O segredo de Chávez
EDUARDO GUIMARÃES (19/08/2007)
http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2007-08-19_2007-08-25.html
Finalmente voltei ao “meu mundo”, à realidade fantasiosa das
classes médias latino-americanas, à realidade de gente
que vive rodeada de miséria, de indignidade, de violência,
de uma injustiça quase sobrenatural, de tão
impressionante, mas que age como se nada do que a rodeia existisse.
Agora estou em “meu mundo”, num shopping da “urbanización” de
Chacao, o elegante “Sambil”. Estou sentado num cyber café
degustando uns acepipes, bebericando um vinho honesto, ouvindo uma
balada americana que não identifico e dedilhando no computador
uma das experiências mais profundas de minha vida.
Estou de volta ao Primeiro Mundo, mas, há cerca de uma hora,
estava na América Latina, no bairro Libertador, no morro
caraquenho Propatria, um morro como costumam ser os morros das cidades
latino-americanas, isto é, apinhado de barracos precários
e de casas semi-terminadas que espremem uns aos outros, reduzindo o que
deveriam ser ruas a umas vielas absurdamente estreitas, sujas, com
escadarias que parecem terminar no céu, cheias de emendas,
rachaduras, buracos, cocô de cachorro (espero); com degraus
sobrepostos de forma desigual, o que torna o ato de galgá-los um
martírio para os menos atléticos como este que escreve.
Eu estava na casa de Henry, recepcionista do hotel em que estou
hospedado, o único partidário assumido de Chávez
que encontrei na Caracas baixa, no centro expandido da capital
venezuelana, que fica aos pés da constelação de
morros que envolvem a cidade. Estou de volta a uma parte da cidade em
que é difícil encontrar chavistas assumidos, numa parte
em que não vivem mais do que uns vinte por cento dos
caraquenhos. Estou voltando dos morros, de onde estão uns
oitenta por cento da população, onde difícil mesmo
é encontrar aqueles que a ralé venezuelana chama de
“esquálidos”, ou seja, os anti-chavistas.
Saí com Henry às sete da manhã, quando terminou
seu turno na portaria do hotel. Ele não se sentia bem, estava
resfriado por causa do ar-condicionado do lobby, pois o gerente deixou
a refrigeração ajustada “no último” e ordens para
o subordinado não diminuir a intensidade. Assim mesmo, com o
estoicismo dos humildes, levou-me para conhecer seu mundo.
A viagem de metrô foi longa, porque um trecho do percurso, na
direção da estação que leva o nome do morro
onde meu guia vive (estação Propatria), está
interditado. Assim, os passageiros que vão naquela
direção precisam desembarcar do trem, tomar um
ônibus e depois reingressarem no metrô duas
estações depois.
Chegando à estação Propatria começa a parte
difícil da viagem. Tem-se que tomar camionetas Toyota modelo
“Land Cruiser” com pelo menos umas três décadas de
fabricação, caindo aos pedaços. O pior é
que essas camionetas têm os bancos dispostos de costas para as
laterais do veículo. Nesses bancos, cabem (espremidas) umas
cinco pessoas de cada lado. Conforme a camioneta começa a
escalar o morro, os passageiros sentados ao lado daqueles que
estão logo atrás dos bancos da frente têm que
arcar com o peso dos outros sobre a lateral de seus corpos. A pior
situação é a de quem senta perto das portas da
traseira do veículo, por onde ingressam os passageiros, pois
acabam sendo espremidos contra uma das portas pelas quatro pessoas
sentadas ao lado. Isso sem falar que são veículos com
janelinhas pequenas, geralmente com defeito (que não abrem) e o
calor, no Caribe venezuelano, é de matar. Que claustrofobia, que
suadouro!
Depois de uns quarenta minutos, chega-se ao fim da viagem. Há
que subir as escadarias das vielas driblando as fezes caninas, os
buracos e as rachaduras dos degraus com passos largos, pois são
degraus altos demais. Para os idosos e crianças menores, deve
ser uma tortura voltar para casa.
