Modelo editorial colaborativo1
Este texto é uma adaptação do manifesto oficial do grupo
1 - Conceito
Editora, no sentido tradicional do termo, é uma instituição que ajuda a produzir e divulgar livros. Uma editora colaborativa é uma cooperativa de publicação caseira: pequenos grupos locais trocando informações sobre publicação e pouco a pouco montando pequenos “negócios”, sem chefes, sem centralizações, talvez até compartilhando seus trabalhos. É uma rede de pessoas que querem publicar seus livros, querem ver seus livros publicados em outras partes, e se dispõem a publicar livros de outras pessoas como forma de troca.
Uma editora colaborativa é formada por comunidades. Grupos de pessoas com capacidade de escrever se unindo a pessoas que utilizam técnicas de encadernação caseira para divulgar os trabalhos da rede aos leitores. É uma relação piramidal, polarizada em três atores principais: o leitor, o autor e o encadernador. O leitor compra livros para ler; o autor escreve os livros; o encadernador imprime o livro, encaderna e envia ao leitor. São atribuições dinâmicas, já que uma pessoa pode estar atuando ao mesmo tempo nas três posições: um escritor também lê obras de outros autores, e pode estar encadernando obras próprias ou de outrem.
Livros encadernados em casa podem soar um pouco estranho. Em uma sociedade de consumo o “fazer” perde efeito frente à sedução do “comprar”. Uma noção de qualidade está implícita na marca, associada ao conceito de indústria. Modelos de consumo formatados para arrecadar dinheiro, através de mercadorias pouco personalizadas, eis o nosso sistema oficial de produção. Não é a única saída. Alternativas ao tradicional não são tão caras, e nem sempre são difíceis de fazer. Nem tudo exige maquinário, exceto quando o grau de produção é elevado. A qualidade não precisa ser prejudicada: o fazer é uma arte que se desenvolve e se aperfeiçoa com a prática. Utilizando-se a técnica e a ferramenta certas e matéria prima confiável pode-se alcançar um grau satisfatório de confecção de produtos, capaz de atender aos requisitos de mercado. Encadernar um livro em casa é um processo prático, fácil e barato. O maquinário exigido é um computador com impressora ou os serviços de fotocópia de uma papelaria comum, mais uns apetrechos básicos e fáceis de achar. Nada complexo, nada caro; tudo encontrado em qualquer cidade, mesmo quando pequena. Depois de pronto, o livro caseiro não se torna inferior ao livro impresso numa editora convencional.
Uma editora colaborativa é a ponte entre os pontos da pirâmide autor-leitor-encadernador. É um lugar onde o leitor pode escolher e comprar os livros; é um lugar onde o autor pode exibir sua obra; é um lugar onde o encadernador pode ser solicitado para fazer seu trabalho. Feiras ao ar livre, sites de comércio eletrônico, redes sociais, lojas, catálogos; todo lugar onde se possa promover a livre comercialização de obras literárias, desde que as partes tenham autonomia para realizar seus negócios por espontânea vontade. Não há política editorial nem limites impostos; não há necessidade de vínculo efetivo ou contratos formais; não existe a obrigação de conceder direitos autorais a outrem. O autor é respeitado e reconhecido pela qualidade de seus textos, e é o responsável direto pela popularidade de sua obra.
A infraestrutura requerida para uma editora colaborativa é bastante simples. Basta um espaço para que o leitor encontre livros, mais um canal para contato com os encadernadores. A editora colaborativa não vende livros, apenas permite que os autores e encadernadores o façam. As negociações são feitas diretamente com o autor ou encadernador, sem a intervenção da editora. Os preços, as formas e prazos de pagamento são acertados entre as partes.
Há diversas formas de fazer com que este conjunto se transforme em negócios. O natural é que o leitor dirija-se ao espaço da editora, a fim de ver os livros que estão expostos. Via de regra, deve haver alguma forma de contato com o autor e com o encadernador, seja por presença no espaço físico ou por outro meio, como o número de telefone impresso em algum lugar visível e intuitivo. Ao se interessar pela obra, o leitor tem duas opções: aciona o autor, e solicita a obra diretamente a este, ou solicita a obra a algum encadernador. Se o leitor solicitar a obra diretamente ao autor, este deverá ter o livro formatado para impressão ou cópia, e pode ou não fornece-lo já encadernado, mas se encarrega de terceirizar o serviço aos encadernadores caso não possa faze-lo. Se solicita ao encadernador, este fará as negociações com o autor e entregará a obra pronta ao cliente (Neste caso, o encadernador recebe do leitor e paga ao autor o valor acertado). A editora poderá cobrar uma taxa para manter o serviço, já que a manutenção do espaço físico nem sempre é gratuita.
