A
beleza do pop
Sem abandonar o Kid Abelha, Paula Toller lança disco solo no qual interpreta
até samba dos anos 40
Não me olho no espelho e penso: Olha, o símbolo sexual acordou. Nem digo para mim que sou gostosa
por APOENAN RODRIGUES
Perguntas impertinentes, sem aparentes respostas lógicas, são as preferidas das crianças em fase de curiosidade máxima. O pequeno Gabriel Faria não escapou do convencional, mas, convenientemente, instigou a mãe famosa a compor uma deliciosa canção em parceria com Dunga. Apropriadamente a música chama-se Oito anos e faz parte do primeiro álbum solo da musa pop Paula Toller, que há mais de uma década sensualiza as apresentações do Kid Abelha. "Por que você é Flamengo e meu pai é Botafogo?/O que significa impávido colosso?/...Do que é feita a nuvem/Do que é feita a neve/Como é que se escreve reveillon?" estão na cadência de versos elaborados por Paula, inspirados nas indefectíveis dúvidas do filho. Durante a gravação de Oito anos, Gabriel permaneceu no estúdio tentando fugir da própria timidez, olhando tudo quietinho e deixando sua curiosidade dar mais asas à imaginação. Ao final da maratona, fulminou a mãe com outra pergunta, agora definitiva: "Mas por que você não respondeu tudo isso?" À mãe só restou soltar o habitual sorriso sincero, hoje ligeiramente maculado por ganchos dentários que tentam corrigir uma falha na arcada lateral direita, depois de ela lutar por dois anos com a inconveniência de um aparelho móvel.
Bela e proporcional nos seus 55 quilos distribuídos em 1,70m de um corpo de pele alvíssima, que contraria a origem de carioca nata, Paula no fundo sabe que o pequeno detalhe de forma alguma atrapalha sua imagem junto ao público. Uma imagem de símbolo sexual que, a bem da verdade, não deixa apenas a juventude babando junto ao palco quando ela, propositadamente, veste saias curtinhas que deixam marmanjos em estado de êxtase. "Não me olho no espelho e penso: Olha, o símbolo sexual acordou, nem digo para mim mesma como eu sou gostosa", rebate ela. "Eu só provoco, é como se fosse brincadeirinha de médico com a platéia." Nem adiantaria ser o contrário, já que as letras do Kid Abelha acabam induzindo a tal tipo de situação.
Eleita informalmente como dona das mais belas pernas do mundo pop nacional, Paula Toller parece nem acreditar no título que lhe deram à sua revelia. "Tenho as batatas das pernas grossas, não são pernas de modelo." A constituição física encontra resposta propícia. Há tempos ela joga futebol. O time que no momento está em regime de suspensão tem até uniforme. É branco, vermelho e preto. E como só tem mulher chama-se Rebola. Paula joga no ataque, em campo de terra ou salão. "Conseguimos até patrocínio. Em 15 anos de Kid Abelha nunca tivemos patrocínio", diverte-se. "É muito bom jogar, a gente grita, xinga, põe a raiva para fora." Por conta deste exercício prazeroso e alguma malhação nada ortodoxa já que ela é um bom garfo, adora um vinho e não tem problemas com a balança , Paulinha, como é chamada pelos amigos, já foi três vezes convidada para posar nua. Em nenhuma aceitou. "A diferença não é quanto eu ganharia, mas quanto eu deixaria de ganhar", diz a cantora de 35 anos, pensando nos contratempos que a atitude traria.
