04 anos de Saudades !!!

Homenagem do NAE-1 ao Mestre Paulo Freire

 

Pedagogia do Oprimido:

Uma passagem para o mundo

Augusto Silva Triviños *

Nunca poderíamos imaginar, naquela manhã de dezembro de 1965, quando nos dirigíamos ao local no qual se realizaria um encontro sobre educação, que conheceríamos dois brasileiros cuja importância em nossas vidas profissionais começaria naquele mesmo dia.

Por acaso, havíamos sido indicados pela Universidade para participar de um seminário sobre Educação de Adultos que o Ministério da Educação chileno organizava, tendo como palestrantes, entre outros, dois educadores do Brasil, Álvaro Vieira Pinto e Paulo Freire.

Nada sabíamos sobre a personalidade desses dois brasileiros, salvo que ambos eram exilados políticos que chegavam ao Chile em busca da liberdade que não encontravam em seu país, esmagado por um golpe militar.

Abriu o seminário sobre Educação de Adultos o professor Waldemar Cortés, Chefe Nacional de Educação de Adultos, dentro dos Programas Especiais que desenvolvia o governo democrata cristão de Eduardo Frei, que pretendia realizar no Chile uma "revolução em liberdade". Waldemar Cortés apresentou Paulo Freire como "criador de um método de alfabetização de adultos".

A lembrança intelectual desse brasileiro ficou gravada profundamente em todos os chilenos que foram seus alunos.

Nesses dias de dezembro de 1965, Freire apareceu já com fulgor próprio. Imediatamente descobrimos que uma imensa paixão vibrava em suas palavras. Os vocábulos fluíam sem obstáculos, derrubando crenças, velhos conhecimentos, semeando nos mesmos sulcos as esperanças que outros educadores chilenos haviam intentado colocar como luzes para os oprimidos. Todos os brasileiros que chegaram ao Chile em 1964 e nos anos seguintes falavam mais ou menos a mesma linguagem que, desde 1920, alimentava importantes setores da classe trabalhadora e da pequena burguesia chilena. Essa foi uma das razões fundamentais que abriu as portas do país aos que fugiam da ditadura militar brasileira.

Havia uma experiência no Chile, comum à maioria dos povos da América Latina, que começou a se concretizar após a Primeira Guerra Mundial. As idéias de democracia, de justiça social, de escolas para o povo, de eleições livres, de organização sindical, de liberdade para dar vida a políticas partidárias, entre outras, circulavam e marcavam os destinos dos cidadãos. Mas no Chile esses anelos eram mais que simples esperanças e em alguns campos eles estavam claramente materializados.

Quando em 1964 triunfou o partido democrata-cristão e Eduardo Frei assumiu a presidência com o desejo de fazer uma "revolução em liberdade", falando de Reforma Agrária em "chilenização das riquezas naturais", de "Reforma Educacional", de "Reforma Social", especialmente, um enorme e sólido clima de esperança agitou a maioria da sociedade chilena. Ao lado dessa maioria está a Igreja Católica Progressista, monitorada, nesse sentido, pelo pensamento avançado de grupos de representantes da companhia de Jesus. Os jesuítas teriam muita importância em facilitar o ingresso de muitos exilados brasileiros no Chile, já que sua influência no governo de Frei, nos primeiros anos, foi considerável.

Os exilados brasileiros que chegaram ao país, em 1964 e nos anos imediatamente seguintes, especialmente, não tiveram preocupações com sua sobrevivência diária. Todos tinham altas qualificações intelectuais e profissionais, e por isso receberam funções no governo ou nas instituições ligadas à Igreja. Foi o caso, por exemplo, entre outros, de Paulo Freire e de Ernani Maria Fiori.

Paulo Freire chegou ao Chile em 1964, poucos dias depois de haver Eduardo Frei assumido a Presidência da República. Freire descreve sua primeira visão do espírito em que viviam os chilenos:

" Cheguei ao Chile dias depois da posse do governo democrata-cristão de Eduardo Frei. Havia um clima de euforia nas ruas de Santiago. Era como se tivesse ocorrido uma profunda, radical, substantiva transformação na sociedade. (...) Era tão grande e havia uma certeza de tal maneira arraigada nos militantes da democracia-cristã que sua revolução estava fincada em terra firme, que nenhuma ameaça poderia sequer rondá-la".

