Uma Nova Bainha
A Retalhadora


Kyoto, 13 de maio de 1880

Era noite, e fosse em qualquer outra ocasião ele poderia distinguir um a um os sons que compunham o cenário exótico, embora extremamente familiar, daquela lagoa enluarada.

Há apenas um ano viera até ali fazer o comunicado de uma decisão, decisão do qual na época, não dispusera de qualquer chance de escolha.

Relembrando os momentos de desespero, era impossível não reviver as sensações únicas, que experimentara. De fato, fora uma das poucas circunstâncias, em que se sentira realmente abalado, sem autoconfiança, simplesmente com medo.

De modo algum, havia sido fácil percorrer os quinze passos que o separavam da silhueta curva e singela, que silenciosa entre os coaxares dos sapos na lagoa ,e o brilho esverdeado dos pirilampos, o aguardava como um valete fiel que zela pelo bem estar de seu amo, e dizer: "estou pronto para morrer, ou matar se necessário for, Kaoru Dono."

E o resultado de tudo aquilo? A abertura de seu coração amargurado, ferido, sofrido, frio, calculista e que depois de tudo voltara a florescer como uma sakura; fenda do qual jamais poderia voltar a remendar; um obrigado que permaneceria a martelar em sua alma, até o último de seus dias, como uma réstia de esperança nos momentos de fraqueza. Sim, abrira o coração, e tamanho gesto fora o suficiente para que durante a batalha mais difícil, e árdua que já enfrentara, houvesse algo com o que se agarrar e perseverar na busca pela vida.

Naquele instante, sentado observando o mesmo rodopiar dos vaga-lumes, numa noite sem estrelas podia se sentir pela primeira vez como um homem de sorte.

Sorte? Talvez. Percorrera como um rounin sem eira nem beira os confins de uma terra arrasada durante dez anos, até descobrir que na face de uma mulher, encontrara enfim a personificação da inocência e honra, que existia tímida a aguardar por sua consagração.

Mas ali, naquele exato minuto sob a luz da lua, o reflexo da própria imagem no lago, e as lembranças que não apenas persistiam em sua mente, mas que traziam a marca fatal em sua própria face: Kenshin Himura, o ex-Hitokiri, o Battousai, se perguntava o que teria realmente a oferecer á senhorita Kaoru?

Sua espada, sua força, pequenos afazeres, ou apenas o amor? Parecia tão pouco, para alguém que lhe dera tudo, a própria vontade de viver. Vontade esta, que com o sangue de Tomoe, ele vira esvair e perder o sentido dentre seu espírito cansado.

A respiração estava ofegante, e tensa, quando portanto com a ponta dos dedos tocara o profundo, e íntimo corte em formato de cruz na face esquerda. Eram raras ás vezes que permitia executar tamanho gesto, preferia não pensar, mas aquele 13 de maio era sem dúvida uma ocasião muito especial. Um momento de comunhão total, talvez por isso mesmo a data escolhida por ela: Kamiya Kaoru.

Imersão que fora bruscamente interrompida por um tropeção, e o imediato reflexo de homem treinado para luta, ao sacar o polegar sobre a bainha da espada.

Apenas uma sombra que se aproximava aos borbotões. Para sossego e alívio:

_Sano, é você?

_Quem mais, meu caro?

Melhor assim, pensou, não estava com ânimos para batalha.

_Como me achou? Não disse para a Kaoru aonde iria, apenas que gostaria de dar uma volta.

Sano tirou uma espinha de peixe do bolso e passou a mordiscar, enquanto com o cotovelo esquerdo deixou-se apoiar na grande cerejeira, que estendia suas raízes profundas quase até a margem.

_Conhecendo você, como conheço, parceiro...Garanto, não foi muito difícil.

_Eu gosto daqui, um lugar muito bonito, e que em pouco tempo passou a ter um significado todo especial para mim.

_Vim avisar que a Misao, e todo o pessoal da gang Oni, acabaram de chegar de Edo. Enfrentaram alguns contratempos durante a viagem, mas já estão aí, procuraram por você

_O Dojo deve estar uma loucura. _ A idéia de Kaoru atormentada com tanta gente o fez abrir um pequeno sorriso.

_É verdade, Kaoru atacou o Yahiko com um chinelo de madeira...Mas bem, isso não foi o fato mais intrigante da noite.

_Oro?

_Sabe quem veio e perguntou por você? _Os olhos de Sano brilhavam de um modo estranho, quase sarcástico.

_Não faço idéia.

_Aoshi Shinomori. A Misao fez questão de arrasta-lo até aqui. E eu poderia dizer que o sujeito parece mudado, tinha minhas dúvidas quanto a isso, mas parece que realmente deu um jeito nele durante a guerra contra o Jupon Gattana, Kenshin.

_Fiz minha parte, o resto deve ter ficado por conta mesmo da Misao Dono.

Com um safanão, Sanosuke empurrou Himura contra o chão, e pela primeira vez numa noite sem estrelas, ele pode vislumbrar as primeiras dentro de sua própria cabeça! Afinal fora arremessado com toda a violência, - que o próprio Sano desconhecia dispor nos momentos de brincadeira - indo bater com a nuca no chão bruscamente.

_Caramba, você vai ficar aí mesmo sentado, olhando pros vaga-lumes, bem na noite de sua despedida de solteiro? Saiba que eu tive de invadir o Akabeko, enquanto a Tae vinha para cá só para bebermos esta última garrafa de saquê, antes de se amarrar para sempre! Ora Kenshin ,vamos...Ainda me deve uma luta!