Nada, no entanto, lhe tira o brilho e a vontade de cantar. "É a melhor droga que existe. Cantar é uma ótima relação com o mundo não material." Os detratores que há anos malham a atuação do Kid Abelha e a de Paula não enxergam nela uma boa cantora. Uma bobagem preconceituosa, já que seu timbre é dos mais agradáveis entre as estrelas cantantes tupiniquins. "Minha voz não é visceral, não é boa para blues nem para rock no sentido masculino. É uma voz branca para cantar melodias", determina. "Não dou notas inúteis." Paula estuda técnica vocal para preservar a saúde da voz. Já fez canto lírico, mas continua mesmo é acreditando no ouvido. Um ouvido que desde criança foi educado, principalmente pelo avô, para também escutar canções das décadas de 30 e 40. Algumas delas, inclusive, entraram na seleção do CD que leva seu nome. Foi destas lembranças que ela pinçou E o mundo não acabou, de Assis Valente, do repertório de Carmen Miranda. "Esta música estava no meu DNA."
O projeto de um disco solo não é recente. Tem três anos e é uma proposta da sua gravadora, a Warner Music. "Eu relutava, mas depois curti. Experimentei tons de voz que não estava acostumada, usei tons gravíssimos." A nova empreitada deve agradar fãs do Kid Abelha e muito provavelmente conquistar novos admiradores. Paula Toller, o álbum, mescla canções conhecidas com algumas inéditas num cardápio pop em seu conceito mais amplo. Há, por exemplo, a belíssima seresta Cantar, de Godofredo Guedes, pai do mineiro Beto Guedes, que a gravou no álbum Amor de índio. Ou a clássica Fly me to the moon, que Paula veste como um veludo, ou então a balada-heavy Patiente, da banda americana GunsN Roses, que ela escutou andando de carro de madrugada no Rio de Janeiro e resolveu gravar. "Na letra original o homem fala daquele jeito machista para a mulher, que ela vai conseguir o orgasmo. Eu adaptei, e agora é a mulher que fala para o homem", diz. "São raras as letras que tratam deste assunto e para dizer a verdade nem gosto muito dos GunsN Roses."
As músicas do novo trabalho foram escolhidas entre uma montanha de 300 composições. "A princípio queria a obra de um só compositor ou de uma época até que eu e o produtor Guto Graça Mello chegamos a este formato", explica. "Mas jamais pensei num disco cultural, assim como preservar as raízes da cultura brasileira." Na seleção final terminaram entrando apenas duas inéditas: a inocente Oito anos e a sensual Derretendo satélites, que faz parte da retomada da parceria com Herbert Vianna, seu ex-marido e cuja separação no final dos anos 80 gerou gordos comentários na mídia. "Nunca tivemos ressentimentos", garante ela. Atualmente, está casada com o cineasta Lui Faria, autor de filmes como Com licença, eu vou à luta e Lili, a estrela do crime, estrelado por Betty Faria.
Ao longo da carreira, Paula Toller sempre necessitou de um parceiro musical. Ela basicamente só faz letra. Quando compõe a melodia, os sons imaginados saem junto com os versos. Paula não toca nenhum instrumento. Já tentou estudar guitarra, mas foi vencida pela preguiça. "Ah, eu conheço tanta gente que toca tão bem. Prefiro fazer na cabeça, assim tam, tam, tam daí alguém traduz", diz ela com seu sorriso conquistador enquanto alisa os longos cabelos eternamente tingidos de loiro. A cor original deles é castanho. Para verter seus sentimentos poéticos, Paulinha tem o peculiar hábito de escrever durante os shows a que vai assistir. Frequentemente rabiscava as letras no próprio ingresso. Atualmente sempre carrega na bolsa caneta e bloquinho de papel. Como não quer perder nenhuma idéia repentina, também deixa espalhados outros tantos bloquinhos pelos cantos da casa. Assim nasceu a clássica do pop brasileiro Nada por mim, assinada por ela e Herbert Vianna, uma das preferidas da cantora, que quase não faz restrições ao repertório do seu grupo. Nem àquelas que interpreta insistentemente como Pintura íntima ou Como eu quero, recentemente remixadas num CD contendo apenas sucessos do Kid Abelha. "Só não gosto de cantar Amanhã é 23, me deprime", diz. E para que insistir?, já que agora Paula Toller está cantando até samba, e muito bem.