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A madrugada in�til me encontra no canto de uma rua deserta; sobrevivi � noite.
Noites s�o ondas orgulhosas: ondas azul escuro, sobrecarregadas com todos os matizes de
profundos estragos. Pesadas de coisas improv�veis, desej�veis.
Noites t�m o h�bito de d�divas e recusas misteriosas, de coisas meio dadas, meio
sonegadas, de prazeres com um hemisf�rio triste. As noites s�o assim, eu te digo.
O vagar dessa noite deixou-me as costumeiras sobras e retalhos: alguns amigos odiados com
quem conversar, m�sica de sonhos, e o fumo de cinzas amargas. Coisas com que meu
cora��o faminto n�o sabe o que fazer.
A grande onda trouxe ent�o voc�.
Palavras, quaisquer palavras, teu riso; voc� t�o pregui�osamente e incessantemente
bonita. Falamos e voc� esqueceu as palavras.
A madrugada desestruturada me encontra numa rua deserta de minha cidade.
Teu perfil afastado, os sons que ficam pra compor teu nome, o timbre do teu riso: esses
s�o os brinquedos nobres que voc� deixou.
Na madrugada eu os viro e reviro, eu os perco, os encontro; falo deles aos poucos c�es
vadios e �s poucas estrelas perdidas na alvorada.
Tua vida, ensombrada, rica...
Devo chegar a voc�, de alguma maneira:
ponho fora os estranhos brinquedos que voc� me deixou,
quero teu olhar oculto,
teu sorriso verdadeiro
- esse sorriso solit�rio,
zombeteiro,
que s� teu frio espelho reconhece.
Jorge Luis Borges
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