A guerra das tevês
EDUARDO GUIMARÃES (21/08/2007)
http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2007-08-19_2007-08-25.html
Num país sul-americano, numa emissora de tevê cujo nome
leva o substantivo masculino “globo”, começa mais um telejornal
de fim de noite. Os “âncoras” são um casal bem apessoado,
uma mulher e um homem bonitos e elegantes. Eles anunciam mais um
escândalo que envolveria o governo federal. “Por enquanto”,
já haveria indícios disto ou daquilo. Depois da chamada
inicial, vem uma reportagem que tenta convencer o telespectador da tese
da emissora sobre corrupção no governo. Não
há provas, mas há “indícios”, que se bastam. Em
seguida, aparece um senhor de meia idade verbalizando um editorial no
qual faz violentos ataques ao governo e pede ao telespectador que se
revolte.
Se você pensou que eu estava me referindo à Rede Globo, do
Brasil, e ao governo Lula, enganou-se. Trata-se da emissora venezuelana
“Globovisión” e do governo Hugo Chávez.
O programa foi na semana passada. O escândalo noticiado envolve
um alto funcionário da estatal de petróleo venezuelana, a
PDVSA, e uma maleta contendo dólares não declarados
às autoridades aduaneiras da Argentina durante viagem
àquele país de um obscuro “empresário” venezuelano
residente nos Estados Unidos. As suspeitas da grande mídia
privada venezuelana, a exemplo do que acontece com a brasileira,
automaticamente transformaram-se em “fatos”.
Como estou na Venezuela à trabalho no momento em que escrevo
isto, uso as noites chatas neste país para conferir, in loco,
como funcionam a tal “ditadura” de Hugo Chávez e o “cerceamento
da liberdade de imprensa” de que acusam o presidente.
Mais cedo, assisto, na mesma Globovisión, ao programa “Alo
Ciudadano”, sobre política, apresentado por um sujeito debochado
chamado Leopoldo Castillo. Ele trata do mais recente cavalo-de-batalha
da mídia privada venezuelana, ao qual aludi acima. Ele chega a
telefonar para a casa do funcionário do governo envolvido no
escândalo. Uma mulher atende. Quando o apresentador do programa
se identifica, ela desliga. Ele liga de novo, de novo e de novo...
Ô ditadura mansinha essa!
A noite vai passando e vou zapeando entre os canais de tevê
venezuelanos. Na RCTV, agora transmitida por cabo, outro programa sobre
política, o “La Entrevista”, apresentado por Miguel Ángel
Rodriguez. Ele fala sobre a reforma constitucional proposta por
Chávez ao Congresso Venezuelano há alguns dias. Afirma
que, se for aprovada, o presidente irá desapropriar os bens das
pessoas - os carros, as casas, as contas bancárias - e
poderá dispor até de suas próprias vidas. Fica,
para o telespectador, a impressão de que o presidente
poderá mandar matar cidadãos, se quiser. No fim, o
apresentador convoca os telespectadores a se revoltarem contra o
governo.
Volto à Globovisión. Agora, uma entrevista sobre
política. Não me lembro do nome do programa ou dos nomes
de entrevistadora e entrevistado. A apresentadora conversa com um
especialista que afirma que a compra de cinco mil rifles russos por
Chávez será usada para atirar nos cidadãos
venezuelanos que saírem às ruas para protestar contra o
governo.
A diferença, na Venezuela, é a de que, aqui, o governo
reage. O canal 2 (da tevê aberta), tomado por Chávez da
RCTV e transformado na tevê estatal TVes, dedica-se pouco a
política. Costuma apresentar programas culturais, novelas
filmes, mas também retransmite eventos dos quais Chávez
participa e, em todos esses eventos, ele revida contra os canais
privados que o atacam. Mas a antiga tevê estatal Venezolana de
Televisión, a “VTV”, não deixa barato.
O principal programa político da “Venezolana de
Televisión” rebate, um a um, os ataques dos canais privados.
Trata-se do “La hojilla” (a gilete), apresentado pelo impagável
Mario Silva. Ele se dedica a debochar das teorias acusatórias e
conspiratórias dos meios de comunicação privados,
sobretudo dos ataques da Globovisión. Passa trechos dos
programas onde o governo é atacado e vai dissecando cada
palavra, cada gesto, cada expressão facial dos que atacam. Mario
Silva é competentíssimo. Sua mis en scène é
digna de um Jô Soares. Engraçado, inteligente, vai direto
à jugular dos jornalistas e dos “medios”.
Dia desses, sobre uma foto que o jornal “El Universal” publicou de um
governador de Estado aliado de Chávez junto com o tal obscuro
empresário venezuelano envolvido naquele escândalo com a
maleta de dólares, Mario Silva mostrou a foto original, que
deixava ver que o veículo fez uma montagem. O “El Universal”
pegou uma foto em que aparecem o governador, o empresário e
várias pessoas e a reduziu, de forma que só aparecessem
os dois. O jornal cortou as outras pessoas que estavam na foto, dando a
impressão de que governador e empresário conversavam,
mas, na foto original, pode-se ver que não estavam juntos. Um
estava bem mais ao fundo do que o outro.
Há uma guerra de tevês na Venezuela. Alguns dirão
que não é correto o governo usar uma tevê
pública para rebater os ataques que recebe das tevês
privadas, mas o fato é que, sem essa estratégia, a
sociedade fica exposta a manipulações dos veículos
que atuam de um dos lados, do lado privado, mas que são
veículos que também atuam sob concessão do Estado.
Com efeito, os canais de tevê venezuelanos são
usados em favor dos grupos políticos que apóiam e que se
opõem ao governo constitucional do país, um governo que
acaba de ser reeleito por maioria esmagadora. Finalmente, há que
dizer que a Venezuela pode ser tudo, menos uma ditadura que cerceia a
liberdade de imprensa.