Votos Eternos
Umi no Kitsune


Notas da Autora - POR FAVOR, LEIA ISSO ANTES!!!:

1) Essa fic utiliza alguns trechos do livro escolar "Deus é o Vencedor", Volume 1, 7ª série do 1º grau. Preparado sob a direção do Depto. de Educação da Associação Geral. Tradução e Adaptação: Dr. Renato Emir Oberg - Casa Publicadora Brasileira, Tatuí - São Paulo.

2) Nada do que é questionado aqui, ou o conflito de idéias dos personagens, ou as próprias idéias religiosas expostas, é com o objetivo de crítica ou difamação de qualquer religião e nem significam a verdadeira opinião da autora. Se a sua opinião em relação a alguma crença mudar, saiba que foi por sua escolha que você resolveu ler isso aqui.

3) As personagens são apenas personagens. Não se esqueça disso. Eu não me baseei em ninguém para compor esse cenário, portanto, qualquer semelhança é mera coincidência.

4) Se você se sente mal ou ofendido em ler sobre homossexualismo e religião, eu aconselho a não seguir lendo essa história.

5) Críticas não-construtivas sobre a história, provocações e outros tipos desagradáveis de flames não serão tolerados, muito menos respondidos, apenas terão o mesmo lugar que as propagandas inúteis que recebo por e-mail, ou seja, a lixeira.


Prólogo

Ele nem viu direito o que caíra no chão. Apenas, por instinto, abaixou-se para pegar o tal objeto. Tudo para distrair-se da aula monótona de catecismo. Seus olhos procuraram no chão, tentando achar a direção que o som metálico fez.

Um anel? Quem deixaria cair um anel? E nem era um simples anel. Era uma aliança. De ouro branco com um pequeno diamante quase imperceptível no meio.

Gabriel alcançou a aliança e a trouxe para bem próximo aos olhos, sem querer colocando-a até a metade do dedo indicador, analisando a jóia.

Uma mão pálida segura a sua com força e arranca a aliança de seu dedo. Gabriel olha para o dono da mão, pronto para reclamar pela brutalidade do ato.

"Obrigado."

Mas ele pára.

"É meu. Obrigado por achá-lo."

Ele nem reparou no agradecimento feito, apenas no tom da voz. Um tom seco, intimidador, frio. Combinando perfeitamente com a expressão séria do rosto pálido, os olhos negros e os lábios rosados.

Quem era? Gabriel não se lembrava de ter visto esse garoto antes na classe. Muito menos na Igreja.

Lentamente o rosto e olhos vão se desviando dele e voltam sua total atenção para o discurso da freira:

"E disse Deus: Haja Anjos! Haja um grande número de sábios, poderosos e belos anjos. E que eles sejam livres, livres para pensar, para escolher... e para amar."

Nada mais podia entrar em sua mente. Sim... não... entendera realmente o significado daquelas palavras? Que anjos? Livres... são livres? Quem é livre? Aqui ele não é livre. Nem aqui nem em nenhum outro lugar. Ele não é um anjo... apenas um humano, mortal... pecador.

Mas aqui, sentado nessa carteira, de frente para essa mulher que se entregou a Deus, com essas pessoas que temem a Deus... ele é menos livre do que em qualquer outro lugar. Olhando para esse garoto. Um estranho garoto. Ele não é livre.

Não pode pensar. Tem que negar, esconder... esquecer. Tem que lutar contra isso, não é assim que fazemos com nossos pecados? Ele é um pecador? Pensar o que o faz sentir-se livre, escolher o que o faz sentir-se livre, amar o que o faz sentir-se livre... é um pecado?

Amar...? Não. Pensamentos proibidos sim... pele, cabelos, línguas. Pecado. E quanto ao amor? É pecado? A partir do momento que pele e língua não são mais o objeto constante de seus pensamentos, apenas a presença dele é a maior preocupação... isso é pecar?

Gabriel sabia que não devia pensar essas coisas. Não devia questionar o que lhe foi ensinado desde pequeno. Mas ao tomar consciência da presença de um garoto como aquele tão próximo de si... Tinha que orar. Se concentrar em Deus e pedir sabedoria para lidar com isso.

