Hanny's Page


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O Visitante          

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Uma nave - uma nave de prata, em forma de disco, no centro da Pra�a. Branca, de uma brancura met�lica, semiave, semidisco, l� estava parada, pousada. Sempre achei que Bras�lia era uma esp�cie de esta��o interplanet�ria, aura suspensa entre a Terra e o Cosmos. Por isso n�o me surpreendi com a presen�a do estranho objeto na Pra�a dos Tr�s Poderes. Ali�s, o povo de um modo geral, n�o se incomodou com a presen�a dele, pois veio t�o silencioso, t�o abafado foi o choque com as pedras do ch�o, t�o natural pareceu sua presen�a, que ningu�m ligou. Sua arquitetura n�o diferia muito muito do restante, parecia quase um complemento da paisagem. Por detr�s o c�u se coloria de vermelho, daquele vermelho difuso que se perde no azul do entardecer. Fria e clara, a est�tua da Justi�a recebia o v�o das pombas. E uma ou outra, mais ousada, voava at� perto do disco-voador, batendo as asas contra a calota que rebrilhava.

Dois ou tr�s grupos formavam-se todas as tardes, depois de encerrado o expediente: nada havia para ver na cidade, ia-se olhar o disco-voador. Discretamente, uma comiss�o fora nomeada para investigar o acontecimento e discretamente executava seus trabalhos.  Em cima do telhado plano do Edif�cio do Congresso as sentinelas, discretamente tamb�m, dirigiam as metralhadoras em dire��o ao objeto. Se acontecesse alguma coisa...  Mas o caso � que nada acontecia. Os candangos desistiam de olhar aquela "casca de tartaruga" sem vida (como passaram a cham�-lo) e, em torno da pr�pria est�tua, punham-se a discutir futebol. Os deputados e ministros e senadores quase n�o contavam em n�mero: o senado e a c�mara estavam de f�rias e s� um ou outro cruzava o pavimento com seu carro. Lan�ava um olhar apreensivo sobre a figura ovalada e depois preocupava-se com outros assuntos mais interessantes e mais imediatos.

S� eu n�o ag�entava de curiosidade. Queria saber de onde viera aquilo, que trazia dentro, o que viera fazer ali. Seria um novo cavalo de Tr�ia, armadilha dos chineses? Ou era uma forma de controle dos americanos, um tipo de espionagem superior � de James Bond para saber o que se passava nas esferas pol�ticas?   E - e se fosse mesmo gente de outro planeta que nos vinha visitar?

Essa hip�tese � a que me parecia mais prov�vel. Estava, mesmo, certa disto. S� n�o conseguia localizar direito a proced�ncia do objeto. N�o correspondia exatamente � cl�ssica descri��o dos dicos-voadores, pois possu�a duas aletas que lembravam as dos avi�es. Nunca ouvira refer�ncias a um mecanismo assim. Para mim n�o poderia ser dos lun�ticos, pois a �ltima gera��o dos lun�ticos emigrara da Lua quando a �gua secou... Eu conhecia bem essa hist�ria, os lun�ticos haviam emigrado para V�nus e l� se estabeleceram (revela��es das �ltimas explora��es do Surveyor-l57). A nave deveria pertencer ao continente venusino...

Quando a noite caiu aproximei-me do disco. Fazia um desses sil�ncios que s� � poss�vel acontecer em Bras�lia; o sil�ncio que vem, n�o da noite, mas dos homens - a pr�pria cidade transmutava-se em uma cidade sem homens e ao mesmo tempo sente-se a presen�a humana vindo de n�o sei onde. No meio desse sil�ncio - que n�o era paz, mas tamb�m n�o aterrorizava, fiquei parada, com as m�os tateando a bela superf�cie do aparelho parado.  E foi no meio desse brilho de alum�nio, dessa alvura inesperada, que eu vi o venusino...

Fiquei t�o emocionada que n�o me ocorreu gritar ou fugir. Fiquei � espera, deslumbrada, como se tivesse uma vis�o dos c�us, como se recebesse a visita de anjos ou pressentisse uma revela��o. Senti uma alegria enorme, descomunal, invadindo todo o meu ser: abri os bra�os e sa� correndo em dire��o ao venusino, joguei-me nos bra�os dele, abracei-o, beijei-o nas faces. E ele me tomou as m�os e ficamos olhando um o rosto do outro. Minha m�o nas m�os de um ser extraterrestre: a emo��o foi tanta como se eu tomasse as m�os de uma crian�a amada ou de um amante longamente esperado. O ser, ali, diante de meus olhos, fitando-me de frente: momento transcendental, eterno, inesquec�vel, inviol�vel! O grande momento em que o tempo parou e o Cosmos abriu-se e a Revela��o f�z-se diante dos homens.

