Ao  movimento sindical combativo:

acerca da CSC e da CUT.

Secretaria Sindical Nacional da Tendência Marxista [*]
O anúncio sobre a saída da Corrente Sindical Classista da CUT não podia deixar de causar  perplexidade. Afinal, a CSC – segunda maior força política atuante na central - vem cumprindo um papel decisivo na construção desta. Sabemos que um dos princípios que marca a sua política sempre foi a defesa intransigente da unidade sindical.

E é precisamente esse fato que inevitavelmente nos leva a perguntar: que motivos poderiam ter conduzido a CSC a tomar esta posição que choca com estes princípios da unidade? O principal motivo apresentado pelos companheiros da CSC é a falta de espaço na CUT. Renato Rabelo, presidente nacional do PC do B, afirmou em entrevista ao jornal “O Globo” que a CUT “deixou de ser uma entidade plural, para ser um aparelho de uma das tendências do PT, a Articulação Sindical. Não há transparência no uso dos recursos da entidade. A convivência ficou difícil e complicada.”
 
Diante dessa justificativa queremos expressar algumas opiniões que, esperamos, contribuam não apenas para reflexão desta decisão, mas principalmente para mudar as circunstâncias que a motivaram: o hegemonismo da Articulação sindical. As críticas de Renato Rabelo são decerto muito graves. Infelizmente, elas não foram objeto de debate nas instâncias da CUT. Mas deveriam ter sido. E devem ser discutidas, se queremos evitar que situações como esta continuem... e se aprofundem.
 
Os problemas relacionados às relações internas da CUT são, de fato, um obstáculo que tem causado prejuízos à Central e, principalmente, à luta unitária dos trabalhadores. Mas não são problemas recentes. Sempre existiram. Contudo, duas ponderações fundamentais merecem ser feitas. Primeiro, como podemos resolver essa situação? A saída da CUT será a solução? Segundo, tal problema justifica uma decisão de sair da CUT e fundar uma outra Central? Serão esses problemas tão graves a ponto de se sobreporem aos grandes desafios da luta de classes e do papel que a CUT está chamada a cumprir no atual período? Para nós, a resposta a estas questões é ‘não’. Acreditamos que problemas de democracia interna, de relações entre as forças, devem ser resolvidos esgotando a luta política interna e não desligando-se da Central. Há espaço para isso.
 
A saída seria um recurso extremo, ao qual só se poderia recorrer após um amplo debate interno. Mas, até o momento, ele ainda não foi realizado de maneira transparente e ampla. Se as dificuldades de convivência chegaram a tal ponto, o mais coerente seria abrir esse debate envolvendo o conjunto das entidades e sindicalistas filiados à CUT. Esgotar ao máximo todas as possibilidades, pressionando a atual maioria da CUT a mudar seu sentido estratégico de alianças no movimento sindical e popular. De fora para dentro e de dentro para fora. Realizar este debate junto aos partidos de esquerda, buscando auxílio para a compreensão exata acerca de quais interesses estão em jogo no Brasil e América Latina é uma necessidade histórica, para que as forças populares tenham a dimensão do seu peso e não contribuam para a desagregação e a desarticulação da luta antiimperialista.
 
Quem ganha e quem perde com o aprofundamento da pulverização do já pulverizado movimento sindical brasileiro? Quem pode estar patrocinando e mesmo “forçando” tal divisão no seio da classe trabalhadora e quais mecanismos estão sendo utilizados para isto? Esta é uma reflexão necessária, pois se contribuímos para a dispersão não estamos contribuindo para a unidade.

Também não acreditamos que problemas de convivência possam se sobrepor aos interesses da classe trabalhadora, por pior que sejam. Mesmo que o nível de degeneração nas relações internas tenha chegado a um ponto insuportável (e não acreditamos que seja esse o caso, embora reconheçamos os problemas de convivência), os interesses de classe, a necessidade de fortalecer o grande instrumento de luta dos trabalhadores, devem prevalecer. E foi esse o argumento que os diversos companheiros levantaram para condenar a saída de sindicalistas que fundaram a Conlutas e a Intersindical.Embora os setores “duros” da atual maioria chegaram a comemorar: “já vai tarde” .
 
Ampliando a pulverização
 
A decisão da CSC, caso seja consumada, será mais um capítulo na recente história de divisão e pulverização da classe trabalhadora brasileira. A formação da Conlutas e da Intersindical não trouxe ganhos para a classe. Muito pelo contrário. À parte diferenças políticas entre essas organizações e a CUT, que diferença qualitativa podemos perceber do ponto de vista da luta sindical? Nenhuma.  A luta de classes tem demonstrado historicamente que a partidarização do movimento não traz nenhum ganho, só enfraquece a luta dos trabalhadores. O isolamento e a pulverização não somam. Só subtraem.
 
Sabemos que essa fragmentação é um reflexo de uma conjuntura política extremamente complexa, que deflagrou nos últimos anos uma dinâmica de desagregação política, de atomização das forças em uma escala que não vimos antes. Podemos dizer que estamos presenciando um processo de desconstrução das enormes conquistas que a classe trabalhadora logrou com a sua luta.
 
