Autopsicografia
O poeta � um fingidor.
Finge t�o completamente
Que chega a fingir que � dor
A dor que deveras sente.
E os que l�m o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
N�o as duas que ele teve,
Mas s� a que eles n�o t�m.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a raz�o,
Esse comboio de corda
Que se chama cora��o.

Tudo quanto sou
� um deserto imenso
Onde nem eu estou.
Extens�o parada
Sem nada a estar ali.
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.
[...]
[Sem t�tulo]
Todas as cartas de amor s�o
Rid�culas
N�o seriam cartas de amor se n�o fossem
Rid�culas
Tamb�m escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras
Rid�culas
As cartas de amor, se h� amor,
Tem de ser
Rid�culas
Mas, afinal,
S� as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
� que s�o
Ric�culas

Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que j� n�o �,
A dor que j� me n�o d�i,
A antiga e err�nea f�,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
S� porque foi, e voou
E hoje � j� outro dia

Chove. Que fiz eu da vida?
Fiz o que ela fez de mim...
De pensada, mal vivida...
Triste de quem � assim!
Numa ang�stia sem rem�dio
Tenho febre na alma, e, ao ser,
Tenho saudade, entre o t�dio,
S� do que nunca quis ter...
Quem eu pudera ter sido,
Que � dele? Entre �dios pequenos
De mim, 'stou de mim partido.
Se ao menos chovesse menos!

Eu
Contemplo o lago mudo
Que a brisa estremece
N�o sei se penso em tudo
Ou se tudo me esquece
O lago n�o me diz nada
N�o sinto a brisa mex�-lo
N�o sei se sou feliz
Nem se desejo s�-lo
Tr�mulos vincos risonhos
na �gua adormecida
Por que fiz eu dos sonhos
a minha �nica vida?

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