_E...A Kaoru?

_A partir de amanhã, quando ela se tornar a senhora Himura de uma vez por todas - pausa - por mais que isso me pareça estranho você se explica com ela, mas por hoje...Festa!

_É?

_E por falar nisso, me bateu uma baita fome.

_Tenho aqui dois bolinhos de arroz.

_Ah, por agora vai ser o suficiente...
 
 

_Yahikooooooooooooooooooooo!!!

Mais uma manhã começava no Dojo Kamiya, contudo uma manhã diferente de todas as outras.

_Corre Yahiko! _Sano brincou, enquanto empurrava o portão, tempo suficiente para se desviar de um pequeno e mimoso jarro de porcelana, que fora prontamente recebido por um menos avisado Kenshin.

_Oro, o que raios está acontecendo por aqui?

_Kenshin!! _Ela não sabia o que fazer, além de correr para junto do homem atordoado, que se apoiava num alto Sanosuke. _Ai, que maluca que eu sou!

_Ainda bem que admite.

_Fique quieto, Sano.

_Coitadinho - ela inutilmente afagava a têmpora ferida de Himura, parecendo súbita perder o interesse pelo seu verdadeiro alvo: Yahiko Miyojin.

_Se continuar desse jeito, Kaoru, Kenshin não vai precisar enfrentar mais ninguém. Apenas o desjejum matinal já será uma verdadeira batalha.

_Ora, seu!!!

_Hei, querem parar por favor? - Com um sorriso encantador, Kenshin virou-se para uma desconfiada Kaoru. - E aí, vai me dizer enfim o que aconteceu?

_Bem, pra você pode não parecer importante, mas meu Kimono novo, que eu ia usar hoje à noite!!! Aaahhh!!! O Yahiko deixou cair no anil, e ele de branco ficou azulzinho!E, e, a Misao o trouxe de Edo novinho para mim, queria vesti-lo pra você...

Uma situação aparentemente banal, e que de repente ganhou uma nova dimensão, pois com uma delicadeza além do habitual de um homem que sabe que está prestes á dividir a maior das intimidades, com uma mulher receptiva para isso, ele simplesmente segurou o queixo de sua noiva e disse:

_Sabe que não me importo com estas coisas, Kaoru Dono.

_Mas...

_Contudo se realmente significa tanto pra você, vou dar um jeito nisso, sim? Agora se acalme e sugiro que aproveite o dia. Sei que temos muito a fazer.

_E por falar em dia cheio...Não passou a noite em casa, o que andou aprontando hein, senhor Himura?

_Ororoo! Ham, o Sano insistiu numa luta, mas acabou que não deu certo, porque ficamos conversando a noite toda, e bebemos um pouco além da conta. - Sorriso. - A-acho melhor eu ir andando, preciso tomar um banho,e...E mais tarde nos encontramos, não é mesmo?

_Espere! O Aoshi está aqui.

_Eu sei. _Kenshin respondeu frio, sem se virar.

_De qualquer forma, penso que é melhor conversarem, ele veio de Edo somente para isso.

Aoshi? Desde o último confronto no esconderijo de Makoto Shishio, parece que nossos destinos ficaram encarrilhados á seguirem um mesmo rumo, contudo ainda que eu tenha compartilhado junto a ele os conflitos em Shimabara...E ter presenciado o sofrimento mudo, com relação ao ataque de Shogu Amakuza contra Misao Dono; por que sinto que este homem permanece para mim um mistério constante? E o que pretende ele vindo até aqui, durante a cerimônia de meu casamento? Se houver algo implícito, uma batalha a travar em breve, temo que Kaoru não consiga resistir a uma separação repentina...Céus, o que fazer então neste caso?

_Kenshin?

_Ahm, o que foi? - Ele certamente se perdera em devaneios por mais tempo que pudera imaginar.

_Vai ficar aí parado?

_Te-tem razão, vou até a cidade e ver o que posso fazer pelo seu kimono novo, senhorita Kaoru.

Fora vez dos pensamentos da jovem Shinandai: ai, se ele soubesse como eu odeio, quando me trata assim feito uma estranha!_Está bem, está bem!Mas ande logo com isso, sim?

_Pode deixar, senhorita Kaoru. _Com um menear de cabeça por sobre o ombro, que fez escorrer a longa e vasta cabeleira, Kenshin se virou para Sano com simplicidade. _ Espere por mim, volto num instante...

Inflando o peito Kaoru se afastou dos dois homens que a ladeavam, enquanto aos borbotões, seguia para a varanda do dojo puxando Yahiko pela orelha. _Ai, ai, ui, ai, ai...

_Isto é para você aprender, seu...Seu...Moleque!

O som de gravetos rompendo sob as sapatilhas negras, num gingado quase malandro de ser, seguido pelo tilintar suave de chinelas de palha era a canção, que rompiam a pequena aléia de árvores que margeavam o dojo, e o separavam dos bairros da periferia de Edo.

_Você não me engana, parceiro. Este silêncio todo, não é por causa do enforcamento de logo mais.

_Enforcamento, sério? Onde? Na cidade?De quem?

_Ora, ora, caramba, o seu!

_Ah, desculpe. Estou meio aéreo, não percebi seu sarcasmo.

