Livros em uma concepção filosófica


A importância do ato de ler é de tamanha que o governo não cobra impostos sequer do papel utilizado para este fim, e muito menos do objeto confeccionado. No meio intelectual ou fora dele há consenso em aclamar a necessidade (cada vez maior) de leitura na sociedade moderna. Apesar de tanto prestígio, o hábito de ler é pouco difundido, e menos ainda a capacidade de entender com clareza o que está escrito.

Boa parte do desestímulo com relação à leitura pode ser creditada a deficiências no sistema educacional. Na outra ponta ficam os preços dos livros, quase sempre proibitivos. Ora, se o cidadão não foi estimulado a ler nos anos em que esteve na escola, também não lerá se tiver de encolher ainda mais o já apertado orçamento da família. Se por um lado estamos longe de possuir uma educação invejável, ao menos temos que nos esforçar para dar maior acesso aos livros.

Livros são um bem de fácil fabrico, que possui custo de produção viável e acessível (mesmo para quantidades de uma única unidade), requerendo pouco ou nenhum maquinário.

O entendimento geral, no entanto, aponta para custos altos e máquinas caras, com tiragens mínimas que variam de centenas a milhares de exemplares. No entanto, esta é a realidade apenas de uma editora operando em ambiente industrial, que pode ser superada razoavelmente por métodos de confecção artesanais. Um livro feito em casa pede como equipamento mínimo (na opção mais barata) tesoura e cola, e pode custar entre R$ 4,50 e R$6,001.

Apesar da facilidade de confecção e da qualidade ser aceitável, a produção artesanal não é uma prática difundida, a tal ponto em que não é considerada como opção. O autor desconhecido, após lograr inúmeras tentativas de ser “premiado” por alguma editora, sente-se incapaz de publicar e justifica-se no alto custo de uma tiragem independente, quando na verdade ele mesmo poderia fabricar seus próprios livros.

Além de criar oportunidades de acesso ao mercado literário para qualquer pessoa, se a confecção artesanal estiver voltada para dentro de uma comunidade pode trazer benefícios incalculáveis a todos. O autor, ao inserir-se no contexto de vivência do leitor, pode conhecer como ninguém suas necessidades e supri-las em termos de informação. Um autor que faça parte do meio tem espaço e legitimidade para fazer corpo-a-corpo e marketing boca a boca, que além de ser barato é ainda mais eficiente do que a divulgação voltada para todo o grupo, pois é feito de “gente da gente” e isto estimula a curiosidade. Uma vez que o leitor foi convencido a adquirir o bem, cedo ou tarde o lerá, mesmo que apenas em parte.

Neste processo, temos que o autor outrora distante agora é parte integrante do quotidiano e, portanto ente desmistificado. O “sentir-se capaz” fica exposto (se ele pode, eu também posso), sendo este sentimento a maior de todas as grandezas mobilizadoras da transformação social.

Por seus benefícios, e pelo potencial que possui (este impossível de ser completamente previsto e muito menos mensurado), o ato de confeccionar livros artesanais é uma ferramenta importante no desenvolvimento do potencial transformador das pessoas em um determinado ambiente, pois lida diretamente com o conhecimento, que é a matéria prima da emancipação. Por tanto é justo ensinar esta arte aos que nela se interessarem, a fim de plantar uma semente cuja árvore poderá dar frutos muito além dos esperados.


1 Exemplar com 100 páginas no tamanho 148,5 x 210 mm (comercialmente chamado de A5), capa em cartolina impressa a jato de tinta. A diferença de valor é devido à técnica escolhida para imprimir o miolo, que varia fortemente a depender da escolha.

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