"Los cerros contestarán"
EDUARDO GUIMARÃES (18/08/2007)
http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2007-08-12_2007-08-18.html
Viajei à Venezuela levando na bagagem mental uma pergunta que me
permitiria entender por que o país se dividiu politicamente (em
partes desiguais) de maneira tão visceral. A pergunta, fiz a
pelo menos umas duas dezenas de pessoas, entre as quais as que
já citei em textos anteriores, quais sejam, o motorista de
táxi que me trouxe do aeroporto de Caracas ao hotel em que me
hospedei, um engenheiro que conheci no vôo entre Caracas e
Barquisimeto, um dos recepcionistas do hotel em que estou hospedado, o
dono de uma banca de jornal em frente ao hotel, vários clientes,
seus empregados e todos aqueles com os quais tive oportunidade de tocar
num assunto (política) que apaixona, divide e, por vezes,
enfurece os venezuelanos.
Trata-se de uma pergunta muito simples, mas, a despeito de sua
simplicidade, até agora ninguém ma respondeu
satisfatoriamente. Qual é essa pergunta? É a seguinte:
O que mudou em sua vida, para melhor ou para pior, depois que
Chávez assumiu o poder?
Deveria ser simples responder a uma questão como essa. Quem
apóia ou repudia um governo deve ter, na ponta da língua,
os motivos para tanto. A despeito disso, só o que obtive foram
evasivas e frases feitas. Isso se explica, talvez, pelo fato, que
já relatei, de que, até ontem à noite, não
havia conseguido localizar um único chavista convicto. Quem mais
se aproximou de tal foi o diretor da primeira empresa que visitei na
Venezuela, Alfredo, que, apesar de não ser chavista, de
não ter votado por Chávez, não encampa a
paranóia dos que repudiam o governo venezuelano e, sobretudo,
seu titular.
Deram-me razões políticas para detestarem Chávez.
Deram-me medo de que ele converta a Venezuela numa grande Cuba.
Deram-me raiva da língua ferina do presidente. Pessoas que
estão longe de ser elite, pois são de classe média
baixa, deram-me, até, razões de seus patrões para
não gostarem de Chávez. Imaginem que, na quarta-feira,
visitei uma empresa na cidade de Valencia, a três horas de
ônibus de Caracas. Depois da reunião, o gerente de compras
daquela empresa me deu carona até o terminal rodoviário.
No caminho, perguntei a ele sobre o governo, ouvi que o detestava e,
então, perguntei se nem uma medida como a redução,
de oito para seis horas diárias, da jornada de trabalho, o havia
agradado, pois ele trabalharia menos ganhando o mesmo salário. O
que ouvi? Preocupação do sujeito com o bolso de seu
patrão, que é dono da única concessionária
Mercedes Benz da cidade, e que, como constatei, ganha dinheiro a rodo.
Mas tudo mudou na noite de ontem.
Como lhes disse, pretendo aproveitar o fim de semana para localizar os
que apóiam o governo Chávez. Pretendo ouvir essa parcela
majoritária dos venezuelanos que elegeu, reelegeu, re-reelegeu e
re-re-reelegeu o presidente Venezuelano nos últimos oito anos.
E, como também já havia dito, fui informado, pelos
anti-Chávez com quem venho conversando, que essas pessoas vivem
nos morros que circundam Caracas. Aliás, segundo novas
informações que obtive, pelo menos 80% dos caraquenhos
vivem na miríade de morros que abraça a capital
venezuelana. São morros como Petare, El Valle, 23 de enero,
Catia e Pro-Patria, entre muitos outros.
Fui alertado – e comentei isso com vocês – de que é
perigoso ir aos morros caraquenhos. Seria, mais ou menos, como um
turista estrangeiro subir sozinho ao Complexo do Alemão, no Rio.
Nem Jesus Cristo seria capaz de me fazer – justo eu – vir à
Venezuela e não ouvir o que tem a dizer o povo, o povo
verdadeiro, aquele que vive na América Latina real, que sofre
toda sorte de privações, humilhações,
carências imensuráveis e que é tão
cruelmente explorado e subjugado por uma elitezinha malvada,
egoísta, arrogante. Contudo, é preocupante um
estrangeiro, alguém que a nacionalidade diferente salta aos
olhos, embrenhar-se em bairros pobres e violentos da periferia de uma
grande cidade do Terceiro Mundo. Em vista disso, passei o dia de ontem
preocupado em como fazer a minha “reportagem” de forma
responsável, ou seja, com um mínimo de segurança.
