Entender a Venezuela
EDUARDO GUIMARÃES (15/08/2007)
http://edu.guim.blog.uol.com.br/arch2007-08-12_2007-08-18.html
Escrevo depois de já estar há alguns dias na Venezuela.
Nos últimos dias, comecei a formar uma visão menos
maniqueísta da realidade complicada que vige neste país.
É essa visão que procurarei transmitir a vocês, na
tentativa de fazer as pessoas em nosso país entenderem que
apoiadores e críticos do governo de Hugo Chávez deveriam
adotar uma cautela incomensuravelmente maior em relação
ao que a intolerância e a total ausência de bom senso
vêm produzindo na sociedade com a qual estou tendo contato.
Fazia alguns anos que não vinha à Venezuela. Não
conhecia o novo prédio do aeroporto Simon Bolívar –
Marquetia, destinado aos vôos internacionais. Moderno, amplo,
já mostra ao visitante que chega ao país que a Venezuela
atravessa um momento de expressivo incremento de sua economia. O
dinheiro, na Venezuela, está literalmente jorrando, junto com o
petróleo que brota do chão em abundância e permite
aos venezuelanos encherem o tanque de seus carros com 2 ou 3
dólares, dependendo do tamanho do veículo.
Apesar do endurecimento das leis que o governo Chávez vem
promovendo, não encontrei maiores dificuldades na
imigração ou na alfândega. Os procedimentos e
regras são iguais aos de qualquer outro país.
Comecei minhas investigações sobre o ânimo
político do povo venezuelano já no táxi que me
conduziu do aeroporto até a região de Chacao, no centro
de Caracas. O veículo era um Chevrolet Impala com dois anos de
uso. Um carro luxuoso, espaçoso e, por certo, caro. Faz, no
máximo, uns 6 quilômetros por litro de gasolina, mas, na
Venezuela, o consumo de combustível não faz
diferença.
Como vocês devem ter previsto, mal a viagem de táxi
começou e eu já puxei assunto com o motorista sobre
política. Ele se chama Giovanni e tem 52 anos. É branco,
loiro, baixinho e com um bigodinho meio cômico. Porém,
mostrou-se muito simpático. E, perguntado sobre política,
desandou a falar.
Para minha surpresa, um motorista de táxi, alguém que
está longe de ser rico, da “elite”, mostrou um ódio a
Chávez que poucas vezes vi. Disse, só para
começar, que o único jeito de tirá-lo do poder
será assassinando-o. Aliás, essa “solução”
mostrar-se-ia cada vez mais popular entre a expressiva maioria dos
venezuelanos com os quais falei sobre política nos três
primeiros dias de minha viagem.
Giovanni, o motorista de táxi, revelou-me o que eu encontraria
pela frente. Disse que pelo menos uns 90% dos venezuelanos pensam como
ele. Perguntado por mim sobre como seria possível isso, haja
vista em que Chávez acaba de ser reeleito por esmagadora
maioria, argumentou, primeiro, que a última
eleição, bem como todas as outras que o presidente vem
ganhando há anos, foram fraudadas. As urnas eletrônicas
seriam manipuladas pelo governo, pelo CNE (Conselho Nacional
Eleitoral), que seria controlado por Chávez. Argumentei,
então, que centenas de observadores internacionais avalizaram a
lisura dessas eleições. Giovanni, visivelmente
contrariado e até surpreso por ouvir alguém com “pinta”
de homem de negócios “defender” o odiado “índio”
Chávez, disse-me que o poder do presidente é muito grande
por causa do petróleo e, por isso, ele cooptou os tais
observadores. Perguntei, então, sobre o fato de que até
os EUA reconheceram a vitória de Chávez. O sujeito ficou
meio sem saber o que dizer e achei melhor não acuá-lo,
pois estava ficando muito nervoso.
Perguntei, então, sobre a tentativa de golpe de Estado de 2002,
se ele havia participado das manifestações contra o
governo e se continua participando. Ele disse que sim. Ele, sua
família, amigos etc. Mas garantiu-me que não houve golpe
algum. Que, como a população havia se levantado contra
Chávez, ele decidiu renunciar – ou fingir que renunciaria – para
simular, depois, que teria havido tentativa de golpe e se fazer de
“vítima”. Perguntei por que o documento que Chávez teria
assinado renunciando não tinha sido mostrado na tevê. O
homem voltou a se enervar e decidi parar de novo.
