O ASILO
DAS ARTES

Recolher a arte abandonada, e dar-lhe cuidados
mínimos, ainda que fora do tempo. A realidade enlouquece a arte? Diante de um
crime passional – essa pérola do falso amor – como reage um poema, um filme, uma
escultura? Com qual arte me sinto pronto para enfrentar o passado? Aturdido,
faminto, encabulado, o artista perambula por recintos de seu espírito onde não
tem cabida a lei das proporções. Dissocia-se de si sem compreender o que está na
outra ponta do ser. Adicto do peditório, ele vegeta sem a caridade
institucional. Em busca de sua cota de esplendor. O mundo está assim dividido:
em cotas de esplendor. Quantos conhecemos: músicos, poetas, pintores? Que
oblíqua relação com a realidade eles evitam? Haverá um asilo para os que
abandonaram o mundo? Dar-lhes guarida? Então de que é mesmo feita a arte, senão
de um duro conhecimento das escarpas mais dilacerantes da existência? Prestar
assistência aos que se deixaram enlouquecer pela realidade? Farsantes,
ególatras, diluentes, serão todos recolhidos sob amparo do estado. Uma manobra
insuspeitada? Não, um grande olho. A arte não vai mesmo a parte alguma,
sozinha.
arte: hélio
rola / poema: floriano martins
fortaleza é
nossa debilidade