Hanny's Page


       Bestando...
                                                                                                                                                  

Tudo   come�ou  quando  fui  comprar  um  presente  para uma amiga nossa.  que cometia   mais  um  anivers�rio    ( a partir  de  certa  idade,   n�o mais fazemos;   cometemos).     Como sempre com pressa,  e   devidamente instru�do por minha patroa, fui com  uma  lista de livros para o �tica  Shopping, onde seguramente iria encontrar um dos t�tulos sugeridos.   De quebra,  ainda poderia adquirir um livro de poesias de autora pouco conhecida – Martha Medeiros.

L� chegando, procurei um vendedor que, com toda a sua boa vontade, n�o conseguiu a m�gica de fazer surgir um t�tulo sequer daqueles que procurava. Para evitar curiosidades sobre minhas prefer�ncias liter�rias, digo os t�tulos: Theodora, Imperatriz de Biz�ncio ou Talvez... ou ainda Ca�a �s Bruxas, de Lilian Helmann. Decepcionado, comecei a vagar por entre as prateleiras, maldizendo a produ��o editorial nacional. Tive a id�ia, ainda, de procurar um velho conhecido meu, presente de alta estirpe para quem quer que fosse – de mendigo a rainha: 200 Cr�nicas Escolhidas, de Rubem Braga. Nova decep��o. Dele s� achei o livro As Boas Coisas da Vida, certamente a reuni�o de algumas das cr�nicas do mestre da cr�nica brasileira. Mas deixei estar e acabei por me decidir pelo Coronel e o Lobisomem, de Jos� C�ndido de Carvalho, uma das melhores obras de cunho regionalista desse nosso Brasil. Foi o final deste livro que me fez chorar desbragadamente durante o percurso de um �nibus, sob o olhar surpreso e medroso da passageira ao lado.

Mas o tal livro do Rubem Braga insistia em aparecer na minha frente e, finalmente, minha sovinice foi vencida pela vontade de voltar a ter o amigo em minha casa. Com o livro cujo t�tulo s� remete a coisas agrad�veis, despedi-me da livraria jurando nunca mais procurar coisa alguma naquela espelunca.

Chegando em casa, encostei o livro em um canto, certo de que iria l�-lo somente tr�s meses depois. Mas os movimentos persit�lticos dos meus intestinos mudaram meu destino. Pouco, mas mudaram. Sob a press�o da m�e natureza, encaminhei-me ao reservado, como se falava antigamente, e, no caminho, apanhei o primeiro objeto que, uma vez lido, pudesse contribuir para o relaxamento de meu esf�ncter. Era o danado do Rubem Braga. E foi assim que me deparei com um pref�cio do Paulo Mendes Campos, falando a respeito do seu amigo e autor daquelas cr�nicas.

� inacredit�vel como a gente se desacostuma de ler textos bem escritos, depois de tanta porcaria que � publicada no dia-a-dia.

Com aquela seguran�a de quem j� escreveu quaquilh�es de palavras, Paulo me surpreendeu com uma que eu s� tinha visto de passagem: bestando.

Bestar � deixar-se ficar bestamente em algum lugar, sem eira nem beira — e � bom que se diga que esta defini��o n�o foi tirada de nenhum dicion�rio. Millor Fernandes diria que o livre pensar � s� pensar. Mas isso � o jeito dele dizer. Eu prefiro bestar.

Ficar bestando por a�, no meu caso, � pensar que o inc�modo que j� me faz companhia h� tr�s meses aqui do lado, bem no pneuzinho esquerdo, j� est� virando um quase amigo. Estou me acostumando a ele. Principalmente depois que um ilustre professor doutor urologista/proctologista afirmou categoricamente que n�o sabia o que era o tal inc�modo e cobrou-me duzentos reais por isso, n�o sem antes vasculhar minhas intimidades nunca dantes navegadas.

Bestar � pensar que � dif�cil falar com tanta mulher nesse instrumento do dem�nio, o e-mail. Aquilo n�o � nem carta, nem nada. Tem um pouco da magia das palavras, mas elas se perdem no espa�o. S�o t�o nulas como um encontro que n�o d� certo. Quanto falar com um estranho. Falta-lhes a magia de serem fixadas no papel. A espera ansiosa do carteiro. O milagre do endere�amento...

Mais um sentimento dos tempos antigos que vai para as cucuias.

Pois �. Bestando um pouco mais sobre isso, diria que tanta mulher no e-mail � como tentar manter mais de uma amante. � uma complica��o, porque a gente acaba esquecendo o anivers�rio de uma, a mania da outra... Fica dif�cil administrar. Mas, e se a gente diminu�sse o n�mero de e-amigas? Mais um problema. Uma tem o sorriso brejeiro, a outra � admir�vel pela sua intelig�ncia, aquela outra � t�o ignorante que a gente tem vontade de ajud�-la. Cada uma tem sua gra�a e desgra�a, como na vida real.

E bestar sobre os dramas do cotidiano? Acho que fui multado hoje porque sa� com o carro na hora do rod�zio. Culpa da pressa. Fui pegar um pijama de ver�o e a empregada tinha esquecido de passar. Agora, fazer o que? Ela tamb�m esqueceu de colocar as toalhas no banheiro e eu, pingando de �dio, fui procur�-las na gaveta errada. Todos os dias vivemos uma novela que n�o passa na TV. Que a at� esquecemos de assistir porque perdemos o h�bito de bestar.

Para lembrar disso, s� mesmo lendo Rubem Braga.

 

(Marcos Mauro Rodrigues, publicit�rio, cronista, amigo.)
Dezembro/1998



Voltar note.gif (1719 bytes) Cr�nicas


P�gina Principal

Hosted by www.Geocities.ws

1