Antes de terminar a viagem, ainda tentei saber de Giovanni que
prejuízo tão grande o governo Chávez lhe tinha
acarretado para ter tanta raiva dele. O taxista havia me contado, antes
de abordarmos o assunto política, que vem trocando de carro a
cada dois anos, comprando sempre um carro zero, e que a gasolina, os
derivados de petróleo em geral estão cada vez mais
baratos e que, na Venezuela, ser taxista é um bom negócio
por causa dos preços dos combustíveis. Então
não resisti e insisti: por que você odeia tanto
Chávez?
O taxista começou a desfiar um rosário de razões
que nada tinham que ver com ele mesmo. Falou da
centralização do câmbio, das
estatizações das companhias de eletricidade, de telefonia
e até do teleférico moderníssimo que liga Caracas
ao alto de um dos morros que circundam a cidade, que foi
construído por uma empresa francesa - provavelmente a mesma que
administra o teleférico de Quito, no Equador. E também
explicou que teme o socialismo do século XXI que Chávez
diz que implantará na Venezuela, ou seja, teme perder sua casa,
seu carro, os poucos bens que amealhou numa vida inteira de trabalho.
Em suma: teme que a rica Venezuela se transforme numa Cuba.
Gastei todo esse espaço com o taxista Giovanni porque o
discurso, as razões dele para se opor tão ferrenhamente a
Chávez, para participar de manifestações que
sempre trazem risco de terminarem em violência e morte, eu
ouviria coisas iguais de um engenheiro, de um recepcionista de hotel,
do dono de uma banca de jornal, de uns três clientes meus e acho
que continuarei ouvindo o mesmo de todas as pessoas da “cidade baixa”,
que, por menos que tenham, têm o que perder se a Venezuela adotar
o socialismo cubano, abolindo a propriedade privada.
A Venezuela, porém, esta sendo claramente bem administrada. O
país tornou-se um enorme canteiro de obras públicas, a
economia está “bombando” de uma forma impressionante, a
construção civil, a agricultura, uma indústria
mais sofisticada – como a de meu segmento, autopeças -
está florescendo devido a proteções
alfandegárias que estão sendo impostas num claro processo
de substituição de importações... Só
para ficar no meu segmento, já se fabrica aqui tambores de
freio, filtros de ar e muito mais. Está surgindo um país
algo industrializado no lugar daquele que sempre viveu do
petróleo.
Entender a Venezuela, então, começou a se tornar mais
difícil. Por que a classe média – alta e baixa – odeia
tanto Chávez? Esse dilema perdurou até que, ontem,
eu visitasse um cliente da cidade de Barquisimeto, a uma hora de
avião de Caracas.
O motorista da empresa me esperava no aeroporto. Fomos conversando. O
rapaz, José Morales, contou-me que não se mete em
política. Que não entende bem o que está
acontecendo no país e que prefere não dar palpite.
Só disse que está feliz porque conseguiu trabalho
há três anos e que é isso o que lhe importa, e que
deixa a política para quem “gosta”.
A surpresa viria de onde eu menos poderia esperar. O diretor comercial
da empresa que fui visitar é um negro alto, de 37 anos. Alfredo.
Simpático, inteligente, bem vestido. Sua sala, muito bem
montada, com frigobar, televisão e com móveis de
escritório de diretor mesmo. Mesa de tampo de granito,
computador com um gigantesco monitor de cristal líquido,
quadros, tapetes...
Serviram-me café, água e tratamos de negócios.
Quase caí da cadeira quando o sujeito me apresentou sua proposta
de importação dos produtos que comercializo. O tamanho do
pedido que estaria disposto a fazer se eu aceitasse seus termos
(preço, prazo de pagamento etc.) era alto até mesmo para
os parâmetros de negócios no Brasil. Claro que as
exigências não são fáceis de atender, mas
elas se devem ao poder de compra da empresa. Assim sendo, fiquei de
responder a proposta posteriormente. Fui, então, convidado a
conhecer a empresa. Os estoques aéreos (sistema paletizado), os
galpões forrados de mercadorias até os tetos - que
ficavam, pelo menos, a uns quinze metros de altura. Empilhadeiras.