_É disso mesmo que estou falando, senhor explorador da lua. Ontem a noite estava meio esquisito, melancólico, até aí eu entendo...Porque aturar a Kaoru pro resto da vida, certamente não será fácil. Mas parecia que no fundo você guardava uma certa felicidade, quase uma ânsia cega.

_É verdade, eu a amo muito...

_Então o quê? O que mais o está deixando assim? Tem a ver com o Aoshi, não é mesmo?

Silêncio absoluto, e um olhar de soslaio. O mesmo olhar estranho, que relanceava ao sacar da sakabatou segundos antes do contra-ataque.

_Haha, sabia. Não adianta esconder nada do velho Sano!

_Hei...Aguarde um momento, - Kenshin pediu, levando de imediato o polegar por sobre o cabo talhado da sakabatou, - ouviu isto?

_Isto o quê? - Sagara repetiu, enquanto inutilmente tentava com seus parcos instintos de lutador de aluguel, acompanhar os sentidos hábeis do ex-hitokiri.

_Isto!

_Vai passando Najima Watsuki, lê presente, passado e futuro...Vai passando Najima Watsuki...

_Ah, deixe pra lá Kenshin, é só uma velha rezadeira.

_Ela está vindo para cá, veja!

_É verdade.

_No final da Era Tokugawa, pouco antes do Bakumatsu, muitas guerreiras idosas, que dominavam secretamente a arte da espada usavam este tipo de disfarce, para distraírem e assassinarem os Ishin Shishi...Fora um estrategema muito eficaz na época, até que finalmente foram capturadas por Satsuma, e executadas em massa.

_Então?...

_É melhor mantermos a guarda, e ficarmos atentos, qualquer movimento suspeito e..._ O brilho da sakabatou, a pitoresca espada com lâmina ao contrário, reluziu com os raios de sol contra as copas das árvores altas.

_Entendi a mensagem, parceiro.

E tal a fluidez de um fantasma ela surgiu, uma senhora de aparentemente setenta e poucos anos, mas com um olhar estranhamente juvenil. Suas rugas e marcas contrastavam com o corpo roliço, e o sorriso cativante embora muito astuto. Vestida em trapos, e com um grande saco atrelado a uma armação de bambu ela arregaçou os dentes.

_Sabia que mais cedo ou mais tarde iria encontrá-lo, Shinta...

Mas como? Kenshin ficou estático, perplexo, nenhum músculo de seu corpo parecia exercer qualquer pressão, que não apenas as batidas descompassadas do coração atordoado.

Este nome...Eu, eu não o ouço há mais de, de vinte anos!

_Hehe, peraí, parece que está havendo algum engano, minha senhora.Com certeza, deve estar confundindo meu amigo Kenshin, com alguma outra pessoa. _Sano retrucou aparentemente confiante.

_Fique quieto Sanosuke...

_Ahm? A coisa tá mesmo feia hein? Pra me chamar assim!

_Sim, em que posso ajudá-la? _Kenshin se ofereceu num fio de voz, baixando a guarda, enquanto relutava em segurar lágrimas, que pareciam perversas amargarem em suas pálpebras. Estava sendo um dia longo.

_Para começar, devia afastar o Sagara. Isto é somente entre nós três, Himura. _Então como o último traço daquela pintura grotesca, chegara Aoshi, o dono de seus pensamentos desde a noite anterior quando ficara sabendo da chegada no dojo.

_Ah, que é que é isso meu irmão? Está pensando que eu... - Pobre, Sanosuke, pobre e desajeitado Sanosuke Sagara, nem ao menos chegara ao fim da sentença, pois com um leve soprar de um estranho pó amarronzado que a velha bruxa trazia na manga, ele passou a dormir como um bebezinho que acabara de mamar.

_Estou pronto, o que querem comigo? Presumo que saibam, que hoje se trata de um dia importante para mim.

_Sim. Seu casamento. _Shinomori fora lacônico ao fitá-lo diretamente nos olhos.

_Exato.

_Esta senhora Kenshin, foi a responsável por traze-lo ao mundo.Conheceu bem seus pais, seus verdadeiros pais.

A emoção era incontrolável, que presente infernal era aquele afinal? O que estaria acontecendo na realidade?

_Não compreendo. Isso, isso faz tempo demais...Quase trinta anos!

_Ela é a única remanescente de sua vila natal, que foi destruída, como sabe.

_Os que não morreram de cólera, certamente pereceram com a guerra. _Completou. _E então? Ainda não me disse porque veio. Obviamente foi uma longa viagem até aqui - pausa - para ambos.

_Antes de qualquer coisa, meu filho, gostaria de compartilhar com você essa cuia de chá...Por favor não negue, e pode beber sem culpa, não está envenenada eu garanto.

_Pode confiar. _Aoshi assentiu, ele mesmo se servindo um pouco do estranho elixir que a senhora trazia na saca presa ao bambu.

_Ai, delicioso. _Kenshin admitiu.

_Fascinante. _Aoshi concordou.

_Pronto, agora os dois dêem-me as cuias, _estendendo os dedos gordinhos e nodosos, a misteriosa Najima pôs-se a examinar as improvisadas xícaras de cabaça. _Primeiro você senhor Shinomori, não tem muito tempo, e sabe disso. E nada tem a ver com lutas ou batalhas, sua saúde ficou precária, por causa do uso demasiado de ópio. Mas antes de fenecer irá cumprir o acordo que fizemos em Edo; apenas me penalizo pela mocinha...A que criou e ama em silêncio. _A mulher estranha suspirou prolongada, como a recobrar forças e energia, há muito gastas.

