Livro artesanal em um contexto econômico
O mercado editorial vigente está equivocado, pois se baseia na produção em massa de um bem com aceitação difícil de prever, já que mesmo autores renomados vez ou outra fracassam em público. Como conseqüência, as editoras buscam garantias em autores consagrados (negando espaço para os desconhecidos), e mantém-se no mercado dividindo o prejuízo entre os livros que vendem mais.
Ao analisar o custo de um volume feito artesanalmente, vemos ser capaz de fixar preço de capa compatível com o praticado no mercado, e ainda assim garantir algum tipo de lucro. Quando consideramos que os custos envolvidos são mais altos (aquisição de insumos em baixas quantidades, métodos de impressão mais caros, maquinário pouco eficiente, pagamento integral dos impostos – dos quais as editoras são isentas - etc), vinga a sugestão de que: a) o modelo editorial vigente é tão dispendioso que os custos com manutenção do próprio mercado superam as economias de produção em escala, ou b) que as editoras usam de má fé e cobram preços abusivos.
Optando por acreditar na idoneidade das empresas1 e na dinâmica competitiva do próprio mercado em punir os excessos (o que já teria corrigido por si mesmo os preços), temos como conseqüência que a forma de fazer negócios neste ambiente precisa ser corrigida. Certo ou não, ainda assim é mais do que viável economicamente a adoção de um sistema alternativo, além do que é mais democrático em oportunidades para todos os envolvidos e produz melhores resultados para a comunidade.
Em um contexto ideal, uma impressora a laser e um computador podem causar bons resultados (também pode ser impressora jato de tinta, mas o resultado não se equipara à laser). Numa hipótese mais econômica, usa-se um original que é copiado em máquinas “xérox”. A primeira hipótese obviamente gera a maior relação custo-benefício, e requer um investimento relativamente pequeno (sem mencionar que muitos lares já possuem um computador com impressora, o que implica em investimento zero).
O processo de confecção é feito livro a livro, o que insere vantagens adicionais, tais como:
Pequena margem de perdas, pois a produção é dimensionada em acordo com a procura;
Alto grau de personalização, pois cada exemplar pode ser formatado ao gosto do cliente;
Pequeno investimento inicial (se o computador não precisar ser comprado);
Baixo capital de giro;
Proximidade com o cliente, o que permite corpo a corpo e conteúdos mais específicos a cada caso.
O potencial econômico pode ainda ser ampliado se encararmos o mercado como consumidor de conhecimento, e não apenas de livros. Assim, surgem oportunidades na formação intelectual, com a promoção de palestras, workshops, debates e afins. Neste nível, o limite é o potencial empreendedor de quem o explora.
Em um outro patamar, existem os serviços que utilizam material impresso, como escolas e empresas especializadas em treinamento. Pelas suas características, o mercado literário pode abrir portas antes inimaginadas e se torna uma fonte potencial de geração de renda, ao passo em que amplia sua função social de formação de consciência crítica.
Do lado do consumidor, temos que qualquer comunidade possui necessidades inerentes, muita das quais podem ser supridas pela informação (ou esta é a chave para a busca de uma solução mais abrangente). Existe então um nicho de mercado potencial, que não consegue ser alcançado através dos modelos tradicionais: o de conteúdo personalizado caso a caso, em acordo com o que as pessoas desejam saber. Por isto o direcionamento do grupo será no intento de identificar e solucionar estas lacunas de conhecimento.
A princípio, acredita-se que o trabalho corpo a corpo e formação de opinião através de eventos (palestras, workshops etc), aliados a um material com informação reconhecidamente necessária, pode induzir o consumo do livro como objeto, tendo ainda o ganho por tabela de estimular a leitura nas pessoas comuns como uma conseqüência direta do ato de persuasão.
Atingir o centro da vida comunitária é um privilégio que as economias de escala não estão capacitadas para conseguir: é necessário um modelo de negócios específico e adaptado à realidade local, além de muito descentralizado. Na maioria dos casos, os custos administrativos que uma empresa já possui inviabilizam o negócio, pois é necessário novas formas de produção, distribuição e controle, cujas margens de lucro quase sempre são incompatíveis2. Estes problemas, no entanto, são consideravelmente reduzidos quando o modelo já nasce incorporando estas características, pois está livre de excessos que neste caso são desnecessários.
1 As tiragens giram em torno de 3 mil exemplares, sendo o ideal 30 mil. Então os prejuízos com encalhe são realmente altos para que possamos acusar os editores sem um conhecimento mais profundo da realidade deles.
2 Veja: HART, Stuart L, PRAHALAD, C. K. O pote de ouro na base da pirâmide. HSM Management. n. 32, p. 14-27, maio-junho 2002.