04 anos de Saudades !!! Homenagem do NAE-1 ao Mestre Paulo Freire |
| Pedagogia do Oprimido
A radicalidade do pensamento de Paulo Freire nasce de uma prática pedagógica comprometida com os interesses populares. Há décadas, Pedagogia do Oprimido orienta educadores e educandos no processo permanente de conscientização e ação política.
Sérgio Haddad
Falar sobre Paulo Freire, sobre suas idéias e sobre o seu trabalho sempre nos parece repetitivo, tantos são os trabalhos sobre sua pessoa e sua obra. Para se ter uma idéia da importância do educador, há uma década, em 1987, o norte-americano Donaldo Macedo levantou aproximadamente 6 mil títulos, entre livros e artigos, sobre Freire, somente em língua inglesa. O que falar sobre Paulo Freire, então ? Carlos Rodrigues Brandão (1987), em uma entrevista à Revista Educação em Revista, afirmava que "Paulo Freire passou a vida inteira dizendo três coisas, mas ele conseguiu dizer de uma tal maneira que, de repente você lê e diz: Puxa, aqui está alguém que disse alguma coisa diferente". Talvez por aí seja possível uma contribuição: a diferença que fez as idéias de Paulo Freire serem veiculadas mundialmente, fazendo dele, talvez, o maor educador brasileiro de maior importância de todos os termpos Padagogia do Oprimido (1970) foi uma marca no pensamento pedagógico, inclusive para o próprio Paulo Freire. No livro, suas idéias ganharam radicalidade em uma reflexão que já vinha se desenvolvendo desde os seus primeniros escritos a partir de Educação e Atualidade Brasileira (1959). O mais importante é que a radicalidade de seus escritos, das suas idéias, foi adquirida a partir de uma prática política e pedagógica de alguém preocupado com seu tempo e compromissado com os interesses populares.
Importância do Diálogo
Paulo Freire estava no exílio quando escreveu Pedagogia do Oprimido. Estava impedido de trabalhar no Brasil depois de ter sido alcançado ao Ministério da Educação para coordenar uma campanha nacional de alfabetização de adultos, que foi desmontada pelo Golpe de 1964. Junto com outros exilados, refletia sobre a realidade brasileira e sobre a sua experiência enquanto desenvolvia experiências educativas no Chile. Suas idéias eram as mesmas: a importância de ver todo processo educativo como um processo político e, consequentemente, uma prática que não é neutra; a importância do diálogo como essência do processo educativo; o sentido educativo que existe para todos aqueles envolvidos em uma prática pedagógica, sejam educadores ou educandos. Pedagogia do Oprimido foi o produto, entre outras coisas, destas três idéias na prática do educador Paulo Freire. Foi uma ampliação de suas concepções: foi a resposta do educador aprendiz que, olhando o passado, reviu seus erros e acertos, e remete para o futuro uma nova proposta educacional. Paulo Freire aprendeu com o Brasil e procurou fazer desta prática, sabedoria. Procurou ver como se realizou o político na sua ação de educador e fez isto através do diálogo que exerceu durante toda a vida e que, naquele momento histórico, se concretizou com os parceiros que tiveram a mesma trajetória dos que foram obrigados a abandonar o país. Em seu livro, agradeceu as críticas e sugestões de Almino Afonso, Paulo de tarso Santos, Ernani Maria Fiori, Plínio de Arruda Sampaio, José Luiz Fiori, Wilson Cantoni, entre outros. As idéias de paulo Freire vão ganhando radicalmente alimentadas pelos quadros de referência da literatura marxista tão presentes em Pedagogia do Oprimido e que foram incorporados ao pensamento. Para se ter uma idéia, neste livro, a bibliografia passou a incorporar Hegel, Marx, Engels, Lênin, Fromm, Sartre, Marcuse, Fanon, Memmi, Lukács, Debray, Freyer, Kosik, Goldmamm e Althusser, além de Mao-Tsé-Tung, Fidel Castro, Ernesto Guevara e Camilo Torres.
Missão Histórica
Paulo Freire permaneceu acreditando no diálogo. Porém, na sua condição de cristão revolucionário, entendeu a impossibilidade do diálogo entre contrários e apostou na missão histórica dos oprimidos se libertarem libertando os opressores. "Ninguém liberta ninguém ninguém se liberta sozinho -, os homens se libertam em comunhão". Isto se daria na medida em que uma vez assumida pelos oprimidos sua consciência de explorado, suas reivindicações trariam a radicalidade de posições entre estes e seus exploradores. Assim, o papel central no processo de libertação seria dos orpimidos e não mais, como explicitou em Educação como Prática de Liberdade (1983), das elites comprometidas em diálogo com o povo. Paulo Freire permaneceu acreditando no papel político de educador, mas a sua utopia de sociedade não se referenciava mais na construção do capitalismo industrial moderno e sim no socialismo. Este papel político de educador, no entanto, não deveria se dar por sobre as posições dos educandos. Neste sentido, Paulo Freire jamais abandonou suas idéias de respeito ao outro, de respeito aos modos de pensar do povo e à sua cultura. Recusava qualquer tipo de imposição de conhecimentos, de manipulação, de "invasão cultural".
Práxis Permanente
Ao mesmo tempo, não desconhecia a importância das vanguardas e de uma teoria revolucionária de transformação social. Paulo Freire propôs uma ação orientada para o que chamava de "síntese cultural". "A solução está na síntese. Por um lado, incorporar-se ao pavo na aspiração reivindicativa. Por outro, problematizar o significado da própria reivindicação. "Assim, dizia Paulo Freire, ao realizar tal ação, estaria problematizando a situação histórica, real, concreta que, como totalidade, teria uma das dimensões nesta reivindicação. Por fim, Paulo Freire continuou acreditando no permanente aprendizado do educador que se realizaria através do ato educativo, mas acrescentou que este ato não podia ser dissociado de uma prática, elemento essencial no processo de conscientização. A prática é fonte de conhecimento...a prática é indispensável ao ato de conhecer. Isto vale tanto para o educador como para o educando. Já não falava mais de uma conscientização através do processo educativo e posteriormente uma ação política fruto dessa conscientização. A práxis passou a ser incorporada como um elemento permanente do educativo. Durante toda ´década de 70, as idéias de Pedagogia do Oprimido serviram como fonte de incantivo para quem trabalhava em educação no Brasil. Os que permaneceram nos sistemas oficiais de ensino, premidos pela vigilância e controle, puderam, nos limites da sala de aula, através do seu trabalho silencioso, vivenciar estas novas idéias. Para os que se dedicaram ao trabalho educativo fora da escola, com grupos populares, Pedagogia do Oprimido foi uma das matrizes mais importantes da chamada educação popular, educação esta que serviu ao trabalho de resistência, organização e conscientização. Pedagogia do Oprimido é um marco no pensamentoeducacional, é um marco no pensamento de Paulo Freire. Hoje, 30 anos depois, ainda vivemos sob seus fluídos. |
| in: Revista
Pedagógica Pátio - Ano I nº 2 agosto/Outubro 1997 cedida carinhosamente por: Solange Salussolia Vaini |
by: Paulo Gonçalo dos Santos NAE1 |