Caminhões de entrega. Funcionários e mais
funcionários, todos uniformizados...
Fomos almoçar, depois de uma manhã inteira trabalhando
duro. No restaurante, pensei duas vezes antes de abordar o assunto
política. Afinal, além de correr o risco de me tornar
antipático para alguém com quem estava tentando fazer
negócio, que mais eu poderia esperar de um executivo de uma
empresa como aquela se não que reproduzisse o discurso do
taxista?
Enganei-me. Muito. Expus ao executivo Alfredo minha
incompreensão sobre por que uma sociedade que está
enriquecendo e se desenvolvendo odeia tanto aquele que está
promovendo esse sucesso todo. Meu interlocutor assumiu um ar meio
confidencial. Ele, bem como o presidente e toda diretoria da empresa
acreditam cada vez mais na Venezuela, tanto que essa empresa vai
investir mais de dois milhões de dólares até o fim
deste ano. Não existe o menor medo de “cubanização
“ do país. Então, Alfredo me explicou por que outras
empresas, a classe dirigente que está ganhando dinheiro como
nunca, incita o medo da classe média baixa, arrastando-a
às ruas e apoiando o golpismo da mídia e da
oposição.
“Esta empresa, Eduardo, trabalha estritamente dentro da lei. Veja que
não teremos dificuldade nenhuma de importar de vocês ou
seja lá de quem for. Com centralização do
câmbio e tudo mais. Pagamos nossos impostos rigorosamente em dia,
pagamos corretamente os direitos trabalhistas de nossos
funcionários e lhes damos os benefícios trabalhistas que
o governo exige. Então, não temos problemas. Agora,
empresas que estavam acostumadas a poupar para si dinheiro de impostos,
a prejudicar seus empregados, a mandar dinheiro para fora do
país, essas estão com problemas. Para nós,
não haverá ‘cubanização’ alguma.
Haverá o que há nos EUA, na Alemanha, na Inglaterra...
Teremos, todos, que trabalhar dentro da lei ou o Estado nos
quebrará”
Alfredo contou-me que não votou na última
eleição presidencial porque estava fora do país,
mas, se votasse, não votaria em Chávez, porque, com ou
sem ele, o caminho de progresso da Venezuela tornou-se
irreversível – graças a Chávez. Assim, sem
Chávez no poder, talvez sobrevenha uma pacificação
da Venezuela, ainda que tema a reação das classes baixas,
aqueles que pessoas que vêm à Venezuela tratar de
negócios dificilmente vêem, pois estão nos
morros que circundam Caracas, por exemplo, trabalhando nas “misiones”
chavistas, enfim, são aqueles que nada têm a perder com ou
sem “cubanização”.
Segundo Alfredo, a resposta à minha dúvida sobre por que
uma classe média que está sendo beneficiada
economicamente se atira com tanta fúria contra o indutor desses
benefícios, é a de que essas pessoas têm medo. Tudo
se resume a medo do desconhecido. Medo por parte de empresas que
só cresceram às custas da sonegação, da
corrupção e da exploração dos empregados.
Medo de não conseguirem se manter sem esses “instrumentos”. E
medo da famigerada “cubanização “, de mesmo pessoas que
só tem uma casinha e um carrinho perderem o pouco que têm.
Por isso, quem apóia Chávez são aqueles que nada
têm a perder. Esses não têm medo de nada além
de continuarem como ainda estão, apesar de estarem melhorando
devagarzinho
Ainda tenho uma semana aqui na Venezuela, a partir de amanhã.
Quero saber mais. Quero falar, também, com os satisfeitos.
Só terei que ir aos morros. Mas penso que já entendi o
que está acontecendo na Venezuela. Espero que tenha sido claro o
suficiente para vocês entenderem também.
Volto assim que for possível, que agora tenho que defender meu
ganha-pão.