Quinta-feira, Junho 29, 2006

Rezar faz mal!

Texto "nervoso", mas interessante obtido aqui. Pesquisei e coloquei alguns links para as fontes do autor. Em seguida, comento outro site com assunto relacionado.

Qual é o país mais pirado do mundo, em matéria de religião? Afeganistão? Iraque? Índia? Está na hora de você incluir os Estados Unidos na sua lista.

O jornal The New York Times traz uma reportagem com um lide (parágrafo de abertura) surreal a esse respeito, que merece ser traduzido aqui (leia tradução na íntegra aqui):
"Orações oferecidas por estranhos não tiveram efeito algum na recuperação de pessoas que haviam sido submetidas a cirurgia cardíaca, constatou um estudo aguardado há muito tempo."

Hã, e podia ter dado outra coisa? Precisava fazer um estudo duplo cego randomizado controlado e o escambau?
Aí vem o sublide (segundo parágrafo) e faz piada em cima da pancada (minha tradução livre para "add insult to injury"), ainda que involuntariamente:
"E os pacientes que sabiam que alguém rezava por eles tiveram uma taxa maior de complicações pós-operatórias, como batimentos cardíacos anormais, talvez por causa da expectativa criada pelas orações, sugerem os pesquisadores."
Em resumo, rezar faz mal. Pelo menos para os outros.
A reportagem de Benedict Carey (será o Benedito?) informa que a pesquisa científica rigorosa começou há uma década e envolveu coisa de 1.800 pacientes. O STEP (Therapeutic Effects of Intercessory Prayer) custou US$ 2,4 milhões, a maior parte deles oferecidos pela John Templeton Foundation. Fala também de outros dez estudos nos últimos seis anos, todos com resultados inconclusivos.
No caso do novo estudo, dirigido por Herbert Benson, cardiologista e diretor do Mind/Body Medical Institute, em Massachusetts, 1.800 pacientes que passaram por cirurgias para colocação de pontes cardíacas foram separados em três grupos: dois com reza e um sem reza, sempre por terceiros. Um com reza sabia da reza, o outro, não.
Os três grupos foram então comparados quanto a complicações surgidas nos 30 dias depois da operação. Não houve diferença significativa entre os dois grandes grupos, com e sem orações. Entre os com-reza, porém, 59% dos que sabiam apresentaram problemas, contra 51% dos que não podiam contar com certeza com as orações de desconhecidos.
Os autores do estudo, que obviamente pretendiam mostrar o poder curativo da oração, não se deram por achados. Disseram que é preciso estudar mais, ou que a investigação nada permite concluir sobre o poder da oração individual sobre o organismo do crente. Eles nunca vão dar o braço a torcer.
O mais espantoso não é que se discuta o resultado da pesquisa, mas pura e simplesmente que ela tenha sido feita. Torrar US$ 2,4 milhões nisso é um pecado capital, soberba.
A John Templeton Foundation tentou manter a fleuma. Num comunicado oficial, honestamente intitulado "Maior estudo com orações intercedentes por terceiros sugere que orações não são eficazes para reduzir complicações após cirurgias cardíacas". Eis um trecho:
"A Fundação encoraja jornalistas e outras pessoas interessadas a considerar com profundidade as várias questões interpretativas. Pesquisa sobre orações é um tópico fascinante e pode bem continuar de maneiras adicionais ao que foi apresentado como resultado do projeto STEP. No entanto, os achados negativos obtidos pelo metodologicamente rigoroso experimento STEP parecem oferecer um resultado clara e definitivamente contrastante com achados anteriormente publicados (estudo Byrd) de um efeito positivo para orações intercedentes à distância com paciente desconhecido, num experimento de oração envolvendo a recuperação de pacientes numa unidade de cardiologia."
Razão tem Richard Sloan, da Columbia University, para quem esse tipo de estudo só garante a reunião de má ciência com má religião, como disse ao jornal The New York Times.
Complementando, outro artigo (para ler, é necessário criar um login no site, de graça) do jornal The New York Times.
Ele fala de um estudo feito por dois pesquisadores e um expert em fertilidade da Universidade de Columbia em que mulheres em tratamento de fertilidade que receberam preces tiveram sucesso duas vezes mais do que outras que não receberam. Três anos mais tarde, depois que um dos pesquisadores foi declarado culpado de conspiração de fraude, Columbia está investigando o estudo e o jornal retirou o estudo Web site, embora não haja evidência de manipulação dos dados.
A questão é que a "ciência" está entrando numa área que não lhe compete, como mostra o psicólogo Dr. Richard J. McNally, de Harvard: "O orador intercedente pressupõe alguma intervenção sobrenatural que é, por definição, além do alcance da ciência". Complementa: "Isto é somente uma idéia sem razão de ser, na minha opinião, um total desperdício de tempo e dinheiro".
Os pesquisadores da oração, muitos deles crentes nos poderes curativos da prece, dizem que os cientistas não precisam saber como um tratamento ou intervenção funcionam antes de testá-lo.

O Dr. Richard Nahin, um consultor sênior do National Center for Complementary and Alternative Medicine nos EUA, disse em um e-mail que os estudos destinam-se a responder às questões práticas, e não às religiosas. Ele conta que apesar do uso de medicamentos eficazes no tratamento de doenças, vários deles ainda não foram completamente investigados. Em um recente estudo do governo (americano) encontrou-se que 45% dos adultos rezam por razões de saúde, e que a maioria é de pessoas pobres e sem acesso aos cuidados de saúde. "É imperativo à saúde pública entender se a oração oferece algum benefício", escreveu Nahin.
Alguns pesquisadores também apontam que a reza para o alívio do sofrimento de outras pessoas é uma resposta profundamente humana à doença.