Kenshin parecia suspenso em outra realidade, bem semelhante ao COMA temporário que sofrera, ao receptar com violência o impacto da pólvora que Makoto Shishio usara contra ele.

_Mas vamos ao que interessa, _ela continuou, _também como previ não trago boas novas. Terá um filho em breve, senhor Himura, e ao contrário do que pensa ele será motivo de muitas lágrimas...Lágrimas de uma mulher em especial: a sua! Pobre alma, não gostaria de estar na pele desta jovem...Amará a dois homens, dois únicos homens: pai e filho, e nenhum dos dois lhe trará qualquer coisa além da completa, e total infelicidade.

_Pare! Pare com isso, já! É uma ordem! - Kenshin perdera o senso do equilíbrio e investira contra a mulher idosa, sendo apenas impelido pelo braço forte de Aoshi. _Que espécie de brincadeira de mau gosto é esta? E acorde agora meu amigo, antes que eu...

_Não tenho medo de espadas, senhor Himura, e isso o deixa sem autoconfiança não é? Pois bem, aproveite sua noite de núpcias...Agrade sua esposa, porque amanhã ao anoitecer deverá tomar um barco, um navio que irá partir para longe.

_Como é? _Um gosto amargo de fel, sangue, subia e descia pela garganta de Battousai.

_Alguns homens estão sendo recrutados em Hokkaido, mas por algum motivo estão viajando diversos quilômetros, e embarcando no porto de Yokohama num navio com destino á uma longínqua ilha, Kenshin...Havaí, e nós: eu, você e Saitou Hajime fomos selecionados pelo ministro Yamagata em pessoa para investigarmos o caso. Ele não confia em mais ninguém em todo o Japão, e sabe que sem sua ajuda, a missão poderá muito bem fracassar. _Era mais que uma confissão , tratava-se de um atestado de humildade e honradez, Aoshi Shinomori que durante dez anos desejara ser o mais forte...Pedia ajuda.

_Entendo, sabia que não teria vindo de Edo somente para me dar ás felicitações de bodas. Mas...E quanto a ela? Najima!

_O neto dela Nobuhiro, veja, enviou esta carta...Ele fez parte da primeira leva dos imigrantes, que pensavam estarem sendo contratados para trabalharem como lavradores assalariados, nesta ilha dominada pelos americanos; mas que na verdade haviam sido negociados por alguns nobres Meiji, como escravos; impedidos de voltarem para o Japão, sob pena de serem assassinados pelos seus novos senhores.

_É um absurdo! E como não ficamos sabemos de nada a mais tempo?

_Estávamos muito ocupados lutando contra Shishio, e logo em seguida contra Saiyou e Shogu Amakuza.

_Tem razão.

_Sem dúvida é um caso muito sério, Himura, e pelo que fiquei sabendo os homens não apenas estão sendo convocados. Muitos são seqüestrados no meio da noite, e atirados nos porões dos navios. E antes que uma nova onda de conflitos se espalhe por todo país, precisamos deter estes crimes, e impedir novas migrações irregulares para o Havaí!

_Sem dúvida isto irá tomar muito tempo, temo por Kaoru, não queria decepciona-la mais uma vez. Havia prometido que não mais me meteria em encrencas, mas...Realmente trata-se de um problema bastante sério. Receio não poder recusar...

_Lamento muito, Shinta. Sua vida não foi nada feliz, mas... - Ela disse com um leve sorriso, e quanddo se aproximou ao ouvido de Himura, Najima completou num sussurro. - Esta não será como a outra, é mais corajosa, mais jovem, menos inteligente é verdade...Entretanto seu amor também é muito maior, e mais puro. Não será uma nova bainha, fique tranqüilo. E tome isto, é um Kimono igual ao que ela perdeu esta manhã, diga que encontrou na cidade, e não comente nada...Pelo menos não nesta noite. - Ao dizer isto, a misteriosa rezadeira que estranhamente parecia conhecer todos os mistérios de Kenshin Himura afastou-se de vez numa imensa nuvem branca, mas não antes de entre tosses e nomes feios que não devem de maneira alguma ser repetidos, trazer Sagara de volta ao mundo dos vivos.

Aoshi: _Lembre-se Himura, amanhã, ás nove horas no porto de Yokohama. Não se atrase.

A resposta fora o silêncio, e no minuto seguinte, como que também houvesse sido envolvido pela fantástica aura mística, Aoshi desapareceu.

_Meu irmão, eu tive um pesadelo pra lá de estranho. _Sano resmungou coçando a cabeça, enquanto se apoiava em Kenshin, até se pôr de pé novamente.

_Eu também, eu também. Agora vamos, está escurecendo, Kaoru espera por mim.

_E o Kimono da "jô-chan"?

_Esquece, dou um jeito.

_Eu hein?

E sem entender muito, Kenshin e Sanosuke retornaram ao dojo Kamiya.

_Ah, você está linda.

_Verdade?

_Eu posso jurar, e fico tão feliz por você minha amiga, queria ter sua sorte.

_Não fique assim, Tae. Sei que gosta do Sano, não perca as esperanças. Eu mesma precisei aguardar três anos, três anos, até que Kenshin se decidisse afinal.

