Câmeras digitais: um atraso forçado

 

"Está na hora de visualizar o futuro e enxergar, o quanto antes, que não adianta empurrar a decisão com a barriga, pois logo-logo, o filme - película 35 mm - será lembrado apenas por uma geração de muitos admiradores. Só isso!"


Afirmações como esta se tornaram comuns entre os fotógrafos. Da mesma forma que o trator não substituiu a enxada, ou as pizzas congeladas da Sadia não acabaram com os tradicionais restaurantes do Bixiga em São Paulo, a fotografia digital não substituirá a convencional (analógica). A própria história da fotografia nos demonstra isso: quando havia apenas a fotografia P&B e de repente surgiu a fotografia colorida, disseram que o P&B ia deixar de existir, o que obviamente não aconteceu. Quando chegou a Polaroid, disseram que a foto instantânea seria “o futuro”, mas ela não substituiu nada. Quando chegou o slide, disseram que todo mundo agora iria querer ter um álbum de fotos sendo projetado na parede da sala e que esta tecnologia substituiria as anteriores, mas isto também não aconteceu.

Devemos reconhecer que existem modismos e que todos eles são passageiros. A câmera digital também não é exceção. Não estou negando os avanços que cada nova tecnologia proporciona à sociedade, mas ocorre que não estou vendo tantas pessoas assim aderindo a esta tal “revolução digital”. Não são todos os que gostam de ter fotos apenas no computador, e a impressão da foto digital é, na verdade, apenas uma simulação da fotografia.

Enquanto a fotografia convencional é resultante de um processo físico e químico, no qual a imagem do negativo é projetada no papel e este é depois revelado com produtos químicos, a fotografia digital é apenas uma impressão da imagem computadorizada num papel com espessura semelhante ao utilizado na fotografia convencional. A comparação dos dois processos é absurdamente injusta: a foto convencional pode durar entre 150 a 200 anos, e a foto digital tem garantia de qualidade de apenas 5 anos (este era o tempo que a Kodak dava em garantia pelo menos até 2004). O alto risco da foto digital impressa borrar ao longo do tempo ou até soltar tinta é também um fator a ser considerado.

Portanto, o que vejo é que este é um modismo que está demorando para passar, só isso. Talvez pelo fato de boa parte do público consumidor possuir um computador em casa e utilizá-lo também no trabalho lhe dê a sensação de que suas fotos estão a salvo. Mas não estão. Guardar as imagens no computador é um risco, pois se, este tiver problemas, pode ser necessário formatá-lo e então se perde todos os arquivos. Mesmo que as imagens fossem gravadas em CD ou DVD, este tipo de mídia pode criar fungo ao longo do tempo ou ainda ter a seção de gravação de dados danificada pelo calor. E se esta tecnologia também mudar no futuro, como ocorreu com os vídeo-cassetes e DVDs? O que vai fazer todo mundo quando não existir mais CD? Ou o leitor acha que isto não vai acontecer um dia?

Felizmente, muitas famílias ainda gostam de ter fotos dos filhos feitas com a fotografia convencional, sobretudo o público mais velho, que não sabe mexer com informática. Ocorre que estes terão chances maiores de ter sua memória familiar bem preservada do que as famílias recém-formadas (aquelas que fazem fotos digitais dos seus casamentos, do nascimento dos filhos, aniversários, natal, batismo, entre outros). Uma pessoa pode se perguntar: “para que ter uma foto que dure entre 150 a 200 anos, se eu não viverei tanto?”. É verdade, mas temos que considerar também que não são apenas as famílias que consomem este tipo de produto, pois há também as universidades, igrejas, prefeituras, órgãos governamentais e outras instituições que guardam registros fotográficos da sociedade. A estas instituições interessa muito ter uma fotografia que dure um longo tempo.

O argumento de que a foto digital trouxe economia para as pessoas é totalmente absurdo. Antigamente, uma família pobre podia comprar uma câmera simples no camelô por R$ 10 ou R$ 15, comprar um filme de R$ 8 e uma revelação de até R$ 19. Hoje, esta mesma família gasta uns R$ 700 por uma câmera digital, sendo que, depois de uma certa quantidade de cliques, esta câmera pode estragar por conta de uma plaquinha frágil de titânio que regula o obturador. Além disso, o custo de impressão de cada foto digital (em torno de R$1,10) é o dobro do que custaria a foto convencional (aprox R$ 0,45). E se a câmera digital cair no chão, o prejuízo dói no bolso. Com uma câmera simples, as pessoas nem perderiam a cabeça com isso. Assim sendo eu pergunto: QUAL A VANTAGEM DA FOTOGRAFIA DIGITAL? SÃO POUQUÍSSIMAS! Se as informações colocadas aqui chegassem ao público, as pessoas pensariam duas vezes antes de sair por aí trocando suas câmeras.

De imediato, o que posso dizer é que pelo menos a foto P&B não está em risco, pois esta já se destinava a um mercado bastante seleto. A foto colorida, por sua vez, pode sim desaparecer aqui no Brasil, ou ficar muito restrita, caso o mercado continuar reduzido, ou enquanto as pessoas não se tocarem quanto às desvantagens da foto digital.

Mais ridículo ainda, e peço aos colegas que me perdoem por estas colocações, é o impacto disso tudo até no idioma português. Eu não chamo a fotografia convencional de “analógica” porque é uma expressão que acarreta juízo de valor, como se fosse algo “primitivo”. E “jogadas” são feitas deliberadamente para que o público consumidor entre numa armadilha, induzindo-o a raciocinar mais ou menos na seguinte forma: Ora, se a foto convencional é algo “primitivo”, então o consumo das pessoas tende a se direcionar àquilo que é mais “evoluído” ou “avançado”, sendo isto a fotografia digital. Pequenas alterações no modo de se expressar acabam sendo impactantes no consumo das pessoas. Se no Brasil os grandes fabricantes se unem para modificar o comportamento do consumidor não é porque a foto digital traz inúmeras vantagens maravilhosas e divinas, como todos gostaríamos de acreditar, mas porque o Brasil é um mercado consumidor maior do que a Europa, e ganhar dinheiro vendendo câmeras 70 vezes mais caras, e imprimir fotos pelo dobro do preço com certeza deve ter trazido um aumento absurdo nos lucros operacionais destas empresas. A finalidade da foto digital, como qualquer outro negócio, é gerar lucro para o fabricante, o que não é problema nenhum se o público consumidor pressionar para resguardar as suas vantagens. No Japão, nos EUA e na Europa a foto convencional ainda existe normalmente. Só no Brasil que não.

Afirma-se que este país dificulta as importações de material de foto convencional, o que é verdade, mas também é verdadeiro que a foto convencional ainda se mantém no resto do mundo, conforme já disse. Assim sendo, mesmo que a fotografia convencional sofra aqui no Brasil, ela irá sobreviver no resto do mundo e isto para mim ainda é motivo de alívio, já que dou meu “jeitinho brasileiro” de comprar as coisas que necessito em sites como e-Bay e et cetera.

 

Gustavo Gonçalves - 16/04/2004