominação
imperialista ocorreu através da negociação com os governos locais de acordos
comerciais, industriais ou financeiros que beneficiavam basicamente os setores
exportadores das elites locais e a burguesia dos países industrializados.
Nesses casos, não houve preocupação com a dominação política.
0 CASO DO EGITO
0 Egito, um principado virtualmente independente, foi vítima de
sua riqueza agrária e da sua situação estratégica (situado entre o Oriente
Médio e a África Negra), A sua riqueza agrária integrou-o na economia européia
como fornecedor de produtos agrícolas. A vasta expansão do comércio egípcio
atraiu levas de homens de negócios e aventureiros prontos a conceder créditos
ao governo, que pensava em transformar o Egito num poder moderno. Mas os homens
de negócios extorquiram o povo egípcio e, quando os egípcios não puderam pagar
mais os juros dos empréstimos, a gestão das --finanças públicas passou para o
estrangeiro, com a desculpa do governo egípcio estar comprometido com enormes
despesas e incapacitado de pagá-las. Como não havia FMI na época, foi
instituído um condomínio franco-inglês. Nominalmente, como na China, a
independência política subsistia, mas gradativamente os funcionários britânicos
passaram a administrar a polícia, as finanças, as comunicações, as alfândegas e
os portos. TRANSCRITO DE: CANEDO, L. B., op, cit. p. 19/20.
0 CASO DA AMÉRICA LATINA
A
América Latina, cuja independência política fora adquiri da no primeiro quartel
do século XIX, continuou produzindo minerais e gêneros agrícolas para o mercado
externo, nos moldes do período colonial mercantilista porém, sem a presença da
Espanha e de Portugal, substituídos pela burguesia européia, principalmente
inglesa. A penetração financeira se deu através de empréstimos, aparelhamento
de portos, investimentos em transportes e serviços urbanos. A intermediação era
feita pelas classes dirigentes locais, sem necessidade de administração direta
por parte das potências européias. 0 Brasil não fugiu à regra. De 1822 a 1930
(Império e 1a. República), o país continuou a fornecer à Europa e aos Estados
Unidos café, açúcar e a importar manufaturados. A elite dominante brasileira,
formada por fazendeiros e exportadores de café e de açúcar, defendia o livre
comércio e não se interessou em incentivar a industrialização do país. Os
governos da República, nas mãos da burguesia cafeeira paulista, buscaram empréstimos
na Inglaterra para financiar a expansão da cafeicultura, melhorar os portos,
abrir ferrovias e criar serviços urbanos que atendessem ao setor
agro-exportador, o que representava ótimos investimentos para banqueiros,
industriais e acionistas britânicos, criando, ao mesmo tempo, forte dependência
econômica.
AS CONSEQUÊNCIAS DO
IMPERIALISMO
A
exportação de capitais e de produtos manufaturados proporcionou lucros elevados
e enriqueceu enormemente os países industrializados, pois nas colônias, juros
cobrados eram altos, o preço das terras e dos salários eram baixos e as
matérias primas eram baratas. A expansão do capitalismo via colonialismo criou,
pela primeira vez, um mercado mundial, onde a economia das colônias
fornecedoras de minerais e de gêneros agrícolas era complementar à economia dos
países industrializados.
Entretanto,
a criação de um mercado mundial não representou benefício para as colônias
porque a venda de seus produtos não se realizava conforme as leis da oferta e
da procura. Foi, antes de tudo, "o produto de uma relação de forças",
ou seja, a metrópole, por seu poderio econômico e militar, impunha o preço da
matéria prima. A Comercialização dos produtos coloniais ficava a cargo das
companhias européias que se apropriavam da maior parte do lucro, restando à
burguesia colonial associada a menor parte dele.
A
introdução do modo de produção capitalista na Ásia e na África levou ao
aparecimento do trabalho assalariado e da propriedade privada da terra,
concentrada nas mãos dos europeus ou da elite dominante local, dedicada às
atividades de exportação. A dissolução do cultivo coletivo da terra nas aldeias
e a desintegração do artesanato urbano afastaram os camponeses e artesãos de
seus meios tradicionais de subsistência, criando um proletariado miserável
concentrado nas cidades.
Do
ponto de vista social, a colonização impôs uma hierarquização étnica: o
colonizador era considerado superior, racial e socialmente falando. Nesse
sentido, ficou famoso o aviso encontrado nos jardins de Shangai: "Proibida
a entrada de cachorros e de chineses". As velhas classes dirigentes locais
se adaptaram aos modelos ocidentais", procurando imitá-los e adotando sua
língua .
0
impacto da expansão capitalista sobre as regiões dominadas resultou quase
sempre no empobrecimento e no subdesenvolvimento em que elas se mantêm até
hoje. Em algumas regiões, indústria local foi destruída por não poder concorrer
com a indústria dos países capitalistas adiantados.
Se
o Imperialismo trouxe o progresso representado por processos modernos de
cultivo e de irrigação, ferrovias, telégrafos, portos, hospitais escolas,
universidades e bancos, significou também muito derramamento de sangue, guerras
coloniais, massacres de populações nativas, subalimentação, erosão dos solos,
desestruturação de comunidades tribais e descaracterização de culturas. As
contribuições das técnicas e da ciência ocidentais foram reais, mas cabe
perguntar se elas não poderiam ser repartidas sem a dominação política e a
exploração econômica.
