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»EXTENSÃO OU COMUNICAÇÃO?*

 

O autor analisa criticamente a palavra extensão, como medida de comprimento, mas principalmente como o ato de estender (levar) algo a alguém. Na realidade agrária o termo estender diz respeito a levar o conhecimento e técnicas as pessoas que destas necessitam. Extensão não deve ser uma invasão cultural do meio agrário, mas sim uma educação e aprendizagem por parte do extensionista e do que está recebendo o conhecimento. O agrônomo, neste caso extensionista, deve ensinar ao homem do campo de forma que este possa aprender e praticar o que está aprendendo, adquirindo o conhecimento.

O processo de extensão como algo que apenas mostra a presença dos conteúdos estendidos, não serve para aqueles que o captam, pois eles apenas os vêem, não praticam, portanto não podem utiliza-los, além de que muitas vezes o conteúdo apresentado não reflete muita realidade de quem os assistem. Os camponeses muitas vezes têm suas crendices sobre certas situações do cotidiano e o agrônomo com sua linguagem técnica não consegue influencia-los, então os camponeses achando que o motivo daquela situação é algo mágico, que não pode ser mudado, acabam por considerar o agrônomo um invasor. Para ser possível estender algo a uma comunidade faz-se necessária à superação da percepção mágica da realidade e que se mostre um conhecimento simples.

Algo que deve ser percebido é que o conhecimento tem de ser construído de forma que o agrônomo e o camponês o façam junto. Não o agrônomo treinando o camponês, mas fazendo-o entender como funciona, e este aproximando o extensionista da realidade.

A ação de estender, na extensão, é uma teoria que não envolve o diálogo como forma de repassar o conhecimento, o agrônomo simplesmente impõe o que deve ser feito, não havendo comunicação expressiva, como a troca de saber. A invasão cultural ocorre desta forma, o autoritarismo da técnica não forma a educação, pois a apreensão do praticado se torna difícil, sendo então o camponês obrigado a aceitar como um objeto, a invasão do seu espaço de ser. A propaganda é uma grande invasão cultural, e é usada pelo agrônomo como arma para impor e fazer os invadidos (camponeses) aceitarem sua forma de pensar e pensar como ele, ou seja, não passa de uma manipulação, onde a sensação do camponês é achar que está fazendo de acordo com seus próprios pensamentos.

Manipulação e conquista são expressões da invasão cultural e não são caminhos de libertação. São caminhos de domesticação. O dialogo é o oposto da invasão cultural, uma vez que é a transformação constante da realidade.

Há também de se notar no mundo, a necessidade do saber essencial para que exista o diálogo, pois os princípios não podem ser contestados e através deles podemos explicar o mundo e como as coisas funcionam. Então não há como deixar de impor certo saber àqueles que não o tem para que exista o diálogo, este é um problema da extensão.

O agrônomo educador deve atuar com a educação técnica e percepção cultural para que se possa ajudar o camponês, habilitando-o ao trabalho sem invadi-lo culturalmente. Isto faz parte da reforma agrária, que é de grande responsabilidade do agrônomo, que deve alem de ensinar, aprender e educar como os camponeses necessitam em sua realidade cultural.

As relações que compõe o conhecimento são a gnosiológica (validade e limites do conhecimento), a lógica, a história e a dialógica. Não existe pensamento isolado na medida que não há homem isolado, sendo então a relação dialógica indispensável para a construção do conhecimento.

A comunicação é caracterizada pelo diálogo, este por sua vez é realizado através de signos lingüísticos e através destes é possível se comunicar “o que é possível de se entender”, pois se não é inteligível, o outro não compreende e não adquire a expressão do primeiro.

A educação é comunicação é dialogo, fazer com que os educandos gravem o que o educador lhes transmite em saber. Mas não é apenas comunicando que o educador conseguirá transmitir o conhecimento, tem de haver uma participação de ambas as partes.

A incapacidade dialógica é um problema que torna o agrônomo a deixar de conseguir exprimir seus pensamentos para o camponês, então ele procura outra forma mais fácil, e acaba por gerar uma invasão cultural e uma manipulação. Por isto deve-se entender e envolver a realidade do camponês com os signos lingüísticos para que exista comunicação.

A extensão é algo que simplesmente não transmite o conhecimento como uma aprendizagem por parte do camponês, para isto é necessária a comunicação que faz adquirir o conhecimento havendo uma co-participação das partes.

Para que a educação seja algo promissor se deve seguir os seus princípios, que são: a comunicação e o diálogo. Não uma forma de impor o conhecimento, mas uma forma de mostrá-lo e faze-lo de um jeito interessante, para que as pessoas possam entender de forma agradável, sendo que a educação envolva a realidade de quem necessita do conhecimento para tornar-se participante do mundo como um todo, trabalhando nele e tornando-o melhor. E então os educadores sejam os mais aptos a fazer as transformações radicais que o mundo necessita.

ANÁLISE E CRÍTICA

O livro trata da dificuldade da comunicação entre o agrônomo e o camponês, visto que de forma a utilizar palavras que muitas vezes dificultam a compreensão do texto. A comunicação como forma de transmitir o conhecimento, é que deve ser realizada, para que se evite a manipulação e invasão cultural dos camponeses, pois em muitas ocasiões é possível se perceber que o agrônomo trabalha fazendo propaganda, sem se quer tentar entender a realidade agrária. O agrônomo deve trabalhar como um educador, para que se possa desempenhar um papel importante na reforma agrária.

Se possível poderia ser feito algo em relação a alguns conhecimentos prévios para se entender melhor a obra, por exemplo, saber o que é educação e como transmitir o conhecimento. Mas todos que tenham interesse em entender um pouco mais sobre a realidade, tanto do Brasil como do mundo, deve ler esta obra.


*por Humberto Bicca Neto

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FREIRE, Paulo. Extensão ou Comunicação? 10 ed. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

 
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