04 anos de Saudades !!! Homenagem do NAE-1 ao Mestre Paulo Freire |
Freire como consultor da UNESCO e a Pedagogia do Oprimido Este período vivido por Freire no ICIRA é extraordinariamente rico. Sua produção intelectual alcança os níveis mais altos. Ao mesmo tempo, como consultor, ele desenvolve uma atividade impressionante. Uma síntese de seu primeiro ano de trabalho, 1968, como Consultor da UNESCO, aparece no Relatório de Atividades de janeiro de 1969. Cada uma das atividades realizadas, além da descrição das mesmas é acompanhada de uma fundamentação teórica. Esta iniciativa é uma resposta sem dúvida, aos críticos dos primeiros anos de sua permanência no Chile, que apontavam a falta de base teórica de suas ações aducativas. Nesse Relatório de 1969, escreve Freire, como uma espécie de resposta a todos aqueles que pensavam que bastava dar um pedaço de terra aos camponeses para que estes se sentissem como novos cidadãos de uma nova nação: "Estávamos convencidos , e hoje mais que nunca, que o que chamamos cultura do silêncio, introjetada como inconsciente coletivo pelos camponeses, não seria mecanicista e automaticamente transformada como a mudança infra-estrutural realizada pelo processo da reforma agrária". Paulo Freire foi extraordinariamente sensível às acusações que partiram de diversos setores chilenos sobre o conteúdo idealista de seu método psicossocial de alfabetização de adultos e de todos os seus escritos. No Relatório de 1969, trata de dar uma resposta: "Quando falamos, como neste caso, em consciência, nos referimos ao homem como "corpo consciente", em relação dialética com o mundo, e não em consciência numa concepção idealista (solipsista), segundo a qual a consciência cria a realidade e é toda a realidade". É interessante destacar para os que buscam as fontes teóricas da criação espiritual de Paulo Freire que, neste Relatório de 1969, o autor de Pedagogia da Esperança se apóia, para expressar suas idéias, em Althusser (cita a obra Pour Marx), em Hegel (fenomenologia do Espírito), em Lucien Goldman (as Ciências Humanas e a Filosofia), em Popper (The Open Society and Its Enemies) e em Bergson (Las dos Fuentes de la Moral y de la Religión). Também recomenda a leitura de obras de Fernando Henrique Cardoso e de Francisco Weffort sobre populismo e manipulação das massas. Uma das atividades importantes realizadas em 1968, e que aparece no Relatório de 1969, é o trabalho realizado com os engenheiros agrônomos, personagens importantíssimos no processo de reforma agrária que vivia o Chile. O resultado dessa preocupação de Freire e de sua equipe foi o livro Extensão ou Comunicação ? , publicado pelo ICIRA em abril de 1969, mas que foi trabalhado pelos agrônomos em 1968. Nesse ano, Jacques Chonchol, diretor da INDAP, escreveu um prólogo que diz, em parte: "O conteúdo de suas linhas é profundo, às vezes difícil de seguir, mas, quando se consegue penetrar em sua essência, revela-nos um mundo novo de verdades, de relações entre elas, de ordenação lógica de conceitos".
Pedagogia do Oprimido foi elaborado por Freire especialmente durante 1967. Nos anos anteriores, 1965 e 1966, e também durante 1967, ele esteve envolvido nos planos de alfabetização de adultos que o governo chileno realizava através do Ministério da Educação e dos organismos da reforma agrária. Nos dois últimos anos, e depois, em 1968 e 1969, quando já era consultor da UNESCO, Freire teve um companheiro notável, como amigo, como intelectual e filósofo, em suas jornadas junto a educadores e camponeses: o professor universitário Ernani Maria Fiori, que havia chegado ao Chile em janeiro de 1966. Uma velha amizade o unia a Paulo Freire, cultivada nos Círculos de Cultura de Porto Alegre. No ambiente chileno, o relacionamento tornou-se também familiar. Fiori ingressou como professor na Universidade Católica e foi uma das lideranças mais notáveis da reforma dessa universidade em 1967-68. Chegou a ocupar o cargo de Vice-Reitor Acadêmico. E deu a essa casa de estudos superiores a estrutura e funções vitais de um organismo renovado que deixava esquecido seu espírito tradicional. Pedagogia do Oprimido não foi publicado imediatamente no Brasil. A primeira versão em espanhol foi realizada em Montevidéu, em 1968, devido à gestão do educador brasileiro Hugo Assmann. Em 1970, apareceu a primeira edição em inglês nos Estados Unidos. Até o momento, Pedagogia do Oprimido já foi traduzido para vinte línguas. Neste momento em que a dimensão humana se mede através das políticas de mercados, a Pedagogia do Oprimido torna-se a mensagem mais clara e poderosa para descobrir nossos destinos e avançar em busca da libertação. Paulo Freire semeou a sua palavra. É necessário que realizemos a colheita que seu espírito sonhou para todos nós. * Augusto Silva Triviños é professor do Curso de Pós-Graduação em Educação da UFRGS |
| in: Revista
Pedagógica Pátio - Ano I nº 2 agosto/Outubro 1997 cedida carinhosamente por: Solange Salussolia Vaini |
by: Paulo Gonçalo dos Santos NAE1 |