Quando cheguei à casa de Henry, tive três surpresas. A
primeira, foi porque não tive um enfarto; a segunda, foi porque
a porta da casa dava para o teto, onde me informaram que estava sendo
construída a sala; e a terceira, foi porque estava sendo
esperado por nove pessoas. Henry reuniu vizinhos para falarem comigo.
Esperavam-me todos bem vestidos. As mulheres, discretamente pintadas,
de vestido; os homens, com calça e camisa social. Fizeram fila
para me cumprimentar, dizendo, cada um, seu nome. E havia,
também, uma "parrillada" assando.
Depois das apresentações, enquanto comíamos,
expliquei aos presentes o motivo de minha visita. Contei-lhes que
estava havia quase uma semana na Venezuela e não encontrava quem
se dissesse satisfeito com o governo do país e, sobretudo, quem
me dissesse por que não estava satisfeito, pois nenhum dos
insatisfeitos, até então, soubera expressar motivos
particulares para sua insatisfação. Falavam de
razões políticas ou ideológicas, mas nunca de
alguma medida de Chávez que lhes tivesse piorado a vida.
As pessoas se entreolharam e se perguntaram quem falaria primeiro.
Antes que alguém se dispusesse a começar, porém,
pedi que me dissessem se algum entre eles era filiado a partido
político. Negaram peremptoriamente. E disseram-me que eu poderia
sair batendo de casa em casa e perguntando o mesmo a cada pessoa do
“barrio” para ver se não obteria as mesmas respostas que me
dessem. Perguntei se não havia antichavistas nos cerros.
Confabularam.
-- ¿Quién es escuálido, aca?
-- Creo que Mercedes es...
-- Si, Mercedes... ¿Quiere que la llame, señor Guimaraes?
Recusei a oferta explicando que já tinha ouvido
“esquálidos” demais. Aliás, vale explicar que
“esquálidos” é a forma que o povo chama os
anti-Chávez.
Os vizinhos de Henry me deram vários motivos, cada um, para
apoiarem o que chamam de “O Processo”, a dita Revolução
Bolivariana de Cháves, mas vou reproduzir apenas uma
razão por pessoa, porque não consegui anotar tudo.
· Alvaro, 53,
pedreiro, relata que é colombiano e vive na Venezuela há
30 anos e só depois que Chávez chegou ao poder conseguiu
nacionalizar-se, a fim de obter direitos de cidadão venezuelano,
tais como ter acesso a programas sociais, aposentadoria, atendimento
médico etc. Relatou que, antes de Chávez, quando os
partidos Copei e Acción Democrática se revezavam no
poder, só quem pagasse conseguia nacionalizar-se. E custava caro.
· Gladys, 59, dona de
casa, revelou que é cardíaca e precisa passar sempre por
um médico, mas que antes de Chávez só havia
cardiologista nos hospitais da cidade baixa, o deslocamento era
difícil, as filas de espera demoravam meses. Agora, com as
“misiones”, tem o módulo de médicos cubanos a 10 minutos
de caminhada de sua casa e pode ser atendida sempre que
necessário. E mostrou-me os vários módulos que
podem ser vistos do teto da casa de Henry. São silos verdes de
dois andares. Os médicos moram em cima e têm seus
consultórios embaixo.
· Mariela, 36, caixa
de supermercado, tem dois filhos, um de 12 anos e outro de 5. Antes de
Chávez, não havia creches. Ela pagava uma vizinha para
cuidar do filho mais velho. Hoje, esse garoto está numa das
escolas bolivarianas, nas quais os alunos estudam das 8 às 16
horas, e deixa o filho de 5 anos numa creche do governo, na qual o
menino tem atividades pré-escolares, alimentação e
cuidados médicos, quando necessários.
· Lourdes, 67 anos,
aposentada, estava cega pela catarata. O governo Chávez a enviou
a Cuba com todas as despesas pagas. Foi operada, recebeu óculos
e tem oftalmologista todos os meses para acompanhá-la.
