Venezuela é Brasil amanhã
EDUARDO GUIMARÃES (20/08/2007)
http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2007-08-19_2007-08-25.html
Hoje me reuni com um cliente que me deixou perplexo e preocupado. Na
Venezuela, depois das tratativas de negócios de praxe, o assunto
Hugo Chávez é inevitável. Os clientes se
põem a lamuriar por conta da centralização do
câmbio, da “incerteza”, porque os negócios não
estão bons etc., apesar de que as ruas estão apinhadas de
carros novos, os hotéis estão lotados e os pedidos que
estou tirando são maiores do que em outros países.
Mas o sujeito com quem conversei hoje demonstrou uma irracionalidade
fora do comum. Depois de desfiar a cantilena costumeira, perguntei-lhe
se não seria mais sensato os empresários deixarem a
política de lado e trabalharem, como disse que faz aquele
cliente que citei no primeiro post que publiquei durante esta viagem
à Venezuela.
O sujeito ficou contrariado. Disse que não, que o caminho
é o confronto, que “os povos só crescem com derramamento
de sangue” (!?). Citou os povos europeus que guerrearam durante toda a
história e atribui a essas guerras seu desenvolvimento.
Como uma guerra civil poderia ser boa para uma sociedade? Gente
morrendo? Irmãos contra irmãos, trucidando uns aos
outros, porque a minoria não quer acatar o desejo da maioria? E
essa gente ainda fala de democracia... Essa parte da sociedade
venezuelana não sabe o que é isso. É um
sacrilégio usar essa palavra.
Não há caminho para dialogar com esses que não
aceitam a decisão majoritária da nação.
É exatamente o que acontece no Brasil. O argumento deles
é o de que o resultado das eleições não
é válido porque quem o gerou não foram os mais
ricos e instruídos. É a mentalidade que vigia na aurora
da República brasileira, quando o voto era censitário, ou
seja, quando, para votar, era preciso ser homem, civil, ter um
determinado grau de instrução e um determinado poder
aquisitivo.
O pior é que o Brasil está indo exatamente pelo mesmo
caminho que a Venezuela. No momento em que a maioria mais pobre passou
a ignorar a opinião política da minoria mais rica, a
primeira tornou-se incapaz de decidir sozinha, na visão da
segunda.
Por enquanto, a minoria de classe média e média alta
ainda fala da opinião da maioria de classe baixa com
resignação. É como se dissesse : “Fazer o
quê se os incultos e pobres são incapazes de
alcançar nossa visão superior da realidade?”. Mas...
Até quando? Quanto demorará para que comecem a dizer que
terão que tomar alguma atitude drástica - como dar golpe
de Estado - porque a maioria não sabe votar?
Quanto mais tempo fico na Venezuela, mais me preocupa a
situação política do Brasil, vendo como é
similar à situação do país em que estou. E
mais preocupante ainda é que não se consegue dialogar com
os meios de comunicação, peças fundamentais do
processo de desagregação social que está tomando a
América Latina. Alguém tem que conversar com os Marinho,
os Frias, os Mesquita etc. Alguém que escutem. Mas quem?