Venezuela concluída
EDUARDO GUIMARÃES (24/08/2007)
http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2007-08-19_2007-08-25.html
Como o leitor Nelson Santos, engenheiro de Cubatão (SP),
anteviu, eu não poderia deixar de escrever minha
conclusão formal e final sobre tudo que experimentei nas duas
semanas durante as quais permaneci na Venezuela.
Essa conclusão, no entanto, a chamei de final, porque encerra um
processo que desencadeei quando deixei o Brasil, um processo de,
viajando a terras venezuelanas, investigar todas as verdades que
pudesse sobre o que chavistas e antichavistas pensam do governo, sobre
que proporções cada grupo tem dentro do espectro
populacional do país e sobre se a natureza do regime bolivariano
é realmente a de uma ditadura que restringe a liberdade de
expressão, conforme vem dizendo a imprensa brasileira.
Primeiro, é preciso deixar claro que a maior certeza que trouxe
da Venezuela é a de que certezas absolutas são
difíceis de ser extraídas por qualquer pessoa que, tendo
visitado o país, pretenda ser honesta ao discorrer sobre ele.
A Venezuela é um país em profunda mutação.
Goste-se ou não de Chávez, aprove-se ou não os
seus métodos, creio que até seus inimigos mais ferrenhos,
se forem honestos, concordarão que o país vive uma
experiência totalmente nova na América Latina e no mundo,
pois o socialismo do século XXI congrega elementos do
capitalismo e conceitos do socialismo, temperados com uma chuva de
dólares gerada pelas receitas do petróleo, por um
aquecimento intensivo da economia e por um ainda insipiente –
porém contínuo e decidido - processo de
industrialização.
Com efeito, julgo que logrei informar fatos concretos sobre o
país vizinho. E, assim sendo, juntar aqui todos esses fatos
será a forma mais coerente de começar a concluir alguma
coisa. Já, dizer o que penso sobre o que vi, parece-me
importante para o leitor, porque quem esteve lá fui eu e a
visão de quem vivenciou qualquer coisa sempre suplantará,
de alguma maneira, a de quem não vivenciou.
Os fatos concretos, são os seguintes:
1. Não são apenas os ricos
que sentem ojeriza por Hugo Chávez e por sua
revolução. As classes média e média baixa
também congregam muitos antichavistas.
2. Não são só os
pobres que apóiam Chávez e seu “processo”. Há
pessoas de todas as classes que o apóiam, mas entre os mais
ricos esse apoio é inferior ao repúdio.
3. É fato que, no conjunto da
população, o apoio a Chávez e à sua
revolução suplanta o repúdio, pois a
população mais pobre que apóia é
significativamente maior do que a mais rica que repudia.
4. É fato que Chávez
está se valendo da hegemonia que tem na propositura e na
aprovação de leis para implementar dispositivos legais e
constitucionais que lhe permitirão ficar no poder enquanto a
maioria dos venezuelanos assim desejar.
5. É fato que Chávez
embutiu na proposta de reforma constitucional uma “armadilha” para os
venezuelanos, pois terão que aprová-la ou
rejeitá-la integralmente e, devido a que oferece “bônus”
altamente atrativos para a população, tais como, por
exemplo, a redução da jornada de trabalho de oito para
seis horas diárias, parece difícil que os venezuelanos
desperdicem tal chance de melhorarem de vida no curto prazo só
para impedirem que Chávez se apresente a eles para
reeleição quantas vezes quiser.
6. Chávez vem beneficiando os mais
pobres por meio de programas sociais que, alguns, precisam ser
reconhecidos como magníficos, como o programa que permitiu
à Venezuela ser declarada pela ONU território livre de
analfabetismo, ou os que estão permitindo à
população estudar e ter acesso a saúde
pública de qualidade.
7. Os antecessores de Chávez
não conseguem derrotá-lo porque é voz corrente
entre a maioria da população que, quando esses
antecessores – que hoje são oposicionistas - estiveram no poder,
não fizeram pelos mais pobres uma fração do que
Chávez está fazendo.
8. A Venezuela, de forma alguma, é
uma ditadura.
9. Na Venezuela há total liberdade
de expressão.
10. O Estado venezuelano faz uso de concessões
públicas de rádio e tevê para defender-se da
oposição e da mídia privada (que é
praticamente toda oposicionista) e para atacá-las.
11. Empresas privadas e oposição fazem
uso de concessões públicas de rádio e tevê
para defenderem-se de Chávez e para atacá-lo.
12. Chávez obriga parte – e somente uma parte – do
funcionalismo público a participar de marchas de apoio a ele.
13. A oposição, onde é governo, faz o
mesmo.
14. A oposição e a
mídia venezuelanas mentem compulsivamente contra Chávez,
o que torna impossível saber quando dizem a verdade e quando
mentem.
15. A mídia privada venezuelana
tomou da oposição a primazia de se opor a Chávez.
16. A violência política e a
violência criminosa explodem na Venezuela.
17. As re-estatizações de
empresas de energia elétrica e de telefonia fizeram despencar o
custo desses serviços para os venezuelanos.
18. O salário mínimo sobe
fortemente e acima da inflação, que está sendo
controlada.
19. Hoje, a Venezuela, diferentemente do
que ocorria antes de Chávez, lucra muito mais com
petróleo, independentemente da alta do preço no mercado
internacional, porque o país parou de furar os acordos de
preço da Opep vendendo petróleo subsidiado aos EUA.
20. Chávez gasta dinheiro do
país para ajudar regimes de outros países que lhe
são simpáticos valendo-se da hegemonia que tem no
Congresso.
21. Quem permitiu que os partidos ligados
a Chávez assumissem a hegemonia no Congresso venezuelano foi a
oposição, por ter tentado deslegitimar um processo
eleitoral que o mundo inteiro considerou legítimo com base nas
legiões de observadores internacionais enviados para fiscalizar
as eleições.
22. A oposição provocou
grave crise na economia a partir do final de 2004 e durante parte de
2005 por não ter aceitado o resultado do referendo
revogatório que conseguiu aprovar para tirar Chávez do
poder. Essa crise foi provocada por meio de paralisação
da principal – e praticamente única – fonte de divisas do
país, a estatal de petróleo PDVSA.
23. A centralização do
câmbio, implementada à época da greve na PDVSA,
teve que ser feita para impedir que o país perdesse todas as
suas reservas cambiais em questão de semanas, dada a fuga de
dólares que se estabeleceu naquele ano em razão de uma
greve exclusivamente política.
24. Num país essencialmente importador
de quase todos os produtos industrializados que consome, Chávez
usa a centralização do câmbio para obrigar o
empresariado a respeitar, em cada detalhe, todos os direitos
trabalhistas, e a cumprir em dia com suas obrigações
fiscais.
Acredito que surgirão outros fatos dos quais não me
lembrei ao construir este texto.
Finalmente, minha opinião sobre a Venezuela é a de que
Chávez assumiu a missão – e o risco – de quebrar os ovos
para tentar fazer a omelete, e esta seria um país socialmente
justo. Contudo, o presidente está fazendo isso por meios
perigosos, que podem provocar até derramamento de sangue. O
risco é calculado e a aposta é muito, muito alta.
Todavia, suspeito de que essa aposta todos os países
latino-americanos terão que fazer em algum momento, cedo ou
tarde.
*
O Compêndio completo de reportagens e textos de opinião
que fiz sobre a Venezuela na viagem de duas semanas que acabo de
empreender ao país pode ser localizado no pé da
página deste blog, através do link
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