Freire permaneceu quatro anos e meio no Chile, até abril de 1969. Regressou, posteriormente, três vezes, por breves períodos. Durante o governo do socialista Salvador Allende, da Unidade Popular, esteve no Chile em duas oportunidades, convidado por educadores chilenos. Em 1973, Freire e outros exilados brasileiros trataram de persuadir os chilenos da eminência de um golpe militar, tal era o clima de agitação que existia no país. Mas os Chilenos estavam "convencidos da tradição democrática e constitucionalista das forças armadas chilenas", e reagiam negativamente às palavras dos brasileiros. "Milhares de chilenos, a quem se juntaram outros latino-americanos, pagaram muito caro pela perversidade e pela crueldade que se abateram sobre o Chile, em setembro de 1973".

Esses quatro anos e meio no Chile foram para Freire, por um lado, "de um profundo aprendizado". E, por outro, uma experiência frustrante ao observar que o governo de Frei, no qual o povo chileno havia colocado tanta esperança, "voltava medroso do meio do caminho e se tornava ferrenhamente reacionário".

Mas também esses quatro anos e meio foram de intenso trabalho. Freire trabalhou com os camponeses e com os professores. Percorreu todo o Chile numa ânsia ilimitada de semear seu verbo libertador através de todos os caminho e de todas as paisagens. Foi nessas caminhadas de conquistas e de aprendizagem, de fraternidade junto aos camponeses que escreviam com ele no pó, com um pau, a palavra justa, o vocabulário mágico que brilhava nos olhos e acendia as consciências, que Freire começou a transformar-se num cidadão do mundo.

Paulo Freire trabalhou no Chile nos organismos vinculados à reforma agrária e no Ministério da Educação. A realização da reforma agrária era uma das grandes metas do governo democrata-cristão. Também o era a alfabetização de adultos.

 

 Nasce o método psicossocial de alfabetização de adultos

O professor Waldemar Cortés, chefe de Programa de Educação de Adultos do Ministério de Educação, conta como conheceu Paulo Freire e como Freire teria uma grande responsabilidade nos processos de alfabetização que os educadores chilenos começariam a desenvolver de 1965 em diante. Nesse ano, Cortés tomou conhecimento que a Corporação de Reforma Agrária (CORA) havia contratado um brasileiro que tinha um método de alfabetização de adultos chamado por ele de "método da palavra geradora". "Então", diz Cortés (entrevista de 1993), "fui falar com aquele brasileiro que se chamava Paulo Freire. Posso dizer que a entrevista foi extraordinariamente cordial. Quando lhe coloquei o motivo de minha visita, imediatamente ficou à nossa disposição. E quando perguntei sobre quanto custariam os direitos de autor, Paulo me respondeu, com modéstia, sinceridade e grandeza, que o único que desejava era poder retribuir aos chilenos, com seu trabalho e sua experiência, todo o afeto com o qual ele havia sido recebido. E se colocou a nossa disposição para trabalhar diretamente nos processos de alfabetização de adultos. Foi uma conversação fraterna. E aí nasceu uma amizade grande e forte entre nós, que cresceu nos muitos encontros de trabalho que tivemos pelo mundo, em diferentes épocas".

Imediatamente após esta entrevista entre Paulo Freire e Cortés, este nomeou uma equipe de educadores chilenos que, com a assessoria de Freire, adaptou o método da palavra geradora à realidade chilena e à lingua espanhola. E foi batizado de "Método Psicossocial de Alfabetização de Adultos". E foram os camponeses chilenos envolvidos na reforma agrária do governo democrata-cristão, através da Corporação de Reforma Agrária (CORA), o primeiro grupo de pessoas a aprender a ler e a escrever com o método.

Mas o método psicossocial, segundo Cortés, não podia ficar restrito ao meio rural. Por isso, Freire e os professores chilenos elaboraram um manual como guia geral para o uso do método. Paulo Freire se somou com entusiasmo à sua divulgação. Centenas de monitores se formaram na técnica e na filosofia do novo instrumento de leitura e escrita para adultos.

O trabalho realizado teve tanto êxito que a adaptação chilena das idéias de Paulo Freire chegou a vários países da América Latina. O método e o manual se transformaram em elementos básicos em todas aquelas nações latino-americanas que pretendiam conscientizar, fazer participar, dialogar e organizar os grupos populares.

