04 anos de Saudades !!!

Homenagem do NAE-1 ao Mestre Paulo Freire

 

Paulo Freire, meu último pai

 

Augusto Boal

Centro do Teatro do Oprimido

Na Babilônia, muitos século antes de Jesus Cristo, um homem observou uma maçã caída de uma macieira que rolava por um declive na ribanceira, e viu o que todos apenas olhavam: a maça rodava tocando o solo pela circunferência. Só uma parte da sua superfície tocava o chão. O homem se deu conta daquilo que ninguém antes percebera: para rodar, a maça não necessitava ser esférica – bastava ser circular. E inventou a roda.

As rodas que vemos rodando pelo mundo, pelos trilhos, pelas velozes pistas, pelos mercados, em casa, na rua, foram inventadas por um gênio: um homem que viu o que todos apenas olhavam.

Uma outra maça, séculos mais tarde, caiu na cabeça de Newton. Qualquer um de nós teria dado um grito, feito uma imprecação, dito um impropério, amaldiçoado o reino vegetal. Newton, ao contrário, viu o óbvio: "A matéria atrai a matéria na razão direta das massas e inversa do quadrado das distância". É lógico, límpido e cristalino.Porque se assim não fosse, a maça não teria jamais caído na cabeça de Newton: seriam a Terra e Newton que teriam caído na maça. Isso, Hoje, é fácil de entender. Mas foi preciso um gênio para ver o que todos apenas olhavam.

Arquimedes, tomando banho de banheira, percebeu que sua perna tendia a flutuar. Coisa estranha! E num lampejo - "Eureka!" – descobriu o óbvio: "Um corpo sólido mergulhado em um líquido recebe um empuxo de baixo para cima igual ao peso do volume líquido deslocado". Nada mais elementar. Só que, antes, ninguém tinha traduzido, em teoria, a prática das pernas flutuantes. Todos os usuários de todas as banheiras, piscinas, lagoas, viam pernas flutuando, achavam muito natural, mas só Arquimedes deduziu a lei que regia tais fenômenos.

Assim são os gênios: descobrem ou inventam o óbvio que ninguém vê. Assim aconteceu com Paulo Freire: descobriu que o "vovô absolutamente não viu o ovo", nem a "vovó viu a ave coisa nenhuma", mas ao contrário – com certeza -, o pedreiro viu a pedra; a cozinheira, o feijão; o lavrador, a enxada, a soja e o trigo. E o operário e o camponês não viam o salário, as férias, o direito à escolaridade dos filhos, à saúde. O trabalhador não via a hora de descansar. O faminto, a hora de comer. O povo, a hora de redenção.

O ato de aprender a ler é aprender a pensar, e pensar é uma forma de ação. Assim, apesar de vovôs e vovós das antigas cartilhas serem dignos de todo respeito, apesar de aves e ovos serem dignos de todo cuidado , o camponês precisa saber como se escreve o nome da foice com que lavra a terra, o pedreiro, o nome do tijolo com que constrói a casa, a cozinheira, os nomes com que condimenta o feijão e a farinha.

E, assim desenhando em letras e palavras a dor que o pobre sentia na carne – mas sem esquecer os desenhos do sonho e da esperança! -, Paulo Freire inventou um Método, o seu, o nosso, o Método que ensina ao analfabeto que ele é perfeitamente alfabetizado nas linguagens da vida, do trabalho, do sofrimento, da luta e só lhe falta aprender a traduzir em traços, no papel, aquilo que já sabe, no seu cotidiano. Maiêutico, socrático, Paulo Freire ajuda o cidadão a descobrir, por si, o que traz dentro de si.

E, neste processo, aprendem o professor e o aluno: "A um camponês ensinei como se escreve a palavra arado; e ele me ensinou como usá-lo!", disse um professor rural. Só é possivel ensinar alguma coisa a alguém que, a nós, alguma coisa ensina. O ensino é um processo transitivo – diz o nosso Mestre -, um diálogo, como deviam ser diálogos todas as relações humanas: homens e mulheres, negros e brancos, classes e classes, países e países. Mas sabemos que esses diálogos – se não forem carinhosamente cuidados ou energicamente exigidos – bem cedo e transformam em monólogos, nos quais apenas um dos "interlocutores" tem direito à palavra: um sexo, uma classe, uma raça, um conjunto de países. E os outros são reduzidos ao silêncio, à obediência: são os oprimidos. E esse é o conceito paulofreireano de opressão: o diálogo que se transforma em monólogo.

