Terça-feira, Outubro 03, 2006

O Ato Médico e o Ato Filosófico

O Ato Médico, projeto de lei que uma vez chegado ao Congresso, e se aprovado, tornaria privati­vos da classe medica todos os "procedimentos diagnós­ticos" e "indicações terapêu­ticas", é o assunto de hoje. Se aprovado, ameaçaria a socie­dade com O Alienista, de Ma­chado de Assis.

A idéia acendeu os de­sejos de outros setores. O Ato Enfermeiro proibirá as mães de curativos e relegará os Band-aids às farmácias, mas nada poderá ser ven­dido em farmácia por causa do Ato Farmacêutico. De tanto não venderem nada, os farmacêuticos terão lesões na coluna, mas nem pensar em massagens porque O Ato Fisioterápico valerá em todo o território nacional. O problema é que de tanta vigilância, os fisiotera­peutas ficarão doidos e não poderão ir a um médico psi­quiatra porque estará vigen­te O Ato Psicológico, pelo qual nenhum paranóico ou­sará paranóias como procu­rar gente desabilitada a lidar com isso, como um médico. Nervosos, os médicos pas­sarão a comer mal e pouco, mas não poderão fazer qual­quer coisa, uma vez que es­tarão condenados a alimentação eterna que iniciaram devido ao Ato Nutricionis­ta. Os próprios nutricionis­tas não poderão explicar nada aos médicos para não incorrerem em uma afronta ao Ato Pedagógico que res­tringe o ensino aos profes­sores. Pena que nessa altura os professores já tenham morrido em conseqüência do Ato Político que, por sua vez, agonizará pelo embate entre O Ato Econômico e O Ato Circense. Ninguém mais estará a salvo.

Os advogados serão impe­didos de quase tudo pelo Ato de Direito, segundo o qual todo a juiz prescindirá de advogados. Mediante O Ato Te­ológico os juizes serão proi­bidos de julgar, já que isso a Deus pertence. Mas O Ato Fi­losófico será supremo e cer­ceará a todos, já que ninguém poderá fazer algo sem o uso da razão, o que impedirá na prática a própria Filosofia.

Qualquer coisa que qual­quer um fala será condena­da pelo Ato dos Atos que é o projeto de lei que proíbe todas as coisas mediante a suspeita de alguma coisa que possa invadir remotamente outra. Ninguém mais sairá de casa, ninguém dará mais um piu, nem Bush, e juntos, em silêncio, todos aguarda­rão quietos, sem piu, O Ato do Juízo Final.




Lúcio Packter
Filósofo – PUC – FAFIMC – RS

Revista Ciência & Vida – FILOSOFIA. Ano1, n°2, 2006.
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