A sorte me sorriu. Como sou alguém dado a um certo misticismo,
acredito que, talvez, o destino queira que eu obtenha o que busco, a
fim de levar ao nosso país informações que lhe
são sonegadas por seus meios de comunicação, de
forma que, num trabalho de formiginha, eu possa contribuir para a
tão necessária integração latino-americana.
O que aconteceu foi que, entabulando a mesma conversa sobre o governo
com o recepcionista do hotel que faria o plantão na noite de
ontem, achei o primeiro cidadão venezuelano que apóia o
governo.
Henry é um homem de uns 45 anos, de olhar severo, tem pele
escura, é calvo, usa um cavanhaque ralo, pesa uns 60 quilos e
não mede mais do que 1,60 m. Quando lhe disse que, até
aquele momento, não havia encontrado um só apoiador de
Chávez, perguntou-me por que queria encontrar um. Expliquei-lhe
sobre meu blog, sobre minhas convicções. Seus olhos
brilharam. Perguntou-me, então, a que partes eu estava indo para
não encontrar nenhum dos muitos que apóiam o que chamou
de “o processo”. Ao saber da natureza de minha viagem ao seu
país, disse-me o que eu já sabia, que os que aprovam o
governo não seriam encontrados na cidade baixa, apesar de muitos
deles trabalharem nela, pois é comum, neste país, que os
patrões demitam chavistas que manifestam com
freqüência suas convicções políticas.
Assim sendo, muitos deles não assumem tais
convicções.
O homem, apesar de não ser militante de partido político,
mostrou-se impressionantemente politizado para um simples recepcionista
de hotel. Fala bem, é objetivo e soube responder à
pergunta que, até então, ninguém havia me
respondido. Revelou que o que mudou em sua vida, por exemplo, é
que ele, depois de passar décadas com os dentes apodrecendo,
hoje ostenta uma saudável dentição porque uma das
missões de Chávez disponibiliza à comunidade em
que vive nada mais, nada menos do que oito dentistas. Exibiu,
sorridente, sua dentição impecável enquanto me
contava de como está, depois de uma vida inteira, finalmente
conseguindo ampliar a casa em que vive com sua família, tudo
graças a subvenções do governo federal.
Mas então, Henry, por que todas essas pessoas de classe
média baixa, com as quais conversei, não estão
satisfeitas? Diante de pergunta tão intrigante e relevante,
Henry me propôs o que eu já ia lhe pedir:
-- Hagamos lo siguiente, señor Guimarães : ¿que le
parece si lo invito a conocer mi barrio, a hablar con la gente y,
después, lo invito a un almuerzo en mi casa? Ahí, vas a
saber lo que pasa, por que algunos no valoran lo que hace el gobierno.
Yo lo llevo a mi casa, lo conduzco a hablar con la gente, le presento
amigos, parientes, lo llevo a una misión de Chávez y le
voy a probar que millones de venezolanos matan o mueren por el sin
pertenecer a ningún partido, solamente por gratitud por todo lo
que el ha hecho por este pueblo, que esos que insultan al presidente
nunca lo hicieran cuando gobernaran.
Perguntei a Henry sobre segurança. Ele me disse que falta de
segurança há em toda parte, mas que ele não me
deixaria só nem por um minuto e que morreria antes que deixasse
me acontecer alguma coisa, ainda mais sendo eu alguém que se
dispõe a misturar-se com sua gente para levar a um país
“hermano” a verdade sobre a Venezuela.
Devo lhes dizer que fiquei emocionado. Com a voz embargada, com os
olhos úmidos, aceitei a oferta. Amanhã, domingo,
às sete da manhã, quando terminar o turno de Henry na
portaria do hotel, tomaremos o metrô, depois o que ele disse ser
um “jipe” coletivo e subiremos ao morro Pro-Patria, onde o
recepcionista vive. E irei sem medo, pois estou obedecendo minha
consciência, meus princípios cristãos, munido da
melhor das intenções, impulsionado por este desejo
ardente, que me consome, de contribuir, de fazer minha parte para que
esta parte do mundo, um dia, torne-se menos desumana, menos injusta,
mais civilizada.
O morro, o “cerro” Pro-Patria, pobre, carente, humilde,
responderá à simples pergunta que trouxe à
Venezuela e que nenhum dos “bem informados” e “esclarecidos”
anti-chavistas souberam responder.