2006 - centenário da aviação
2006 - centenário da aviação

Santos=Dumont (era assim que ele assinava) era "metade" francês. Seu pai, seu xará Henrique Dumont, era filho de um certo François que tinha vindo para Ouro Preto garimpar pedras preciosas para o sogro, ourives de Paris. Henrique ganhou alguma grana empreitando uma ferrovia na Serra da Mantiqueira e comprou uma fazenda perto de Ribeirão Preto, onde plantou café (5 milhões de pés). A enorme fazenda tinha 96 km de ferrovias, e mais de 7 locomotivas, que o menino adorava dirigir. Tinha 8 irmãos e suas irmãs casaram com tres irmãos da familia Villares (que fizeram um dos maiores complexos industriais do Brasil, inclusive fabricando locomotivas durante um breve tempo). Fizeram a Mogiana, um das primeiras estradas de ferro de SP. Tudo dinheiro do café.

Aos 60, o pai teve um acidente que o deixou hemiplégico e emancipou Alberto, enchendo-o de grana, e ele foi para a terra do avô, porque queria comprar um balão. Gostava de comprar novidades: o primeiro automóvel Peugeot do Brasil foi trazido por ele, no fim do século XIX. Mas como o tal balão era muito caro, ficou por lá até achar um sujeito que lhe construísse um mais barato. E pegou gosto pelo voo. Chegava de balão nos palácios da alta roda, onde fez muitos amigos. Conhecia mecânica e técnicas afins, mas era um dândi da alta sociedade parisiense, figura glamurosa e obrigatória nas festas. Nada a ver com o suados irmãos Wright. E sua aventura com certeza custou menos que 10 milhões de dolares...

Aliás, o mérito da invenção deles é muito controverso: só fizeram uma apresentação pública de seu voo (catapultado) em 1908. O 14 bis voou 220 metros em dezembro de 1906. E Santos=Dumont era um cara genial, sem dúvida. O problema é que era tão onipotente que nem sequer patenteou seus inventos: achava que tinha vindo ao mundo para beneficiá-lo e que estava numa categoria à parte (como toda a burguesia rica da época). Faltou humildade, sem dúvida. E não se diga que não tentou alternativas menos nobres e idealistas: quis vender seus dirigiveis para o exército frances, que pediu uma demonstração prática tão complicada que ele desistiu. Mas tentou por duas vezes, lá por 1903. Não tinha jeito para negócios, como o pai.

Voltou para o Brasil em 1910, dizem que acometido de esclerose múltipla. Mas sofria mesmo era de depressão. Na chegada do seu navio, uns amigos resolveram fazer acrobacias com um hidrovião que tinha seu nome, bateram na água e morreram todos, mais de cinco. Isso só piorou a fossa, claro. Depois de muitos altos e baixos, foi morar no Guarujá e ficava na praia, isolado e sem prosa. Na revolução paulista de 32, viu tres aviões do Getulio bombardearem um navio. Voltou para o hotel e dias depois se enforcou no banheiro com duas gravatas amarradas.

O suicidio, aliás, foi escondido de todo mundo por muito tempo, justamente para não dar o mau exemplo. E também seu celibatarismo, para não confundir as criancinhas... Ele não se casou, mas não parece que tenha sido homossexual, tinha muitos casos - a primeira mulher a pegar no seu manche de dirigivel foi uma tal de Aida Acosta, cubana boazuda que animava o society parisiense. Subiram com caviar e champanhe na cestinha... Nos 22 anos que morou no Brasil depois da volta, teve alguns casos apaixonados. Mas vivia no mundo das nuvens e não tinha jeito com as mulheres. Não era um nerd, mas quase.

A descida na Lua aconteceu no dia do seu aniversário, e por isso a cratera que Armstrong desceu tem o seu nome (dado pela Sociedade Internacional de Astronomia). Mas a rigor, a técnica da conquista à Lua tem mais a ver com os buscapés chineses e os paraquedas (também chineses, segundo eles) do que com as asas, que nem existem no foguete Saturno nem nos Vostok (existiam nas V10). Aliás, o livro de Julio Verne "À Roda da Lua" (que conta a ida à Lua e que o pequeno Alberto adorava) foi escrito antes da invenção do avião. Teóricamente, a conquista do espaço poderia ter sido feita SEM o avião...

Max Dias

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