E uma das conquistas mais grandiosas foi, sem dúvida, a fundação da CUT, em um Congresso histórico que contou com 6 mil delegados de todo o país que, além das dificuldades materiais, desafiaram abertamente a ditadura militar e a sua legislação anti-operária, para construir a Central que é, ainda, na nossa opinião, uma das mais importantes centrais sindicais do mundo.
 
É esse patrimônio político que está sendo pulverizado por problemas de falta de democracia e pelas posturas hegemonistas da atual maioria. Poderíamos  fazer um paralelo com a Cosatu da África do Sul.
 
No Brasil, a CUT também se transformou. Contradições se avolumaram, e com elas as tensões internas que levaram à saída de milhares de militantes combativos e classistas. Para nós, essas saídas tiveram um impacto profundamente negativo, e deveriam ter sido evitadas. Mantemos a nossa posição crítica em relação à decisão daqueles companheiros de deixaram a CUT, mas também sustentamos uma crítica maior aos companheiros da atual maioria da CUT que, ao invés de fazer o máximo de esforço para que a Central se mantivesse unida, simplesmente cruzaram os braços. No caso atual, parece que alguns a promovem secretamente.
 
Estes são tempos difíceis para todos nós. Reconhecemos que a luta dos trabalhadores passa por uma situação de grandes dilemas e impasses. Como já afirmamos, uma situação marcada pela fragmentação e divisão do movimento sindical combativo. Mas a solução dessa situação passa principalmente pela superação desse quadro, e não do seu aprofundamento. Em outras palavras, a solução está na construção da unidade, e não numa maior fragmentação. Reconhecemos também que a nossa Central tem problemas, dentre os quais os relacionados à democracia interna. Mas esses problemas devem ser enfrentados politicamente e devem ser debatidos amplamente com urgência, envolvendo o conjunto da Central. A saída da CUT não é uma solução, mas um fator que agravará esses problemas.
 
Reiteramos aqui o nosso apelo para que a atual maioria da CUT modifique as circunstâncias (democracia interna, diluição da vice-presidência, Congresso da CUT-BA, situação das eleições do sindicato dos Metalúrgicos de Volta Redonda, etc) que levaram a CSC a tomar essa posição, pois não cremos que o papel da CUT tenha se esgotado, nem que os problemas internos tenham atingido uma dimensão tal que não permitam a permanência na Central. Recentemente foi divulgada uma pesquisa de Márcio Porchman que mostra uma queda de 18% no nível de sindicalização no Brasil. Um fato que demonstra não só o efeito destrutivo do neoliberalismo, mas também uma crise do sindicalismo brasileiro, que desde 1991 ainda não conseguiu retomar um nível de mobilização e de lutas que caracterize um ascenso das lutas da classe trabalhadora.
Como marxistas não acreditamos em teses conspiratórias de “traição”. Não vemos o movimento apenas a partir das direções. Isso seria uma postura idealista. Sindicatos são organizações que refletem não apenas as políticas levadas adiante pelas suas direções, mas as mudanças que ocorrem na estrutura econômica e social e as suas conseqüências e reflexos na subjetividade da classe trabalhadora. O neoliberalismo impôs uma reestruturação produtiva que teve enorme impacto no perfil da classe trabalhadora brasileira. Causou desemprego massivo, modificou processos produtivos, eliminou profissões e criou outras novas. Só isso já seria o suficiente para gerar refluxo e desmobilização, além de queda nos níveis de sindicalização. Mas, além disso, há o ideário neoliberal que penetrou na consciência de setores consideráveis do proletariado, principalmente nos anos 90. A CUT tampouco passou incólume por esse período. Muitos sindicalistas se aproximaram de concepções parecidas com a do “sindicalismo de resultados”, objetivamente cooptados pela ideologia do individualismo e do salve-se quem puder. E suas conseqüências não foram apenas políticas, mas refletiram no nível da organização. Basta lembrar de propostas como o “pacto social” e o “sindicato orgânico”.

Muitos dos problemas que existem na CUT são produto desse período, desse processo de introjeção na Central de idéias estranhas à classe, quando não abertamente contrárias a ela. Enfrentar esses problemas significa realizar uma dura batalha política e ideológica. Uma luta de idéias, na qual certamente a CSC terá um papel decisivo a cumprir. Esperamos que estas observações e ponderações sejam levadas em conta pelos companheiros da CSC, com quem temos lutado ombro a ombro nestes anos. 


[*]
Secretaria Sindical Nacional da Tendência Marxista
Temístocles Marcelos - Membro da Executiva Nacional da CUT e da CN da Tendência Marxista;
Skake Martins- Executiva da CUT – MG
Domingos Braga Mota – FETRACE
Raimundo Muniz Séc. Sindical da TM/Ce. e Sindicato dos Têxteis do Estado do Ceará.
Antonio Ibiapino da Silva CUT/Ce.
Raimundo Ivan Bezerra da Silva Sindicato dos Comerciários de Fortaleza Ce.
Maria Helenice Pereira Coletivo de Gênero e etnia do Séc Fortaleza.
Sinval Ferreira da Silva FETRACE





Hosted by www.Geocities.ws

1