O Rei Afonso VI da Espanha teria dito certa vez: "Se Deus tivesse pedido a minha opinião, antes de criar o mundo, eu teria aconselhado alguma coisa bem mais simples". Paulo Freire, de certa forma, descomplicou o ensino. Embora Deus nada lhe tenha perguntado – isto, ao que consta oficialmente, mas no íntimo estou convencido de que perguntou, sim! -, ele criou alguma coisa mais simples mais humana do que as complicadas formas autoritárias de ensino que obstaculizavam o aprendizado.

 

 

Com Paulo Freire aprendemos a aprender

No seu Método, além de se aprender a ler e a escrever, aprende-se mais: aprende-se a conhecer e a respeitar a alteridade, o outro, o diferente. Meu semelhante a mim se assemelha, mas não sou eu; a mim se assemelha: com ele me pareço. Dialogando aprendemos, ganhamos os dois, o professor e o aluno, pois que os alunos somos todos, e professores. Existo porque existem. Para que se escreva em uma página branca é necessário um lápis negro; para que se escreva num quadro negro é necessário que o giz tenha outra cor. Para que eu seja, é preciso que sejam. Para que eu exista é preciso que Paulo Freire exista.

Paulo Freire morreu. Mas existirá sempre, como meus outros pais, todos agora falecidos, Como José Augusto, que me ensinou a viver e a trabalhar, e a viver trabalhando; como John Gassner, que me ensinou dramaturgia; como Nelson Rodrigues, que me deu a mão no teatro.

Com Paulo Freire, morreu meu íltimo pai. Agora só tenho irmãos e irmãs.

A experiência relatada neste artigo faz parte do Projeto de Educação de Adultos da Construção Civil, uma parceria da Método Engenharia S.A., Centro de Estudos Escola da Vila e Fundação Kellogg

 

Conhecimentos prévios X valorização do conhecimento que o aluno traz

A aprendizagem significativa, um dos princípios norteadores da Concepção Construtivista, implica atribuição de sentido e construção de novos significados, o que envolve: disposição por parte do educando;apresentação de material potencialmente significativo (que seja relevante e tenha organização interna); orientação por parte do educador; qie o estudo tenha sentido para o educando ( considerando suas dimensões pessoais, afetivas e intelectuais) e que a organozação e a situação de aprendizagem propiciem ao educando relacionar o novo conteúdo e o material de estudo com os seus conhecimentos prévios.

O ponto central de aprendizagem significativa é estabelecer o máximo de relações entre os conhecimentos prévios dos educandos com os novos conteúdos. Os conhecimentos prévios podem estar relacionados a conceitos, princípios, fatos, procedimentos, normas, atitudes e valores bem ou mal elaborados, mais ou menos coerentes, adequados ou inadequados em relação ao conteúdo de estudo. Entre os educandos de um mesmo grupo podem existir diferenças na quantidade de conhecimento, organização, coerência e validade, o que deve ser compreendido como veículos para a aprendizagem e não como obstáculos.

No campo da educação de adultos, a aprendizagem significativa, que considera o conhecimento prévio do aluno, também foi explicitada por Paulo Freire como parte integrante do trabalho pedagógico:

"O que proponho é um trabalho pedagógico que a partir do conhecimento que o aluno traz, que é uma experiência da classe social à qual os educandos pertencem, haja uma superação do mesmo, não no sentido de anular esse conhecimento ou de sobrepor um conhecimento a outro. O que se propõe é que o conhecimento com o qual se trabalha na escola seja relevante e significativo para a formação do educando".

Segundo o autor, isso exige mudanças na visão de educador, de educando e do ato educativo. Na medida em que o educador utiliza o conhecimento que o educando traz, altera-se a visão tradicional da postura do educador como detentor e transmissor do conhecimento oficial. Cabe ao educador ser agente que aprende e ensina, valoriza e respeita as diferenças individuais dos educandos e de suas classes sociais .

Nesta visão, o educador entende o educando como um ser pensante e não como um ignorante que cabe ao educador preencher com seus conhecimentos. Um ser que está em interação com o mundo, construindo conhecimentos. A relação dialógica se faz fundamental para que o ato educativo aconteça e para que os conteúdos trabalhados na escolasejam significativos na formação do educando.

