História da Cruz Queimada
por Waldemar Barbosa
Segundo
Waldemar Fajardo, "...os desbravadores, enfrentando animais ferozes e
todas as dificuldades, rasgando florestas virgens, chegaram a este recanto de
Minas. E com estes primeiros homens mais ou menos civilizados, também chegaram
as primeiras lutas e guerrilhas pelas posses de terrenos ainda um tanto virgens.
Entre duas famílias tiveram início as dúvidas que foram causadoras do terrível
e horrendo sacrilégio que adiante iremos tentar descrever. A luta
desenvolveu-se em torno da posse dos terrenos situados nas vertentes da bacia do
Rio Pardo, calculada em 33 alqueires, e na qual se acha situada a localidade
hoje denominada Piacatuba, antigamente Piedade de Leopoldina."
As
divergências não teriam ficado restritas aos que pretendiam a posse das
terras, tendo se espalhado entre escravos e feitores dos confrontantes. Ainda
assim, foi feita a doação do terreno onde deveria ser localizada uma povoação,
cuja Padroeira seria Nossa Senhora da Piedade.
Mas
as lutas continuaram. Certa ocasião travou-se terrível batalha nas trevas e
nas matas e não sabemos, e ninguém poderá calcular, se nessas lutas fôra
sacrificada até, quem sabe? alguma vida humana.
Resolvida
que foi a doação, como demarcação foi feita uma tosca cruz ali colocada como
marco. O nome *Cruz Queimada* é um símbolo do poder divino, e raro é o
habitante da Zona da Mata, em Minas, que não ouviu falar, com muito repeito, da
*Santa Cruz Queimada* de Piacatuba de Leopoldina. De longe vêm pessoas aqui
trazer as suas dádivas, em cumprimento de promessas atendidas.
Mas,
passemos a falar sobre a Cruz Queimada e seus milagres. Era uma manhã de sol
brilhante, o feitor e outras pessoas levantaram de seus leitos improvisados em
cabanas cobertas de folhas de sapé, e foram iniciar a sua tarefa, que era
fincar o marco dos terrenos de Nossa Senhora da Piedade. Um velho escravo
escolheu uma madeira de lei que se chamava "tapinoã" e em pouco tempo
se ouvia o eco do machado que lavrava o pau para fazer um cruzeiro. O sol já
descambava para o horizonte, quando o velho escravo, auxiliado por outros,
juntou os dois pedaços de madeira mal lavrada e formou uma cruz. Outros
escravos cavaram a terra e furaram dois metros mais ou menos em um alto arenoso,
que fica nas proximidades do açude, para o lado da povoação atual. Todos se
juntaram e levantaram o madeiro em cruz, regulando 5 a 6 metros de altura.
Era
tarde e o trabalho estava terminado, e lá no altinho ficava a cruz de braços
abertos, lembrando-nos a cruz em que morreu o Salvador da Humanidade, há quase
2.000 anos...
A
noite cobriu com seu manto negro a solidão das matas, mas o homem construía em
seu cérebro uma desforra e esta não tardou. Os homens não se conformavam de
forma alguma em ficar sem aquelas terras que tanto ambicionavam, e que no seu
modo de entender lhes pertenciam. Acompanhados de seus escravos e servidores,
rumaram para o local em que foram informados se erguia uma cruz, marco da
sesmaria doada a Nossa Senhora da Piedade.
O
fazendeiro cheio de ódio e irritado, mandou que os seus escravos escavassem ao
pé da cruz. Mas embora em terreno arenoso, depois de longo trabalho não
conseguiram. Fizeram força e a cruz não se desprendia da terra, e mal
conseguiram tombá-la. O homem encolerizou-se e mandou que a cortassem e
fizessem em pedaços. Mas os machados, embora manejados pelas mãos fortes dos
escravos, nada conseguiram. Ao tocar a madeira, não cortavam, simplesmente
amassavam a madeira onde a lâmina afiada do machado tocava. O homem começou a
desconfiar de que qualquer coisa de anormal estava acontecendo.
Mas
não desanimou... e ... espumando de raiva, mandou os escravos juntarem grande
quantidade de lenha em uma pequena derrubada que fizeram para uma plantação de
milho, e colocassem em redor da cruz até que ela desaparecesse. No meio da
lenharia seca, colocou então algumas taquaras secas e lançou fogo àquela
montanha de madeira. Satisfeito, regressou à sua fazenda. Durante toda a noite
o fogo crepitou terrível e altas labaredas iluminavam sinistramente a floresta.
Até
que a madrugada aparecesse novamente e um novo dia raiou. Com ele a faina diária
na fazenda. Um dos escravos que tinha ajudado nos trabalhos da véspera para
tentarem arrancar a cruz, deu por falta de sua foice e lembrou-se que a havia
esquecido junto ao lugar em que fizeram a fogueira na véspera. Logo veio procurá-la
e, ao se aproximar do local que fizeram a fogueira, lá estava um braseiro
ardente, e a cruz imponente e majestosa continuava de pé sem que o fogo
conseguisse destruí-la. Simplesmente chamuscada, tomou uma cor escura como se
se vestisse de luto pela impiedade dos homens. E o símbolo da redenção
triunfando das chamas ardentes, proporcionou aos nossos antepassados um
grandioso milagre... E todos que fizeram parte deste sacrilégio foram
castigados.
O Padre Raymundo N. F. de Araújo, foi o aquiteto do monumento da Torre da Cruz Queimada, cuja construção iniciou-se aos 18 de julho de 1924, concluindo-se os trabalhos aos 20 de abril de 1928. Joaquim Fajardo de Mello Campos, com sua esposa Guilhermina Balbina Henriques Soares Fajardo, foram os idealizadores e benfeitores da construção do monumento. Veja aqui o monumento, em fotografia de 1994, cedida pelo autor Geraldo Márcio Calais Salgado.
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