_É, mas o Sanosuke de mim só quer mesmo que eu pendure suas contas no restaurante.

_Quem sabe se, se perdoasse ás dívidas dele?

_Meu pai me mataria.

Risos femininos.

_Uau Kaoru, é mesmo você? _Misao perguntou surpresa, com um leve assobio moleque.

_Sim, sou eu. Por que? Por acaso pareço ter passado por alguma mutação? Talvez eu, eu tenha me transformado numa borboleta? - A jovem malcriada resmungou cruzando oos braços sobre o peito.

_Desculpe, eu só quis dizer que está parecendo uma gueixa de algum figurão.

_Oh...É tão difícil ser bonita! - Kaoru retrucou se observando num pequeno espelho de cobre, presente de Lester, o holandês. E foi através do reflexo posterior a sua própria imagem, que ela pôde identificar Megumi, que também se aproximava portando uma mimosa caixinha com afrescos.

_Trouxe isso pra você, Kaoru.

_Jura? E o que é?

_Carmim, você passa bem assim _demonstrou enquanto retocava a própria maquiagem, _nos lábios e fica irresistível para um homem.

_Deixe-me experimentar. _O gosto, o cheiro era mesmo bom. _Nossa, é tão diferente.

_Foi um presente de minha mãe quando fiz catorze anos.

_Obrigada. - Kaoru agradeceu enquanto descia da banqueta, espalhando o cetim branco, caro e reluzente pelo chão. Jamais tivera a oportunidade de usar algo semelhante, e Kenshin fora mesmo providencial ao remover as manchas azuladas, porque assim o brocado com mimosas pétalas de cerejeira em baixo relevo se revelavam na sua totalidade.

_Kaoru, durante muito tempo fui invejosa, e não espero que me entenda afinal de contas. Confundi meus sentimentos pelo Himura, gratidão por ter salvado minha vida, com amor. Sei que tentei roubá-lo de você inúmeras vezes, fui malévola e até cheguei a pensar que realmente ele começava a experimentar algum tipo de atração por mim. Mas tudo isso não passou de tolice. Foi por esse motivo, que pedi que levasse o antídoto para ele durante a guerra de Edo.

Kenshin precisava de você, sua inocência, coragem, doçura e até mesmo de suas maluquices. Não ansiava por uma mulher experiente, vivida. Era sua virgindade, e meiguice que o encantava, algo que ele acreditava perdido num mundo arruinado...E peço desculpas tardiamente, mas não posso esperar que me perdoe.

_Oh, Megumi, enfim você entendeu! _A senhora do dojo se atirou aos braços da rival, e ambas choraram por alguns instantes; surgia ali algum elo de amizade afinal?

_Agora, _risos e uma pausa, enquanto a médica alisava o costume azul e vinho novo, _Misao, Tsubame, por favor me deixem á sós com Tae e Kaoru.

_Ora, por que? _Misao parecia indignada, afinal fora ela que trouxera o kimono novo...E não aquelazinha.

_Porque preciso ter uma conversinha com Kaoru, de mulher para mulher.

_Mas eu já estou crescida, e em breve também pretendo me casar com o Aoshi!

_É, só que enquanto isso não acontece, e ele não percebe que está se transformando numa jovem bem bonita, é melhor que você, e a Tsu saiam. _Falou em definitivo, praticamente empurrando as duas adolescentes curiosas e afoitas de dentro do quarto perfumado com incensos indianos, e decorado com delicadas lanternas coloridas, além de flores silvestres e um imaculado lençol branco sobre o tatame desenrolado. _Agora Kaoru, vou bancar a irmã mais velha.

_Coragem. _Tae disse num sorriso tímido.

_Você sabe o que vai acontecer hoje á noite, Kaoru?

_Sim, eu...Faço idéia...

_Mesmo?

Ela hesitou e balançou negativamente a cabeça, era mentira.

_Já imaginava, _Megumi admitiu dando três passos em direção á mocinha estabanada, _ bem vai ser mais difícil que eu havia pensado...

Então ela cochichou, e cochichou e cochichou no ouvido de Kamiya Kaoru, que com seus imensos olhos azulados, parecia tão estática quanto uma estátua budista dos templos montanhosos.

_Nossa!

_E é isso. Está preparada?

_A-acho que estou. Foi ele que pediu para vir aqui, não foi?

_Sim, há dois ou três dias atrás. Parecia realmente preocupado quanto a este, digamos: detalhe. Outra coisa, se não quiser um bebê por agora, trouxe isto pra você também, talvez...

_Não, prefiro não esperar muito. Kenshin adora crianças, não percebe como ele trata Ayume e Suzumi? Está na hora de eu e ele termos uma verdadeira família, a nossa família.

_Então está bem, vou deixa-la com a Tae e receber os convidados, já estão chegando sabia?

_Será que, que Seijuro Hiko virá? Ken-Kenshin ia ficar realmente feliz se o mestre dele estivesse aqui para vê-lo.

_É algo imprevisível, mas a noite está somente começando...

_É verdade.

Kenshin não estava menos excitado, portanto com dedos trêmulos acabou por de um gole sorver um trago de saquê, ou pelo menos o que restava da noite anterior. Era um torvelinho de emoções para um único homem, compromisso, amor, prazer, sexo, dia seguinte, luta, sangue, abandono?

