Terça-feira, Agosto 15, 2006

Os "Inumanos"

Na época mágica e de cristal dos sonhos, dois seres - recém-chegados ao mesmo mundo - tornaram-se amigos.

Todos os dias, desde a obscuridade rubra de seus claustros maternos, os novos fetos intercambiavam esperanças.

Mas um dia um dos seres sentiu-se morrer.

E na angústia de sua solidão, chamou o irmão de gestação...

- Está acontecendo alguma coisa com meu corpo. Senti a dor de uma espada atravessar-me de um lado a outro. E a vida me abandona!

O segundo ser, entretanto, permaneceu em silêncio.

- Oh, irmão, atenda à minha angústia! Por que me sinto morrer se nem sequer nasci?

Finalmente o segundo respondeu:

- Sua etapa foi breve. A vida se esvai de você.

- Por quê?

- Seus pais não o desejam.

- E vou morrer?

- Temo que sim.

No interior da bolha dos sonhos, aquele novo ser verteu lágrimas vãs. O pranto negro dos impotentes e oprimidos...

- Por quê, por quê? - repetia sem cessar.

- Não sabe que o mundo em que fomos concebidos tolera e admite a morte daqueles que, como nós, não viram a luz do Planeta?

- Mas o direito à vida vem ante de qualquer outro direito.

- Sim, mas apenas para os que já nasceram...

- E o que me diz da Ciência? A biologia e a genética demonstraram que a vida de todo ser humano começa no próprio momento da concepção...

- Isso são "músicas celestiais" para aqueles que nasceram. É evidente que os homens do mundo chamado de Terra se desfazem sempre daquele que os perturba, não importa o que diz a Ciência.

- Oh, meus Deus! Mas entre os seres humanos, nenhum é inferior a outro. Nenhum deve ser privado de seus direitos.

- Apesar disto, você não nascerá.

- Como posso defender-me? Como posso gritar-lhes que sinto e vivo?

- Não pode.

- Então minha morte é injusta. Nem sequer fui julgado. Qual foi meu crime?

- Ter surgido na face da Terra. Esta é sua culpa. Não precisa ser julgado. Os que já nasceram o farão por você.

- Como poderei dizer-lhes que tenho grandes planos, que quero ser um grande pesquisador, que trago comigo o segredo para a resolução de graves problemas?

- Também não podes fazê-lo. Com muita sorte, poderá tão-somente gemer num cesto de lixo.

O novo ser estremeceu. Sentia seu pequeno coração cada vez mais descompassado...

- Irmão, me ajuda! Estou morrendo!

- Ninguém pode fazer nada por você!

- Mas e minha mãe? Por que ela pôde nascer e eu não? Não dizem que todos têm direitoà liberdade?

- Dizem.

- Então me diga: por que eu os incomodo?

- Afirmam que você é um estorvo para a "liberdade individual" e para a "realização pessoal" deles. Além disso, sua presença significa novos gastos. Mais dinheiro.

- E o amor?

- Essa flor não nasce neste planeta.

- Mas por que estou morrendo e você não? Fomos concebidos ao mesmo tempo. Por que você viverá e eu não?

O segundo feto novamente mergulhou em prolongado silêncio. Mas por fim respondeu:

- Sabe o que é, irmão? Não sou um ser humano. Sou um cachorro.


Conto de J.J. Benitez, em seu livro Sonhos.

1 Comments:

*cL@üD!NhA* escreveu...

Sem palavras...

26/8/06 18:51  

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