"A priorização da ‘relação dialógica’ no ensino, que permite o respeito à cultura do educando, à valorização do conhecimento que o educando traz, enfim, um trabalho a partir da visão do mundo do educando é, sem dúvida, um dos eixos fundamentais sobre os quais deve se apoiar a prática pedagógica de professoras e professores".

Algumas práticas de educação de adultos têm – se limitado à valorização de determinados tipos de conhecimentos prévios, geralmente da realidade contextual do educando. Para Freire, a valorização do conhecimento que o educando traz deve ser ponto de partida e não ponto de chegada do processo educativo.

 

 

 

"Não há como não repetir que ensinar não é a pura transferência mecânica do perfil do conteúdo que o professor faz ao aluno, passivo e dócil. Como não há também como não repetir que partir do saber que os educandos tenham não significa ficar girando em torno deste saber. Partir significa pôr-se a caminho, ir-se; deslocar-se de um ponto a outro e não ficar, permanecer. Jamais disse, como às vezes sugerem ou dizem que eu disse, que deveríamos girar embevecidos em torno do saber dos educandos, como a mariposa em volta da luz".

Tanto Paulo Freire como a Concepção Construtiva de Educação apontam que os conhecimentos prévios dos jovens e sdultos poco escolarizados ou não alfabetizados sobre determinados conteúdos devem ser valorizados, considerados no processo de ensino e aprendizagem e compreendidos pelo educador.

Propor atividades que ativem os conhecimentos prévios dos educandos propicia ao educador conhecer melhor os conhecimentos que têm em relação ao conteúdo, o que contribui para que possa planejar as situações de aprendizagem significativas. Ao educando possibilita ter consciência de sua idéias, justificar suas crenças e reflexões, lidar com as contradições, organizar suas idéias, descobrir idéias diferentes, estabelecer relações, o que favorece a aprendizagem significativa de conceitos e fatos, procedimentos, valores, normas e atitudes.

Valorizar e considerar osconhecimentos prévios dos jovens e adultos propicia ao educador compreender o nível em que se encontram no processo de construção do conhecimento, o que nos remete a um aspecto fundamental: a necessidade de o educador ter subsídios teóricos para compreender as formas de construção de determinados tipos de conhecimentos.

As pesquisas na área da psicologia têm contribuído para a compreensão do processo de construção da escrita, do sistema de numeração, de conceitos, etc. No campo da matemática, com adultos poucoas escolarizados, percebemos que muitos conhecimentos se constroem a partir das necessidades ditadsa pelo meio em que vivem. Em nossa sociedade não há adultos que não tenham que lidar com cálculos de dinheiro, medidas, quantidades, etc.

A construção da escrita numérica é um exemplo disso. No início do projeto, alguns usavam critérios próprios para representar os números:

 

 

para representar 7.001, escreveiam 70001.

 

Esta forma de representação é definida por Lerner & Sadovsky (Didática de las Matemáticas, 1994) como representação aditiva: é como se escrevessem 7000 + 1, o que está relacionado com a estrutura do nosso sistema de numeração. A hipótese construída está relacionada com as informações que extraem da numeração falada. Quando dixemos 7.001, realizamos um processo aditivo: 7.000 + 1.

Na realização de uma operação aritmética (49 + 35), os alunos se utilizaram do cálculo mental, expressando oralmente o resultado correto (84). Um deles representou o resultado assim:

 

 

49 + 35 = 804

(forma aditivada de representação)

Os adultos, no seu cotidicano, utilizam-se mais do cáculo mental e fala numérica do que da representação escrita. Seus conhecimentos prévios em realção à escrita dos números estão baseados na expressão oral numérica.

Avaliando suas produções, percebemos que possuem conhecimentos prévios elaborados e precisos em relação à noção de quantidade e cálculo mental. Em relação `a escrita dos números estão num processo de construção, elaborando critérios, buscando formas de lidar comesse conhecimento.

No caso específico, sem essa compreensão, a educadora não teria condições de analisar e avaliar os conhecimentos prévios dos educandos, considerando-os erros.

Os exemplos mostram a necessidade de formação contínua do educador para compreender as formas de construção de conhecimentos de jovens e adultos pouco escolarizados. Cabe ainda, ao educador, propor situções de aprendizagem significativa que propiciem o levantamento dos conhecimentos prévios e sua relações com os novos conteúdos.

 

 

in: Revista Pedagógica Pátio - Ano I nº 2 agosto/Outubro 1997

cedida carinhosamente por: Solange Salussolia Vaini

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by: Paulo Gonçalo dos Santos NAE1

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