Introdução
Devidos aos acidentes automobilísticos,
as quedas acidentais na prática de esportes violentos, aos mergulhos em piscinas
rasas ou praias, agressões da violência urbana por projéteis de arma de fogo,
estilhaços ou armas brancas. Enfim, um grande número de causas levam a dar
entrada nos serviços de emergência dos Hospitais, o paciente vítima do trauma
raquimedular.
O drama desses pacientes já começa no próprio local onde sofreu o acidente, onde
populares e curiosos com a intenção nobre de ajudar, manipulam inadvertidamente,
tornando muitas vezes um caso de simples fratura, ou fratura luxação, que teriam
um prognóstico favorável, numa secção completa de medula com prognóstico
totalmente diferente, levando, imediatamente inclusive ao êxito letal.
Etiopatogenia
O trauma sobre a coluna pode produzir
sintomas e sinais resultantes da lesão das raízes nervosas ou do parênquima da
medula espinhal. As lesões medulares, normalmente associadas a fraturas ou
luxações da coluna vertebral, se agrupam em dois tipos fundamentais, a saber:
a) Os traumatismos diretos, cujos ferimentos podem ser provocados por projeteis
de arma de fogo, arma branca, estilhaços ou outros projeteis penetrantes, por
fratura ou luxação de corpos vertebrais;
b) Os traumatismos indiretos, provenientes de lesões que resultam na violenta
flexão ou extensão de coluna ocorridos em quedas, mergulhos, acidentes
automobilísticos, podendo a coluna ser lesada em partes com apresentação em
nádegas. Segundo pesquisas, 93% dos casos são traumatismos indiretos sobrando
apenas 7% para os traumatismos diretos.
A lesão direta da medula por projeteis ou por compressões de fraturas luxação,
produz grau invariável de acometimento medular. Pode haver secção transversa,
completa ou incompleta, ao nível dos segmentos afetados, ou hemorragia para
dentro da medula, na região do traumatismo e dos segmentos vizinhos.
A aparência da medula, ao nível do traumatismo, está sujeita a variações
dependendo da natureza do mesmo. Pode parecer edemaciada e intumescida, se não
estiver comprimida pela vértebra fraturada ou por espículas ósseas. Quando a
medula foi lesada por projétil ou esmagada pela vértebra, os segmentos afetados
aparecem amolecidos e polposos ou a medula poderá estar completamente
seccionada. As lesões graves da substância branca ou de segmentos da medula são
seguidas por degeneração secundária das fibras dos tratos. Os segmentos acima do
nível da lesão mostram perda das fibras do funículo posterior e, em menor grau,
do funículo lateral, enquanto que a degeneração dos segmentos abaixo do nível de
lesão confina-se aos funículos lateral e anterior.
Pode ocorrer aracnoidite adesiva crônica, como seqüela do traumatismo da medula
espinhal, devida a proliferação progressiva da aracnóide. Essa complicação é
relativamente infreqüente, é a mais comum após pequenos traumatismos na medula.
Classificação
As lesões
medulares podem dividir-se em:
a) Lesões extramedulares
b) Lesões medulares que podem ser total ou parcial
1 - Total - secção completa da medula;
esmagamento transversal total da medula
2 - Parcial - Concussão
Contusão
Laceração
Compressão
Hematomielia
Outras hemorragias
Edema e congestão
Lesões Extramedulares
São múltiplas
as classificações dadas, nas lesões extramedulares traumáticas; entre as mais
conhecidas devem ser citadas as de LIECHTI, NICOLL, WATSON JONES e BOHLER.
A que talvez nos permitem formar uma idéia mais clara sobre a ação do trauma,
que distingue os tipos seguintes:
1. Contusões e distorções sem lesões esqueléticas visíveis radiológicamente;
2. Lesões discais separadas;
3. Lesões separadas do corpo vertebral;
4. Fratura do corpo vertebral e lesões discais;
5. Lesões dos diversos elementos vertebrais:
o Fratura do corpo com lesões simultâneas dos arcos posteriores com atingimento
do aparelho ligamentoso e muscular.
o Luxação do corpo vertebral com fraturas e lesões unilaterais ou bilaterais dos
arcos posteriores e arrancamento do disco.
6. Luxações vertebrais;
7. Lesões separadas em nível dos arcos posteriores.
Sabe-se que as lesões podem atingir uma só vértebra, contudo podem atingir
várias vértebras simultaneamente.
Para se ter uma idéia adequada do traumatismo e valorizar melhor suas
conseqüências, o ideal seria conhecer o estado da coluna vertebral antes das
lesões, anteriores ao trauma; é de interesse para se evitar confusões e separar
os casos especiais, quando se entram em jogo interesses econômicos, policiais,
etc.