O efeito Placebo
Vários estudos já foram feitos sobre a intercessão da prece sobre a saúde. E outros ainda estão em andamento. Mesmo aqueles que defendem a pesquisa da prece concordam que tais estudos são difíceis. Por um detalhe: ninguém sabe o que constitui uma "dose": alguns estudos usam rezadores individuais, enquanto outros usam a prece em grupo, congregações inteiras; alguns envolvem cristãos evangélicos, outros engajaram rabinos, budistas e new agers, ou alguma combinação destes.
Outro problema envolve o mecanismo pelo qual a prece supostamente funciona. Alguns pesquisadores afirmam que os efeitos da prece - se é que existem - tem pouco a ver com religião ou com a existência de deus. Ao invés de intervenção divina, eles propõem coisas como "energias sutis", "comunicação mente-à-mente", ou "dimensões extra do espaço-tempo" - conceitos que muitos cientistas consideram absurdos. Outros sugerem que a prece pode ter um efeito consolador que funciona como um placebo para os crentes que sabem que recebem preces.
De qualquer modo, assim mesmo muitos paroquianos são céticos de que a prece possa ser submetida ao escrutínio científico. Preces variam em propósito e conteúdo: algumas louvam, outras pedem força, e muitas pedem que a vontade de deus seja feita. Para outros, nem todos vêem o deus como alguém que faz favores à pedido.
"Não há como colocar deus à teste, e isto é exatamente o que se faz quando se idealiza um estudo para ver se deus responde às preces", diz o Rev. Raymond J. Lawrence Jr, diretor da pastoral na New York-Presbyterian Hospital/Columbia University Medical Center. "Todo este exercício diminui a religião, e promove uma teologia infantil de que deus está fora pronto para, miraculosamente, desafiar as leis da natureza em resposta à uma prece."

A Prece e a Doença do Coração
Dois grandes estudos que concluem positivamente a efetividade da prece na doença cardíaca são vistos a seguir.
O Dr Randolf Byrd, cardiologista de São Francisco (EUA) relatou que de 393 pacientes tratados na unidade coronariana do Hospital Geral de São Francisco, 192 receberam preces. Byrd relatou, no The Southern Medical Journal (o artigo, de 1988, não está disponível on-line), que os pacientes que receberam preces melhoraram em diversas medições de saúde, incluindo a necessidade de drogas e assistência respiratória. Ao final do artigo, Byrd agradece a deus por responder às preces e melhorar a saúde de seus pacientes.
Em outro estudo, o Dr William S. Harris, do St. Luke's Hospital, e seus colegas reportou no The Archives of Internal Medicine em 1999 que os pacientes que receberam preces de religiosos desconhecidos tiveram melhora significante em comparação a outros em uma medição de saúde coronariana que incluiu mais que 30 fatores. Harris, que foi um dos autores de um artigo que discute que a teoria da evolução de Darwin é especulativa, concluiu que o seu estudo apoiou o do Dr Byrd.
Em ambos os experimentos, os pesquisadors não sabiam, até sua conclusão, quais pacientes receberam preces. Mas experts dizem que os dois estudos sofrem da mesma fraqueza: os autores mediram tantas variáveis que alguma delas se tornou positiva estatisticamente. Ou, de outra maneira, é como fazer uma pergunta repetidamente até que se obtenha a resposta desejada. O Dr Harris corrigiu o problema estatístico, encontrando diferenças significativas entre os grupos "com prece" e "sem prece", mas somente usando uma fórmula que ele e seus colegas elaboraram, e que ninguém mais validou. Muitas cartas chegaram ao jornal desafiando os métodos de Harris e um médico correspondente "corajoso", brincando, disse que ele poderia contar com seus resultados por ser clarividente: "Eu usei subsequentemente meus poderes telepáticos para influenciar o curso do grupo experimental", escreveu.
Ainda, alguns líderes religiosos e praticantes de medicina alternativa argumentam que porque a prece é tão comum uma resposta à doença, os pesquisadores tem a responsabilidade de investigá-la.
"Nós precisamos olhar para a prece com o que chamo 'ceticismo mente-aberta'", disse o Dr. Marilyn Schlitz, o investigador líder do estudo financiado pelo governo e diretor de pesquisa no Institute of Noetic Sciences, um centro de pesquisa de medicina alternativa próximo de São Francisco.

Pois bem, é claro que toda dúvida leva (ou deveria levar) à pesquisa e ao estudo dos fenômenos observados. Mas misturar crenças com realidade não cabe no conceito científico como bem nos diz o Dr. McNally acima.
Por mais bem intencionados que sejam os pesquisadores, o rigor é uma necessidade na ciência e nela não cabem questões pessoais como orgulho.

1 Comments:

*cL@üD!NhA* escreveu...

Saudações...
(Hehehe...gostei do título...)
Essa "briga" entre cientistas e crentes já é algo até banal... (Assim como brasileiro já está acostumado a ser baleado, violentado de todo modo...)
Às vezes eu penso que se torna uma futulidade, (pois até no teu texto) há uma contensão de gastos de certa forma absurda para essas pesquisas serem feitas, e no fim acaba-se apenas as discussões e a confirmação de ambas as crenças...
Só pra dar uma cutucadinha??
Mesmo que eu ache os cientistas mais sensatos, nesse ponto eu não curto não... Mas, tudo bem, irei orar por eles... Ops, oram faz mal né... (Hehehe.)
S/ +, despeço-me cordialmente...

2/7/06 01:32  

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