· Maribel, 30,
auxiliar de escritório, também é colombiana –
há muitos colombianos vivendo na Venezuela. Vive no país
desde os 11 anos. Não conseguia emprego porque não
conseguia terminar o ensino médio. Como era estrangeira,
não tinha direito a vaga em escola pública. Com o governo
Chávez conseguiu a cidadania venezuelana e, assim, conseguiu
voltar a estudar.
· Tomas, 44,
tapeceiro, vive sozinho. Não tem tempo de cozinhar e não
tinha dinheiro suficiente para almoçar fora. Hoje, utiliza as
“casas alimentarias” do governo, restaurantes populares nos quais
almoça de graça e ainda lhe dão um lanche para
comer à noite.
· Ariel, 62 anos,
aposentado, diz que hoje recebe sua aposentadoria em dia, depositada em
sua conta bancária. Antes de Chávez, relata que seu
benefício atrasava todos os meses e tinha que ficar em longas
filas para recebê-lo.
· Catia, 28 anos,
empregada doméstica, conta que a passagem de metrô
não aumenta de preço há pelo menos uns três
anos, apesar da inflação. E o salário
mínimo, que está em 700 mil bolívares (mais ou
menos 300 dólares), aumenta todo ano.
· Juan, 46 anos,
é operário em uma fábrica de tubos e
conexões. Conta que a empresa na qual trabalha costumava atrasar
salários, não depositava corretamente os encargos sociais
dos empregados, mas agora, com Chávez, a empresa que não
depositar em dia as obrigações trabalhistas ou que
atrasar salários não consegue dólares para
importar matérias-primas ou qualquer outra coisa, graças
à centralização do câmbio. Nunca mais o
salário de Juan atrasou e os encargos sociais dos
funcionários estão sempre em ordem.
Da varanda – ou do teto – da casa de Henry, tem-se uma visão de
Caracas que, junto com os depoimentos dos habitantes da periferia,
permite entender por que Chávez vem ganhando sucessivas
eleições por margem tão expressiva. A Caracas da
classe média é uma ilhota cercada de um mar de morros,
com uma constelação de “viviendas” como a de meu
anfitrião. Para cada caraquenho anti-Chávez deve haver
uns três que são capazes de matar ou morrer por ele.
Mas fiquei intrigado com uma coisa. Não era possível que
essa gente não tivesse queixas do governo. Disse-lhes que,
apesar dos pesares, esses programas sociais que me citaram existem no
Brasil. Talvez não tão efetivos ou abrangentes, mas o
fato é que não constituem novidade a ponto de levar as
pessoas a endeusarem assim o governo. A resposta que me deram foi a de
que talvez no Brasil os programas chavistas não fossem novidade,
mas na Venezuela, eram. Antes de Chávez, no tempo em que os
partidos de direita Acción Democrática e Copei
revezavam-se no poder, aquela gente toda só recebia uma coisa do
Estado: desprezo.
Assim mesmo, não me satisfiz. Disse-lhes que, apesar de tudo o
que me disseram, deveria haver críticas ao governo. Eles
pensaram um pouco e o próprio Henry disse que tinha
críticas. E todos foram unânimes em concordar com elas.
Vamos às críticas de Henry.
· O governo
Chávez obriga determinados servidores públicos a
participarem de suas marchas contra as da oposição e da
mídia.
· Alguns produtos
tabelados costumam “desaparecer” e só podem ser comprados
com ágio.
· Há
reclamações das constantes convocações de
redes nacionais de rádio e televisão que Chávez
faz, pois são chatas.
São críticas contundes, comentei com meus interlocutores.
Perguntei-lhes se não achavam que, então, a
oposição e a mídia tinham alguma razão nas
críticas que fazem ao governo. O que me responderam foi que
podem até ter alguma razão, mas outros governos tinham
defeitos muito piores e não lhes davam nada. Eram totalmente
abandonados pelo Estado. Disseram-me que o segredo de Chávez
para ganhar o coração dos venezuelanos é o de lhes
ter devolvido o que haviam perdido havia muito tempo, a
esperança.