Bem, em pouco tempo teria que cumprir o seu destino, mas prometera a si mesmo que pelo menos durante uma noite, uma simples e singela noite seria a criatura mais feliz e plena de todo o mundo. Ele que já fora o mais forte, queria fenecer como o mais fraco. Portanto ao correr os dedos finos e longos pela divisória, e aspirar o vento fresco da noite num jardim pontuado por milhares de lanternas e fogos de artifício, que em dimensões gigantes lhe lembravam muito apropriadamente seus vaga-lumes secretos, sentiu-se tranqüilo, em paz.

Que bonito!

Em volta de um arco coberto por sakuras, Sano o aguardava ao lado de Megumi e Yahiko. Ao fundo estavam Misao, Okina, Tsubame, Dr. Gensai e todos os amigos do dojo Kamiya. Mas, mas...Aquela silhueta que cruzava o portão, não, não podia ser!

_Mestre?

_Achava mesmo que ia perder essa festa por algum motivo, Kenshin?

_Mestre! - Ele repetiu, não mais uma pergunta, e sim uma feliz afirmação.

_Acho que terei de dar uma forcinha para sua noiva, ou vai querer deixa-la esperando?

_Não.

_Então venha. Espero que seja tão bom nessas coisas, como no hiten mitsurugi ryu.

Tudo bem, sutileza nunca fora o forte de Seijuro Hiko, e timidez sempre fora uma característica de Battousai. Logo não era surpresa se sentir corando da cabeça aos pés.

Os chinelinhos se arrastaram satisfeitos, em passos leves e curtinhos, até o arco onde devia esperar pela chegada de Kaoru. Se seguisse a tradição, ela deveria surgir coberta por um fino véu acompanhada pelo pai, um tio, ou irmão mais velho. No caso da solitária Shinandai, quem faria ás vezes de zelador da pureza seria Seijuro.

Certa vez ele insinuara que Kenshin devia descansar, unir-se a alguém; e era por esta razão, somente por esta razão que sem dúvida alguma estaria ali. E a noite era tão especial, que nem ele, nem ninguém fora capaz de divisar uma carruagem requintada estacionada do outro lado da rua, e de onde uma fina fumaça serpenteava na brisa suave e se expandia no escuro.

As atenções daqueles belíssimos olhos lilases tinham apenas um alvo...

_Kaoru. - Ele sussurrou ao vê-la surgir entre a alameda de pétalas róseas de sakura que Tsubame, Ayume e Suzumi lançavam para o ar.

Kaoru, desculpe por tê-la feito esperar tanto tempo...

Se o tempo parasse naquele instante mágico seria uma dádiva dos deuses, por ela enfrentaria um exército de Makotos Shishios, por ela caminharia satisfeito na escuridão sem a luz dos olhos para se ater a cada detalhe daquele rosto jovem, delicado, e inocente. Por ela sairia ileso, voltaria do Havaí, e enfim seriam felizes com a sakabatou a descansar eterna nalgum lugar secreto do dojo. Por ela, e somente por ela seria capaz de matar, morrer, ou viver e apenas viver.

_Kenshin... _Sua noiva sussurrou ao lhe estender os dedos finos, e passar dos braços de seu antigo mestre, o único pai que realmente conhecera, para seus próprios aflitos e solitários.

Esta noite morre um Rurouni, como certa vez morreu o Battousai.

Em quinze minutos estava tudo terminado, e entre vivas, e alegria de todos que sabiam as dificuldades que haviam enfrentado até ali...Himura nem por um instante fora capaz de afastar um eco, um eco quase maldito a tilintar em sua mente complexa.

"...Como previ não trago boas novas. Terá um filho em breve, senhor Himura, e ao contrário do que pensa ele será motivo de muitas lágrimas... Lágrimas de uma mulher em especial: a sua! Pobre alma, não gostaria de estar na pele desta jovem...Amará a dois homens, dois únicos homens: pai e filho, e nenhum dos dois lhe trará qualquer coisa além da completa, e total infelicidade. Lamento muito Shinta. Sua vida não foi nada feliz, mas... Esta não será como a outra, é mais corajosa, mais jovem, menos inteligente é verdade...Entretanto seu amor também é muito maior, e mais puro. Não será uma nova bainha, fique tranqüilo..."

_Ka-Kaoru, importa-se de ir na frente? Preciso conversar um instante com o mestre.

_Está bem...E você falou com o Aoshi? Não o vejo por aqui.

_Shinomori resolveu voltar para Edo, tinha umas coisas urgentes para resolver, nos encontramos na cidade esta tarde.

_E o que ele queria?

_Nada de importante, creio que apenas me desejar sorte.

_Mesmo? - Kaoru parecia desconfiada.

_Mesmo. - Ele repetiu sorrindo, enquanto seu peito queimava por dentro.

_Então eu, eu já vou indo.

_Não demoro. - Battousai assegurou ao pressionar os dedos finos entre os seus.

_Tá.

Era para estar feliz, radiante, contudo aquela eterna sombra de mistério e melancolia envolvia todo o espírito do antigo hitokiri. Enquanto nalguma parte do jardim Sano e Yahiko se empanturravam com doces e guloseimas, a contragosto de Megumi e Tae, Seijuro silencioso o aguardava junto á sala de treinamento.

_Estou aqui.

_Dessa vez quem trouxe o presente fui eu, tome, beba, vai gostar.