Lesões Medulares:
As fraturas
luxações das vértebras provenientes dos traumas raquimedulares podem
acompanhar-se de lesões da medula e das raízes nervosas em virtude de concussão
ou contusão medular. As mesmas lesões podem decorrer devido ao desvio das
lâminas ou dos corpos vertebrais ou, algumas vezes, de material do disco
intervertebral deslocado para frente ou então pelo deslocamento para trás do
ligamento amarelo.
A medula ou as raízes nervosas pode lesar-se pela pressão de osso, disco ou
ligamento. Os estudos clínicos e radiográficos, que são as bases do tratamento,
deverão distinguir as lesões provocadas.
Concussão - É quando após o trauma, há perda
temporária da função medular, sem alterações anatômicas macroscópicas,
clinicamente é traduzida por parapaplegia (às vezes tetraparesia ou tetraplegia)
de aparecimento súbito, seguindo-se de recuperação completa, normalmente em
poucos minutos.
Em alguns casos, necessitam de dias ou semanas para total recuperação. O
diagnóstico clínico se faz em casos de fraqueza ou paralisia das extremidades,
na ausência de fraturas, luxações ou corpos estranhos alojados no canal medular.
Não há alterações liqüóricas, a mielografia e a mielotomografia são normais. A
recuperação é espontânea, de maneira que intervenções cirúrgicas não influem
favoravelmente no prognóstico. A concussão medular não apresenta modificações
anátomo-patológicas macroscópicas. Sua causa pensa-se resultar de onda de
compressão transmitida aos elementos neurais após lesões raquimedulares
fechadas, explosões intensas ou trajeto do projétil nas cercanias da medula.
Contusão - Nesta lesão há alterações
anátomo-patológicas, como hemorragias na pia-máter e edemas secundários a
traumas direto da medula, que se choca contra o canal vertebral e recebe alguma
compressão por fragmentos ósseos ou corpos estranhos. A paraplegia ou
tetraplegia, resultante, apresenta recuperação subtotal em dias, semanas ou
meses, sendo usual a permanência de algumas seqüelas, cuja intensidade
corresponde ao grau de contusão e de interrupção microscópia de fibras nervosas.
Laceração - Há interrupção macroscópia da
continuidade da medula, associada a edema e hemorragias. A laceração pode ser
parcial ou total e, neste último caso, corresponde à secção completa da medula,
com resultante paraplegia ou tetraplegia permanente. Resulta de feridas
penetrantes ou de esmagamento da medula por fragmentos ósseos. A área lacerada
será tomada por fagócitos e pigmentos sangüíneos, seguindo-se formação de
cicatrizes mesodérmicas e gliais.
Compressão - A compressão aguda se dá pela
súbita presença, dentro do canal vertebral, de corpos estranhos (projéteis de
arma de fogo), de fragmentos ósseos afundados, ou de disco intervertebral
agudamente herniado na linha mediana. Fraturas com luxação, modificando o
trajeto normal do canal que a medula ocupa, usualmente, além de comprimi-la,
produzem lacerações, edemas e hemorragias. Compressão sub-aguda resulta da
presença de hemorragias epidurais, sub-durais ou intramedulares (hematomielia ou
de edema e congestão). Compressão de aparecimento tardio usualmente está
relacionada à hérnia de disco. De onde se conclui que operações descompressivas
podem proporcionar maior oportunidade de recuperação para alguns pacientes.
Hematomielia - É a hemorragia dentro da
substância da medula. Mais comum na região cervical, atinge, principalmente, a
substância cinzenta, comprometendo um ou vários segmentos. A sintomatologia pode
ter início brusco ou progressivo, na dependência da extensão da hemorragia a
outros segmentos, acima e abaixo do comprometimento inicial. Uma vez firmado o
diagnóstico de hematomielia, o prognóstico torna-se relativamente favorável, sem
indicação para cirurgia. Com o tempo, o sangue se fluidifica cada vez mais e se
reabsorve; por vezes persiste uma cavidade com fluido, assemelhando-se a uma
seriengomielia.
Outras hemorragias - As hemorragias
epidurais ou subdurais podem causar compressão sub-aguda da medula. Seu
conhecimento é importante para indicação cirúrgica precoce. Mais comuns em
associação com outras lesões medulares e vertebrais, podem, entretanto, ocorrer
isoladamente em traumatismos fechados. Devem ser suspeitados particularmente
quando há progressão da sintomatologia neurológica algumas horas após o
traumatismo e presença de dores radiculares. Em pacientes sem corpos estranhos
ou afundamentos de fragmentos ósseos no canal vertebral, sugere a presença de
hemorragia epidural ou subdural.
Hemorragias subaracnóideas, demonstradas por líquor hemorrágico, freqüentemente
acompanham outras lesões, inclusive hemorragias subdurais quando ocorre alguma
laceração na aracnóide.
Edema e Congestão - Geralmente acompanham
contusão, laceração ou compressão da medula. Nos casos de lesões menos graves o
edema pode ser o responsável pela progressão de sintoma neurológico e exigir uma
cirurgia descompressiva.