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  Preciso muito falar com voc�

 

1.

 

Preciso mesmo. J� � uma necessidade que d�i l� dentro, sabe? Feito instrumento de ginecologista.

              

               2.                

 

Queria  pedir   desculpa, outro  dia  n�o preguei aquele bot�o que voc� me pediu, andei t�o ocupada, estou adorando este emprego, tanta gente nova. Nem sei como vou dizer, se � que um dia digo alguma coisa, mas vai mesmo dar para contribuir um pouquinho, no aluguel, talvez, na compra do m�s. Sei que n�o � preciso, mas para mim est� ficando, acho, meio injusto eu ficar morando aqui com voc�, dormindo nesse len�ol que sua irm� escolheu, dividindo sua dieta para emagrecer, todos os dias, roupa limpa, passada, minha salada de agri�o, tudo isso de gra�a, como se eu tivesse nascido princesa.

O que estou precisando � isso. Uma meia horinha com seus olhos quietos, sem essas panor�micas que eles descrevem o tempo todo, suas m�os pousadas no colo, uma na outra, n�o sei, mas sem gesticular, para eu poder falar. Tem um assunto importante, que � a minha vida, mas j� faz cinco anos que a gente vem assistindo esse filme estrelado por n�s mesmos, meio sem diretor, meio mal montado, cujo argumento ningu�m teve tempo de escrever, foi sendo rodado sem roteiro, sem continuidade, sem nada.

 

3.

 

Eu queria falar disso que aconteceu comigo, nem sei se voc� ia entender, � t�o fora de s�rie. Esse cara que apareceu outro dia. Tamb�m falta um pouco de coragem, de peito, no fundo foi uma coisa da qual eu n�o me orgulho muito, mas � que eu estava t�o ferida, t�o magoada, nem dei por mim. Voc� estava num avi�o desses, j� nem sei qual, voando. E eu doendo com aquelas cartas, lembra?, com letrinha de mulher, falando em �rvore que n�o cresceu porque n�o foi regada, mas que o jardim era seu, o canteiro de rosas era seu, vem molhar. Doendo mesmo, minha cabe�a um trator em ponto morto, serra abaixo, socando nos buracos, sem perspectiva de parar. A� eu fui jantar com ele, esse rapaz, simp�tico, meio feio. Mas ele me falou umas coisas que eu j� tinha esquecido, convidou para dan�ar, tinha licor depois do caf�, fiquei me perguntando a raz�o de n�o fazermos mais isso, n�s dois, que j� fomos t�o saideiros, t�o gulosos, t�o sedentos.

 

4.

 

Quando ele tirou o meu vestido o trator parou, tinha uma porteira escrita Casas Pernambucanas, eu estava na fazenda do meu tio, tinha oito anos de idade, chupando manga-coquinho, lambuzada. Eu dei, foi desagrad�vel, dolorido, fiquei l�, feito est�tua, enquanto ele tirava minha calcinha que voc� comprou em Manaus, gozado que a cabe�a desobedece e pensa o que quer, estabelece uns paralelos, revisita territ�rios dos quais a gente nem se lembra com nitidez. Ele entrou e saiu, n�o gozou nem nada, nem eu, acabei empurrando ele para fora, mulher que passa do primeiro n�o fica no segundo, esse tipo de coisa.

Mas minha raiva passou, joguei as cartas no lixo, pedi que ele sumisse da minha vida, a verdade � que eu amo voc� e quero ficar gr�vida daqui uns tr�s anos, me deu um violento complexo de culpa, eu t�o liberada, t�o cheia de palavras, me sentindo meio puta, voc� n�o merecia, que ser� que me levou t�o longe?

Preciso falar com voc�, porque agora j� n�o sei se foi s� de raiva, deve ter tido alguma outra coisa, n�o me lembro mais, minha mem�ria n�o me ajuda, acho que n�o havia tes�o, foi homic�dio premeditado, frio, mas n�o sei ao certo.

 

5.

 

Fico pensando, ser� que � tudo t�o errado assim, os outros casais t�m problemas mais s�rios, mas da� me ocorre que at� isso de ser casal me deixa um pouco deprimida, meio infiel com a coer�ncia da minha juventude, quando a gente invadiu a faculdade, eu fiz aquele discurso, li a Simone de Beauvoir inteirinha.

E ao mesmo tempo esse neg�cio de pedir desculpa por causa do bot�o, a carne magra que eu devia ter comprado naquele a�ougue que voc� descobriu, a geladeira cheirando mal, repolho velho, essas outras infidelidades que eu cometo diariamente comigo mesma. Queria dizer isso, que eu sou realmente uma p�ssima dona-de-casa, fa�o aquele lombinho com p�ssego em calda, mas � tudo, al�m das plantinhas. N�o d� para passar camisa porque eu vou estragar o colarinho e o meu respeito por mim mesma, que j� n�o � muito. Depois tem a empregada, essa que sua m�e arranjou e ensinou a fazer bife, eu n�o desgosto dela mas me irrita n�o poder andar pelada na sala e o jeito que ela disp�e as coisas no armarinho do banheiro me p�e num hotel todas as manh�s. Se n�o fosse o sal�rio, que n�o � alto, e esse regime que voc� est� fazendo, bifinho com saladinha, saladinha com bifinho, acho que mandava ela embora.

 

6.

 

O problema � que eu fico adiando, acredito no duro que n�o � culpa sua, pelo menos n�o � s� sua, quem sabe se eu parar para falar, voc� tamb�m vai parar para ouvir. Nem quando a gente trepa a gente fala, talvez a� tamb�m seja esperar demais, voc� gemendo j� me deixa tranq�ila, dever cumprido, detesto pensar isso mas �s vezes � tudo o que sinto.

Fico com vontade de dirigir voc�, seus carinhos. Gosto quando voc� passa a m�o em mim, mas sua m�o � muito forte, meio pesada, tem um outro jeito de passar que eu gosto mais. Da� fico com medo da sua rea��o, onde foi que voc� aprendeu isso a�, quantos caras j� comeram voc�, donde vem essa experi�ncia que s� agora voc� me revela. At� tem resposta, eu aprendi comigo mesma, passando a m�o em mim mesma desde o quarto ano prim�rio, saia azul e blusa branca, Grupo Escolar Santa Matilde, era uma sensa��o incr�vel, parecia que eu ia morrer.

 

7.

 

E teve um dia que eu n�o entendi, o dia que eu amassei o carro, voc� olhou como se eu tivesse amassado voc�. Fiquei achando que n�o era voc�, esse n�o foi o cara que assinou comigo aquela papelada no cart�rio, n�o foi o que disse sim, contrafeito, na frente de um padre, dentro de uma igreja em que nenhum de n�s acreditava, para in�cio de conversa. Fiquei somando o carro amassado ao bot�o n�o pregado, � geladeira fedida, � carne inexistente e acabei com uma conta de supermercado na m�o, devo uma fortuna a voc�, queria pagar com um beijo na boca, uma chupadinha, uma encostada no meio da noite para esquentar voc�, sabia que voc� dorme enrolado que nem cachorrinho rec�m-nascido?

 

8.

 

Mas a gente n�o se encontra mais, nesse tempo inteiro que a gente passa junto. Preciso muito falar com voc�, mas est� dif�cil, essa proximidade toda realmente nos separa.

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M�rcio Martins Moreira,   escritor e poeta

Reprodu��o do texto com autoriza��o do autor
com meus sinceros agradecimentos.
Publicado em 1980, no livro "Liquida��o"


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