_Não, obrigado. Não creio que Kaoru apreciaria, que o marido dela estivesse cheirando a saquê bem na noite de núpcias.

_Quase havia me esquecido de como é virtuoso e comportado.

_Mais a mais, já comemorei o bastante ontem á noite com o Sano.

_E aí, não vai me perguntar?

_Imagino que já saiba sobre os problemas em Hokkaido. É por isso que está aqui, não é?

_Vim para seu casamento Kenshin, pode não acreditar, mas tenho você como um filho. Um filho rebelde, mas ainda assim um filho.

_E o que então?

_Sei que aceitou a missão, e não acho que deva declinar, é seu dever como adepto do estilo hiten mitsurugi. Contudo tenho um pedido muito especial a lhe fazer...

_E o que seria?

_Não creio que irá voltar do Havaí, e mesmo que isto aconteça, certamente irá se afastar por um tempo demasiado longo.

_É verdade.

_Quando me procurou durante os conflitos de Edo, eu lhe confessei que precisava de um novo discípulo para levar adiante as técnicas do estilo hiten.

_Eu me lembro muito bem, eu o venci na amakakerou ryu no hirameki, mas não aceitei o manto de décimo terceiro Seijuro Hiko.

_Você disse que gostaria de criar seu próprio estilo, e não era verdade, dado que o tempo passou e nada fez que apontasse que isto seria mesmo a sua resolução final. No entanto eu ainda preciso de um pupilo, Kenshin...

_E o que tenho com isso? Não consigo entender aonde pretende chegar com tais insinuações, mestre.

_Quero que me dê o filho que irá conceber nesta noite. Quero que ele possa completar com honra, o que o pai dele me negou por duas vezes, quero que ele se torne o décimo terceiro Seijuro Hiko.

_Entendo. Mas esta não é uma decisão que compete somente a mim, concorda?...

_Garanto que a senhora Himura não irá se opor, visto que as circunstâncias que terá de enfrentar sozinha, não serão nada fáceis.

Kenshin se virou escondendo o rosto na larga manga da camisa escarlate, enquanto se escorava contra a parede de papel e bambu. _Queria ser uma folha e desaparecer na noite, ou mesmo sumir num precipício mil vezes, a permitir qualquer outro tipo de sofrimento a Kaoru...Mas dei minha palavra, e não posso voltar atrás!

_Então a empenhe novamente aqui Himura, e prometo que irei ajuda-lo quando não mais estiver por perto.

Seria o melhor? Sim. Ele sabia.

Com um suspiro: _eu concordo.

_Jure.

_Juro que darei meu filho, para que crie dentro da tradição hiten, e ele se torne o décimo terceiro á usar a capa ritual. _ Pronto, falar fora difícil, mas pior era amargar a dor lancinante que o retalhava em milhares de fragmentos. Realmente o Battousai estava morto. _Agora é sua vez mestre, o que me aconselha?

_Este pó branco, coloque-o no chá que deverá servir a Kaoru amanhã á tarde, ela cairá em sono profundo por umas doze horas. _Por um instante Kenshin transpareceu um ar de pânico, qualquer sinal de risco em sua amada, era como manda-lo para o pior sacrifício uma centena de vezes seguidas. _Mas não se preocupe, estarei por perto quando ela acordar.

_Então eu deixarei uma carta.E nela direi que sou um Rurouni, e que meu tempo no dojo chegou ao fim...

_Será senão o mais digno, o menos doloroso, á de convir Kenshin.

_Tem razão.

_Agora vá, ela já o espera por tempo demais.

_Obrigado.

Já era tarde quando enfim Kenshin fora se recolher, primeiro seguira o ritual de todas as noites, verificar se não havia sinal de inimigos cercando o dojo, trancar as portas, encher um balde com água, e enfim apagar as lanternas da varanda.

Era sua casa, sim sua casa, seu lar, o único que conhecera em toda a vida, e que não compreendia um esconderijo, ou base de combate. No entanto, quando enfim parecia pronto para se entregar a uma nova vida, o destino lhe surgira novamente, e desta vez de uma maneira ainda mais cruel. Seria o castigo para seus crimes? Talvez sim, talvez não, talvez ironia, talvez, talvez e talvez...

Um vestígio de sorriso varou o rosto lindo quase afeminado, Sano deitado junto ao poço, agarrado a uma garrafa de saquê com Yahiko deitado em seu colo.

Seus amigos, os verdadeiros, algum dia o perdoariam? Temia que a resposta fosse negativa, mas enfim, era ela quem importava acima de tudo! E durante aquela noite, ela seria a mulher mais feliz do mundo, na verdade a única mulher do planeta se dependesse dele!

Era mais que uma promessa, mais que uma dívida, apenas a verdade.

Quando finalmente correu a porta de papel branco que separava seu quarto do salão principal, encontrou Kaoru adormecida. Pobrezinha, podia deixa-la assim e desaparecer. Desse modo acharia que nada fui além de um pesadelo em sua vida...Mas antes que de impulso se virasse, e transformasse tamanho pensamento em realidade, ela despertou.

_Kenshin, é você? - A voz estava lânguida, e Kaoru se espreguiçou debaixo das cobertas, vindo a se sentar com os joelhos dobrados para trás como de costume.

_Sim, sou eu.

Puxa, como está linda, meu amor...

_Desculpe se demorei, detesto faze-la esperar numa noite tão especial como esta...

