Entrei na “dança”
EDUARDO GUIMARÃES (22/08/2007)
http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2007-08-19_2007-08-25.html
Ontem à noite presenciei e fui vítima do ódio
crescente que está engolfando cada rua, cada cidade, cada Estado
da Venezuela a cada minuto, cada dia mais, de uma maneira que, em 48
anos de vida, nunca vi coisa igual. Estou mortificado e ferido –
textualmente. No fim da noite de ontem, ao presenciar um conflito
decorrente de divisão política entre os venezuelanos,
acabei sofrendo uma agressão física.
Voltando do cibercafé ao qual fui para escrever o post anterior
a este, não sentia vontade de me trancafiar no quarto de hotel.
Foi quando avistei uma lanchonete agradável, com mesas na
calçada. Triste com a solidão desta viagem já
excessivamente longa, decidi entrar para tomar alguma coisa e ler mais
algumas páginas do excelente “Cabeças-de-planilha”, do
nosso Luis Nassif, ao som das risadas, do burburinho da juventude que
havia no estabelecimento.
Depois de uns minutos, com o consciente mergulhado no livro, meu
inconsciente acusou o sumiço dos sons da garotada.
Instintivamente, levantei os olhos em busca da razão. Demorei
uns segundos para notar que foram três garotas morenas, na faixa
dos 18 ou 20 anos, que fizeram a turma de rapazes e moças se
calarem.
A razão da interrupção das vozes dos jovens que
já estavam na lanchonete não tardou a se revelar. Uma das
moças era uma morena muito bonita, de formas voluptuosas, seios
grandes. Usava uma blusa de alcinhas de um vermelho sanguíneo
com a foto de Hugo Chávez estampada.
As garotas ocuparam uma mesa em frente à minha e perpendicular
à da turma que já estava no local, que se pôs a
confabular baixinho. Eram dois rapazes e três moças. Uma
delas, uma loirinha bonita, começou a falar com veemência
e, a certa altura, foi possível escutá-la pronunciando um
explosivo “perra chavista”, que significa nada mais, nada menos do que
cadela chavista.
A moça da blusinha com a foto de Chávez levantou-se de
uma forma que a cadeira de plástico em que estava, caiu para
trás.
O diálogo abaixo, reproduzo de cabeça, mas deverá
ser bastante fiel ao que ouvi.
-- ¿Que dijo, pendeja?
-- ¿Eres sorda, perra? Aquí no es sitio de chavistas.
¡Vete al hueco de donde has salido!
A garota da blusinha vermelha partiu para cima da outra que a insultou.
Antes que chegasse perto, um rapagão de bermuda e sem camisa,
que estava com a garota que proferiu o insulto, deteve a insultada
segurando-a pelo braço. Esta, desferiu-lhe uma bofetada. Ele a
empurrou e ela caiu, enquanto suas companheiras já se
levantavam, bem como a outra turma toda.
Sem pensar – e deveria ter pensado -, coloquei-me entre os dois grupos
pedindo calma. Um dos rapazes, o que empurrou a moça da blusinha
vermelha, apontou-me o dedo avisando-me para não me meter.
Tentei argumentar. Ele me empurrou. Coloquei a mão em seu ombro
pedindo, de novo, para que se acalmasse. Ele me golpeou no
estômago. Caí de joelhos. A confusão parou por
instante, mas três rapazes, vindos de fora da lanchonete,
invadiram o estabelecimento e atacaram os que atacaram as moças
morenas e a mim – acho que as moças “chavistas” os esperavam.
Refugiei-me dentro da lanchonete enquanto as duas turmas se atacavam
sem distinção de sexo. Rapazes agredindo moças,
moças agredindo rapazes... Então os funcionários
da lanchonete saíram para tentar controlar o conflito. Depois de
vários sopapos de parte a parte, com a intervenção
dos funcionários todos se acalmaram e acabaram indo embora,
enquanto se insultavam mutuamente. Ninguém pagou conta nenhuma.
Quando cheguei ao hotel, liguei a tevê para tentar tirar o
pensamento da experiência dantesca por que havia passado. O que
apareceu na tela foi aquele programa que mencionei anteriormente, da
tevê estatal Venezolana de Televisión, o “La Hojilla”.
Passava justamente uma reportagem sobre uma marcha de antichavistas que
aconteceu no sábado e que repórteres da tevê
chavista cobriam. De repente, diante das perguntas impertinentes que
esses repórteres faziam aos manifestantes, começa uma
agressão. Desliguei a tevê.
Estou farto da Venezuela. Há tanto ódio aqui que quase
é possível tocá-lo. E o pior é que posso
garantir-lhes que o Brasil está trilhando o mesmo caminho. Os
discursos de contrários e favoráveis ao governo
são os mesmos. A intolerância é a mesma. De ambas
as partes. E a mídia instigando a intolerância e o
preconceito, é a mesma.
Que Deus nos Ajude.