Com o que mesmo? Pele e língua... ou a presença dele? Não... não... não, não, não!!! Gabriel sabia quem o estava tentando. É preciso orar. É preciso orar para se proteger de tudo! Tudo!

Como isso era possível? Nunca um garoto chamara tanto a sua atenção. Nunca alguém tomara tanto tempo de seus pensamentos, deixando-os confusos e questionadores dos ensinamentos de Deus.

Gabriel já orara, já confessara e já se punira por causa disso. Mas eram sempre coisas muito bobas, pensamentos de pele e de língua... nada comparado a isso. Nada comparado ao que o olhar e a voz, o conhecimento da presença daquele garoto fizeram nele.

Pare de olhar para ele! Preste atenção na Irmã! Que horas são mesmo? A aula está acabando... ficara tanto tempo assim pensando nele?

"É impossível explicar a origem do pecado de maneira a dar a razão de sua existência. Todavia, bastante se pode compreender em relação à origem, bem como à disposição no final do pecado, para que se faça amplamente manifesta a justiça e benevolência de Deus em todo o seu trato com o mal..."

Sim, claro... Deus não é o culpado pela existência do pecado. Nada em seu governo divino é deficiente, nada dEle é motivo de rebelião. Deus é perfeito, o pecado é um intruso...

"... por cuja presença nenhuma razão se pode dar."

Gabriel sabia bem essa parte. A tinha gravada em sua mente como uma tatuagem clara e visível a qualquer hora que quisesse olhar.

"Houve, porém, um ser que preferiu perverter essa liberdade. O pecado originou-se com aquele que, abaixo de Cristo, fora o mais honrado por Deus, e o mais elevado em poder e glória entre os habitantes do Céu."

Um leve batida na porta e a cabeça da uma outra freira invade a classe.

"Desculpe interromper. Já está no horário."

"Oh, está bem. Classe, continuaremos desse ponto amanhã.", a freira fechou o livro apoiando-o na mesa enquanto todos os alunos se levantavam para a oração final, "Por favor, César, poderia fazer a oração de hoje?"

"Sim."

O que? Esse é o nome dele? Nome estranho... não combina com ele. Gabriel pensou fechando os olhos e trazendo as mãos juntas até a altura do queixo, preparando-se para escutar aquela voz de novo.

"Pai... obrigado por nos permitir estar nesse ambiente de luz próximo aqueles que o amam e o servem. Por favor, perdoai nossos pecados e olhai por nós. Abençoe estes aqui presentes com seu amor e glória. Amém."

"Amém!"

"Estão dispensados. Tenham um bom dia.", a freira disse sorrindo sendo logo cercada por alguns jovens.

Gabriel sempre é um dos primeiros a sair. Mas hoje demorou-se um pouco, observando César arrumar suas próprias coisas.

Ele é perfeito... tudo nele... é perfeito. Será que ele é um anjo? Essa era a única explicação que Gabriel conseguiu arranjar para os movimentos e traços de César. Somente sendo tão perfeito como um anjo para cegar com sua luz, emudecer com sua voz, paralisar com seus movimentos...

"Gabriel?"

O loiro se vira na direção da voz, encarando a freira e sua calma habitual.

"Algum problema? Você quer conversar?", ela perguntou preocupada

"Uh... não. Eu só estava pensando, não é nada de mais. Até amanhã."

"Até quinta-feira. Nós não temos aulas de quarta, esqueceu?", ela disse sorrindo

"É... isso.", Gabriel disse apressado vendo César sair da classe, "Até, então!"

Cadê ele? Cadê ele? Aonde ele foi? Acabou de sair, não pode estar muito longe!

Gabriel parou no meio da paróquia, um pouco ofegante, mais pelo desespero em achar quem queria do que cansado. Nada... mas que diabos! Talvez ele já esteja lá fora... quem sabe?

Nada.

César simplesmente foi embora tão rápido que nem traço deixara... Hmpf! Teria que esperar até quinta-feira para vê-lo novamente...
 
 

Continua...



Capítulo 1
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