No
final do século XIX, ao iniciarem sua participação na corrida imperialista, a
Alemanha e a Itália encontraram as principais áreas já tomadas pela Inglaterra
e pela França, potências que haviam logrado industrializar-se mais cedo. As
reivindicações de reajustes da divisão territorial geraram confrontos e
rivalidades que acabaram por contribuir para uma guerra devastadora entre as
potências européias: a Primeira Guerra Mundial, de 1914 a 1918.
A
colonização européia gerou, nas regiões dominadas, uma elite intelectual local
formada na cultura e nas escolas européias, que tinha acesso a postos
subalternos da administração colonial. Aos poucos, essa elite transformou-se no
centro da resistência ao domínio colonial.
As
ideologias européias predominantes no século XIX, como a democracia, o
nacionalismo, o cristianismo e o marxismo foram difundidas nas colônias através
dos imigrantes, funcionários, missionários, intelectuais, e acabaram por criar
uma consciência crítica contra os colonizadores. 0 pensamento ocidental,
baseado na liberdade na igualdade perante Deus e perante a lei, foi usado nas
colônias pa ra contestar a exploração econômica, o racismo, a falta de
oportunidade e de liberdade aos quais a maioria da população local estava
submetida, dando origem aos movimentos nacionais pela libertação, mais fortes
principalmente após a 2a. Guerra Mundial (1939/1945).
"A
Ásia, que tinha sido berço das grandes civilizações, a cujo gênio a humanidade
deve seus primeiros progressos fundamentais, como a domesticação dos animais, a
agricultura, a criação, a cerâmica, a metalurgia, o papel, a pólvora, etc, bem
como as instituições de vida social (cidades, Estados organizados, moeda,
escrita), perdeu, ao longo de dois séculos de dominação européia, cinco
milênios de autonomia e liderança. Seus povos, altamente civilizados, tinham
padrões éticos bem diversos dos valores que acompanharam a ocupação pelo
Ocidente, que atribuíam preeminência à técnica e aos bens materiais.
0
sistema social da Índia, da China e das regiões que recebe ram sua influência,
fundamentava-se num conjunto de valores que lidava primeiro lugar ao sábio,
àquele que sabe no sentido poético, literário, metafísico e espiritual"
(Mathiex-Vincent, Histoire Aujoud'hui, v.II,1973). A perda de sua identidade
cultural seguiu-se a perda de suas riquezas, de sua autonomia, à tentativa de
lhe arrancar o passado pelas raízes.
A
África, cuja verdadeira história começa agora a ser escrita pelos africanos,
sofreu a espoliação mais completa que se conhece em homens, recursos e valores
culturais. Os invasores mudaram os velhos padrões da sociedade tribal,
impuseram o trabalho forçado, o racismo, algumas vezes por métodos
paternalistas que encobriam a proletarização do trabalhador africano, como foi
o caso de katanga (Congo Belga). É conhecida a passagem dos livros franceses de
História usados nas escolas de suas colônias pelos "nativos", cuja
primeira frase falava de "nossos antepassados os gauleses". A própria
memória coletiva de um passado comum lhes era arrancada, apagada.
Na
raiz do racismo e da alienação cultural está o regime de brutal exploração do
homem pelo homem, sobre o qual repousavam as estruturas coloniais. A tomada de
consciência desse processo de expropriação absoluta constitui a essência do
processo de descolonização que partirá da intelectualidade colonizada, como
Léopold Senghor, Aimé Césaire, David Dion, e de intelectuais antiimperialistas
do Ocidente, como Franz Fannon, Albert Memmi e Sartre ( ... ).
Em
Paris, a revista "Présence Africaine", com Aliune Diop e um grupo de
poetas e escritores negros de expressão francesa, Léopold Senghor, Aimé
Césaire, David Dion, lança um movimento de idéias, a negritude, proclamando a
consciência do "eu negro". Sobre ele, assim se expressa um
historiador negro, do Alto Volta: "Um dos aspectos fundamentais da
negritude é a afirmação de si, após a longa noite de alienação, como aquele que
sai de um pesadelo e apalpa o corpo todo para se reconhecer a si próprio, como
o prisioneiro libertado que exclama bem alto: 'Estou livre!', embora ninguém
lhe pergunte nada", (Joseph Kizer bo, História da África Negra, Viseu,
1980)." (LINHARES, Maria Yedda. A.luta contra a metrópole. São Paulo,
Brasiliense, 1983, p. 52 a 54.)
No
século a conquista de novos territórios pelos europeus assumiu uma dimensão e
uma proporção desconhecidas. As empresas e os aventureiros procuravam obter
oportunidades de lucro e fontes de matérias primas antes dos concorrentes. A
presença dos interesses burgueses na África Ásia e América Latina exigiu a
intervenção dos governos europeus na defesa do patrimônio de seus cidadãos,
passando a atuar nas áreas ocupadas como verdadeiros donos. A conquista assumiu
caráter violento, espoliador e racista. 0 imperialismo responsável pela difusão
da técnica e da ciência, foi também causa do atraso e do empobrecimento do
colonizado. A intensa rivalidade entre as potências provocou a Primeira Guerra
Mundial. Após a Segunda Guerra, os povos colonizados, conscientizados de sua
brutal exploração, iniciaram um movimento de reação a dominação.