2 – Exemplos de editora colaborativa
A) Catálogos: produza um catálogo com as obras dos autores. Deve conter no mínimo o título da obra, o nome do autor, uma breve descrição do livro e o telefone de contato. Em anexo segue uma lista de encadernadores, contendo os preços de encadernação por página, os preços das capas, formas de pagamento, contato, área que atende. Uma breve descrição de como funciona o serviço pode ser acrescentada, para que os leitores não tenham dúvidas de como comprar.
B) Feiras: um exemplar de cada livro é exposto em banca ou stands, ou em cartazes afixados pelo local. O leitor escolhe o livro e ali mesmo fecha as negociações. A forma de encontrar os encadernadores deve ser acertada previamente, e pode ser através de indicação do autor, em um local específico da feira ou outro. Importante que o processo seja o mais rápido e desburocratizado possível, para que o cliente não fique chateado com o atendimento.
C) Internet: um site de comércio eletrônico, contendo um espaço para contactar o autor e um espaço para contactar os encadernadores. Opcionalmente, um espaço para publicação de e-book. É necessário uma ferramenta de busca de obras e de encadernadores. O cliente simplesmente acessa a página, usa a ferramenta de busca para encontrar o livro, e depois para encontrar os encadernadores mais próximos de sua residência. Os negócios podem se consolidar por e-mail ou através de ferramentas disponíveis no site. A entrega é feita por correios ou outro sistema de entregas qualquer.
D) Trocas: Os autores trocam obras entre si e vendem cada qual a obra do outro em sua região, em um sistema cooperativo. Os pagamentos dos direitos autorais são acertados previamente entre as partes.
E) Associação formal: Os autores institucionalizam uma parceria formando uma ong, associação ou cooperativa, e negociam através desta com pontos de venda a distribuição do livro, podendo ou não criar um selo próprio.
3 – Proteger ou desproteger uma obra
Os direitos autorais são resguardados pelas leis de copyright em praticamente todos os países. Numa editora convencional, são policiados pela instituição. Numa editora colaborativa o próprio autor deverá policiar sua obra. Para tanto, a maneira mais fácil é através de controle. Como sugestão, o autor poderá lançar mão de um número serial. Funciona da seguinte maneira:
1 – O autor precisa ter um cadastro de todas as pessoas autorizadas a distribuir sua obra;
2 – Sempre que houver uma venda, uma nova cópia da obra deverá ser solicitada ao autor;
3 – O autor gera, para cada solicitação, um número de série único e escreve no rodapé de cada uma das páginas. Depois imprime ou protege o documento contra escrita, dependendo da forma como este será enviado;
4 – O número de série é associado ao solicitante no cadastro do autor;
5 – Se houver suspeitas de cópia ilegal, é possível comprova-la através do número de série, e rastrear a origem.
Se o objetivo do autor é desproteger sua obra, jogando-a em domínio público, deve tomar cuidado com a legislação em vigor. Na forma da lei brasileira, é necessário que exista autorização por escrito do autor a todos os beneficiários, individualmente2. Uma forma de contornar este problema (não necessariamente eliminar) é publicar no rodapé de todas as páginas um texto rápido autorizando a cópia, e depois registrar o documento em cartório. Sua autoria fica resguardada, e o direito de os outros copiarem também. É comum usar contratos predefinidos (chamados de licença), principalmente quando a obra deve ser desprotegida.
4 – O que pode ser vendido
Livros
CD e DVD, como encarte (os modelos de distribuição são idênticos para livros e estas mídias)
Quadrinhos
Revistas
1Este texto foi montado contendo fragmentos de discussões da lista da editora livre (http://br.groups.yahoo.com/group/editora_livre/). Créditos a Anarcovírus, Dr. Gorilla, Eskimó e Janos Biro.
2Segundo a lei 9610, art 50 § 2, o documento deve conter tempo, lugar e preço. Por causa do art 56 é prudente também incluir a quantidade e edição.