Deslumbrada com seu rosto e o seu aspecto, aceitei o convite para ir at� o Pal�cio do Itamarati. O rec�m-chegado espreitou, n�o havia ningu�m pelas ruas. Ainda de m�os dadas atravessamos os poucos quarteir�es. Em frente ao Pal�cio semi-abandonado, o venusino observou que a escultura da esfera, pondo uma sombra redonda sobre a �gua, lembrava um pouco sua terra. Entramos. Na semiluz, avan�amos pelos declives que substituiam as escadas. O venusino espantou-se com o jardim tropical interno, demourou-se a olhar as lianas, as plantas, as folhas redondas e disse que em V�nus n�o havia uma �nica folha verde. Que coisa linda a planta!  A planta!  

Repetia a palavra que aprendera, rindo �s vezes, noutras ficando s�rio, pensativo, e olhando tudo. Chegando ao andar superior, a sala de banquetes estava vazia. Os reposteiros e as tape�arias estavam iluminadas por algumas luzes e sobre a mesa havia uma cesta de frutas e algumas sobras de uma festa dada na v�spera.

         - O que � aquilo?

Falava pausadamente, como um estrangeiro que precisa medir as palavras para exprimir o que deseja.

        - Aquilo � uma fruta.
        - Fruta?
        - Fruta: banana, laranja, jaboticaba.
        - Ja-bo-ti-ca-ba?
        - Jaboticaba.
        - Em minha terra s� h� gr�os escuros e sementes claras. Nunca vi isso.

O venusino, abismado, olhava as frutas, e as apalpava; quando soube que podiam ser comidas, seus olhos arregalaram de espanto. O suco, o sumo, o sabor o extasiavam.

        - Uma fruta.
        - E a �gua...

Ao beber �gua, derramava a jarra por cima do rosto, molhando os l�bios, sentindo a frescura, o escorrer da �gua pela garganta; e quando viu o leite, parecia uma crian�a, tomando copo em cima de copo, sentindo o gosto cremoso, cheirando a brancura do alimento. De repente, o venusino perguntou:

        - Onde � que estamos?
        - Num Pal�cio do Governo.                       
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        - Pal�cio?  Que � pal�cio?

Fez um esfor�o para compreender o que eu tentava explicar, rebuscou a mem�ria e no fim concluiu:

        - Sim... ouvi falar em pal�cios, existia um em minha terra h� mil anos atr�s. E governo, sim, ouvi dizer que nessa �poca ainda obedeciam a governos.  Mas, como? Quer dizer que ainda n�o s�o capazes de se governarem por si s�s, cada um sozinho governando a si mesmo? Precisam que outros o fa�am por voc�s?

Procurei falar sobre as guerras que dividiam a Humanidade, sobre a bomba at�mica, sobre o problema racial, sobre a desigualdade das classes sociais, sobre o analfabetismo. Incr�dulo, o venusino fixava em mim os olhos penetrantes e procurava atingir o que eu contava. Mas, infelizmente, n�o fui capaz de faz�-lo entender.

         - Gente se mantando? Jogando bombas? Pobres? Ricos? Pretos? Brancos? Comunistas? Capitalistas?

T�o perturbado ficou que de repente atirou as jarras de leite e de �gua ao solo e saiu em disparada. Atrav�s do Pal�cio silencioso, tentei segur�-lo, agarr�-lo, implorando aos gritos que permanecesse ao meu lado. Mas o venusino, pelas ruas desertas, corria em dire��o ao seu disco. Em desespero, vi-o aproximar-se, abrir uma portinhola e desaparecer. Completamente fora de mim, bati os punhos cerrados contra a superf�cie de metal, extraordinariamente brilhante � luz da lua. Fora de mim, aos gritos ainda, sa� pelas ruas procurando algu�m que me ouvisse. O disco levantava-se no espa�o, e num instante desapareceu entre as nuvens.

        - Voc� est� desesperada porque o venusino partiu, como medo de n�s, terrestres... Mas n�o h� venusino nenhum.   Voc� sonhou ou tomou �cido lis�rgico. Esse disco-voador era uma brincadeira dos estudantes da Universidad. Ou o recurso comercial de uma firma para colocar algum produto novo no mercado...

Mas s� eu sei...  naquela noite, eu estive com um visitante dos espa�os...
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Ida Laura

(publicado em 8/10/67, Folha de S.Paulo)


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