_Não faz mal. - A voz dela estava levemente trêmula, ansiosa, cortada. E o kimono? Oh kimono branco virginal, que revelava mais que escondia uma curvatura quase que inexistente de seios intocados, e um par de pernas que muito traziam ainda da leviandade infantil.

Mas o que era aquilo nos lábios afinal? Somente naquele instante percebera e não gostara. Megumi sempre usava tal artifício para realçar sua beleza madura e aristocrática. Tamanho truque era desnecessário numa flor silvestre, ele achava.

_Como está bonita, Kaoru Dono... Mas tire este carmim dos lábios, prefiro você como sempre a conheci...Singela.

_Kenshin.

_Fico feliz de ter tomado a iniciativa e me esperado. - Ele disse com a voz reta, e doce, firme e segura, enquanto pela primeira vez em anos desembainhava a sakabatou e a deixava recostada a parede fina. - Imagino o que esteja pensando, mas não tema, garanto que estou tão ansioso quanto você.

Ele prosseguia num ritual lento, e a camisa foi retirada com suavidade, uma naturalidade simples que denotou um belíssimo corpo tatuado com diversas e pequenas cicatrizes de batalha.

Kaoru não conseguia desviar os olhos, mas os dedos estavam cravados na seda cara, quase pressionada até que sangrasse as palmas das mãos.

_Creio que esteja ciente do que irá nos acontecer hoje á noite...

_Me, Me-Megumi me disse algo a respeito, não se preocupe.

_Fico feliz, fui eu mesmo quem pediu a ela, não queria causa-la qualquer tipo de decepção, meu amor.

_Kaoru..._Himura sussurrou ao se ajoelhar aos pés do tatame, e toma-la nos braços subitamente. Sua pele não estava quente, ardia em febre, e a dela em nada diferia da própria. Podia senti-la tremer além do tecido fino.

Seus dedos hábeis correram para a fita azul, a linda fita azul que lhe era tão característica, e com a destreza de um homem que sabe matar, mas que também é um mestre na arte da sedução, o laço foi desfeito. Uma manta negra e brilhante, escorregadia, portanto, deslizou pelas costas de Kaoru envolvendo todo o ombro de Battousai. _Gosto deles assim, devia usa-los soltos mais vezes, são tão irresistíveis ao toque...Nossa e o aroma? O aroma de banho de imersão me deixa inebriado, e nem imagina quantas vezes fui obrigado a disfarçar o quanto queria senti-los entre meus dedos, Kaoru.

Havia alguma palavra no mundo? Bem, Kaoru se esquecera completamente o que era falar, estava resumida apenas a emoção, amor, e desejo.

Mas ela também guardava em si um impulso, ver aquela cascata ruiva reluzindo contra as lanternas, e imitando o gesto de seu marido fez o mesmo, desatou a estreita tira que prendiam os cabelos de Kenshin...E isso? Isso o levou a emitir um estranho som de prazer, quase um miado felino, e no outro instante...Pela primeira vez na vida, seus lábios pousaram sobre os dela, não o beijo dócil e gentil que tanto Kaoru imaginava. Mas um roubar arfante, amargurado, um contato que parecia trazer em si toda a paixão do universo.

_Kaoru, Kaoru, Kaoru... _Kenshin repetia, enquanto numa sucessão de beijos ininterruptos, aos poucos ia afastando a seda do corpo dela, abrindo caminhos, brechas, fragmentos sempre escondidos de pele...

Quando enfim não suportava mais adiar o desejo, Himura apenas a fitou nos olhos, de uma maneira a esposa jamais vira até então...Um brilho intenso, mas totalmente diverso de qualquer outro que teria demonstrado, mesmo nos momentos mais cruciais da batalha.

_Kenshin... - Ela consentiu.

_Não vou machuca-la, prometo.

Então ela cerrou as pálpebras e permitiu que Battousai lhe tomasse o corpo, a alma, a virgindade.

Lentamente Kenshin deitou-a sobre o chão protegido pelo fino colchão de esteira, não antes de cobri-la com uma delicada manta, não antes de cobri-la com o próprio corpo.

Então a brisa fizera vezes de pudor, e soprando suave apagou a única luz bruxuleante de todo o quarto, a lanterna perfumada presa ao teto.

_Fiz questão de arrumar nosso quarto.

_Percebi.

_Espero que tenha gostado.

_Kenshin, por favor...

Ele sabia muito bem o que queria dizer implicitamente aquele apelo.

_Eu te amo, Kaoru, e te amei desde a primeira vez que a vi. Portanto me perdoe se for rude, sou assim, escondo-me em pequenos detalhes para refrear minha violência interior.

_Então me tome, e se liberte.

Era o momento, o único.

Kenshin amou Kaoru, amou Kaoru até que lágrimas silenciosas vertessem dos olhos azuis, amou Kaoru até que suor escorresse por seu rosto, amou Kaoru, até ouvi-la tímida porém feliz, produzir ronronados escondidos contra seus ombros desnudos. Amou Kaoru, até gritar o nome dela independente do que os outros poderiam pensar, amou Kaoru até a exaustão total, amou Kaoru até a satisfação plena, amou Kaoru, amou Kaoru.



nota da webmaster - Esta história faz parte de uma cronologia de fanfics, segundo a autora. Então, se vc gostou de ler este aqui, aconselho que fique de olho porque vem outros fanfictions pra complementar a saga. ^_~


Rurouni Kenshin
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