No Chile, como no Brasil e noutros países, aplicou-se o método psicossocial de alfabetização de adultos apenas usando sua estrutura, mecanicamente. Esta deturpação do pensamento de Freire, que no Brasil teve um exemplo muito importante, o MOBRAL, é clássica. No Chile, por exemplo, foi empregado o método tanto nos governos democráticos, como os de Frei, Allende e Alwyn, como também na ditadura militar. Em todas essas práticas, a mecânica foi relativamente a mesma. Mas a base teórica, os princípios considerados como básicos para elaborar uma consciência crítica de si mesmo e da realidade dos estudantes, foi mudada, teve em cada ocasião dimensões diferentes, ou foi radicalmente eliminada, como no caso dos governos autoritários.

Afirma Cortés, fazendo suas as palavras de Álvaro Vieira Pinto, que os processos de alfabetização de adultos devem estar intimamente ligados à vida do trabalho. E deve o processo servir para mudar a situação de trabalho do alfabetizado. Este deve sentir que a alfabetização abriu novos caminhos para sua existência. De outra maneira, se o adulto se alfabetiza e segue na mesma situação ocupacional ou no mesmo nível da mesma, perceberá que o alfabetizar-se de nada lhe serviu. Isto significa também que a alfabetização deve abranger toda a atividade do alfabetizando, não só a de aprender a escrever e a ler, mas também, no caso do camponês, por exemplo, conhecer as características dos adubos que melhor servirão para o desenvolvimento de suas culturas, com o objetivo de alcançar elevados índices de produtividade.

O emprego do método psicossocial de alfabetização de adultos de Paulo Freire teve uma acolhida esplêndida entre educadores e camponeses. Os primeiros se sentiram comprometidos com o espírito de libertação humana que impregnava o método; os segundos, ao aprender a ler e a escrever, tiveram a sensação de serem pessoas que, ao trabalhar e compreender sua realidade, estavam levantando esperanças desconhecidas para seus filhos e para si próprios.

Mas nem todos os chilenos compartilhavam o entusiasmo pelo pensamento

educacional de Paulo Freire. Muito cedo, os setores conservadores, constituídos especialmente pelos latifundiários, protestaram pela dimensão "subversiva" do método de alfabetização. Mais tarde, entre 1967-68, quando a democracia-cristã recua em seu programa, e um amplo setor que desejava avanços mais decisivos nas políticas transformadoras do governo se separa do partido e este é dominado pela ala direita, as críticas contra os planos de reforma agrária e de alfabetização dos camponeses partem também do governo. Freire é atingido, sendo inclusive acusado de marxista.

Por isso, pelo clima político adverso ao pensamento de ação cultural que se estava realizando no Ministério da Educação e nos organismos de reforma agrária, apagou-se completamente o nome de Paulo Freire no Relatório do Ministério da Educação, elaborado para dar conta do processo de alfabetização de adultos que se havia realizado no país. Fala-se do método psicossocial de alfabetização de adultos, fazem – se descrições detalhadas do mesmo, mas o nome do autor não aparece em nenhuma parte.

Nesse ano de 1967, o Chile obtém o Prêmio Interacional da UNESCO pelos

esforços e resultados alcançados para avançar nos processos de alfabetização dos chilenos adultos. Não vamos dizer que esse estímulo recebido pelas autoridades chilenas se deveu exclusivamente ao esforço de Paulo Freire, mas, sem dúvida alguma, o educador brasileiro teve enorme importância nessa distinção alcançada pelo governo do Chile.

Porém, com toda certaza, a UNESCO estava ciente do papel relevante que Freire havia tido em toda essa grande tarefa realizada, pelos chilenos. De outra maneira, não se explica que fosse indicado consultor do instituto de Capacitação e Investigação em Reforma Agrária (ICIRA), da UNESCO. Como funcionário internacional, Freire segue prestando serviços aos chilenos que viviam dias de mudança difíceis em vários campos da vida nacional.

 

 

in: Revista Pedagógica Pátio - Ano I nº 2 agosto/Outubro 1997

cedida carinhosamente por: Solange Salussolia Vaini

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by: Paulo Gonçalo dos Santos NAE1

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